Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Respeito em forma de cupcakes!

Existem muitas definições para a palavra amor. A que mais me agrada é que amor é respeito.

Para amar alguém, é fundamental respeitá-lo. Você pode não concordar com a pessoa, não aceitar algo que ela faça ou o modo como aja e até mesmo não gostar de suas atitudes. Mas o fato de respeitá-la é amá-la. O fato de respeitar seu modo de existir é amá-la.

A pessoa por quem eu mais me sinto respeitada nessa vida, além de Deus, é o David, meu marido. E ele demonstra esse respeito de diversas formas. Uma delas é cozinhando!

Eu descobri há alguns anos diversas restrições alimentares que mudaram radicalmente minha rotina alimentar. Não posso consumir leite e todos os seus derivados, glúten, ácidos, quaisquer aditivos químicos, açúcar de qualquer tipo em excesso, gordura de qualquer tipo em excesso. Meu intestino e meu estômago não toleram nada disso, simples assim. Sinto muita dor, fico inflamada e com irritações diversas pelo corpo.

É muito difícil. Eu não saio de casa sem comida, é quase impossível comer fora, eu penso em comida o dia inteiro e não é por gula. Eu tenho horário pra comer, tenho uma lista fixada na geladeira com lembretes, eu leio cada letrinha de todo rótulo que encontro pela frente.

O David, demonstrando respeito, amor e cuidado por mim, pesquisa receitas adaptadas pra que eu possa desfrutar de coisas deliciosas que, tradicionalmente, levam ingredientes proibidos pra mim. Dessa vez, foram cupcakes de chocolate! Ele chamou de “taçacakes”, já que não temos forminhas para cupcakes e, aqui, tudo se adapta!

O que eu acho mais bonito na atitude do David é que ele faz isso por vontade própria. Às vezes eu comento, sem pretensões, que sinto saudade de comer certa coisa e ele aparece com o prato pronto. E fico muito feliz e orgulhosa de mim por ter me aberto à possibilidade do casamento, mesmo em tempos em que a família é vista como uma instituição furada e falida e com o paradigma cristalizado de que homem não pode ocupar o papel de “cozinheiro” da casa.

Eu nunca pensei em me casar. Justamente porque eu não queria para a minha vida esse modelo patético (no sentido de ser tachado como única alternativa viável e não uma escolha do casal) atribuído à família, no qual marido é superior à esposa, marido trabalha e mulher fica em casa, esposa cozinha, enquanto o marido lê o jornal. Quando comecei a namorar o David (e nossa história é longa), percebi que sim, eu poderia me casar. Ele existia, eu poderia me casar.

Aqui em casa, nos empenhamos para respeitar um ao outro, incondicionalmente. E eu adoro quando ele me respeita em forma de taçacakes!

Compartilho aqui a receita, para que intolerantes como eu possam saborear essa sobremesa deliciosa sem sentir dor (no corpo e na consciência).

Obs.: Na receita vai uma quantidade significativa de açúcar e azeite, dois ingredientes que me são permitidos em poucas quantidades. Também vai cacau, que é ácido (proibido pra mim), mas depois de muitos testes e diário alimentar, percebi que em pouca quantidade e sem regularidade, também não me causa os sintomas. Sendo assim, para não passar mal, não comi muitos taçacakes.

Taçacakes/Cupcakes de chocolate sem lactose e sem glúten: taçacake David Ingredientes:

– 3 ovos;

– 1 xícara de chá de açúcar demerara (ou mascavo);

– ½ xícara de chá de cacau em pó 100%;

– 1 xícara de chá de água morna (ou “leite” vegetal – arroz, coco, amêndoas, etc.);

– ½ xícara de chá de azeite (ou óleo vegetal – de girassol, de coco, etc.);

– 1 xícara de chá de farinha de arroz;

– 1 colher de sopa de fécula de batata;

– 1 colher de sopa de fermento em pó.

