Quando ser antissocial depende do ponto de vista

 

Pascal Campion
Ilustração de Pascal Campion

 

Considero-me introspectiva. Reservada. Antissocial. De fato, acho um sacrifício ter de comparecer a eventos em que a gente vai, sorri, acena, tira selfies e volta pra casa. E para intensificar ainda mais o meu lado introspectivo, faz quase três anos que moro no interior. Ou seja, já me tornei a personificação do termo bicho do mato. Pago para não sair do meu chalé aos fins de semana e depois do trabalho.

Entretanto, por baixo dessa superfície durona, está a verdade: amo me relacionar. Neste exato momento em que escrevo, por exemplo, sinto meu coração se apertar de saudades da minha família, que hoje está reunida num churrasco para comemorar o aniversário da minha mãe (e eu aqui no mato, por circunstâncias além do meu controle). Sinto falta de conversar com os meus amigos da igreja até o pastor insistir para irmos embora, porque ele precisa trancar o portão; sinto falta das tardes inteiras no Sesc Belenzinho, colocando os assuntos em dia com as meninas do blog; sinto falta dos filmes do Wim Wenders assistidos com a Maria Clara e de comer mais vezes o brownie imbatível feito pela Dalila. Acho que não devo ser, exatamente, uma perfeita antissocial.

O problema está no que eu tomo como referência quanto ao sentido de socialização e ao que eu acho que os outros esperam de mim. E talvez eles esperem mesmo. E talvez eu perca muito toda vez que recuso um convite para uma festinha de aniversário de criança, em que não conheço muita gente. Isso me faz lembrar de um conto da minha Clarice Lispector, que começa assim: Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos (do conto A repartição dos pães). O ponto alto do conto, porém, é quando a pessoa que narra se surpreende com o que é oferecido como refeição nesse evento de sábado e aquilo se torna uma redenção da alma. Ou seja, supera em muito essa expectativa murcha apresentada no início. De repente, ao insistir tanto em estar apenas “com quem me interessa”, como canta o Lenine, eu esteja perdendo a chance de me surpreender (já me surpreendi muito nessas festinhas infantis, aliás). Mas confesso: na fase em que me encontro agora, não tenho energia nenhuma para oferecer. Careço profundamente de momentos plenos. Quero me afundar numa almofada de sofá e ficar lá mergulhada num papo gostoso com alguém que nem se lembre de boas maneiras, vocabulário apropriado, termos politicamente corretos e outras censuras do tipo. Quero só ser eu. Ouvir e ser ouvida com a leveza e a cumplicidade que existem apenas entre velhos conhecidos. Ninguém para julgar, ninguém para quem eu tenha que provar alguma coisa, ninguém para agradar ou a quem eu precise dar um sorriso amarelo.

Perdoem-me os que me acham uma perfeita antissocial.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A dor de quem gosta sozinho

 

dordequemgostasozinho
Ilustração de Crisalys

 

Quando eu tinha 16 anos, uma menina que eu conhecia havia muito tempo, mas que não era uma grande amiga minha, me abordou para dizer que gostava muito de mim e que queria se aproximar, mas que eu não dava muita abertura. Isso me chocou. Primeiro, porque eu também gostava muito dela e, segundo, porque eu nunca tinha percebido que ela havia tentado se aproximar. Fiquei um pouco sem graça e me desculpei, sem saber como justificar a minha falta de sensibilidade.

Na faculdade, outro caso parecido: uma querida da minha sala descobriu que morávamos no mesmo bairro e, por algum motivo que eu desconhecia, ela fazia questão de me esperar para irmos embora juntas. Ela também sempre achava um jeito de se aproximar durante as aulas e a determinação dela fez com que uma amizade muito preciosa nascesse entre nós. Somos grandes amigas até hoje.

Coleciono no currículo pessoas que admirei de longe e de quem quis me aproximar ou de quem me aproximei por um tempo, mas que partiram da minha vida em seguida. Lembro-me especialmente de uma pessoa que frequentava a igreja onde frequento, uma jornalista toda estilosa, cheia de personalidade e que cantava lindamente. Por muito tempo, eu a observei, pensando no quanto eu seria acrescida se me tornasse amiga dela. Um dia, criei coragem e me aproximei. Resultado: trabalhamos juntas por um tempo e eu pude aprender muito com ela.

A vida nos proporciona a oportunidade de colecionarmos casos assim. Pessoas de quem gostamos muito e com quem adoraríamos conviver, mas que são difíceis de acessar, ou porque estão longe geograficamente ou porque romperam conosco ou porque nem fazem ideia de que existimos. É a dor de quem gosta sozinho.

Hoje falei com Deus sobre essa dor. Num mundo ideal, onde a maldade não existisse, poderíamos todos nos aproximar uns dos outros sem medo, sem malícia, sem risco de rejeição e sem reservas. Exerceríamos a liberdade pura. Deus, então, me contou de novo que é uma realidade exatamente assim que Ele está preparando para nós; porém, por enquanto, neste nosso mundo quebrado, a dor de gostar sozinho pode acontecer a qualquer instante, não tem jeito. A diferença está na esperança de que um dia vamos dar um abraço gostoso em todos esses nossos queridos. E melhor do que isso ainda: eles irão nos abraçar de volta.

 

Mas era amar o nosso amor querer que alguém fosse feliz
somente
porque o amávamos.

Clarice Lispector

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.