Mentir é humano. Essencialmente humano.

“Ceci n’est pas une pipe” – René Magritte, 1929.

Você torce a história só um pouco e aquilo se torna… Pode ter um grande impacto em sua vida.

Kelley Williams-Bollar uma das entrevistadas no documentário (Dis)Honesty the truth about lies1

Mentir é humano. Essencialmente humano.

No início da narrativa bíblica, em Gênesis, a serpente mente para Eva e a engana – e ela já deveria estar bem atraída pela ideia de comer do tal fruto. Eva, por sua vez, convence Adão – que também já deveria estar bem apático em seu relacionamento para sequer questionar-se e prontamente comer do fruto. E ao serem visitados por Deus – como era de costume – escondem-se por medo. Percebem-se nus, estranhos. Um culpa o outro, mentem e ninguém assume sua própria responsabilidade.

Pronto! Desde então, nossos relacionamentos foram manchados e estão marcados pela acusação alheia, pela desconfiança, inveja, medo, cobiça e a lista segue, é extensa… E desde esse episódio fatídico, temos a tendência de enganar aos outros e a nós mesmos.

Nós meio que sabemos de forma anedótica que uma vez que você mente, é provável que minta de novo. E é provável que a segunda mentira seja maior que a primeira.

O que encontramos no cérebro, é que, no começo, se você mentir pouco, há uma resposta muito forte nas regiões ligadas às emoções, tais como a amídala e a ínsula. Na décima vez em que você mente, mesmo que minta a mesma quantidade, a resposta não e tão forte. Assim, embora a mentira aumente com o tempo, a resposta do seu cérebro diminui. Nós achamos que a resposta disto acontecer seja um princípio bem básico do cérebro. Que é o seguinte: o cérebro se adapta. Por exemplo, se você está ouvindo música num volume baixo e o aumenta um pouco, duas marcações, parece uma diferença grande. Mas se você está ouvindo o rádio num volume bem alto e aumenta duas marcações, você nem sente. O cérebro codifica tudo relativamente à linha de base adotada. O mesmo se dá com a desonestidade. Se somos pessoas bem honestas que não costumamos mentir, e agora contamos uma mentira, o cérebro está codificando como uma diferença grande em relação à nossa linha de base. Mas se somos desonestos e mentimos bastante, o cérebro não responde tanto. Depois de um tempo, o valor negativo da mentira, o sentimento negativo, quase não se manifesta mais. O que acaba fazendo com que você minta cada vez mais.

Tali Sharot: neurocientista cognitiva da Universidade de Londres no documentário (Dis)Honesty the truth about lies

Mentiras que são para o nosso próprio proveito. Por que mentimos tão prontamente? A mentira é uma maneira rápida e fácil de ganhar vantagem, proteção e promoção dos interesses pessoais. Mentimos para chamar a atenção das pessoas e nos promover na estima dos outros. Mentimos para proteger nossa reputação e mentimos para fugir do castigo. Muitas mentiras são servas dedicadas do ego.2

Mentimos, muitas vezes, porque somos autocentrados e não queremos que a nossa imagem seja colocada a prova ou que nossa reputação fique manchada. Mas nosso chamado é para não nos importarmos com nenhum julgamento além daquele que provém de Deus: Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Embora em nada minha consciência me acuse, nem por isso justifico a mim mesmo; o Senhor é quem me julga. Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação. [1 Coríntios 4.3–5 – NVI]

Mentiras que servem aos outros. Um desafio ainda maior no nosso compromisso com a verdade se encontra no costume cultural de mentir para proteger os outros. À primeira vista talvez pareça que é uma exceção válida tendo em vista o alvo justo da sinceridade.

É preciso admitir que às vezes é difícil ter tato para dizer a verdade. O que você diz quando vê um bebê recém-nascido, vermelho e enrugado no hospital? O que você responde quando alguém lhe pergunta acerca de um vestido, de um chapéu, ou de uma gravata nova?

Isso não quer dizer que devemos ser “brutais” ao falar a verdade. A Palavra de Deus ordena que falemos a verdade em amor (Efésios 4.15). A verdade deve andar junto com a misericórdia, com a gentileza, com a compreensão e com a graça. Não há virtude nenhuma em glorificar a Deus, dizendo a verdade e ao mesmo tempo destruindo a glória da graça de Deus com um espírito insensível.3

E costumamos mentir também, para não desagradar a outros, mas esquecemos que nosso compromisso primeiro é com Deus, que é a Verdade. Verdade que é também Amor e ambas andam juntas são inseparáveis.

Dar resposta apropriada é motivo de alegria; e como é bom um conselho na hora certa!
(Provérbios 15.23 – NVI)

 

Sonda-me, ó Deus,
e conhece o meu coração;
prova-me e conhece as minhas inquietações.

Vê se em minha conduta algo te ofende
e dirige-me pelo caminho eterno.

Salmo 139.23–24

 

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NOTAS:
1(Dis)Honesty the truth about lies é documentário feito por Dan Ariely, um norte-americano de origem israelense, que após sofrer um grave acidente na adolescência – que levou grande parte do seu corpo a ser queimado, percebeu como os profissionais da saúde, médicos e enfermeiros que deveriam ser os mais aptos a lidarem com sua recuperação, muitas vezes eram os que mais agiam irracionalmente, desconsiderando por completo o paciente. Com isso, resolveu tornar-se um pesquisar sobre “economia comportamental”, formando-se em Psicologia Cognitiva e estudando através de pesquisas comportamentais.

2O Controle da língua – o Espírito Santo pode refrear a sua língua livro escrito por Joseph W. Stowell

3O Controle da língua – o Espírito Santo pode refrear a sua língua livro escrito por Joseph W. Stowell

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um texto confessional

liberdade

Comecei e recomecei esse texto tantas vezes, que não consigo pensar numa introdução decente, então vou deixá-lo apenas fluir.

Ele é confessional porque trata de um assunto que, embora resolvido dentro do meu coração há tempos, precisava ser expulso do resto de mim, de dentro do meu corpo todo, como se fosse o último suspiro pra minha tão desejada liberdade de espírito.

Tenho rascunhado esse expurgo na minha cabeça ao longo de quase nove anos, o mesmo tempo que tenho de casada, que é uma data que marca, em mim, um recomeço, um novo eu, o início da minha desconstrução e ressignificação do ser.

