A identidade que vale mais do que o RG

identidade

– Quem sou eu? Sussurrei para mim dias atrás.
Como num lampejo divino, depois de certo tempo meditando na vida, na minha própria vida, em resposta veio quem eu não era.

Confesso: eu estava tentando adequar a mim algumas características alheias. E ter esse insight me fez pensar como Deus é paciente, misericordioso e extremamente didático comigo. Sempre… Não tenho dúvidas, que esse insight, só pode ter vindo Dele. Em amor (e por amor) Ele me explicou, pela enésima vez, coisas que eu havia, novamente, esquecido durante o caminhar.

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Em São Paulo (capital), ao nos apresentar à uma pessoa que não conhecemos, costumamos falar o nosso primeiro nome e a seguir, conforme a conversa se desenrola, falamos qual é a nossa profissão, onde trabalhamos e o que fazemos para “ganhar a vida”, no sentido financeiro, é claro.

Já em cidades bem menores, seus habitantes costumam identificar-se pela família a qual pertencem. Logo, se você for de uma família abastada e conhecida, com toda a certeza, será visto com “bons olhos”. Agora, se você “só” for a filha do João e da Maria que moram na Rua X que cruza a Rua Y, será, como dizem, “só mais uma na fila do pão”.

“Minha colega de trabalho e amiga Agnes Heller, com quem compartilho, em grande medida, os apuros da vida, uma vez se queixou de que, sendo mulher, húngara, judia, norte-americana e filósofa, estava sobrecarregada de identidades demais para uma só pessoa. Ora, seria fácil para ela ampliar a lista – mas os arcabouços de referência por ela citados já são suficientemente numerosos para demonstrar a impressionante complexidade da tarefa”

Zygmunt Bauman no livro Identidade

Apesar de haver grandes diferenças nas formas de identificação, ora focamos somente em nossos aspectos profissionais e/ou acadêmicos, ora é a nossa descendência que se encarrega de nos definir ao mundo.

Em meio a tais contrastes, todas essas formas de identificação, e por que não dizer de nos enxergar no mundo, na verdade, podem significar a mesma coisa, ou tomamos a responsabilidade por nos identificar ou escolhemos fragmentos de nós para definir quem somos.

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No final de 2014, decidi fazer a mudança mais radical e, aparentemente, mais “sem noção” de toda a minha vida. Finalmente eu havia percebido que, durante muito tempo, eu me definia apenas pelo fazer; criar e executar. Um prato cheio para me contentar em ter minha identidade primária firmada, e totalmente enraizada, na profissão que eu exercia.

Hoje, ao estar em contato com estrangeiros que estão em solo brasileiro, não por escolha, mas por refúgio – pois, foram obrigados a deixar seus lares devido a uma guerra, e com isso, talvez nunca mais retornem a seus lares de origem – começo também a observar, como tantas outras identidades, são transitórias; passageiras. E outras tantas podem ser acrescentadas a contragosto.

E em meio a renúncias optativas e identidades atribuídas, penso o quão mais simples nossa identidade, de fato, é. Esse é o convite de Jesus: “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.30).

“Sempre que os estereótipos ofuscam nossa percepção espiritual, corremos o risco de resistir ao que o Espírito Santo está tentando dizer-nos. Se permitimos que o mundo determine nossa identidade, estaremos nos perdendo no mundo, não nos achando em Cristo”

Karj Torjesen Malcolm no livro A Identidade
Feminina Segundo Jesus

 

“A velha vida de vocês está morta. A nova vida é a vida real – ainda que invisível aos espectadores – com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também. Enquanto isso, estejam contentes com a obscuridade, como Cristo”

Colossenses 3.2-4 – A Mensagem

A minha verdadeira identidade só pode ser achada em Cristo, e através de Cristo. O meu verdadeiro eu está escondido Nele. Portanto, estar Nele é me perceber “nova criatura”, repleta de novas possibilidades: “eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5.17), e é fascinante!

Já não busco mais assumir a responsabilidade para me auto definir: “Pouco importa o que vocês pensem ou digam a meu respeito. Eu não me avalio. Nesse caso, os rótulos são irrelevantes. (…) O Senhor é quem faz este julgamento” (1 Coríntios 4.3–4 – A Mensagem). Pois, sou convidada apenas a ser, e a ser uma com Ele. Nessa comunhão, por vezes, vivo como alguém em constante amnésia buscando a autonomia que tanto me adoece e me leva para longe de Deus, porém, meu consolo é que num futuro breve serei plenamente eu e totalmente restaurada Nele.

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Pra manter ou mudar

Móveis Coloniais de Acaju

Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém

Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu

Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém

Nada do que eu sou me diz o que sei
Nada do que eu sei de fato é meu

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem

Sempre a explicação me diz o que sei?
Sempre que eu sei, alguém me ensinou?

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio,
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente

Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém

Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Eu já fui Marta

"Outgrowing the Comfort Zone" [Kathrin Honesta]
“Outgrowing the Comfort Zone” [Kathrin Honesta]
Sim, eu já fui Marta.
Ao nascer, recebi outro nome, o meu verdadeiro nome, mas já adulta fui me transformando.
Sem perceber, fui perdendo minha identidade, me descaracterizando, deixando de ser eu mesma. Buscava reconhecimento na realização de tarefas. Achava que minha identidade seria definida pelo fazer e não em ser. Ser autêntica. Ser eu mesma. Apenas Ser.

Me alienei no trabalho, no tal: ambiente “controlado” e “seguro”. Nada escapava do meu controle. Quando algo, começava a escorrer pelas minhas mãos, eu agarrava bem forte e fazia o impossível para mantê-lo sob a minha atenta e vigilante inspeção.

