A vida dentro da caverna

Esses dias meu filho brincava ao meu lado, sobre a minha cama, onde às vezes trabalho com o meu notebook. Como típica criança que ele é, uma de suas brincadeiras preferidas é se esconder debaixo das cobertas e a outra brincadeira é mexer nos objetos que deixamos em cima da mesa de cabeceira. Depois de se esconder nos cobertores algumas vezes, como era de se esperar, ele começou a mexer nos objetos, escondê-los, até que encontrou uma lanterna. Ficou frustrado e choroso, quando a acendeu e percebeu que ela não iluminava o quarto.

– Filho, a luz da lanterna não ilumina, porque a janela está aberta e o quarto já está iluminado. Precisamos encontrar um lugar escuro, – expliquei.

Foi aí que me ocorreu: mostrei para ele como seria legal fazer uma caverna com os cobertores, porque assim ficaria bem escuro e ele poderia usar a lanterna para iluminar lá dentro. Ideia acatada com sucesso: entusiasmado, ele escondia os objetos na “caverna” e os encontrava com a ajuda da luz da lanterna.

Essa brincadeira me levou a pensar no momento em que vivo. Tenho passado por um processo de questionamentos e medo e, como Elias (1 Reis 19.9), quero ficar escondida nas minhas versões da caverna: minha casa no meio do mato, meus dias de férias, meus pensamentos, minha solidão.

Ao mesmo tempo que permanecer dentro da caverna indica que reconheço e acolho a minha angústia, também significa que talvez eu não esteja fazendo muito para superá-la, que estou entregue. É ter dó de mim mesma e me considerar incapaz de enfrentar a situação. É ter uma desculpa para não me envolver com as pessoas e revelar a elas minhas vulnerabilidades, a fim de que nos identifiquemos e comunguemos das dores da vida.

Mas Deus sempre sabe lidar com os que se escondem em cavernas. Elias foi visitado duas vezes por Ele até resolver sair (1 Reis 19. 9-19). Temendo perder sua vida, Davi também se escondeu em cavernas, tempos antes de se tornar rei. Um dos salmos em que ele desabafa é o 142 e foi justamente esse que o lecionário que sigo indicou como estudo para esta semana. Davi não teve vergonha de assumir seu sofrimento e isso o tornou eternamente empático com todos os que necessitam de consolo:

 

Gritando a Iahweh, eu imploro!
Gritando a Iahweh, eu suplico!
Derramo à sua frente o meu lamento,
À sua frente exponho a minha angústia
,

(Salmo 142.1-3, Bíblia de Jerusalém)

E foi na caverna de cobertas, feita pelo meu filho, que Deus falou comigo. Quando eu disse ao pequeno que a luz da lanterna só brilharia onde estivesse escuro, compreendi a própria verdade daquilo que eu estava falando: Deus brilharia na escuridão em que eu me escondia e lá Ele seria visto e encontrado. Ainda mais: Ele seria não só a luz, mas o caminho que me guiaria para fora. Também ouvi Deus falar para mim que, quando saísse da caverna, eu veria as minhas maiores dificuldades transformadas por um novo jeito de olhar. E, para me comunicar isso, Ele usou uma música dos britânicos do Mumford & Sons, chamada, aliás, A Caverna (The Cave). A letra inteira é tocante e o vídeo – anexado ao final deste texto pra vocês – é um primor também, porém vou transcrever só a parte que mais falou comigo:

So come out of your cave walking on your hands
Então saia da sua caverna andando sobre suas mãos
And see the world hanging upside down
E veja o mundo de ponta cabeça
You can understand dependence
Você consegue entender a dependência
When you know the maker’s land
Quando conhece a terra do criador

Cada dia dou um passo para fora da caverna. Cada dia renovo a minha fé e a minha esperança. Às vezes desperto na escuridão e no silêncio da madrugada e me coloco a orar. A impressão que tenho é de que a intensidade das orações feitas nesses momentos é maior, não sei. Parece que tenho mais fé, rs. Nomeio os meus medos, um a um. Oro por outras pessoas. Quando termino, sinto que dei vários passos em direção à saída. Sinto-me mais feliz, mais leve e encontro forças para viver o dia seguinte.