Na verdade, ainda não o havia escrito de vez, tampouco publicado, porque ele também fala de pessoas a quem amo e prezo, e que podem se sentir expostas. Não é minha intenção expor nenhuma delas, nem pro mal nem pro bem, nem pra julgamento algum. Nem ofender, nem desrespeitar. De antemão já me desculpo se isso acontecer, mas é realmente importante que isso tudo me deixe em paz também em matéria, não só no meu cérebro ou no meu coração. Aliás, é bem disso que se trata tudo: desculpas. Desculpar-me. Tirar de mim culpas que cresci recebendo e acolhendo, mas que nem eram minhas, na realidade. Já adianto: eu vou falar sobre abuso. Abusos. Os que sofri. Tenho batalhado pra que mulheres possam se recuperar de abusos sofridos e que não permitam mais nenhum, principalmente de parceiros, mas, existem vários tipos de abuso e eles não vêm só de parceiros, mas também de pais, mães, irmãos, amigos, chefes, sogras, homens e mulheres, vem de todo lado. Sofri todos esses. Deles que estou me libertando e é dessas pessoas que vou falar no texto e que não é minha intenção expor, porque amo e respeito e permanecem na minha vida, mas, que muito tempo já se passou, o perdão já aconteceu, eu já amadureci, a vida já seguiu e não sinto mais que preciso me preocupar em proteger ou defender certas coisas.

Agora eu tomei a decisão de enterrar tudo isso de vez por um motivo muito simples: estou pra parir (literalmente, estou com 40 semanas e 1 dia de gestação) um menino, o Dominic, que está chegando num momento de vida de renovo e esperança. Esses últimos dias são bastante reflexivos e fiquei pensando: “eu sei que o Dom vai ter sua própria impressão de mim, como ser humano e mãe dele, mas, que ideia eu gostaria de passar pra ele?”. E eu cheguei à conclusão que eu quero passar a ideia de uma pessoa curada. Esse termo, curada, veio pra mim em diversas formas: livre, autêntica, sem amarras, perdoada, restaurada… Mas, resumi tudo nele: curada. A publicação desse texto será a minha alta desses quase nove anos internada pra me recuperar e transformar. E preciso dizer que, embora eu estivesse com bastante receio da possível exposição que citei acima, estou me sentindo feliz e aliviada em compartilhar.

Aproveito pra dizer que, sendo um assunto resolvido, o texto não se trata de algo explicativo, e sim expositivo. Minha intenção é curtir minha alta e também ser útil pra qualquer outra pessoa que se identificar com o conteúdo, mas, não é um assunto aberto a diálogo, justamente porque tudo que precisava ser dito e ouvido já foi dito e ouvido e como eu disse, é confessional e é também liberativo, então, quando eu der o ok pra postar, eu não quero nunca mais tratar de nada disso, porque não há mais nada a lidar, agora é só seguir em frente, em paz. Se você sentir vontade de deixar um comentário, faça isso, mas compreenda que não haverá resposta. Se você sentir vontade de falar comigo a respeito do que ler, você é livre pra falar e eu sou livre pra ficar em silêncio.

Quando a gente pensa em abuso, o mais comum é associar a algum tipo de violência física, principalmente sexual. Não foi o meu caso. Os abusos que sofri foram psicológicos. E veja que interessante, eu tenho certeza absoluta que muitas pessoas não chamariam minhas experiências de abuso! Elas dirão que sou exagerada, revoltada, ingrata, que estou aumentando, que estou fazendo tempestade em copo d’água, que sou má, que não perdoei de verdade, que sou injusta… A famosa culpabilização da vítima, sabe?

E por que tenho essa certeza? Porque muitas pessoas pra quem contei algumas coisas ao longo desses anos me fizeram exatamente essas afirmações. E aí, em vez de encontrar acolhimento e apoio, eu recebia mais uma pá de culpa em cima da cabeça. Graças a Deus eu sou persistente e não parei meu processo de ressignificação até sentir que estava tudo acabado. Não é fácil, não vai ser fácil nunca, mas, a sensação de alívio é sensacional e não permito que ninguém tire ela de mim, mesmo que o preço a pagar seja altíssimo.

O interessante do abuso é que ele vem camuflado de muitas formas e começa muito cedo, geralmente dentro de casa e principalmente (mas, não somente) contra meninas. O abuso é sempre um tipo de desrespeito. Então, a verdade é que todos nós, em algum momento da vida, abusamos de alguém. Horrível, né? É.

Minha primeira lembrança de desrespeito é a de ser tolida. Eu sou uma pessoa naturalmente questionadora e subversiva e fui, literalmente, domesticada. Primeiro, pelos meus pais. Depois, isso foi se afirmando com amigos e amigas, chefes, pastores, até mesmo minha sogra.

Tive uma criação extremamente possessiva e controladora e isso feriu gravemente minha autoconfiança. Mas, como as pessoas chamavam isso? Excesso de amor, proteção e cuidado, então, meus pais estavam absolvidos e mais uma vez eu me sentia culpada, porque, além de achar aquilo tudo horroroso, ainda estava sendo ingrata por não saber receber amor. Nunca me senti rejeitada, é um fato, mas eu não tinha liberdade de existir. De coisas “simples”, como não ter trinco na porta do quarto (minha mãe tirou, pra que ela e meu pai pudessem entrar e sair quando quisessem) a mais complexas, como ser seguida pelos meus pais e observada enquanto tomava um açaí com uma amiga da faculdade (isso mesmo, faculdade, eu já tinha dezenove anos de idade nessa ocasião específica) achando, inocentemente, que finalmente meus pais confiaram em mim pra passar algumas horas sem a supervisão deles. Você pode dizer que essa atitude é natural, mas não é. Não podemos romantizar o abuso. Excesso de controle e possessividade não são provas de amor, são abusos.

Outra forma comum de abuso é ser, persuasivamente, silenciada. Quando eu tinha seis anos, entrei no pré escolar. Um certo dia, meus pais foram me buscar na escola e calmamente me explicaram, no carro, que naquela escolinha também estudava a minha irmã mais nova. Mas, que aquilo era um segredo de família. Eu podia até conversar com ela, mas ninguém podia saber que ela era minha irmãzinha. Eu tinha seis anos de idade e fui convencida de que era normal meu pai ter uma filha que não era filha da minha mãe, que a gente podia estudar juntas, que tudo estava bem, que nossa família era maravilhosa, mas que eu tinha que tomar o cuidado de não contar pra ninguém que ela era minha irmã. Ficou bagunçado isso, né? Imagine na minha cabeça de criança. Depois, ao longo dos anos eu vi meu pai dar socos, puxões de cabelo, empurrões e tapas na minha mãe, mas, no fim da noite ela mandava a gente ir falar “te amo e dorme com Deus”, porque tudo estava bem e não tinha nada a dizer ou resolver ou explicar. Claro, sempre lembrando de não contar pra ninguém. Na verdade, nem era preciso dizer pra não contar pra ninguém. Sabe aqueles “assuntos ocultos”? A coisa tá lá, mas se você não mencionar a coisa, a coisa não existe. Porque, se depois daquelas cenas eu via minha mãe colocar a comida no prato e servir meu pai no jantar e no fim da noite minha mãe mandava ir falar “te amo e dorme com Deus”, como se nada tivesse acontecido, é porque nada aconteceu, não é? É.

