Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2

Hoje, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante, a história que vamos contar é daquela que veio a torna-se conhecida por ter se casado com o ícone da Reforma, Martinho Lutero.

Mas a vida de Katharina von Bora é recheada de inspiração, liberdade, coragem e garra. Certamente que seu casamento com Lutero a transformou – dando a ela a oportunidade de estar diariamente ao lado daquele que veio a contribuir também para a mudança na vida de tantas outras pessoas ao redor do mundo. Mas sua determinação e coragem são marcas inegáveis que, já eram traços antes mesmo de seu casamento com Lutero e que a impulsionaram a dar um passo tão ousado: o de abandonar o mosteiro em que vivia e sua posição de freira.

Boa leitura e inspire-se!

 

KATHARINA VON BORA

Katharina foi uma mulher corajosa, ousou mudar completamente sua vida, ao fugir de um mosteiro e se lançar à uma vida ‘comum’. Tornou-se conhecida por ser a esposa de Lutero, a quem amava como esposo, companheiro e alguém que contribuiu para seu futuro de liberdade em Cristo e por Ele. Soube desempenhar seu papel de mãe juntamente com seu dom da hospitalidade, acolhendo a tantos! Mas também foi uma ótima empreendedora e administradora

Katharina nasceu em janeiro de 1499, na Alemanha – quanto ao local exato, há diferentes opiniões entre os historiadores, mas um dos possíveis locais de seu nascimento é Zülsdorf, próximo a Lippendorf. Seus pais eram nobres empobrecidos e que após seu nascimento precisaram vender sua propriedade.

Sabe-se que sua mãe morreu quando Katharina ainda era bem nova e com apenas 5 anos de idade foi levada por seu pai para o convento beneditino em Brehna. E depois de alguns anos, como sua família não conseguia prover o pagamento anual necessário, transferem-na para o mosteiro das monjas “Sistersinianas Trono de Maria”, em Nimbschen. Não só pelo motivo financeiro – pois, diferente do mosteiro anterior a contribuição nesta era espontânea – mas outros fatores também influenciaram tal decisão: a recém-eleita madre superiora do mosteiro era uma parenta de sua mãe e sua tia Magdalena von Bora morava há muitos anos neste mosteiro.

Vários nobres empobrecidos nesta época colocavam suas filhas em mosteiros pois além do estudo que forneceriam a suas filhas, a um preço acessível, achavam também que suas filhas não conseguiriam se casar, devido sua baixa condição financeira. Então se deixasse-as no mosteiro, garantiria a elas uma vida de estudo e cuidado pelo resto de suas vidas.

Em 1514, Katharina torna-se noviça e em 1515 é ordenada freira, ainda no mosteiro de Nimbschen.

Em 1517, Katharina tinha 18 anos e, apesar de viver atrás dos muros do convento, privada dos acontecimentos do mundo, era uma jovem autossuficiente e com sede de liberdade. Assim como outras freiras deste convento, que no fundo, desejavam uma outra vida, uma vida que extrapolasse os muros do convento, Katharina ficou entusiasmada com os escritos de Lutero.8

Especula-se que as freiras de Nimbschen tenham tomado conhecimento dos escritos de Lutero através de parentas do prior9 do mosteiro dos agostinianos (ordem religiosa de Lutero e que ficava na cidade de Grimmma, próximo a Nimbschen), neste mosteiro os escritos de Lutero tinham livre acesso e tais parentas tinham irmãs no mosteiro em que Katharina se encontrava. Outra hipótese também é que o comerciante Leonardo Koppe, que era amigo de Lutero, semanalmente ia ao mosteiro de Nimbschen e através desse contato as freiras obtiveram acesso aos escritos de Lutero.

Depois de ler o texto Da liberdade cristã de Lutero, Katharina e as demais freiras experimentaram uma libertação: a vida acética que levavam no convento já não fazia mais sentido. Chegaram a escrever para suas famílias manifestando a vontade de sair do mosteiro. No entanto, sair do mosteiro era um passo totalmente incomum para a época, por isso foram reprimidas por suas famílias em sua decisão. Lutero sentiu-se responsável por elas, pois, afinal de contas, foram os seus escritos e a sua teologia que fizeram com que tomassem tal decisão. Lutero lembrou-se de seu amigo comerciante, Leonardo Koppe, para bolar um plano de fuga para as freiras. Então, na Páscoa de 1523, Koppe retirou doze freiras entre barris de sardinha.10

Ao total 12 freiras fugiriam do convento e foram acolhidas por Lutero. Este conseguiu que 3 das 12 freiras fossem acolhidas por famílias em Torgau e para as demais continuou procurando um lar e empenhando-se em achar um esposo para cada uma delas.