Eu trabalhava bastante. 44 horas semanais, muitas vezes, eram insuficientes. Afinal, o e-mail do fornecedor na China não podia esperar. Por isso, muitas vezes, depois de uma jornada de quase 10 horas em um escritório, eu chegava em casa e a primeira coisa a fazer era abrir meu e-mail corporativo e garantir que tudo fosse respondido e nada ficasse por fazer. Muitas vezes, era via celular mesmo, no trajeto trabalho-casa. Ficar offline, o que era isso?!

Reconheço que todo esse meu “profissionalismo” foi muito mais fuga, somado ao desejo de aceitação, do que qualquer outra coisa. Eu fugia da minha realidade, que não era nada controlável e sequer algum dia seria, para não encarar de frente meus anseios, faltas e expectativas. Eu me enganava e já não sabia ao certo quem eu era e porque fazia o que fazia. Até que compreendi o verdadeiro engano em que me meti.

Hoje, eu já não sou mais Marta.
Apesar de me inspirar em Maria1, sua irmã, já não quero ser ninguém além de mim mesma. Mas, como ela, também quero escolher a “melhor parte”, me deleitar aos pés de Cristo e escutar o que Ele tem a me dizer.

Como é libertador ser eu mesma e tudo bem não saber, tampouco achar que é minha responsabilidade saber, o que é melhor para mim. Na real, é bom viver na própria pele que habita em mim.2

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Referências:
1Lucas 10:38-42
2Referência ao filme de Pedro AlmodóvarA Pele que Habito

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minha falta de personalidade

mini-q
Ilustração de Mini.Q

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

 

Lindo o poema de Leminski e lindos esses textos todos que louvam a autenticidade, que enaltecem esses que assumem a sua identidade, os que não deixam que outros lhes digam o que fazer ou como ser. Mas me angustio: não tenho a esperteza dessas pessoas. Confesso: eu não sei ser quem sou, porque eu não sei quem sou.

Penso que sou uma amálgama de expectativa alheia com experiências passadas, amores não materializados com amores de sangue. Sou a maquiagem com que me mascaro todos os dias. Se lavo o rosto, me reconheço pouco. Sou virtude e sou pecado. Uma parte de mim é feita de traumas de família e a outra parte, de esperança. Às vezes sei colocar a minha opinião, às vezes, não. Choro sem razão. Danço e pago mico. Sou o vinho sagrado de Joni Mitchell: doce e amargo.  Sou os dois extremos e todos os seus intervalos. Acordo bem, durmo mal.  Sou carente e introspectiva. Sou concha, desconfiada.

Tudo isso pra dizer que não sei ser eu mesma – aliás, o que é ser si mesmo? Porque escolher um traço meu é esconder todos os outros – “toda eu é que não podia”, já dizia a minha Clarice. Se me mostro inteira, não caibo, sobro. Há de se fazer ajustes. Só existe espaço para paradoxos, nunca para oxímoros. Mas sou uma oxímora, fazer o quê? E, se alguém diagnosticar minhas inconclusões como falta de personalidade, já não irei discutir – pedirei à pessoa que leia este texto.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência

 

O que você quer?

Escrever sobre o livro O que você quer?, da escritora norte-americana Jen Pollock Michel, lançamento da Ultimato aqui no Brasil, significou um mundo de coisas para mim. Primeiro, porque esta é a primeira resenha que escrevo aqui no blog; segundo, porque sou apaixonada por livros; e último, mas não menos importante, porque eu mesma quero me tornar uma escritora um dia. Assim, se apenas por comentar sobre a obra de outra pessoa já me dá um frio gostoso na barriga, imagina só a insônia que eu não vou sofrer quando eu escrever o meu próprio livro e ele for comentado por alguém. Vai ser incrível!

o-que-voce-quer
Nosso exemplar :)

A empatia que senti pela Jen, a escritora, desde o início, não diz respeito apenas à nossa paixão comum, a escrita. Logo nas primeiras páginas de seu livro, já percebi que tínhamos, pelo menos, mais duas afinidades: a tendência de escrever de maneira informal, como no blog, e a predileção pelas confissões. É reconfortante ler que outra pessoa também passa por perrengues emocionais e espirituais, bem semelhantes, aliás, aos meus. Dá uma sensação de irmandade, como se a autora fosse uma grande amiga minha e escrevesse para me mostrar que eu não estou sozinha.

Outro ponto empático entre nós duas aconteceu quando entendi qual seria o tema do livro: o desejo. Está aí um tema comum à raça humana inteirinha, mas que pouco é discutido nas igrejas. Segundo a autora, o desejo, no contexto eclesiástico, geralmente é visto como essencialmente mau, logo, deve ser suprimido do vocabulário e do imaginário dos membros como peste em plantação. O problema é que não adianta fingirmos que o desejo não existe, porque somos feitos dele. Desde bebês, somos guiados pelo que sentimos vontade e esse impulso tão primário tem muito a dizer sobre quem somos e quem nos tornamos. Se não o encaramos de forma honesta é porque o tememos. O grande desafio para nós todos – e que Jen enfrenta com profundidade – é encontrar o lugar do desejo dentro da proposta de Deus para a humanidade.

O que você quer? é um livro belamente tecido de forma a nos convencer de que o querer, em si, não é um problema, mas algo natural e bom: embora facilmente corrupto, o desejo é bom, correto e necessário. É uma força motora na nossa vida, um meio de transporte (p. 200).  E não só isso – a autora defende também que temos total liberdade de dizer a Deus o que queremos. A oração é o ato corajoso de colocar nossos desejos autênticos diante de Deus (p.116).

Mas se engana quem pensa que esse livro é uma apologia ao desejo desenfreado e inconsequente:  é-nos concedida a coragem de querer, mas também nos é concedido o entendimento de que obter o desejo do nosso coração, quando esse coração é idólatra, pode ser a nossa maior tragédia (p.200).

