O silêncio de Maria

‘The Virgin Mary Consoles Eve’, por Grace Remington

 

Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. (Lucas 2.19)

 

Muito curiosa essa reação de Maria quanto ao que os pastores vieram contar para ela e para José. Os pastores tinham acabado de ser visitados por um anjo lindo, enorme, que os envolveu de luz, e, de quebra, ainda assistiram a uma miríade de seres do Céu dando glória a Deus. Ou seja, não era à toa que eles estivessem empolgadíssimos e extremamente ansiosos para conhecer Jesus. Quando chegaram ali onde Cristo havia nascido e contaram a experiência deles, todos os outros ficaram impressionados (verso 18), menos Maria. Ela só ouvia, sem emitir grandes reações. Isso, porém, não quer dizer que Maria não havia sido impactada com o relato dos pastores. Como mãe que sou, ouso arriscar o palpite de que, no mínimo, ela se sentiu orgulhosa de seu rebento. Mas mais do que isso ainda:  ela sabia que era privilegiada por ter sido escolhida a dedo por Deus para concebê-lo na sua forma humana.

Coloco-me no lugar de Maria e fico me imaginando lá, toda consciente daquele acontecimento milagroso, olhando para o “meu” bebê-Deus. A consciência de quem aquela criança é, de fato, provocaria em mim uma série de reações: maravilhamento, sim, em um primeiro momento, mas também uma reverência incrível e, acima de tudo, um sentimento de cumplicidade, como se o bebê fosse bebê só por fora, mas por dentro, divino como era, ele pudesse ler os meus pensamentos e, assim, ele e eu compactuássemos com o seu plano de salvar a humanidade, o que era ainda pouco compreensível para os judeus, incluindo aqueles pastores festejantes. Adorá-lo em silêncio e em meditação seria, portanto, a maneira mais natural de consumar a minha fé em seu plano perfeito.

Hoje, 2015 anos após o nascimento de Cristo, me inspiro em Maria e, em silêncio, reflito cuidadosamente sobre o significado e a profundidade desse fato e, como resultado, vou sentindo a minha fé se renovar.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

11260580_10152491065872185_2296509087220221672_n

Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

7c08ee26-dae6-42a7-b27f-fb313c2ce257Mulheresquecorremcomoslobos_2014

 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Jesus – machista ou feminista?

Reza a lenda feminista contemporânea que o cristianismo é, entre outros defeitos, machista. Claro que, depois que alguém afirmou e uma segunda pessoa reafirmou, virou um clichê e, a partir daí, ninguém mais quis ter o cérebro de questionar a informação. Virou história de papagaio pós-modernoso: você vai lá, repete o que ouve de terceiros e fica de boa, só aguardando pelos likes. Afinal de contas, dá uma preguiça ir atrás e questionar. Por que questionar, se a verdade do outro já chegou até mim mastigadinha, pronta para eu me apropriar dela? E assim, enquanto copio e colo o clichê, cometo o erro que tanto condeno nos outros: o preconceito – julgar algo e tachá-lo sem conhecer sobre o que se trata.

Compreendo que as evidências, das quais as feministas contemporâneas se valem para chamar o cristianismo de machista, sejam o padrão patriarcal de família retratado na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento (que funcionava muito bem para a organização da sociedade na época), e talvez algumas afirmações de Paulo, as quais, se retiradas de seu contexto e de uma interpretação mais cuidadosa, de fato, dão margem para pensarmos em modelos machistas – mas acredite: não são (podemos discuti-los em uma outra postagem).

Fora esses dois casos, porém, não vejo a menor base para a afirmação de que o cristianismo seja uma fé antimulher. Jesus – figura central do cristianismo, reverenciado pelos cristãos como sendo o próprio Deus encarnado – além de ter tido amigas, que apoiavam financeiramente o seu ministério, também conversou com mulheres rejeitadas pela sociedade com respeito, sem dar em cima delas. Uma dessas mulheres, aliás, havia sido condenada à morte a pedradas, porque foi pega traindo o marido, enquanto o amante fugia de fininho. Jesus foi até a muvuca de gente que a cercava para apedrejá-la e impediu sua execução. Em outro momento, Jesus começou a conversar com uma mulher que não era da sua etnia – e isso era contrário às regras machistas de seu contexto social e religioso –, mas ele não se importou e, como nos contou a Talita em outro post, ele foi até essa mulher compartilhar de algo bom que ele tinha: um sentido para a vida. Isso sem mencionar que foi a três mulheres que o anjo apareceu para contar que Jesus tinha ressuscitado e foi para uma delas que Jesus apareceu primeiro depois de ressuscitar, e não para os discípulos. E por aí vai…

E aí, Jesus era machista ou feminista?

Nada melhor do que a Bíblia para responder essa pergunta:

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus (Gálatas 3.28).

Não, Jesus não era machista. E nem feminista. Nele, a igualdade de gênero é total, definitiva e extrema: todos somos um. Não existe discriminação no amor que ele nutre pelo ser humano. E a nós, mulheres e homens alcançadxs por um amor tão desprendido e sem letras miúdas, só nos resta espalhar o mesmo amor – sem distinção.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.