Katharina von Bora, a princípio, foi acolhida pela família Reichenbach e foi nesta casa que provavelmente aprendeu a administrar um lar, nessa época as responsabilidades de uma dona de casa extrapolavam o zelo pela casa em si, mas também se referia a administração das terras, agricultura, criação de animais, a comercialização dos produtos cultivados além da coordenação de todos os empregados da casa.

Posteriormente, Katharina foi viver com a família de Lucas e Bárbara Cranach. Lucas era um grande pintor renascentista que trabalhou durante muitos anos para a corte dos Eleitores da Saxônica e é bem conhecido por ter pintado retratos tanto de príncipes como de líderes da Reforma – a imagem de Katharina, que ilustra esse post, é de sua autoria assim como uma das imagens mais conhecidas de Lutero e Melanchthon também são de sua autoria. E é neste lar que Katharina vive até seu casamento com Lutero.

Antes de se casar com Lutero, Katharina viveu algumas desventuras e tentativas frustradas da própria parte de Lutero em arranjar um par para ela – uma vez que ele achava que jamais viria a se casar indo contra à sua própria opinião que pastores e líderes deveriam unir-se em matrimônio.

Mas em 1525, em 13 de junho, Lutero chama um pequeno círculo de amigos e celebra seu casamento com Katharina von Bora – ele com 42 anos e ela com 26 anos de idade. E deste pequeno círculo de amigos, seu grande amigo Filipe Melanchthon não esteve presente pois não concordava com esta decisão. E após 14 dias dessa celebração a cerimônia aberta do casamento dos dois foi realizada, com amigos e parentes presentes.

A casa de Lutero e Katharina era o prédio onde anos atrás os monges agostinianos viviam (Schwarzer Kloster) e que a princípio havia sido liberado para que eles morassem pela Universidade de Wittenberg mas um tempo depois foi doado definitivamente pelo príncipe.

Em seu lar, não vivia apenas a família Luther. Muitos hóspedes passavam por lá, além de estudantes, freiras foragidas, crianças órfãs. Não é à toa que, apesar do bom ordenado de Lutero, somado à excelente administração dos bens e ao trabalho dedicado de Katharina, a família sempre tinha que lutar para que o orçamento não fosse extrapolado.11

Katharina reformou o mosteiro e o administrou com uma rotina bastante atarefada, além de sempre receberem alunos e hóspedes em sua casa ainda tinham uma horta, um orquidário, confeccionavam material para pescaria, e posteriormente adquiririam uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira.

Tiveram 6 filhos (3 filhas e 3 filhos), porém só 4 deles vieram a completar a idade adulta: um tornou-se advogado, outro médico, outro teólogo e a única mulher casou-se com um rico prussiano. Mas além de seus próprios filhos, cuidaram e criaram sobrinhos tanto da parte de Lutero como de Katharina, além também de outras crianças que eram órfãs.

Entre 1527 e 1535 a peste tomou Wittenberg e grande parte da população saiu da cidade. Katharina e Lutero, no entanto ficaram e hospedaram e cuidaram de doentes em sua casa. Nessa época era comum que mulheres, mesmo as de origem nobre, tivessem conhecimentos da medicina caseira. O que aparentemente Katharina veio a aprender com sua tia Magdalene von Bora enquanto esteve com ela no mosteiro de Nimbschen.

Lutero sempre temia por sua vida, achando que fosse morrer a qualquer momento vítima das perseguições que sofria. Então em 1542, faz um testamento indicando Katharina como sua herdeira universal – o que não era possível por lei na época já que sempre deveria haver um homem responsável pela viúva, pelos filhos e pelos bens. Mas ele recusa-se a nomear um homem como tutor de Katharina alegando que ninguém melhor do que ela mesma para cuidar de tudo, uma vez que fazia isso durante muitos anos. Só que ele não registrou em cartório o testamento dificultando ainda mais sua vida após sua morte. Mas depois de grande empenho de amigos e do príncipe João, conseguiram reconhecer o testamento, porém tiveram que nomear um tutor pelo cuidado dos filhos e depois de algumas brigas conseguiu ter o direito do próprio cuidado de seus filhos.