E é nesse equilíbrio entre as visões sobre o desejo, juntamente com um embasamento bíblico incrível, que Jen Pollock Michel fala diretamente ao nosso coração, nos confortando com a esperança de que não somos ETs dentro do Corpo de Cristo por assumir o que queremos, mas sim seres feitos por Deus para desejar.


*O básico do livro:
O que você quer?  – Desejo, ambição e fé cristã
Título original em inglês: Teach Us To Want
Autora: Jen Pollock Michel
Editora Ultimato
224 páginas

** As ilustrações deste post foram retiradas da página da Editora Ultimato no Facebook.
*** Agradecemos à Editora Ultimato pelo presente.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O outro nome da força

Shira Sela_Healing
Healing –Ilustração da artista Shira Sela

 

Sempre pensei na vulnerabilidade como sinônimo de insegurança, fraqueza, instabilidade. Uma pessoa vulnerável é aquela coitada, desprotegida, fraca, sempre olhada com desdém por quem está perto e provocando risadinhas e comentários maldosos naqueles que identificam suas vulnerabilidades. Já conheceu alguém assim? Eu já conheci várias pessoas assim, mas quero falar de uma específica. Li a sua história e ela está mudando totalmente a minha ideia de que a vulnerabilidade deve ser repelida a qualquer custo.

O nome da pessoa não é revelado, mas é uma mulher que descobriu onde Jesus ia jantar, entrou na casa da pessoa que o convidou, encontrou Jesus lá e ficou chorando aos pés dele. Ela chorou tanto, mas tanto, que os pés de Jesus ficaram molhados com as lágrimas dela. E sabe como ela fez para secá-los? Usou os cabelos. Depois, passou nos pés dele um perfume caro que ela guardava num frasco mais caro ainda e depois beijou os pés de Jesus. Essa história está na Bíblia, num livro chamado Lucas, no capítulo sete e o verso em que a história começa é o 36.

Agora me digam: querem uma cena de vulnerabilidade mais explícita do que essa?? Com essa atitude, a mulher da história está passando para nós algumas mensagens bem interessantes:

– De que ela é autêntica. Ela não fingiu ser o que não era para agradar os que estavam em volta, nem mesmo Jesus. O anfitrião que o convidou para jantar chegou até a pensar: “Se Jesus soubesse quem essa mulher é, ele nem deixaria que ela o tocasse” (verso 39). Claro que Jesus sabia quem ela era, porque não era bobo, porque era bem informado e porque era Deus.

– De que ela é real. O anfitrião a chamou de pecadora no pensamento dele (verso 39). Mas me respondam: quem não é pecador?? Nós passamos horas criando um perfil para convencer os outros de que somos lindos, cheirosos, inteligentes, bem-sucedidos, de que temos um amor à nossa disposição e que somos felizes o tempo todo, sem interrupção. Mas aí entra na sala a pessoa vulnerável e nos incomoda. Ela tem questões psicológicas, ainda não conseguiu se formar, não tem dinheiro para um happy hour todos os dias, tem um filho de um cara que não quis nada com ela e não consegue parar de fumar. Essa pessoa é tão real, que é quase um espelho de nós mesmos.

– De que ela é humana. A mulher não teve medo, nem vergonha de chorar. Se era por tristeza, arrependimento ou o que fosse, ela estava ali, mostrando que não podia mais guardar o que se passava dentro dela.

– De que ela é livre. A pessoa vulnerável não precisa mentir, nem se amoldar a um rótulo que se queira colocar nela. A mulher não tinha nada a esconder, as pessoas a conheciam como “pecadora”, mas ela não estava preocupada com isso. Ela queria alcançar a Graça e nada do que dissessem sobre ela poderia impedi-la de chegar até o seu objetivo.

– De que ela está aberta para a cura. Isso a gente descobre quando Jesus se dirige a ela e diz que todos os pecados dela estavam perdoados, de que a fé que ela tinha a salvara e que ela podia ir em paz (versos 48 e 50). É revigorante quando percebemos que não estamos sozinhos com os nossos vícios e as nossas angústias e, mais ainda, que não seremos julgados, mas curados. Um dia desses pratiquei a vulnerabilidade para sentir que gosto tinha. Uma amiga me perguntou pelo Whatsapp se estava tudo bem comigo e eu respondi que não, e contei para ela, da forma mais direta e transparente possível, o que se passava. Tivemos uma conversa ótima e, no final, eu saí consolada e leve. Foi libertador.

Sim, eu estava errada. Paradoxalmente, a vulnerabilidade tem muito mais a ver com força do que julgavam os meus dicionários internos. Quero me habituar a buscá-la, a tocar minhas próprias feridas, a aceitar que sou esta e não outra, que aqueles com quem convivo – e principalmente, as crianças a quem ensino – são eles e não outros. Quero que a vulnerabilidade me una a outros tão humanos quanto eu, que ela revele a mim quem eu sou de fato e que me aproxime de Jesus com o mesmo desprendimento que teve a mulher da história. Então serei livre de mim mesma, de minha própria hipocrisia, dos meus julgamentos, da minha autossuficiência, do meu orgulho, que são, no fim das contas, os meus mais profundos pecados e a minha verdadeira fraqueza.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

 

A arte da autossabotagem

Michelle Kingdom - www.michellekingdom.com
Michelle Kingdom – michellekingdom.com

Um texto, dias atrás (Gente que tá atrás do relacionamento perfeito mas não se entrega a relacionamento algum – via Papo de Homem), me chamou a atenção.