Tudo era bizarro demais, mas eu estava tão envolvida no abuso (sem entender, obviamente, que era um abuso), silenciada desde tão pequena, que parecia óbvio não contar pra ninguém. Até que uma vez eu contei. Não adiantou nada, porque não acreditaram que aquilo era possível. Simples assim. Não acreditaram, então não aconteceu. Não acreditaram porque fora de casa, na igreja, o porta retrato era de família unida e feliz, com pais superprotetores e filhos limpinhos e grudados nos pais. Com dezessete anos eu vi meu pai quase bater na minha mãe de novo e foi a primeira e última vez que falei com ela sobre o assunto. Eu disse: se eu vir ele encostar em você, eu vou chamar a polícia. Lembro até hoje a cara que ela fez, de espanto e indignação. Como resposta eu ouvi que ela estava decepcionada comigo, que nunca imaginou que uma filha pudesse fazer isso com o próprio pai, que eu era uma ingrata por sequer pensar naquilo e que meu pai era um marido ótimo pra ela, um pai maravilhoso pros filhos e que fazia tudo por nós. Eu senti revolta, amargura, espanto, tristeza, confusão, tudo ao mesmo tempo. Eu lembrava, mesmo, de tantas coisas boas que ele fazia, mas, então, aquelas coisas boas davam liberdade pras coisas ruins, que hoje eu chamo de abuso? E se estava tudo tão bem, por que passava pela minha cabeça que se aquilo era um casamento maravilhoso, eu desejava morrer solteira? Bagunça. Culpa. Tava tudo errado, mas eu era uma ingrata. Culpada. Meu Deus, como eu pude? Eu ia mesmo chamar a polícia contra meu pai? Má.

Entrei na dança de culpar a vítima, porque minha mãe mentia e escondia coisas, como o valor do troco ou o fato de que tinha de novo, fumado escondida. Então se ela falava pro meu pai que gastou R$9,90 quando, na verdade, tinha gasto R$10, era normal ele ficar bravo, não era? E quando ela jurava por Deus que não tinha fumado escondido, mesmo cheirando a cigarro e com o maço de cigarro achado na bolsa e ele ficava com raiva e tinha um acesso de fúria, ele estava na razão dele, não estava? Eu aprendi na igreja que eu tinha que perdoar, então por que mexer naquilo? Era só perdoar e esperar o próximo dia chegar. Tava tudo bem. Te amo e dorme com Deus.

Tudo isso pode parecer muito simples e sem grande significado, principalmente porque é verdade que nunca passei fome, sempre tive casa, ganhei muitos presentes e comi muito chocolate. Mas, a verdade é que cresci com autoestima baixa, acreditando que homens tinham poder sobre mim, que tudo bem esconder coisas de um marido, que tudo bem um marido me bater ao descobrir algo que escondi, que era normal as pessoas me tratarem mal e que eu não devia falar dos meus incômodos com ninguém porque na verdade era tudo coisa da minha cabeça e eu seria ingrata e injusta com os envolvidos, caso falasse. Aprendi que a igreja pode fechar os olhos pra coisas feias só pra não manchar a imagem de boazinha. Eu cresci acreditando que era errada, culpada e egoísta por ser diferente da maioria das pessoas, por não gostar do que todo mundo gostava e por ser indignada. Não tinha segurança em mim mesmo, acreditava que qualquer pessoa tinha mais valor que eu. Acreditei que era chata, porque pensava muito diferente da maioria e que pensar diferente era errado, o certo era seguir o rebanho. Aprendi que devia dizer sim pra todo mundo, porque isso era ser legal e boa. Acreditava que devia ser capacho, porque Jesus mandou dar a outra face e que as pessoas podiam fazer o que quisessem comigo, mesmo que me magoassem, porque Jesus mandou perdoar setenta vezes sete e tudo bem as pessoas errarem comigo um milhão de vezes sem se preocupar em tentar acertar, porque isso não importava, o que importava é que eu devia perdoar. Aprendi que era normal um namorado sentir ciúmes e mandar em mim, porque isso era prova de amor e cuidado. Aprendi a não falar sobre abuso, porque poderia expor as pessoas e quebrar a boa imagem delas. Aprendi que uma pessoa poderia me deixar profundamente triste com alguma atitude, mas, que se ela chorasse na frente dos outros, coitada, ela tava arrependida e eu era muito má por achar aquilo uma grande falsidade.

E aí, o resultado foi:
* Que eu emprestava sapato pra amiga e ela devolvia pisado em cocô, mas se eu reclamava era chamada de chata e me sentia culpada: abuso.
* Minha irmã jogava lixo onde eu tinha acabado de fazer faxina e eu ajoelhava pra limpar de novo, quieta, ouvindo ela dizer que meu lugar ela ali, no chão, e eu acreditava porque era minha irmã mais velha dizendo: abuso.
* Minha chefe me humilhava na frente de todos os outros funcionários e ao invés de responder eu ia pro banheiro chorar, porque devia respeito aos superiores: abuso.
* Minha sogra telefona comigo recém operada, dizendo que não era pra eu pedir pro meu marido fazer nada por mim naquela situação, porque ela não queria que o filho dela tivesse trabalho comigo: abuso.
* Minha amiga se auto convida pra uma festa de colegas meus, com a desculpa de que eu sou tímida e preciso da ajuda dela, mas, quando ela é convidada pra uma festa ela não me chama dando a mesma desculpa de que é porque eu sou tímida: abuso.
* Sou coagida pelo meu pai quando começo a namorar, com ele dizendo que se eu aparecer em casa grávida ele sai da igreja por minha causa: abuso.
* Escuto da esposa de um pastor que quando o marido quer a esposa tem mesmo que “dar”, não importa se está com vontade ou não, é melhor “dar” pra evitar problema: abuso.
* Escuto da minha sogra, durante o namoro, que ela quer combinar um dia pra ir em casa me ver fazendo uma faxina, pra ver se eu vou limpar direito a casa do filho dela: abuso.
* Sou criticada por ter um pensamento analítico, crítico e muitas vezes ácido, quando o esperado é que eu seja fofinha e sou cobrada a ser fofinha: abuso.
* Ser chamada de chata por dar a minha opinião contrária a alguma coisa que a maioria é a favor: abuso.
* Meu pai me diz que vai ser difícil pra uma criança ser meu filho, porque eu sou brava, chata e ruim: abuso.
* Eu sou acusada de ser egoísta e arrogante por não seguir padrões de comportamento: abuso.
* Minha mãe diz que não importa que eu não goste de chupetas, na casa dela meu filho vai chupar chupeta de qualquer jeito, porque ela gosta e vai dar: abuso.
* Eu escuto de outras mulheres que minha sogra tem razão em me tratar do jeito que bem entender, afinal ela deu à luz o amor da minha vida: abuso.
* Recebi trilhões de vezes, goela abaixo, à força, comentários inconvenientes e ofensivos e intromissões não solicitadas: abuso.
* Escuto julgamentos e recebo dedos apontados na cara e olhares tortos por (agora) ser decidida, bem resolvida, autêntica e livre: abuso.
* Eu escuto de várias pessoas que ninguém vai gostar de mim porque eu tenho um “jeitinho diferente”, de questionar, brigar e “ser do contra”, quando eu deveria ser mais dócil: abuso.
* Se eu sou gorda tô errada, se eu sou magra tô errada, se eu concordo eu tô errada, se eu discordo eu tô errada, se eu abro a boca eu tô errada, se eu tô certa eu tô errada: abuso.