Lutero falece dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade onde nasceu, Eisleben, e foram os amigos mais íntimos de Lutero, Filipe Melanchthon e João Bugenhagen, que tiveram que dar essa difícil notícia a Katharina. Seu corpo foi enviado a Wittenberg e por onde passava os sinos soavam. Seu funeral foi realizado por Bugenhagen e Melanchthon fez a locução memorial em latim. Foi enterrado aos pés do púlpito da igreja de Wittenberg.

A morte de Lutero foi um baque para Katharina pois além de não estar presente quando ele se foi, sentiu a perda de seu esposo e companheiro, mas também de alguém que a influenciou e contribuiu para o real entendimento do Evangelho ajudando-a a tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar de ser freira e viver uma vida comum para a honra e glória de Cristo.

Simpática e querida irmã!

Que a senhora sofre comigo e com meus filhos, eu acredito de coração. Pois quem não estaria aflita e desconsolada por um homem tão caro, como o meu querido senhor o foi? Pois ele serviu não somente a uma cidade ou um país, mas a todo o mundo. Por isso, verdadeiramente, estou tão aflita que não consigo descrever para ninguém a dor que sinto em meu coração. E eu nem sei como estou mantendo meu juízo e ânimo. Não consigo comer nem beber, muito menos dormir. E se eu tivesse tido um principado e um reinado, não teria sido tão cruel se os tivesse perdido, como agora que o bondoso Senhor Deus tirou de mim, e não somente de mim, mas de todo o mundo, esse querido e caro homem. Quando penso nisso, não consigo, de tanto sofrimento e choro (o que Deus certamente sabe) nem falar nem mandar escrever.

Mas o que diz respeito a seu filho, meu querido sobrinho, eu vou gostar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mesmo se tudo tiver que ser investido nele, pois como eu entendo, ele vai continuar os estudos com muita dedicação e não irá desperdiçar sua nobre juventude. Mas, quando ele avançar um pouco mais em seus estudos e necessitar de outros e mais livros, pois ele irá estudar Direito, você mesma querida irmã, pode imaginar que eu não terei condições de comprá-los. Ele necessitará de alguma ajuda a mais para que venha a ter todo o material necessário. Para isso seria necessário que, assim como a senhora escreve para mim, conseguir um dinheiro anual como bolsa de estudos para seu filho, meu sobrinho. Pois assim ele poderia continuar seus estudos e cumprir suas obrigações com mais facilidade. Mas, sobretudo, o que eu puder fazer por ele, eu mandarei notícias com meu irmão Hans von Bora, assim que ele vier para cá.

Assim, fiquem com Deus. Wittenberg, 2 de abril de 1546.
Katharina, a viúva do Dr. Martinus Luther

Com a morte de Lutero também veio a luta pela sobrevivência, e Katharina continuou morando em sua casa, a Schwarzer Kloster, e a princípio continuou com o pensionato para estudantes e outros hóspedes. Mas não foi nada fácil pois não era comum um pensionato dirigido por uma viúva e os estudantes preferiam hospedar-se em casa de professores, e com a ausência de Lutero, sua casa não era mais uma prioridade de estadia. E por falta de dinheiro teve que escrever cartas para conhecidos, pedindo ajuda. E aconteceu que ela foi acusada de não saber se conformar com sua nova situação, de ser orgulhosa, briguenta e ‘cheia de razão’12.

Passou pela guerra de Esmalcada e teve que fugir de Wittenberg em 1546. Retornou no mesmo ano, mas em seguida precisou fugir novamente. Obteve ajuda financeira do rei da Dinamarca, Cristiano II, e decidiu retornar para casa já que o príncipe da Saxônia havia vencido. Mais tarde teve que fugir novamente e tinha a esperança de buscar abrigo na Dinamarca mas conseguiu ir somente até Gifhorn – teve que retornar devido ao perigo nas estradas. Eles estavam tão empobrecidos que conta-se que Katharina teve que rasgar as vestes do falecido Lutero para costurar roupas para seus filhos menores, pois os mais velhos haviam saído de casa para estudar.