Talvez o fim da caverna coincida com o fim da minha vida, quem pode saber? A questão é continuar, avançar, fitando o Farol, que nunca se apaga.

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
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Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As Armadilhas do Coração – Parte 2: A inveja e a ingratidão

A comparação que torna-se cobiça

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

in·ve·ja

1. Sentimento de ódio, desgosto ou pesar que é provocado pelo bem-estar ou pela prosperidade ou felicidade de outrem.

2. Desejo muito forte de possuir ou desfrutar de algum bem possuído ou desfrutado por outra pessoa; avidez, cobiça, cupidez.

Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis

É um exercício grande não perder tempo me comparando com a vida alheia. Mais difícil ainda é não nutrir em meu coração essa comparação, que geralmente começa de forma sutil, e ao ser alimentada toma corpo e vira um monstro.

Mesmo com essa consciência, por vezes, caio nas armadilhas da inveja disfarçada. Camuflo meus reais desejos e finjo, para mim mesma, que são ambições honestas, genuínas. Doce engano… Doce não, amargo engano! Porque sorrateiramente vou vivendo de fragmentos, me contentando com migalhas de mim. Vou deixando de viver minha própria vida, de ser minha própria protagonista. Aos poucos vou deixando de ser quem eu sou e abandonando quem eu deveria estar me tornando.

O clímax dos Dez Mandamentos é o décimo mandamento em Êxodo 20.17: “Não cobiçaras a casa do teu próximo. Não cobiçaras a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”. O mandamento para não cobiçar é uma coisa totalmente interior. Cobiçar nunca é coisa exterior, pela própria natureza do caso. É fator intrigante observar ser esse o último mandamento que Deus nos dá nos Dez Mandamentos, e, portanto, o eixo do assunto todo. O resultado de tudo isso é que chegamos a uma situação interior e não a uma mera situação exterior. Na verdade, quebramos esse último mandamento, de não cobiçar, antes de quebrarmos qualquer um dos outros. Toda vez que quebramos um dos mandamentos de Deus, significa que já violamos esse mandamento de Deus, cobiçando.

Verdadeira Espiritualidade – Uma vida cheia de beleza, que edifica e inspira, Francis Schaeffer
Capítulo A Lei e a Lei do Amor (página 20)

Esse desejo, que de tão intenso, me leva a acreditar que só serei feliz se eu for diferente do que sou ou só serei feliz se eu tiver aquilo que não tenho, na realidade demonstra minha total ingratidão para com meu Criador.

E essa ingratidão, aos poucos, vai aprisionando minha alma, secando minhas entranhas e me deixando oca, ressequida. Como ferrugem ela corrói tudo o que é sadio e me aprisiona num ideal completamente irreal.

Em essência, a ingratidão, não me deixa desfrutar de minhas qualidades para que eu consiga transbordá-las abençoando aqueles que me cercam. Afinal de contas, nós não somos chamados para frutificar? E como frutas, que nascem num pomar, nos darmos como alimento aos nossos semelhantes?

Abençoados são vocês, que se contentam com o que são — nem mais, nem menos. Assim, vocês se verão como os orgulhosos donos de tudo que não pode ser comprado.

Mateus 5.5 – A Mensagem

Então eu oro, e peço a Deus tal contentamento. E como o maná, que ele me seja dado diariamente, em doses suficientes para meu bem viver. E que esse contentamento venha de Ti, que é a Fonte da Vida, para que assim, eu me recorde de Tua bondade e sequer ouse duvidar do Teu Santo, Puro e Misericordioso Amor.
Amém!

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidão: http://bit.ly/2uxdQ4H

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As Armadilhas do Coração – Parte 1: O tédio e a murmuração

Sobre o tédio nosso de cada dia

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

O tic-tac do relógio é ensurdecedor. O tempo parece não passar. Tudo está absolutamente igual, imóvel. Nenhuma previsão de mudança. Nenhum indício, por menor que seja, de qualquer alteração em minha vida. Nenhuma esperança.