A princípio, porque o texto foi escrito por um homem, e confesso, achei que ele escreveu sob um olhar atento e sensível para o tema (como se homens não fossem capaz de tal proeza. Sim, admito: meu pensamento foi pobre, limitado e enviesado, desculpa aê gente!). Mas, ao finalizar a leitura, percebi que era um post patrocinado, ou seja, o conteúdo, na realidade foi pensado e escrito para vender! A propaganda, ao meu ver, sugeria algo entre a “solução” para pessoas tímidas (óbvio! já que se referia a um app de relacionamento virtual) e uma “vantagem” para as mulheres, pois, o poder de “escolha” nesse app é colocado como sendo nosso, já que são as mulheres que “chegam” e “escolhem” os caras colocando os mais interessantes no seu “carrinho de compra”. Ok, críticas à sites de relacionamento a parte (quem sabe um dia eu não escrevo sobre isso?!), ler esse texto, sobretudo dias atrás, foi muito legal para mim. Justamente porque eu estava refletindo sobre o tema abordado no texto. Aliás, me arrisco a dizer, que foi o texto que jogou luz no que eu estava pensando e tentando compreender. Então, mesmo que ele tenha sido pensado para ser uma propaganda acabou me ajudando a dar nome a arte de dificultar (às vezes de impedir) alguma coisa para si mesmo: a autossabotagem.

O texto é escrito por um cara casado falando de seu amigo solteiro. O papo é informal: uma conversa de boteco – e entre risadas e cervejas, o cara casado observa que a cada história contada pelo seu amigo o que fica claro e evidente é sua autossabotagem. Sua busca pelo relacionamento perfeito e, consequentemente, pelas namoradas (ou candidatas) perfeitas, não o deixa viver e desenvolver qualquer relação em potencial. Mas, quem foi que disse que relacionamentos não são complicados? Porque pessoas são complicadas, logo, relacionamentos também o são. A grande questão é como eu lido com tudo isso, ou melhor, com toda essa idealização de relacionamentos e pessoas.

Infelizmente, vivemos em uma época que tudo é demasiadamente idealizado e uma das consequências é a supervalorização da perfeição (o selfie perfeito com o ângulo perfeito; a viagem perfeita com o clima perfeito no país perfeito; o trabalho perfeito com a carreira perfeita e o salário perfeito; o namoro perfeito para o projeto de casamento perfeito com filhos perfeitos). Tudo tem que ser tão “perfeito” que nada dura; muitas vezes sequer começa! Acredito que essa (auto)análise seja como uma via de mão dupla: reconhecer no outro suas falhas e imperfeições implica olhar para dentro de mim e também admitir que tenho inúmeras falhas e imperfeições. Mas, em tempos como os nossos, em que a imperfeição não é tolerada, o descarte é inevitável e acaba sendo a “única solução”.

Outra coisa que percebi com a autossabotagem é que além de não querer olhar para meus próprios defeitos, eu fico em uma zona de conforto extremamente cômoda, reclamando da vida (como se eu não fosse sujeito-ativo nela) desejando arduamente por mudança alheia, é claro! Porque convenhamos, é muito mais fácil achar que o problema está somente no outro, jamais em mim. Assim, seguimos vivendo e esperando que tudo e todos mudem, menos eu. Mas, viver não é também mudar? Crescer? Se transformar?

Pensando sobre isso, e sobre as minhas próprias idealizações, ao me deparar com o texto, percebi que muitas vezes eu também me autossaboto deixando de viver relações (nas esferas mais diferentes possíveis) que poderiam me ser tão enriquecedoras. Quem sabe?!

Então, eu oro. Oro para que Deus me ajude a ter coragem e que dia a dia eu me torne cada vez mais vulnerável. Mas, não essa vulnerabilidade que é sinônimo de fraqueza moral, mas, a vulnerabilidade que me coloca em contato com o mundo e com o outro. Que me abre e me conecta com experiências, que me faz sentir viva sendo simplesmente quem sou. Oro também para que, antes de enumerar as diversas falhas do outro Ele me ajude a enxergar a viga em meu próprio olho. E, assim, sigo tentando dia a dia me lembrar mas principalmente viver isso…

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da mulher que somos e da criança que fomos

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Ilustração incrível da artista Andrea Hrnjak

Não é novidade, aqui, que sou encantada pelo livro Mulheres que Correm com os Lobos. Aliás, acredito que falei dele em quase todos os meus textos do Santa Paciência! Bom, aqui vai mais uma recomendação sobre ele! É repetitivo, mas, coisa boa a gente não pode deixar passar ;)

Uma querida amiga psicóloga, a Vanessa Maichin, que escreve no blog Sou Existencialista, realiza um trabalho primoroso com mulheres. São vivências terapêuticas, baseadas nesse que é um dos meus livros favoritos. A Van, inclusive, foi quem me introduziu ao cativante mundo da busca pelo resgate da natureza selvagem e pela liberdade da mulher que foi por tanto tempo domesticada.

Participei do último encontro, realizado em Abril, e serei eternamente grata pelo presente da Vanessa, porque a vivência é, na verdade, um despertar. Mulheres que Correm com Lobos… Integrando o Espírito da Criança: O resgate da mulher que somos e da criança que fomos, é uma vivência que nos coloca em conexão com nossa criança. 

“A criança é inocência, é o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação”.

(Nietzsche)

Tudo começa alguns dias antes da vivência. A Van nos dá algumas orientações pra entrarmos no clima do processo todo, com alguns exercícios que já nos incentivam a olhar pra dentro de nós com mais carinho e menos exigências. Chegando ao local do encontro, somos acolhidas e respeitadas dentro de um ambiente harmonioso. Tudo é caprichosamente preparado pra que nos sintamos queridas e bem cuidadas.