E em 1552, a peste retorna em Wittenberg e Katharina resolve fugir para Torgau, em setembro deste ano. No caminho os cavalos tiveram um contratempo e ela teve que pular da carroça. Se machucou muito e chegou doente ficando acamada em Torgau. Foi cuidada pela filha e por amigos, mas seu estado piorava e quando percebeu que seu fim estava próximo pediu pela Santa Ceia. Katharina faleceu em 20 de dezembro de 1552, aos 53 anos de idade. Foi sepultada na igreja de St. Marien e a alocução foi feita por Filipe Melanchthon. Seus filhos mandaram gravar em sua sepultura: Ano 1552, dia 20 de dezembro, bem-aventuradamente adormeceu aqui em Torgau a deixada viúva do Dr. Martin Luther.

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8Trecho citado no livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

9Prior era o superior de um convento em algumas ordens religiosas

10Trecho do livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

11Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

12Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1

Para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante, resolvemos trazer a história de algumas mulheres que, assim como tantos homens, também contribuíram para o desenrolar da Reforma. Foram mulheres ativas, politicamente relevantes, de posicionamento forte e crítico. Muitas agiram nos bastidores, outras conseguiram expor seus manifestos e insatisfações publicamente.

É claro que não temos a pretensão em revelar todos os nomes de mulheres envolvidas em tal movimento, pois certamente há uma grande nuvem de testemunhas que sequer tiveram suas histórias ou contribuições divulgadas. Mas nossa intenção aqui é trazer inspiração. Contribuir para que você, assim como eu, ao ler essas histórias – em que muitas não tiveram um final feliz – possa sentir-se tocada e inspirada a fazer mais por seu bairro, país, escola, casa, trabalho, família, igreja. E quem sabe, contribuir para uma reforma necessária onde você estiver…

Boa leitura e inspire-se!

 

ARGULA VON GRUMBACH

Argula foi a primeira mulher que pronunciou-se publicamente a favor de questões referentes à teologia luterana e entra na história como a primeira escritora protestante

Argula nasceu no ano de 1492 em Beratzhausen, perto da cidade de Ingolstadt, na Baviera, Alemanha. Era filha do barão Bernhard von Stauff e de Katharina von Toerring zu Seefeld – ambos de descedência nobre, porém empobrecidos.

Quando tinha dez anos recebeu de seu pai uma Bíblia1 para que a estudasse com dedicação, isso mostra que seus pais valorizavam a educação de crianças e cuidaram para que também suas filhas mulheres tivessem uma boa formação crítica e intelectual.

Tornou-se dama de honra, por volta de 1508, da duquesa Kunigunde, que era irmã do imperador Maximiliano e esposa do duque Alberto IV. Convivendo com as três filhas do casal recebeu uma formação que somente filhos e filhas de famílias nobres e com boas condições financeiras poderiam ter.

Conhece seu futuro marido, Friedrich von Grumbach, na casa do duque Alberto IV e casam-se por volta de 1516. Esse já era um período histórico com muitos rumores e inquietações e mesmo casada não deixou de ler a Bíblia e se informar sobre os acontecimentos que agitavam a Europa.

Seu esposo, que havia recebido o cargo de administrador da cidade de Dietfurt, não era alguém com quem Argula poderia discutir questões teológicas, pois para ele a igreja como estava bastava, com isso, manteve contato com teólogos da Reforma. Trocou correspondência com Jorge Espalatino, que, na época era secretário e conselheiro do príncipe-eleitor de Saxônia e conde da Turíngia, amigo de Lutero e do príncipe João Frederico. E provavelmente através do contato com Espalatino, obteve a lista das obras de Lutero publicadas em língua alemã. Simpatizou-se com a teologia de Lutero, pois, sua argumentação teológica baseava-se no texto bíblico e torna-se leitora assídua de suas obras.