E eu poderia escrever mais dez páginas sobre tantos tipos de abusos que sofri, por crescer aprendendo com meus familiares, com a igreja e com a sociedade em geral que eu devo desculpas pra tudo e pra todos, que eu não tenho direito sobre meu corpo, que eu devo aceitar ser silenciada, que se alguém me fez mal a culpa é minha, que eu devo esconder assuntos indigestos… Que eu estou errada por ser quem sou. Que eu deveria ser diferente, porque muitos não gostam de como sou.

Mas a questão é que hoje eu tenho trinta anos, tô pra parir, sou graduada e pós graduada, casada, adulta… Ou seja, não importa mais o que fizeram comigo ou por mim, agora o negócio é comigo. Agora eu sou responsável pela minha vida, por fazer minhas próprias escolhas e tomar minhas próprias decisões. A fase de menina se foi, e por mais machucada que eu possa ter sido, agora é minha responsabilidade me curar. Não tem mais a ver com meus pais, com amigos abusivos, com chefes pilantras, com sogra controladora, com imposições da sociedade, com gente amarga e infeliz que se aproveita dos outros pra se auto afirmar e se sentir melhor. Agora eu decido o que permito ou não, como vivo minhas experiências, o peso que dou pro que já vivi. Agora eu quem defino o meu caminho. Não tenho raiva de nenhuma dessas pessoas, nem mágoa, rancor, ou sei lá mais o que poderia sentir de desgostoso.

Nesses anos eu passei por um processo de restauração. Muita terapia, muita oração, muita conversa com gente mais madura e que me respeitou a ponto de me ajudar a encontrar minha liberdade, minha autenticidade, minha propriedade. E a sensação de não dever nada pra ninguém é incrível. A sensação de não ter mágoa de ninguém é mais incrível ainda. Deus é muito louco e o perdão é algo sensacional. Cada abuso que sofri, de todo tipo, doeu muito. Ouvir coisas que ouvi marcaram minha alma. Passar por coisas que passei arrebentaram comigo de várias formas. Mas, quando eu me disponibilizei pra ser curada, Deus agiu. Quando fui atrás de me amar e me respeitar e dei minha cara à tapa pra crescer e amadurecer, meus olhos se abriram. Quando me despojei da necessidade de aceitação e parei de acreditar em qualquer pessoa e coisa, percebi que a opinião dos outros sobre mim não importa, mesmo que esses outros sejam aqueles que me deram vida, ou meus irmãos, ou amigos com quem cresci ou os familiares do meu marido. 30 anos, quase parindo, tenho mais paciência não.

E então eu me senti livre. Livre pra ser chamada de chata sem sentir dor, livre pra não aceitar quando tentarem despejar lixo emocional em mim, livre pra quando tentarem me desrespeitar saber qual é o meu valor. Autoestima é uma delícia. Como eu disse, não é fácil e nunca vai ser. Muita gente não entende a liberdade do outro. Muita gente não percebe que está desrespeitando o outro e muita gente percebe, mas não está nem ligando pra isso.

O que eu quero é viver leve. Decido não acumular mais abusos e desrespeito. Essa decisão vai fazer com que eu não seja convidada pra festas e eventos sociais? Beleza. Vai fazer com que pessoas se afastem de mim por eu não fazer todas as suas vontades? Maravilha. Vai fazer com que me achem chata? Sou. Vai fazer meu círculo de amigos ser minúsculo? Perfeito. Vai fazer apontarem o dedo, julgarem e criticarem? Tá tudo bem. O preço é alto, mas eu assumo bancar, porque ser livre dessas amarras existenciais é saboroso demais. Sabe a frase da Frida, “onde não puderes amar, não te demores”? Eu ouso adaptar pra “onde eu não sou respeitada, não me demoro”. E tudo bem mesmo, porque ninguém é obrigado a gostar de mim. Não forcemos a barra, não torturemos uns aos outros. O mundo é tão grande, tem tanta coisa pra se fazer nessa vida que acaba tão rápido. Não sejamos otários.

Não seja um babaca com o outro só porque ele deve ser tolerante com você. Não erre com o outro só porque ele deve te perdoar. Não espere por mais amor, tenha mais bom senso. Não espere mais do outro, faça mais, você.

Não seja um abusador, ou uma abusadora.
Se você sofreu algum tipo de abuso, siga em frente, se cure disso, se trate, resolva, supere, banque o custo, se livre dessa amarra. Peça ajuda, vá pra terapia, tome um passe, sei lá, mas não permita mais. Não aceite mais, não se cale, não tenha medo. Deixa chamar de louca, de exagerada, de ingrata, do raio que for, mas viva leve. Respire leve. Tenha alta da internação.