Brincamos ao som de cantigas que lembram nossa infância, recordamos momentos marcantes e compartilhamos histórias. Mas não é tão simples assim. Olhar pra nossa criança pode doer. Mas ali está a essência. No cuidado da nossa criança interior, ou do espírito da nossa criança, está o resgate da mulher selvagem que somos.

“No momento que a mulher selvagem se posiciona, ela dá espaço para a mulher que sabe o que quer! Acolhe a criança carente e ensina-lhe a dar os primeiros passos rumo a sua autenticidade! A mulher que sabe o que quer integra em seu ser a mulher forte e guerreira com sua criança leve e espontânea”.

(Vanessa Maichin)

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Brincando de Adoleta!

Ao longo da vivência, somos convidadas a explorar nossa experiência de infância, provocadas pela leitura de alguns contos do livro, e a Vanessa nos conduz nesse processo indicando nosso olhar a perceber novas possibilidades de ser e existir. Podemos acolher nossa criança, ouvi-la, pegá-la no colo e cuidar daqueles machucados que remédio nenhum cura, só um beijo afetuoso pode fazer isso, sabe? E quem dá esse beijo somos nós mesmas. A gente tem a oportunidade de abrir espaço pra começar a compreender a nossa história de vida. A sensação que fica é que um peso foi tirado, uma porta foi aberta e agora é preciso seguir um caminho de re-significações e novos aprendizados.

Minha experiência foi de ser apresentada à minha criança. Eu cresci escutando que nunca fui criança, que sempre fui precoce e já nasci adulta. Parar pra olhar a Talita criança me fez, de fato, enxergá-la. Ela existiu sim, o tempo todo, mas foi muito cobrada a ser tão perfeita que mais parecia uma adulta, séria, rígida, tensa, inflexível e exausta…

Olhei pra “Talitinha” e vi espontaneidade, graciosidade e alegria. Percebi que foram tiradas dela a criatividade, a vitalidade e a energia. E que já não importa mais quem fez isso, nem como ou por qual motivo, importa que agora eu olhe pra ela e resgate sua essência autêntica e livre.

“Resgatar a criança que fomos um dia é acolher sua história de vida. É compreender os significados dessa infância, é deixar doer o que precisa ser doído, é abrir espaço para nossos medos, carências, fragilidades, frustrações, angústias… É costurar, remendar, bordar e tecer nossa própria história. É abrir espaço para novas possibilidades de ser e existir… É abrir espaço para a mulher selvagem que corre com os lobos”. 

(Vanessa Maichin)

Claro que muito mais do encontro mexeu comigo e com as mulheres fortes e corajosas do grupo, mas, quero deixar aqui só um gostinho pra aguçar sua curiosidade e incitar seu desejo de se reconectar com si mesmo e participar da vivência! Foi delicioso despertar pra minha criança e descobrir como integrá-la à mulher que sou. Indico e espero que muito mais mulheres possam viver essa experiência.

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Vanessa (de cachecol laranja) e o grupo de mulheres que acolheu suas crianças!

E o próximo encontro já tem data marcada! Será no dia 25 de junho (sábado), das 10h00 às 14h00.

A Vanessa Maichin é Mestre em Práticas Clínicas pela PUCSP, tem formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial e Daseinsanalyse e atuação como Professora de Pós-Graduação na UNIPAR e UNIP.

Mais informações:
Cel./WhatsApp (11) 995685159
E-mail: vanessamaichin@gmail.com

As inscrições estão abertas e as vagas são limitadas.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quando os amigos não são tudo

Agata Wierzbicka
Arte da ilustradora polonesa Agata Wierzbicka

 

Desde a adolescência, minhas amizades sempre foram muito intensas. Eu estava disposta a oferecer para os meus amigos tudo o que eu tinha e, em troca, eu esperava tudo deles: lealdade, confiança, presença, disponibilidade, apoio e consolo eternos. Os amigos eram a família que escolhíamos, os irmãos por afinidade. Eram os laços que nunca se desfariam, quando todo o resto poderia se desmanchar no ar. Porque eles eram os amigos e isso era o mesmo que dizer que eles eram sólidos, fixos, estáveis… enfim, eles eram os meus amigos, não importasse em que circunstâncias. E uma coisa para a qual eu não dava a mínima era essa história de ser amigO ou amigA. Eu tinha a consciência leve como o ar de que amigos homens podiam, sim, continuar sendo meus amigos sem que existisse nisso alguma conotação amorosa (ainda penso assim, com ressalvas em determinadas situações… enfim, assunto para outro post).

Com essa concepção que eu tinha – de amizade profunda, que “tudo sofre e tudo crê” (porque qual é a base de uma amizade genuína, senão o amor?) –, eu comecei a buscar nos amigos as respostas para os  dilemas da minha vida: “Será que saio para dançar escondida dos meus pais?” (eles raramente me deixavam sair para dançar) ou… “Será que eu deveria deixar esse emprego no banco, que eu detesto mas que paga bem, para voltar a dar aulas de inglês, que eu gosto mas que paga mal?”, ou ainda: “Será que a [um nome qualquer] vai com a minha cara? Porque hoje ela me disse isso e isso e assim e assim… ”. E, desse jeito, minha visão sobre o mundo ia sendo construída a partir da visão dos meus amigos sobre o mundo e as demais infinitas possibilidades que explicassem a minha vida iam sendo trancadas dentro de uma caixinha. Eu dependia dos amigos não para que me aconselhassem apenas, mas para que me dissessem exatamente o que fazer.