Argula foi uma grande admiradora de Lutero e trocou vasta correspondência com ele. No ano de 1522 Lutero publica um livro de orações e o dedica “à nobre mulher Argula von Stauffen zu Grumbach”. E em 1524 ele escreve para Johannes Briessmann mencionando sua admiração por ela:

A nobre mulher Argula von Stauffen trava uma árdua luta neste Estado, com um grande Espírito e cheio de palavras e entendimentos sobre Cristo. Ela merece que nós oremos por ela, para que Cristo venha a triunfar através dela. Ela atacou a Universidade de Ingolstadt com escritos, porque eles obrigaram o jovem chamado Arsácio a uma vergonhosa retratação.

Esse episódio com a Universidade de Ingolstadt se deu porque um jovem professor-adjunto chamado Arsácio Seehofer havia iniciado seus estudos nesta universidade, porém transferiu-se por um ou dois semestres para Wittenberg estudando com Melanchthon. Precisou retornar à Ingolstadt, por obediência a seus pais, e se graduou como mestre em teologia. Mas por ter estudado com Melanchthon, Arsácio se convence da doutrina sobre a justificação por graça e fé e com isto suas preleções e alguns artigos que escreveu não condiziam com a teologia de Ingolstadt que era completamente contrária a teologia reformada.

Sofre perseguição, é interrogado, tem sua casa vasculhada, é preso e a universidade abre um processo por heresia no qual seria julgado pelo tribunal dos bispos. Seu pai intervém e Arsácio é julgado internamente pelo reitor da universidade. E em 7 de setembro de 1523 sob ameaça de tortura, com a Bíblia em mãos e chorando de vergonha jura retificando todas as heresias que havia afirmado e agradecendo a enorme benevolência da universidade em minimizar sua pena. Sua condenação foi viver o resto de sua vida no mosteiro de Ettal. Mas pouco tempo depois conseguiu sair do mosteiro e se torna pregador luterano na Igreja Territorial de Wüttemberg.

Argula não se conformou com tudo o que aconteceu com Arsácio e escreve diversos textos que para sua própria surpresa têm enorme repercussão. Sua intenção inicial não era de publicá-los, mas de iniciar um diálogo com a reitoria da Universidade de Ingolstadt o qual se nega em responde-la.

Ao todo, Argula escreveu oito cartas que viraram Cartas Panfletárias2 sobre o caso de Arsácio e defendendo a teologia da Reforma, o que por si só na época já era extremamente polêmico pois os escritos de Lutero estavam proibidos em toda a Baviera e por ser mulher, agravou ainda mais o conflito, uma vez que não cabia as mulheres opinar sobre questões teológicas ou religiosas. E depois da publicação de suas cartas panfletárias não publica mais nenhum texto, porém mantém uma vasta correspondência.

Em 1529, seu esposo falece e ao que parece ele permaneceu fiel a Igreja Católica até a sua morte. Cerca de três anos depois casou-se novamente com o conde Burian von Schick zu Passau, que pertencia a uma família nobre e também era protestante, mas dois anos mais tarde fica viúva de novo.

Seus últimos anos de vida foram muito sofridos por causa da pobreza e dos lutos de seus filhos e outros membros de sua família. Não se sabe exatamente a data de sua morte, mas ao que parece faleceu em 1554 com 62 anos de idade.

Geralmente me chamam de luterana, mas eu não o sou. Eu sou batizada no nome de Cristo, a quem eu confesso, e não confesso Lutero. Mas eu confesso que ele, Martinus, também se confessa um fiel cristão. Que Deus ajude, para que nunca mais neguemos isso, nem por vergonha, desonra, cárcere ou torturas.

Argula em carta ao seu primo Adam von Törring, em 1523

 

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1Aproximadamente 20 anos antes de Lutero traduzir a Bíblia para a língua alemã já havia outras traduções: as mais conhecidas eram a Mentelin Bibel, de 1466, de Estrasburgo, e a Koberger Bibel, de 1483, de Nuremberg.

2O termo original alemão é Flugschrift. Foi uma forma de comunicação de massa que surgiu no século 15 e era uma forma de tornar público informações atuais, numa espécie de “jornal do dia”. Propaganda política, controvérsias religiosas e outras polêmicas eram publicadas e assim espalhadas para influenciar a opinião pública. Tais cartas foram fundamentais para espalhar as ideias da Reforma.