Assunto encerrado.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Anteontem, ontem, hoje e um dia – uma declaração sobre música e reencontro

Anteontem

Recebi da minha irmã o link para uma versão acústica da música Stay On These Roads, dos noruegueses do A-ha, quem se lembra deles? Conheço essa música desde que foi lançada, no auge dos meus 7 anos, mas eu nunca tinha realmente prestado atenção na letra dela e anteontem eu prestei. E chorei. Aquela música que tanto ouvi, de repente, assumiu um significado totalmente novo para mim. No meio de uma letra toda enigmática, o eu lírico – se é que posso falar assim quando se trata de música – se dirige para a pessoa que ele ama e diz para ela permanecer naqueles mesmos caminhos, porque assim, um dia, ele e ela se encontrariam de novo. O que me tocou tanto nessa ideia foi justamente o que ela tem a ver com o Cristianismo: a esperança do reencontro com quem amamos. E se esses a quem amamos seguem pela mesma estrada que você – Jesus, o nosso Norte – então o reencontro é garantido.

 Ontem

Era a “hora silenciosa da tarde” (Clarice), quando ouvi mensagem chegando pelo Whatsapp: minha mãe avisava que minha tia tinha acabado de morrer. Essa tia morou a vida inteira no interior do Paraná, por isso pouco contato eu tive com ela. Porém, as poucas vezes que convivemos, ela me marcou com o seu amor. Foi uma das pessoas mais lindas, amorosas e queridas que já cruzaram o meu caminho, e eu me lembro de suas cartinhas e de nossas conversas ao telefone, em que eu ouvia ela me chamando carinhosamente de “Lulu”, com todo o seu jeitinho gaúcho e engraçadinho de se expressar. Dois meses atrás, mandei uma carta para ela, pelo correio mesmo. Fiquei sabendo agora que ela escreveu um cartão de resposta para mim antes de fazer a cirurgia de retirada do câncer. Meu primo, filho dela, já me disse que logo, logo, vai enviar esse cartão para mim. Aguardo, ansiosa, por essa lembrança.

Hoje

Este, na verdade, é um texto que não tem a pretensão de ser um texto. Porque o que sinto com a música, misturada com a morte da minha tia, não é traduzível em palavras. Perdoem-me. Só o que consigo agora é imaginar – no sentido de fantasiar mesmo – a minha tia cantando a música do A-ha para mim lá do Céu:

Stay on these roads
We shall meet, I know

Stay on, my love
We will meet, I know, I know

(Permaneça nesses caminhos
Nós iremos nos encontrar, eu sei
Permaneça, meu amor
Nós iremos nos encontrar, eu sei, eu sei)

Eu irei permanecer nesses caminhos, tia. E nós iremos nos reencontrar um dia. Eu também sei.


 

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Ela, o amor e o Amor

Nasceu antes do tempo
Invertendo, assim, as prioridades
Mudou a direção do vento
E inaugurou difíceis verdades

O amor, distante
Pressuposto constante
Ela se esforçava para merecer

Sem perceber, crescia insegura
E por mais que do amor estivesse sempre à procura
Tinha um oco escavado no ser

Foi por isso que custou a crer
Quando Amor lhe foi ofertado
Tão habituada estava a nada valer
Que achou em si um coração amputado

Mas o Amor era insistente
Irresistível, incondicional e profundo
Curou a secura latente
E criou também nela um amor pelo mundo

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A dor de quem gosta sozinho

 

dordequemgostasozinho
Ilustração de Crisalys

 

Quando eu tinha 16 anos, uma menina que eu conhecia havia muito tempo, mas que não era uma grande amiga minha, me abordou para dizer que gostava muito de mim e que queria se aproximar, mas que eu não dava muita abertura. Isso me chocou. Primeiro, porque eu também gostava muito dela e, segundo, porque eu nunca tinha percebido que ela havia tentado se aproximar. Fiquei um pouco sem graça e me desculpei, sem saber como justificar a minha falta de sensibilidade.

Na faculdade, outro caso parecido: uma querida da minha sala descobriu que morávamos no mesmo bairro e, por algum motivo que eu desconhecia, ela fazia questão de me esperar para irmos embora juntas. Ela também sempre achava um jeito de se aproximar durante as aulas e a determinação dela fez com que uma amizade muito preciosa nascesse entre nós. Somos grandes amigas até hoje.

Coleciono no currículo pessoas que admirei de longe e de quem quis me aproximar ou de quem me aproximei por um tempo, mas que partiram da minha vida em seguida. Lembro-me especialmente de uma pessoa que frequentava a igreja onde frequento, uma jornalista toda estilosa, cheia de personalidade e que cantava lindamente. Por muito tempo, eu a observei, pensando no quanto eu seria acrescida se me tornasse amiga dela. Um dia, criei coragem e me aproximei. Resultado: trabalhamos juntas por um tempo e eu pude aprender muito com ela.

A vida nos proporciona a oportunidade de colecionarmos casos assim. Pessoas de quem gostamos muito e com quem adoraríamos conviver, mas que são difíceis de acessar, ou porque estão longe geograficamente ou porque romperam conosco ou porque nem fazem ideia de que existimos. É a dor de quem gosta sozinho.

Hoje falei com Deus sobre essa dor. Num mundo ideal, onde a maldade não existisse, poderíamos todos nos aproximar uns dos outros sem medo, sem malícia, sem risco de rejeição e sem reservas. Exerceríamos a liberdade pura. Deus, então, me contou de novo que é uma realidade exatamente assim que Ele está preparando para nós; porém, por enquanto, neste nosso mundo quebrado, a dor de gostar sozinho pode acontecer a qualquer instante, não tem jeito. A diferença está na esperança de que um dia vamos dar um abraço gostoso em todos esses nossos queridos. E melhor do que isso ainda: eles irão nos abraçar de volta.

 

Mas era amar o nosso amor querer que alguém fosse feliz
somente
porque o amávamos.

Clarice Lispector

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

E a romantização continua…

Um dos meus temas preferidos na escrita e na vida é o amor. Assim, estou sempre ligada no que é postado sobre o tema. Há duas semanas, voltou a rodar por aí um artigo do filósofo Alain de Botton, ranqueado como o texto mais lido do NY Times em 2016.  Para quem não o leu, um resumo: o filósofo acredita que essa história de encontrarmos alguém que nos faça total, substancial e paradisiacamente feliz em um casamento é lenda (assunto do nosso último post aqui do blog, aliás). Para ele, a felicidade completa em uma união seria irrealizável pelas seguintes razões:

  1. Devido à profunda intimidade que um casamento pressupõe, com o tempo, acabamos descobrindo as esquisitices mais bombásticas do nosso parceiro (e ele, descobrindo as nossas);
  2. O que nos move na escolha de um parceiro é um padrão de desajuste que vivenciamos em episódios da nossa infância, logo, tendemos para uma escolha “errada”, mesmo que puramente guiados pelos sentimentos (isso eu entendi mais ou menos, rs);
  3. Temos horror à solidão e por isso fugimos dela;
  4. Queremos engarrafar um sentimento gostoso e eternizá-lo por meio do casamento.