Além dos problemas óbvios que se criam com essa tamanha dependência que desenvolvi por meus amigos, “me abrir” com eles em crises existenciais passou a ser também um hábito (natural?). Eu depositava neles o peso da minha angústia e esperava que suas palavras me oferecessem respostas. Não raras vezes, eles me olhavam, aflitos, sem saber o que dizer para amenizar minha dor. E eu os olhava de volta, ávida por uma palavra deles que resolvesse tudo. Eles me entendiam. Eles sabiam. Eles viam de fora. E, assim, meus amigos deixavam de ser amigos para desempenhar um papel impossível, quase divino, de oráculos, sábios, videntes, deuses. Com isso, não digo que desabafar com os amigos seja algo ruim. O problema é quando esperamos que eles não só nos ouçam, mas também nos ofereçam uma solução, o que nem sempre está ao alcance deles (e nem deveria estar).

Aprender que amigos são (e devem ser, por amor a eles) limitados tem sido uma lição dura para mim. Hoje, mais do que antes, as questões existenciais se apresentam com frequência, pedindo de mim que eu tire conclusões, que eu repense, ressignifique, volte atrás, dê um passo para frente, mude, transforme, me autodomine, me auto-responsabilize (ou ‘autorresponsabilize’ tudo junto?).
É o lindo, mas espinhoso caminho da autonomia emocional… eita, expressão difícil essa!

Semana passada passei por um momento de angústia das bravas. Queria chorar no ombro de alguém e pensei em duas grandes amigas para isso (uma delas minha irmã de sangue). Bastou que eu imaginasse a reação de uma delas – uma frustração profunda por não ter uma resposta pronta, uma solução rápida para o meu problema – para que eu desistisse de contar a elas. Não. Tem que ser diferente. Não posso depender delas para me erguer. Era preciso encontrar outra forma, contar com os meus próprios recursos e, na falta deles, recorrer a uma Pessoa muito, mas muito específica.

Há alguns anos já que venho confiando em um outro Amigo. Como não tenho dificuldade para amizades profundas (para amizades mais superficiais eu tenho uma meeega dificuldade!), fiz dessa Pessoa um confidente dos mais confiáveis. Chego para Ele em oração e não conto, me derramo. Choro e falo de frustrações, de raiva, dos medos, das maldades, dos sentimentos puros, de tudo, tudinho de tudo que vai aqui nesse coração sovado pela vida. E sempre, sem exceção, recebo alívio. É um alívio parecido com ar condicionado de carro, quando chove e a gente liga o ar e os vidros vão sendo desembaçados, sabe? É assim quando conto tudo para o meu Amigo. Ele desembaça o meu olhar. Me dá perspectiva e esperança. Me devolve os recursos para avaliar, escolher e seguir o caminho por mim mesma, sem que eu precise que os amigos me sirvam de muleta.

A essa altura, você deve estar se perguntando: e seus amigos de carne, osso e sinceridade? Onde ficam numa hora dessas? Meus amigos queridos – e que para sempre serão – ficam ao meu lado, me oferecendo sua presença apoiadora (às vezes até silenciosa), conscientes de que existe Alguém do lado de dentro de mim, trabalhando para que eu me fortaleça. Meus amigos queridos, então, são convidados à minha casa, para celebrarem comigo mais uma resposta não necessariamente encontrada, mas sim buscada no lugar certo: Nele, que é a verdadeira Fonte de toda vida, de todo conhecimento e conforto.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Feliz Luta Internacional da Mulher

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Imagem daqui.

Hoje é dia Internacional da mulher e, entre tantas mensagens nas redes sociais, notícias e falatórios, lojas oferecendo rosas às mulheres nas ruas, empresas fingindo que valorizam suas funcionárias e presenteando com “coisas de mulherzinha”, me pergunto se as pessoas realmente sabem o motivo dessa data ter sido instituída e a importância que essa luta (sim, luta, não é comemoração) tem pra toda a sociedade. Se você não sabe o motivo do dia 08 de Março ser estipulado como Dia Internacional da Mulher, vá atrás de saber. Não, eu não vou dar o caminho das pedras, vá ao Google, vá pesquisar. Se você que está lendo isso é uma mulher, digo isso porque faz parte do empoderamento feminino ir atrás daquilo que se quer, tornar-se protagonista das próprias decisões e escolhas, estudar, pesquisar, ir além. Se você que está lendo isso é um homem, faz parte da sua humanidade entender porque é que o dia 08 de Março é um dia de luta e não de entregar flores ou bombons às mulheres.

Pensar no Dia Internacional da Mulher, é, pra mim, angustiante, porque ser-mulher é uma das coisas mais difíceis que existem.

Eu não quero, no dia de hoje, receber flores, mensagens fofas ou declarações de quanto as mulheres são lindas ou poderosas porque “fazem tudo que o homem faz, de salto alto”. Não quero brindes comerciais que só servem pra fomentar a produção capitalista massificante ou enobrecer empregadores que no resto do ano não fazem porcaria nenhuma por suas funcionárias e/ou clientes mulheres. Não quero um jantar chique num restaurante, não quero que seja o dia de “folga dos afazeres domésticos”, o dia que os papais “ajudam” as mamães olhando as crianças pra elas irem tomar um café com as amigas. Não quero ser ressaltada e elogiada por minha fragilidade (hein?), minha capacidade de cuidar de marido e filho (oi?), minha competência de fazer jornada dupla – trabalho e casa (hahaha).

O que eu quero é que meu direito de ir e vir, garantido por Lei, seja respeitado. Eu, como muitas mulheres, sinto medo de ir ao mercadinho perto de casa a pé, porque no meio do caminho tem uma praça que está sempre cheia de homens desocupados que me tratam como objeto e ficam fazendo caras e bocas que me dão vontade de vomitar e de esfaquear cada um deles, fazendo-os sentir muita dor. Eles dizem coisas que tenho vergonha de reproduzir em voz alta. Eles torcem os pescoços pra ver minhas pernas, minha bunda e meus peitos e eu queria que os pescoços torcessem de vez e quebrassem ali mesmo, no meio da praça.

mulher e o lobo
Re-significando a natureza selvagem da mulher. Foto daqui.