 

MARGARIDA DE NAVARRA

Margarida foi rainha, poeta e contista e de um jeito criativo e perspicaz anunciava valores cristãos e delatava padrões imorais de clérigos e da corte através de seus contos

Margarida nasceu em 1492 em Angoulême na França. Filha de Carlos d’Angoulême e Luisa de Savóia. Seu pai Carlos teve a educação assistida por Leão XI, que era rei da França e seu primo, porque seu pai havia morrido quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Sua mãe Luísa, quando se casou, tinha cerca de 12 anos de idade. Tal casamento foi arranjado e Carlos só permaneceu fiel a este arranjo pois com 18 anos de diferença de sua noiva pode levar sua amante para viver em sua corte juntamente com Luísa.

Casou-se em 1509, aos 17 anos, com o duque Carlos IV d’Alençon. Não foi consultada sobre o assunto e tudo foi arranjado por sua mãe, pelo rei Luiz XII e pela rainha Ana. O noivo era descrito como uma pessoa simples, insignificante na aparência, sem capacidade ou cultura e sem qualquer gosto para a intelectualidade. Era invejoso, tímido e antissocial. Porém, sua ambição o fazia aspirar a cargos para os quais era incompetente. E mesmo não o amando, Margarida foi uma esposa fiel. E exatamente no dia que completava 33 anos ficou viúva.

Casa-se novamente, em 1527, com Henrique d’Albert, um jovem príncipe que foi aprisionado na batalha de Pávia mas que fugiu do seu cativeiro. Foram viver em Navarra, um reino estranho e empobrecido cuja língua Margarida não conseguia entender. O lugar foi melhorando cada vez mais, com a administração sábia de Henrique e a ajuda de Margarida que fundou hospitais, orfanatos e bibliotecas. Foi no castelo de Nérac que Margarida acolheu vários eruditos e reformadores. Ela fez de sua corte um lugar de sábios, poetas e pensadores que fugiram da estaca de um mosteiro sombrio para desfrutar a proteção de uma mulher encantadora, boa, alegre e cortês e de um livre pensador como o rei3.

Ela exaltou o Senhor como o único e suficiente Salvador e intercessor. Ela comparou, como Lutero fez, a lei que busca, tenta e pune com o evangelho que perdoa ao pecador por causa de Cristo e da obra que ele completou na cruz. Ela olha para frente ávida e esperançosa por um mundo redimido e regenerado pelo evangelho de Jesus Cristo. Ela insiste na justificação pela fé, na impossibilidade de salvação pelas obras, na predestinação, no sentido de dependência absoluta de Deus como único recurso. Obras são obras, mas ninguém é salvo pelas obras, salvação vem pela graça e “é o Dom do Deus Altíssimo”. Ela chama a Virgem a mais abençoada entre as mulheres porque ela tinha sido escolhida para ser a mãe do Salvador Soberano, mas recusou para ela um alto lugar, e nas suas devocionais ela introduziu uma invocação ao Nosso Senhor, em vez de “Salve Rainha”.

T.M. Lindsay citada no livro Uma voz feminina na Reforma de Rute Salviano

Teve professores que a ajudaram crescer intelectual e espiritualmente. E por meio de algumas damas de sua corte, soube o que os reformadores estavam pregando. Ela foi influenciada tanto por Lutero quanto por Calvino.

Talvez ninguém represente melhor os sentimentos que inspiraram o começo do movimento da Reforma na França como Margarida, porque, além de afetuosa, era cheia de coragem e entusiasmo. Ela ouvia avidamente a pregação de Lefèvre e Roussel e desejava aprender o caminho da salvação e cooperar na divulgação das ideias da Reforma4.

Em Nérac, seu capelão Roussel pregava na língua do povo e não havia elevação da hóstia ou adoração das espécies e não era permitido adorar a virgem Maria e os santos. O sacerdote oficial não era obrigado ao celibato e podia usar vestes comuns, pegar um pão comum, comê-lo e em seguida dá-lo à congregação e finalizavam cantavam um salmo.

Seu reino, no sul da França, sempre foi hostil ao poder de Roma e havia milhares de protestantes em refúgio, pobres e oprimidos. E quando esse refúgio não era mais seguro, tratava de enviar seus hóspedes a lugares mais seguros. Foi o que aconteceu com João Calvino, que esteve em sua corte, em Nérac, e depois foi enviado à Genebra. Este geralmente se correspondia com ela e sua filha Jeanne d’Albret.