Modo de preparo: No liquidificador, bata os ovos e o açúcar até formar um creme homogêneo. Acrescente o azeite e o cacau e bata até dissolver o pó. Junte a água morna e bata novamente. Depois adicione a farinha de arroz e a fécula de batata e bata outra vez. Por último, bata rapidamente com o fermento acrescentado.

A massa fica líquida, não se assuste. Isso torna o cupcake fofinho e macio.

Coloque em forminhas para cupcake, ou, faça “taçacakes”! Essas taças que o David usou são liberadas para uso no forno.

Se optar por não usar forminhas de silicone, lembre de untar o recipiente que usar. O David unta com azeite mesmo.

Tome o cuidado de não encher completamente a forminha ou a taça, porque o bolinho cresce bem.

Leve ao forno pré aquecido a 180° por, mais ou menos, 15 minutos (nas forminhas de silicone), ou, por mais ou menos 30 minutos (aqui foi assim, na taça).

Pra ter certeza que está bom, espete um palito. Se ele sair seco, o taçacake está pronto!

Adapte a receita à sua necessidade ou possibilidade! Crie recheios e coberturas. Bom apetite!

A foto é do taçacake de chocolate do David!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Jesus – machista ou feminista?

Reza a lenda feminista contemporânea que o cristianismo é, entre outros defeitos, machista. Claro que, depois que alguém afirmou e uma segunda pessoa reafirmou, virou um clichê e, a partir daí, ninguém mais quis ter o cérebro de questionar a informação. Virou história de papagaio pós-modernoso: você vai lá, repete o que ouve de terceiros e fica de boa, só aguardando pelos likes. Afinal de contas, dá uma preguiça ir atrás e questionar. Por que questionar, se a verdade do outro já chegou até mim mastigadinha, pronta para eu me apropriar dela? E assim, enquanto copio e colo o clichê, cometo o erro que tanto condeno nos outros: o preconceito – julgar algo e tachá-lo sem conhecer sobre o que se trata.

Compreendo que as evidências, das quais as feministas contemporâneas se valem para chamar o cristianismo de machista, sejam o padrão patriarcal de família retratado na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento (que funcionava muito bem para a organização da sociedade na época), e talvez algumas afirmações de Paulo, as quais, se retiradas de seu contexto e de uma interpretação mais cuidadosa, de fato, dão margem para pensarmos em modelos machistas – mas acredite: não são (podemos discuti-los em uma outra postagem).

Fora esses dois casos, porém, não vejo a menor base para a afirmação de que o cristianismo seja uma fé antimulher. Jesus – figura central do cristianismo, reverenciado pelos cristãos como sendo o próprio Deus encarnado – além de ter tido amigas, que apoiavam financeiramente o seu ministério, também conversou com mulheres rejeitadas pela sociedade com respeito, sem dar em cima delas. Uma dessas mulheres, aliás, havia sido condenada à morte a pedradas, porque foi pega traindo o marido, enquanto o amante fugia de fininho. Jesus foi até a muvuca de gente que a cercava para apedrejá-la e impediu sua execução. Em outro momento, Jesus começou a conversar com uma mulher que não era da sua etnia – e isso era contrário às regras machistas de seu contexto social e religioso –, mas ele não se importou e, como nos contou a Talita em outro post, ele foi até essa mulher compartilhar de algo bom que ele tinha: um sentido para a vida. Isso sem mencionar que foi a três mulheres que o anjo apareceu para contar que Jesus tinha ressuscitado e foi para uma delas que Jesus apareceu primeiro depois de ressuscitar, e não para os discípulos. E por aí vai…

E aí, Jesus era machista ou feminista?

Nada melhor do que a Bíblia para responder essa pergunta:

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus (Gálatas 3.28).

Não, Jesus não era machista. E nem feminista. Nele, a igualdade de gênero é total, definitiva e extrema: todos somos um. Não existe discriminação no amor que ele nutre pelo ser humano. E a nós, mulheres e homens alcançadxs por um amor tão desprendido e sem letras miúdas, só nos resta espalhar o mesmo amor – sem distinção.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.