O que eu quero é meu direito de existir sozinha. Alguns anos atrás eu saí do meu antigo consultório, às 22h30m, sozinha, depois de trabalhar muito o dia todo. Era semi final da Libertadores e o Corinthians estava num momento histórico. Meu marido foi assistir ao jogo com amigos e eu preferi ir pra casa, mas, antes resolvi passar no mercado e comprar o jantar. No estacionamento, quando terminei de colocar a última sacola no porta malas, um homem e uma mulher (sim, existem mulheres ladras e más) me abordaram, avisando que aquilo era um assalto e me fizeram ir dirigindo até a agência bancária mais próxima. Limparam minha conta, apontaram uma arma pra mim, riram de mim, me humilharam, me xingaram, depois me fizeram dirigir até um beco, vazio e desconhecido por mim, saíram do carro levando a chave e me ameaçaram ao dizer que eu não devia procurar ajuda pra sair dali. Sabem o que eu ouvi da minha mãe, da minha sogra, de muitas amigas? “Nossa Talita, mas por que é que você foi ao mercado essa hora da noite sozinha?!” Também ouvi: você devia ter ido assistir ao jogo com seu marido, se estivesse ao lado dele, nada teria acontecido com você. E também ouvi: a culpa é do seu marido, se ele não tivesse deixado (isso mesmo, deixado, como se ele mandasse em mim) você ir ao mercado sozinha, isso não teria te acontecido; você devia ter ido com ele, outro dia, não nesse (sim, porque o marido deixar de assistir o futebol pra ir ao mercado não pode, entendeu?). Eu tinha sofrido um sequestro relâmpago, mas a culpa não era da violência, a culpa não era dos assaltantes, a culpa era minha por ser mulher e ter ido ao mercado sozinha.

O que eu quero é poder realizar as minhas atividades diárias e até passar por imprevistos na rua, sem medo de ser estuprada. Meu carro está com problemas no reservatório de água. Como eu trabalho demais e uso o carro pra trabalhar, ainda não tive tempo de deixá-lo no conserto. Ontem à noite (pois é, eu não aprendo sociedade, eu continuo indo trabalhar a noite, sozinha) estava indo pro trabalho e já tinha vazado, ao longo do dia, toda a água. Não tinha posto de gasolina no caminho (e mesmo que tivesse, eu não pararia, porque uma mulher sozinha não pode ir em paz ao posto de gasolina, os frentistas acham que podem ficar mexendo com a gente no ambiente deles, “masculino”) e então, fui com o carro fervendo até um dos Shoppings onde atendo, e, só lá, no estacionamento, peguei a garrafa de água que já deixei no carro e enchi o reservatório. E ainda tive que me preocupar em estacionar numa vaga próximo à porta de entrada, onde tem guarda e mais movimento. Sim, isso tudo porque sou mulher. Não é o máximo? E aí, no dia 08 de Março vêm me entregar flores? Ah vá.

O que eu quero é que ao invés de brindes como creme hidratante, batom, perfume, rosas, cartinhas coloridas, as mulheres ganhem no dia 08 de Março, de seus empregadores e outras empresas, DVD’s de filmes de grandes cineastas mulheres, como a Sofia Coppola, ou livros de grandes autoras, como a Clarice Lispector ou a Doris Lessing. Por que sempre tem que ser presentinho fofinho que incentiva a beleza física da mulher, e não sua inteligência, sua intelectualidade, seu brilho interno? Por que sempre os produtos de beleza são mais valorizados ou vêm em primeiro lugar, antes de algo que valorize a sabedoria feminina? E aqui eu indico a leitura desse texto, bacanérrimo, que a Ana Lucie – querida leitora do Santa Paciência – me enviou hoje, sobre a Jenny Beavan, ganhadora do Oscar 2016 de Melhor Figurino por Mad Max: Fury Road (história de uma outra super mulher!). Jenny já foi indicada ao Oscar DEZ vezes na categoria Melhor Figurino, já levou a estatueta em duas premiações (por Mad Max, já citado, e por A Room With a View), e recebeu olhares julgadores e tortuosos pura e simplesmente por ter escolhido ir vestida confortavelmente à entrega do prêmio, muito diferente das mulheres exageradamente arrumadas no tapete vermelho mais famoso do mundo. Sério, eu quero muito mais Jennys no mundo!

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Jenny Beavan, winner for Best Costume Design for “Mad Max: Fury Road”, poses during the 88th Academy Awards in Hollywood, California February 28, 2016. REUTERS/Mike Blake – RTS8H6D

O que eu quero é que os produtores de cerveja parem de usar a mulher como objeto sexual pra atrair mais consumidores homens e se lembrem que as mulheres também são suas clientes, também bebem cerveja.

O que eu quero é que parem de usar mulheres quase nuas como ring girls em eventos de lutas, como o UFC, só pra atrair Ibope pros canais televisivos e pro “show” em si. E quero que mais mulheres lutadoras tenham espaço no esporte de lutas e artes marciais. Quero que homens pensem quinze vezes antes de dizer que alguém mais fraco ou menos habilidoso “luta igual uma menininha”. Quero que entendam que mulher também gosta de esportes, inclusive de MMA, porque esporte é esporte e ponto, não existe esporte de homem ou esporte de mulher.

O que eu quero é que as mulheres tenham direito à educação, direito à voz. Eu já escutei uma moça dizendo que se ela tivesse oportunidade de colocar só um dos filhos em escola particular, seria o menino, porque ele se tornaria o líder da família quando adulto, o provedor, então precisaria ter melhor educação. A filha não, tudo bem estudar na escola pública, mesmo. Não te dá vontade de chorar de tristeza? A mim, dá.