É o tédio; de novo. Me atormentando e dizendo que a vida é sem graça, que não passa. Que não vale a pena e me levando a murmurar; de novo. E a duvidar; de novo.

Vazio, tudo é um grande vazio!
Nada vale a pena! Nada faz sentido!

O que resta de uma vida inteira de trabalho sofrido?

Uma geração passa e outra geração chega,
mas nada muda – é sempre a mesma coisa.

O sol nasce e se põe,
um dia após o outro – é sempre igual.

O vento sopra para o sul e depois para o norte.
Gira e dá muitas voltas
sopra aqui e acolá – e vai seguindo o mesmo rumo.

Todos os rios vão para o vasto oceano,
mas o oceano nunca transborda.

Os rios correm para o mar
e logo depois voltam a fazer o mesmo percurso.

É um tédio só! É uma mesmice sem tamanho!
Nada tem sentido!

Será que os olhos não cansam de ver
nem os ouvidos de ouvir?

O que foi será novamente,
o que aconteceu acontecerá de novo.

Não há nada novo neste mundo.
Ano após ano, é sempre a mesma coisa.

Se alguém grita: “Ei, isso é novo!”,
Não se anime – é a mesma velha história!

Ninguém se lembra do que aconteceu ontem.
E as coisas que vão acontecer amanhã?

Ninguém se lembrará delas também.
Você acha que será lembrado? Pode esquecer!

Eclesiastes 1.2–11 – A Mensagem

Salomão1 também enfrentou esse enorme e profundo tédio. Depois de uma vida inteira, de luxos, riquezas e vontades satisfeitas, olhou para trás e se questionou: – O que nessa vida vale a pena? O que de fato faz, e traz, sentido?

O tédio, então, me toma por completa. E inevitavelmente, a seguir, começo a reclamar, e muito. Murmuro constantemente. Em pensamentos audíveis me pergunto: Por que não tenho aquilo? Por que só acontece, ou não acontece, comigo? Por que não eu? Por que só eu? Por quês e mais por quês invadem meu ser. Roubam a minha alegria e me enchem de dúvidas. Posteriormente, e instintivamente, me encho de certezas: Ah, com toda a certeza, se eu tivesse aquilo eu estaria melhor! Se isso não estivesse acontecendo comigo eu estaria, e seria, diferente! Se eu pudesse fazer tal coisa, aí sim, eu estaria mais feliz!

“Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!”

O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina. O povo saía recolhendo o maná nas redondezas e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva. Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná.

Números 11.4–9 – A Mensagem

Acho que deixei de apreciar e agradecer o maná me ofertado diariamente. E o resultado foi uma fome insaciável. A gula me consumiu e a constante reclamação me cegou.

O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor dará carne a vocês, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que saia carne pelo nariz de vocês e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?’ ”

Números 11.18–20 – A Mensagem

 

Diferentemente dos animais, que parecem bem satisfeitos em ser apenas eles mesmos, nós, humanos, estamos sempre procurando meios de ser mais do que somos ou mesmo ser outra pessoa. Exploramos o país por instigação, examinamos nossa alma em busca de sentido, compramos o mundo pensando no prazer. Tentamos de tudo. As áreas comuns de esforço são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento.

Nossas incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nada parece nos satisfazer. Por isso, intensificamos nossos esforços, e quanto mais nos dedicamos a algo, menos extraímos dele. Algumas pessoas acordam cedo e empreendem em uma jornada tediosa e repetitiva. Outros parecem nunca aprender e se debatem por aí a vida inteira, tornando-se cada vez menos humanos com o passar dos anos, até que, ao morrer, não resta humanidade o bastante para compor um cadáver.

Eclesiastes, na verdade, não diz muito a cerca de Deus. (…) Sua tarefa é expor a total incapacidade humana de encontrar o sentido e a completude da vida por nós mesmos.

É nossa propensão desistir de nós mesmos, tentando ser humanos por meio de projetos e desejos próprios.

Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes na Bíblia A Mensagem

Eu não quero mais levar uma vida inteira sem sentido, rotineira e sem graça. Não quero chegar ao final da vida e perceber que eu poderia fazer, e ser, diferente.

Eu quero me livrar de todas minhas pseudo-garantias, e agora! Quero me alimentar do suficiente – que é dado por Deus, e em uma dose especial, que só Ele sabe medir para mim.

Quero me lavar de toda e qualquer rebeldia e ideia idólatra. Quero, e desejo, me purificar com a água que é a Fonte da Vida. Que sacia o coração, renova a alma, limpa o entendimento e regenera minha força [Marcos 12.30].

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidãohttp://bit.ly/2uxdQ4H

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NOTAS:
1Sem dizer abertamente, o narrador dá a entender que é o rei Salomão. Fabulosamente rico, internacionalmente famoso, com centenas de mulheres em seu harém, ele agora é um senhor de idade que percebe como foi pequeno seu “sucesso”, quando vê a morte se aproximar. Após o imenso trabalho que teve para construir seu império, teria de deixá-lo para seu filho Roboão, um homem moralmente fraco. As dez tribos do norte de Israel não escondiam o fato de que não confiavam em Roboão. Não precisavam da inteligência de Salomão para ver que seu país logo entraria em colapso (e isso de fato ocorreu). [Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes]

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minúscula investigação sobre a felicidade

cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”

Não é de hoje, que o tema felicidade, permeia nossas vidas e a buscamos com dedicação.

Por vezes, essa busca torna-se obsessiva, e tal intensidade não nos é natural – analisando sob a perspectiva de quem deveríamos ser e não de quem nos tornamos, é claro.

Pós-queda, o vazio instalou-se em nós de forma intensa, devido a uma ruptura profunda, e vivemos tentando preencher esse vazio com coisas, pessoas, conquistas, conhecimentos, status, dinheiro, sexo, poder, etc – e a lista é infinita

a felicidade ontem

Com o surgimento da filosofia, perguntas sobre a vida, o universo ou o cotidiano, começaram a ser discutidas e estudadas “formalmente”.

Sócrates, por exemplo, acreditou que felicidade era levar uma vida virtuosa. Ou seja, ele não estava interessado em ganhar dinheiro, não procurava respostas ou explicações definitivas mas investigava a base dos conceitos como bom, ruim e justo. Ele acreditava que a virtude (areté em grego, que na época implicava excelência e concretização) era o ‘mais valioso dos bens’.1 Para ele, havia apenas uma coisa boa: conhecimento; e uma coisa má: ignorância’. O conhecimento, para ele, era indissociável da moralidade. E era a ‘única coisa boa’.2

Epicuro, acreditava que o prazer era o fim e o princípio de uma vida feliz, objetivo em direção ao qual todo o indivíduo deveria orientar a própria ação.3 E para isso, seria preciso distinguir entre prazer efêmero (felicidade, alegria) e prazer estável, definido pela negativa, como ausência de dor. Dado que somente o segundo tipo de prazer deveria ser perseguido pelo sábio.4

a felicidade hoje

Analisando tantas outras pessoas, e suas respectivas ideias, percebo que com o passar dos anos, muita coisa na verdade não mudou. Evoluímos científicamente, criamos roupas que não precisam passar, bebemos café gourmet, estamos conectados 24h por dia – 365 dias por ano, moramos em prédios que parecem mini-cidades, pagamos nossas contas on-line, mas continuamos sedentos, com as mesmas questões dentro de nós.

Nossa época, também conhecida como pós-modernidade, ou hipermodernidade, vive a máxima: compre o máximo que puder [eu mereço, eu trabalhei muito para isso] e descarte tão rápido que puder [moda é tendência e tendência é passageira]. Compramos roupas e descartamos pessoas. Trabalhamos para viver e vivemos para trabalhar. Nos sentimos solitários mas não dedicamos tempo em relacionamentos. Compramos o tão sonhado apartamento, do tamanho de uma caixa de fósforos: mas com duas vagas de garagem! Aos 30 anos, temos mestrado, doutorado, pós-doutorado mas somos analfabetos emocionalmente. Vivemos uma verdadeira corrida contra o tempo mas sem saber o por que [ou por quem] estamos correndo.

a felicidade verdadeira

No livro de Eclesiastes, Salomão5 descreve de forma brilhante, todo o processo de sua descoberta sobre o sentido da vida e, por que não dizer, sua busca pela verdadeira felicidade.