Segundo Botton, tudo isso nos direciona para um casamento frustrante. Mas ele não encerra o texto nesse tom pessimista:

A boa notícia é que não importa se nós achamos que nos casamos com a pessoa errada. Não precisamos abandoná-la, mas sim abandonar a ideia romântica, sobre a qual o Ocidente tem sustentado a compreensão do que é o casamento pelos últimos 250 anos: que um ser perfeito existe e pode suprir todas as nossas necessidades e satisfazer cada carência nossa.

A partir desse ponto, Alain de Botton propõe que a gente substitua essas expectativas tão sonhadoras do romantismo por algo mais pé no chão, que leve em conta que nenhum ser humano pode nos salvar de nós mesmos. Para ele, a pessoa que mais combina com a gente é aquela que lida com as diferenças do casal com gentileza e sabe negociá-las. E conclui: compatibilidade é uma conquista do amor, não seu pré-requisito.

Assim que terminei de ler esse texto, pensei: ainda bem que esse texto existe!

De fato, alguém tão influente como ele ter escrito um texto tão sincero provocou em mim uma esperança pelas pessoas que estão nesse dilema e por aquelas que ainda virão a se relacionar. Se eu tivesse lido um texto assim e realmente acreditado nele 15 ou 20 anos atrás, talvez eu tivesse sido poupada e poupado outras pessoas de muita dor. Conforme contei no post da semana passada, eu fui, pela maior parte da minha vida, uma viciada em romantizações. E meu caso parecia perdido.

Mas se engana quem pensa que a romantização não serve para nada. Ela tem uma função bastante importante, que é a de atrair duas pessoas uma à outra. Porque se fosse verdade apenas o que Alain de Botton defende, então poderíamos nos relacionar com a primeira pessoa parada no ponto de ônibus, que tudo bem, iria dar certo de qualquer jeito, concordam? E por que não é assim?

A história de Jacó, encontrada na Bíblia, é um ótimo exemplo da influência da paixão muito antes do movimento romântico que deu o tom nos séculos 18 e 19 (e 20, 21…). Naqueles tempos remotos, as pessoas que viriam a formar o povo judeu se casavam com outros da mesma família, para que a linhagem não se misturasse e se perdesse. O pai de Jacó, observando esse procedimento, o mandou viajar até a casa do tio para lá encontrar uma noiva e Jacó foi. Ao chegar lá, ele viu a sua prima mais nova, Raquel, e se apaixonou por ela (Gênesis 29.18). Quando ele encontrou o tio, o tio lhe ofereceu trabalho e perguntou o que Jacó queria como pagamento. Jacó respondeu: Eu te servirei sete anos por Raquel, tua filha mais nova (29.18) – e o tio aceitou a proposta. Jacó serviu, então, por Raquel, durante sete anos, que lhe pareceram alguns dias, de tal modo ele a amava (29.20).

Jacó trabalhou por sete anos, sonhando em se casar com Raquel. A questão é que Raquel tinha uma irmã mais velha, Lia, que também era solteira. E, segundo o costume deles, era a mais velha que deveria se casar primeiro, depois a mais nova. Então, quando os sete anos de trabalho de Jacó terminaram, o tio dele trapaceou e fez com que ele passasse a noite com Lia no lugar de Raquel. E, assim, seu casamento com Lia foi consumado. Jacó ficou muito bravo e pediu explicações ao tio, que mencionou o costume de que era a filha mais velha que devia se casar primeiro. Como a poligamia era aceita naqueles tempos, o tio de Jacó prometeu que daria também Raquel a ele em casamento, o que ele de fato fez na semana seguinte, mas Jacó teve que trabalhar mais sete anos para “pagar” por sua amada. Jacó uniu-se também a Raquel e amou Raquel mais do que a Lia (29.30).

Essa história nos mostra claramente que existe, sim, uma diferença clara entre uma pessoa com quem nos relacionamos movidos por paixão e uma pessoa com quem só nos relacionamos. A paixão nos impulsiona a nos unir a alguém, a querer nos aprofundar no conhecimento e na intimidade com esse alguém, a construir alguma coisa ao lado desse alguém. É o imã, o tempo gostoso de construção de um vínculo, uma fase que define se vamos ou não continuar a caminhada juntos. É o frio na barriga, a espera ansiosa, os sorrisos gratuitos, a cabeça nas nuvens.

Mas e quando essas sensações todas passam, seria a hora de encerrar e partir para outra?

É exatamente nesse ponto que considero a reflexão de Alain de Botton de grande utilidade pública. Porque é justamente nessa metamorfose da pura paixão para algo que não é mais pura paixão que muitos desistem, por acharem que o amor acabou. E é nesse momento que cabe a nós nos perguntar: o que será que existe do outro lado da margem da paixão? O que nos espera depois da crise, da dúvida e da decisão de permanecermos juntos?

Demorei quase dois anos para responder essa pergunta e transpor esse rio. Lembro-me das longas sessões de terapia, em que eu repetia insistentemente à psicóloga que eu não via a hora de passar para o “nível 2” da minha relação com o meu marido. E lembro-me das palavras dela, me dizendo como eu experimentaria uma conexão profunda com ele ao chegar lá. Não seria um sentimento desesperado e ansioso como a paixão. Seria algo diferente. Seria um amor doce e consistente, como uma fruta madura.

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

(Soneto 29. Luís de Camões, poeta português, 1524-1580)

 

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Encontro de Jacó com Raquel (1518-1519), do pintor renascentista italiano Rafael.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O amor (diluído) em 5 dicas

 

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Ilustração da italiana Daria Petrilli

No canal do Youtube de um museu dinamarquês tem um programa que se chama Advice to the Young. Toda vez, eles convidam um artista diferente, renomado já, para deixar um conselho para os que estão começando. Acho muito bom, porque além de eles falarem sobre o que passaram – e, assim, baseados na experiência que adquiriram, indicarem caminhos para os novatos –, eles também dão dicas muito diferentes uns dos outros, o que só nos enriquece.

Esses dias, tenho pensado que conselho eu daria às mulheres mais jovens do que eu… talvez eu poderia falar de carreira (já fui de tudo: secretária, repórter de viagem, vendedora, dona de loja e, agora, educadora por paixão)… talvez eu poderia falar de espiritualidade (a base do que sou)… mas acho que quero mesmo é falar sobre amor. Delícia de tema, não? Tenrinho, chuchu, mas tão difícil de acompanhá-lo na dança! Mesmo nos meus 35 anos e muitos quilômetros de vida rodados, ainda levo uma surra dele. Sempre com amor, claro, rs.