O que eu quero é que meninas em idade escolar não se sintam mal por não serem as populares, as preferidas pelos garotos por alcançarem um padrão ridículo de beleza. Quero que meninas parem de sentir que precisam ser as preferidas dos garotos pra se perceberem como seres humanos importantes. Quero que meninas tenham a oportunidade de crescerem seguras, aceitas, queridas, antes de tudo, por si mesmas.

O que eu quero é que deixe de existir esse acúmulo terrível de notícias sobre feminicídio, sobre homens e mulheres que matam suas parceiras por ciúme e possessividade, que espancam suas esposas porque se sentem poderosos e superiores, que violentam física e emocionalmente meninas, tirando delas a liberdade de crescer em uma vida em paz.

O que eu quero é valorização no trabalho. Não é mais destaque, não é mais firula, é reconhecimento daquilo que as mulheres já fazem o tempo todo. Quero que as mulheres não sejam mais assediadas sexual ou moralmente por seus chefes (homens ou mulheres). Quero que tenham salários baseados em suas competências, não no que tem (ou não tem) no meio das pernas. Quero que mulheres não sejam fantoches de homens.

O que eu quero é respeito, entendeu? Quero que as mulheres sejam tratadas com dignidade. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres com educação e gentileza, com presteza, com afeto. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres como seres humanos que são, co-existentes no mundo. De forma justa. Quero mais mulheres empoderadas, quero menos homens babacas.

Quero mais mulheres como a descrita em Provérbios 31. Essa mulher hardcore, como eu disse aqui uns dias atrás.

Se você pegar a Bíblia e ler decentemente o que está escrito em Provérbios capítulo 31, do versículo 10 até o 31, vai entender que a mulher que Salomão (um homem, sim, um homem, um rei, descrevendo características de uma mulher “de valor”; baixa a guarda e presta atenção) descreveu como virtuosa não é uma cafona, bobalhona, amélia, domesticada (no sentido ínfimo de cada palavra). Ele já começa dizendo que a bendita é difícil de achar. Ou seja, se é difícil de achar, também é difícil ser, certo? Certo. Depois ele fala que essa mulher vale mais que diamantes. Que ela é confiável, tem temperamento equilibrado, é inteligente, não é do tipo que é passada pra trás, é esperta. É analítica, de mente organizada, planeja, não tem medo de trabalhar pesado e sente alegria e prazer no trabalho. Não tem pressa de dar o dia por encerrado e compreende o valor do que faz, compreende o valor que tem. Ela se cuida, se preocupa com si mesmo e também não demora em ajudar quem precisa dela, sendo que sempre tem o que oferecer, porque é prevenida e habilidosa. Faz as coisas com zelo, é criativa, intuitiva e sabe bem o que faz e o que diz. É atenta, sabe dar orientações eficazes e conselhos sábios. Torna quem está ao seu redor produtivo e sempre encara o dia de amanhã com um sorriso. É humilde e vive no temor do Eterno, seu Deus.

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Aaah, Aslan! (Cena do filme As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian)

Percebe que essa descrição bíblica combina com o conceito de uma mulher forte e de atitude? Pois é, combina. Percebe que é o conceito de mulher que não é obrigada a casar e ser mãe pra ser feliz, que trabalha e garante seu sustento, que vai atrás do que quer, que não fica à sombra dos homens? Percebe que é uma mulher que brilha? Isso é o que eu quero pra mim e pra você, querida mulher, hoje e todos os dias.

Feliz Luta Internacional da Mulher.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Não nos deem os parabéns

Dia das mulheres_2016
‘Mirror’, por Tigran Tsitoghdzyan, óleo sobre tela

 

Não gosto de receber ‘parabéns’ pelo dia das mulheres, nem flores, menos ainda um poema breguinha. E explico por quê:  minha indisposição para sorrisinhos e congratulações não se devem à data em si, que é, na verdade, um marco na história feminina e deve sim continuar no calendário como um memorial de que, um dia, mulheres se recusaram a ser exploradas no trabalho e lutaram por seus direitos como… seres humanos que são. Entretanto, com o passar do tempo, a força dessa data começou a ser diluída e, no lugar, passamos a receber gracejos e elogios por nossa fragilidade (!!), quase como uma declaração do tipo: “sinto por você ter nascido mais fraca, mas veja pelo lado bom, você é bonita!”. Aff!

Quando leio Provérbios 31.10 em diante, respiro aliviada: Salomão entendeu do que somos feitas e, acima de tudo, fez uso da palavra que resume todas as coisas, que atinge o cerne da questão feminina e que responde a pergunta sobre o que eu quero receber no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano e da vida: DIGNIDADE (verso 25).

Pronto! Se fosse dignidade o que regesse nossas relações todos os dias do ano, a mulher não serviria de objeto sexual, não veria seu direito à educação negada em países regidos pelo Talibã, não teria medo de ser estuprada na rua quando seu carro quebrasse no meio da noite (pois é, isso aconteceu ontem mesmo), não seria alvo de piadas, nem de agressão física, nem de preconceitos de diversas naturezas.

A passagem da mulher virtuosa de Provérbios não é apenas uma homenagem (aí sim, genuína e linda e recebo-a no dia de hoje com o coração aberto e feliz) para as mulheres, mas sim uma lição para a humanidade sobre dignidade, respeito e justiça. Se fossem esses os princípios que regessem as nossas relações de fato, os poemas, os ‘parabéns’ ou qualquer outro gesto atencioso não teria esse gosto de coisa forçada, artificial, hipócrita, do tipo você-finge-que-me-respeita-e-eu-finjo-que-acredito. Se aprendêssemos com Provérbios 31, este momento seria mais um dia de celebração natural do amor e da graça de Deus, espelhados através de todos nós sobre todos nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.