Logo no início, ele derrama em nós, leitores, um enorme balde de água fria: Vazio, tudo é um grande vazio! Nada vale a pena! Nada faz sentido!6 Enfatiza também, por diversas vezes, que tudo não passa de correr atrás do vento que tudo é vaidade de vaidades. E, por maior que seja seu desespero, toda essa busca e questionamento é tão autêntico e tão, por assim dizer, humano.

cena do filme "Advogado do Diabo"
cena do filme “Advogado do Diabo”

“Morrer antes de aprender a viver: esse sim é um pesadelo que se pode ter ao meio-dia, debaixo do sol. Não é preciso esperar a noite chegar, para então dormir e ter pesadelos. Não é preciso nada além de estar acordado e consciente de si mesmo. Geralmente, pensar na vida, no que tem ou não tem valor, porque isso ou qual a razão daquilo, implica uma dor quase insuportável.

Quem, em sã consciência, poderia dizer que realizou tudo o que queria na vida? Quem viajou para todos os lugares que queria, ou desfrutou do quanto quis do bom e do melhor? Quem ajuntou tanta riqueza que poderia sustentar três ou quatro gerações? Quem fez coisas grandiosas, belas e úteis? Quem adquiriu conhecimento sobre tudo o que há para ser conhecido? “Ah, eu não, nem cheguei perto”, provavelmente você e eu diríamos. Diríamos também: “Se eu tivesse feito tudo isso, e experimentado toda essas coisas, poderia morrer realizado, pois minha vida teria sentido”. Mas lembre-se de que é Salomão quem está fazendo todos esses questionamentos, e ele realizou todas essas coisas. Ele aprendeu a sabedoria e adquiriu conhecimento, construiu obras grandes e vistosas, foi o rei mais sábio e mais rico que já existiu, e desfrutou intensamente todos os prazeres. Mas ao final ainda tinha na mente a mesma pergunta: que é a vida, senão uma sucessão de fatos sem sentido?”

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz
Introdução: páginas 23-24 (e-book)

A cada capítulo, vamos junto com Salomão, fazendo uma investigação minuciosa sobre o verdadeiro bem-viver. Experimentando e testando hipóteses. Frustando-se e voltando a questionar-se novamente, e novamente, e novamente.

É… Talvez viver seja mais ou menos isso: nos questionar até o cansaço vir à tona, até perdermos todas as nossas forças, para então, nos voltarmos Àquele que É a resposta.

E o mais legal, é que o livro não termina com uma descoberta mirabolante, (…) uma declaração emblemática do tipo “o sentido da vida é…”. Não há resposta para o dilema a respeito do sentido da vida. A sugestão é que, em vez de se desgastar na busca da elucidação do enigma do sentido da vida, o melhor mesmo é correr atrás da própria vida. A filosofia se presta a ajudar a viver, mas viver é muito mais do que filosofar. Mais do que saber, é preciso viver. O que realmente interessa é a satisfação com a vida, a gratidão pelo privilégio de viver e a vontade de continuar vivendo. Saber coisas sobre a vida e não viver bem: isso sim é algo que não faz sentido.7

 

A PALAVRA FINAL
Aquele que está em busca também possuía sabedoria e transmitiu conhecimento a outros. Ele pesou, examinou e organizou muitos provérbios. Ele fez o melhor que pôde para encontrar as palavras certas e escrever a verdade como ela é.

As palavras dos sábios estimulam a viver bem.
São como pregos bem martelados que mantêm a vida unida.
São dadas por Deus, o único Pastor.