Bom, para as interessadas, aqui vão vislumbres de uma sabedoria do amor que estou longe de dominar, mas que venho recolhendo como conchas na praia:

 1. Não entre e nem saia da vida de alguém com a mesma facilidade com que você entra e sai de um supermercado

Quem já não fez ou sofreu disso? A vida fica num tédio tal, que qualquer pessoa serve para você se envolver. A questão é que qualquer pessoa não existe. Qualquer pessoa é um ser humano com sentimentos, é profundo (mesmo que a pessoa não usufrua de sua própria profundidade), tem histórico emocional, relacional e, muito provavelmente, expectativas diferentes das suas. Por isso, acredite: um pouco mais de respeito pelo outro na hora de se relacionar pode fazer maravilhas. Qualquer pessoa agradece.

2. Não canse quem te quer bem

Essa frase eu li uma vez num artigo bem interessante. Sabe aquelas pessoas que te amam aconteça o que acontecer? Pois é, o amor delas pode ser ilimitado, mas a paciência talvez não. Cultive o carinho que essas pessoas sentem por você com um pouco mais de bom humor, menos cobranças, mais leveza, mais alegria. Já perdi quem me quisesse bem e, na parte que me coube do fim da amizade, posso dizer que esses segredinhos teriam feito toda a diferença.

3. Não, as pessoas não são substituíveis

Penso muito nesse blábláblá, de que a gente pode substituir as pessoas. “Ah, para de chorar! Supera! Ninguém é insubstituível!” – já ouviu? Eu não caio nessa, não. Sim, a gente precisa superar as perdas (mesmo porque muitas delas acontecem contra a nossa vontade), concordo, mas achar que uma pessoa que nos marca vai ser deletada da nossa existência sem deixar rasuras é uma inocência. Coleciono algumas perdas e nunca consegui encaixar a amiga nova no mesmo molde da antiga, por exemplo. Não existe. Não dá. Era outra pessoa, outra época, outra intensidade, outras afinidades, outros mergulhos. Era único. E, ao mesmo tempo em que isso pode soar bonito e poético, é também um pouco triste. Ao escrever este parágrafo agora, por exemplo, consigo pensar em, pelo menos, três amigos, com os quais eu amaria conviver outra vez. São três queridos pra mim, aos quais o acesso eu perdi totalmente. Assim, meu conselho seria: prepare-se, sua folha em branco será, inevitavelmente, rasurada. Mas não se desespere: ainda assim e, justamente pelas rasuras, haverá beleza genuína na sua história.

4. Doe-se

Não tenha medo de ser brega. Beije, abrace, fale que gosta, do que gosta, sem medo de ser feliz. Algumas pessoas acham isso pegajoso, mas tem gente que se sente amada com gestos assim e eu, por exemplo, não me importo nem um pouco de ser esse meio de amor para as pessoas. Se gosto, demonstro. E se recebo de volta, melhor ainda. Porém, não é só de pegação que vive o amor. Amor também é doar os ouvidos e a atenção para o marido contar o sonho comprido que teve na noite anterior; é doar o seu tempo – e com boa vontade – para ir à festa junina da escola do filho; é ouvir a amiga desabafando pela 37ª vez na mesma semana sobre o crush que ela não supera; é não comer a última trufa que a sua colega de trabalho vendeu pra você e deixá-la para o seu namorado;  é assistir ao terceiro filme de uma saga que você não acompanha só para estar com seus amigos preferidos. Enfim… doar-se é escolher o outro quando você poderia muito bem pensar apenas em si mesma.

5. Ame-se

Não estou falando aqui de um amor narcisista, ofendidinho, arrogante. Estou falando de dignidade mesmo.  De conhecer os próprios limites e respeitá-los; de não ter vergonha de não querer ou de não saber; de gostar da barriguinha saliente, das sobrinhas nas laterais da cintura; de reconhecer os defeitos e também valorizar as qualidades; de pedir ajuda quando não der conta sozinha de uma situação; de não se maquiar todos os dias e gostar do que vê (ou de se maquiar e detestar o que vê); de não ter vergonha de chorar e, menos ainda, não ter vergonha de amar.

Obviamente, não tenho a menor pretensão de achar que essas cinco pílulas sobre o amor esgotam o assunto. É uma descoberta constante, infinda, misteriosa e incrível… e, por mais que cada um siga sua própria via nos meandros definidos pelo amor, é sempre possível (e justamente por acreditar nisso é que escrevo este post) encontrar maneiras mais práticas de vivê-lo.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liberdade em amar

Drowning in Thoughts - Kathrin Honesta
Drowning in Thoughts – Kathrin Honesta

Semana passada, em uma quarta-feira a noite, pós-trabalho e num dia de chuva em São Paulo, tive o privilégio de me reunir com pessoas queridas, em um clima extremamente aconchegante, com comidas, risadas e bate-papos sobre a vida. De quebra, ouvimos também algumas canções, somente voz & violão, que comunicavam letras profundas em melodias sensíveis. E, entre uma música e outra, a história da canção nos era contada, revelando contextos, anseios e lutas daquele que se apresentava à uma roda de amigos tão diversificada.

O tempo foi passando e muitos pensamentos borbulhavam dentro de mim. Me senti extremamente grata por estar ali, escutando e refletindo sobre tanta coisa que, há tempos, venho colocando em xeque em minha vida. Dentre tantas reflexões, a que mais me marcou, me deixando pensativa durante o resto da semana, foi sobre a necessidade de ser (e sentir-se) amada. Estevão Queiroga, antes da canção O Preço do Amor, falou sobre essa expectativa, que constantemente nutrimos e geralmente depositamos nossa felicidade. Mas, por mais esforço e empenho que eu exerça, não tenho garantias que o outro irá me amar, não posso controlar tal ação.

 

“Ainda penso que, se nosso amor significa simplesmente um anseio de ser amados nosso estado é bastante lamentável”

Os quatro amores – C. S. Lewis

 

Assim, a inversão dessa lógica pode fazer mais sentido: em vez de buscar ser amada talvez seja melhor amar… É isso! Óbvio! Mas, muitas vezes, é tão negligenciado por mim o fato que sou chamada a amar.