Mas, a respeito de qualquer outra coisa, meu amigo vá com calma. Não há limite para se produzir livros, e estudar demais deixa qualquer um esgotado. Para finalizar, a conclusão é a seguinte:

Tema a Deus.
E faça tudo que ele mandar. 

É isso. No devido tempo, Deus deixará às claras tudo o que fazemos e fará o julgamento. E ele conhece até mesmo as nossas intenções mais secretas, sejam elas boas ou más.

Eclesiastes 12.9-14 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea

 

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NOTAS:

1 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
2 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
3 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
4 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
5 A autoria do livro ser de Salomão é questionado por muitas pessoas
6 Eclesiastes 1.2 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea
7 Trecho extraído de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz, página 324 (e-book)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

httpblogcademeulivro.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Distrito 13, subterrâneo. 
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Annie e Finnick.
finn e annie dançando foto
Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
httpnicinefilo.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo III.

Meu padrão mental foi se transformando. Consegui me perdoar, pedi perdão a Deus e não só tenho certeza que Ele me perdoou como também ficou bem feliz por eu ter entendido que não era hora de ter filhos e provavelmente nunca seria a hora. Por muito tempo falei que não queria deixar a Terra sem passar pela experiência de construir um ser humano e sempre achei que estava falando sobre maternidade, mas, nesse período entendi que meu desejo se referia ao ser-psicóloga.

Continuei atendendo minhas queridas crianças e sempre aprendendo que ter um filho é muito mais sério que fazer enxoval em Miami ou fotografar a apresentação de Dia das Mães na igreja. É muito mais difícil que trocar fraldas fedidas de cocô ou escolher a decoração da festa de um ano. Dá mais trabalho que escolher o hospital pra fazer cesariana agendada-depilada-maquiada-deunhafeita-e-semcomernada. Exige mais responsabilidade, exige mais tempo, exige mais energia, exige mais, exige.

Álef 3
Pensa que é só ficar admirando esse olhar arrebatador? Não, não, não…

Entendi que se você não tem paciência, se você não tem disponibilidade de tempo (veja, eu disse tem-po, não dinheiro), se você não se desdobraria e esforçaria ao máximo pra construir decentemente um ser humano, se você não tem paciência de repetir oito mil quinhentas e trinta e duas vezes exatamente a mesma coisa, se você tem preguiça de acordar no meio da noite pra cuidar de criança doente ou não suporta dormir poucas horas mesmo que por só alguns anos, se você é incapaz de amar sem esperar nada em troca, se você não gosta de ouvir e ouvir e ouvir e ouvir e ouvir crianças falando na sua orelha repetida e infinitamente, se você é perfeccionista, se você é incapaz de deixar o celular de lado pra dar atenção pro seu filho, se você acredita em duendes e que são eles que fazem aquilo que você deveria fazer mas deixa de lado: não pode ter filhos.

E entendi que se você tiver todas essas questões e quiser muito ter filho, vai ter que tratar disso tudo antes. Antes. An-tes. E que se você já tem a criança, se vira pessoa, mas vai ter que fazer seu trabalho e bem feito. Terapia, por exemplo, ajuda, acredite em mim. Ajuda pais e ajuda filhos.

E a única coisa que impede uma pessoa de se tornar alguém melhor é uma mente preguiçosa e/ou fechada e/ou limitada. Então, se não for o caso, não arrume desculpas e vai se tratar. Pelo bem do Universo. E é o que resolvi fazer, porque minha mente é até que razoavelmente ativa, aberta e rica em possibilidades. Tento que ela seja, pelo menos. Eu decidi que quero ter um filho e vou tratar disso, em oração e em terapia.

E se você leu até aqui (tem paciência, pode ter filho!), vai entender o que me fez tomar essa decisão.

* Estrelando na foto deste post, o Álef, um dos bebês mais graciosos que já conheci, filho da Luciana Mendes Kim, uma das idealizadoras do Santa Paciência, e do David Kim, ilustrador da nossa incrível arte que representa o Santa Paciência, que me deram a devida autorização de compartilhar a gostosura que tão criando!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.