  • Sou chamada a amar porque Ele me amou primeiro. 1 João 4.19
  • Sou chamada a amar porque Seu amor foi tão grande que Ele entregou-Se por mim. João 3.16
  • Sou chamada a amar porque Ele é Amor. 1 João 4.16

Com isso, não acredito, tampouco estou querendo dizer, que devo negar por completo tal desejo – o de ser amada. Mas, creio que, o que o Estevão quis dizer e o que Deus insistentemente nos mostra é que EU JÁ SOU AMADA Mateus 3.17. E amada de um jeito que ninguém, somente Ele, pode me amar. Portanto, não devo entrar numa busca frenética por aceitação. Não posso me contentar com tão pouco, quando Jesus me ensina que Ele tem TUDO para me oferecer, pois Ele É a fonte de vida, a verdadeira água viva que mata minha sede existencial. Também, não estou querendo dizer que, devo me abster e desejar o celibato para o resto da minha vida, não é isso! Mas preciso, constantemente, sondar meu coração para compreender minhas (reais) motivações e intenções em qualquer relacionamento. Pois, enquanto eu estiver buscando felicidade desta maneira, em relacionamentos diversos, conforme a história da mulher samaritana nos mostra, estarei buscando completude em poços que secarão e fatalmente voltarei a sentir sede.

PS: Obrigada Vila, Raquel, Eva & Mathias e Janssem pela hospitalidade e tempo de qualidade <3

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A incrível experiência de ser mãe

 

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Mamãe ursa, ilustração do meu marido David

 

Anos antes de eu me tornar mãe, uma amiga e eu conversávamos sobre os dilemas da mulher quanto à decisão pela maternidade e ela, que tem um filho de 10 anos, me disse: “Lu, sempre falo a mesma coisa para as mulheres que ainda não decidiram se querem ser mães: se você acha que não consegue, que não é pra você, não tenha filhos mesmo, porque dá trabalho, cansa, desgasta. Agora, se você optar por ser, você vai viver uma experiência incrível, que não pode ser comparada a mais nada nesta vida”.

Guardei isso comigo por anos e, ao contrário da Talita, minha amiga e colaboradora do blog, que escreveu aqui sobre como foi complexo para ela decidir pela maternidade, eu resolvi ser mãe meio que do nada mesmo, puramente movida pela curiosidade em viver essa experiência incrível (e mais curiosa ainda me tornei ao imaginar a misturinha intrigante que sairia de um marido coreano com uma brasileira aguada como eu).

Apesar de não saber exatamente o que representava ter um filho, eu e o David resolvemos arriscar. Pois é, foi arriscar mesmo, porque eu tinha um pequeno problema nos ovários, o que tornava a gravidez apenas uma possibilidade e não uma garantia. E, quanto mais demorava para engravidar, mais eu queria essa experiência incrível.

Durante o tempo em que tentei engravidar, várias coisas passaram pela minha cabeça. O primeiro tratamento não deu certo e tudo o que ele fez por mim foi me deixar obcecada por testes de farmácia. A cada teste que eu fazia, sempre a frustração. E ali, escondida no banheiro, eu deixava as lágrimas correrem livremente.

No segundo tratamento, troquei os testes de farmácia por uma espécie de “termômetro” gringo, que conta para você os seus dias altamente férteis. E qual não foi a minha decepção quando, mesmo me tratando, o termômetro não marcava NENHUM dia fértil para mim?? Só podia estar quebrado. Ou então…

Antes de ter tido tempo de deixar a ideia de infertilidade tomar a minha mente, uma dor terrível no abdômen me levou ao hospital. Depois de dois exames, foi confirmado o comecinho do comecinho da minha gravidez. Pronto. Eu havia dado o salto no escuro. Não tinha mais volta. Agora era só esperar 9 meses.

Dar à luz ao Álef foi um momento único, tanto no sentido bom como no ruim. Contra todas as probabilidades, o meu bebê nasceu prematuro de parto normal. No hospital, eu só ria de alegria, mas ao chegar em casa, me senti sendo engolida por um furacão, porque nada estava pronto ainda e eu experimentei uma solidão e uma sensação de incapacidade como nunca antes. Fiquei me perguntando sem parar se existiriam no mundo psicólogas especializadas em mulheres no puerpério, porque olha… como essas especialistas ganhariam dinheiro! O estado emocional de uma recém-mãe é vidro em estilhaços no chão. Tudo o que eu sentia era medo, incapacidade e exaustão.

Depois de poucos dias, um sentimento feroz me tomou. Era uma sensação avassaladora, totalmente fora de mim e completamente depositada naquele outro ser recém-chegado ao mundo, vulnerável, que se sofresse alguma coisa acabaria comigo. De repente, senti que sem aquela coisinha chorona eu não seria mais nada. Ele havia me arrebatado por completo e que o sentido da minha vida não estava mais só na minha vida, mas na vida de outro ser humano. Eu não era mais dona de mim. Ele era. Eu não estava mais no controle do que eu sentia. Eu não era mais a medida da minha compreensão sobre mim mesma e sobre o mundo. Agora tudo passava das minhas mãos para as mãos do meu filho. O que acontecesse com ele aconteceria comigo. Estávamos intrínseca e eternamente ligados um ao outro. Ao me dar conta de tudo isso, chorei como se não houvesse amanhã.

Hoje, depois de 1 ano e quase 6 meses do nascimento do Álef, que se desenvolve fofamente aliás, compreendo melhor (mas ainda não por inteiro) o comentário da minha amiga sobre a experiência incrível. Com isso, ela não queria dizer que eu veria pôneis cor-de-rosa todos os dias da minha vida como mãe. Com isso, ela não queria dizer que seria fácil como namorar na praia. Com isso, ela não queria dizer que seria leve e indolor.

A experiência incrível de tornar-se mãe é viajar até o magma da vida e sentir ali todo o seu calor, que aquece, mas que também queima. É deixar que a lava de amor e fúria preencha os cantos antes mais desconhecidos da nossa alma e exploda pelos poros em forma de cuidado e carinho. É curvar-se diante do Eterno, humildemente, e contar com a vontade Dele para que você não enlouqueça de preocupação e nem sufoque o seu filho dentro de uma bolha de superproteção. É medo, risadas sem hora marcada, ternura sem fim e muita oração.

Sim, faço do conselho da minha amiga também o meu conselho às mulheres que ainda não se decidiram. Se você quer uma vida cômoda, sem sustos, nem improvisos, não tenha filhos. Agora, se você gosta de emoção e tem estômago forte, vá em frente. A maternidade é a montanha-russa mais realista e sem volta que você poderia desejar nesta terra.  E ela é, de fato, INCRÍVEL!

Ofereço este texto à minha mãe Carmem, mulher forte, que deu à luz a CINCO filhos! Fico imaginando todas as emoções que ela não passou e não passa todos os dias. :)

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.