Um de seus poemas mais famosos o Espelho da Alma Pecadora lançado em 1531 na França (e que possuiu tradução para o inglês em 1548 pela futura rainha Elisabeth) foi incluído ao Index de obras proibidas à leitura5. Tal poema foi considerado pela Faculdade de Teologia de Paris (Sorbonne) herético porque não mencionava santos, purgatório, oração a Virgem Maria e a Salve-Rainha era parafraseada em honra a Jesus Cristo. Mas seu irmão, rei da França, Francisco I ordena que deixem sua irmã em paz e assim o reitor altera a condenação informando que seu poema foi colocado na lista por ter sido publicado sem a aprovação da Faculdade de Teologia de Paris, como era requerido pela lei.

Entre 1544 a 1548, Margarida escreve o Heptameron mas sua publicação só acontece 10 anos após sua morte. O valor real do Heptameron está na descrição da vida e dos costumes das cidades naquele período. Pela obra consegue-se formar uma boa ideia da posição das classes, da riqueza e do conforto, da quantidade de tempo dedicada à ociosidade e aos prazeres e outras incongruências que a França apresentava na época6. Ela o escreveu inspirada no Decameron de Bocaccio7 que era moda em sua corte e que endossava e estimulava um estilo de vida devasso e completamente entregue aos prazeres humanos. E em seus contos, no Heptameron, Margarida denuncia comportamentos imorais e expõe valores cristãos de maneira criativa e conforme as pessoas estavam acostumadas a consumir em sua época: através de contos.

Sua vida foi marcada por grande influência na política, por sua intelectualidade e por acreditar em seus ideais e lutar por eles. Mas como esposa e mãe foi omissa permitindo que seu irmão, o rei Francisco I que era emocionalmente instável, ditasse as regras. Assim, sua filha Jeanne d’Albret é separada de sua mãe com apenas 2 anos de idade indo morar em um castelo longe dela e com 12 anos é dada em casamento à um aliado do rei e com o consentimento de Margarida, mas contra a vontade de sua filha e de seu esposo.

Apesar dessa mancha no comportamento como esposa, sobretudo como mãe, sua filha Jeanne d’Albret (1528 – 1572), assim como Margarida, tornou-se grande defensora na luta a favor da Reforma e contra os excessos que a Igreja Católica exercia.

Margarida morre em 21 de dezembro de 1549, aos 57 anos. É enterrada na Catedral de Lescar e em seu funeral teve a presença de pobres de todos os estados de Béarn.

 

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3Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

4Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

5Index era uma relação de obras consideradas heréticas e que eram proibidas aos fiéis da Igreja

6Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

7Bocaccio foi um escritor italiano (1313 – 1375), considerado uma das maiores figuras do Renascentismo. Sua principal obra foi o Decameron, uma coleção de 100 contos que exaltam a beleza e o amor terrenos.

  

KATHARINA SCHÜTZ ZELL

Katharina foi escritora, diaconisa e a primeira pregadora protestante

Katharina nasceu no ano de 1497, em Estrasburgo. Filha de Elisabeth Gerster e Jakob Schütz, era de uma família bem situada e reconhecida em Estrasburgo. Sabe-se que recebeum uma boa formação e sabia ler e escrever muito bem em língua alemã. Interessava-se por literatura, pela Bíblia e artigos teológicos. Desde menina era engajada na igreja e quando as ideias da Reforma chegaram em Estrasburgo seu interesse foi grande.

Casou-se com o pastor Matthäus Zell em 3 de dezembro de 1523 e teve seu matrimônio celebrado por Martin Bucer, reformador também conhecido em Estrasburgo.

A prioridade do casal Zell era o desenvolvimento da igreja na teologia reformada, mas também na prática cotidiana. E o engajamento de Katharina foi de zelar pelos doentes, vulneráveis e fugitivos. Como Estrasburgo era uma cidade livre, em um conflito por questões teológicas na cidade de Kenzingen, cerca de 120 homens acompanharam o pastor local deposto e grande parte deles buscaram refúgio na casa de Matthäus e Katharina. E além de abriga-los, cuidando de sua acomodação e alimentação, Katharina também se preocupou com as mulheres desses refugiados, que agora precisavam organizar suas vidas sem a ajuda de seus maridos, e escreve a elas em forma de um tratado que demonstrava seu grande conhecimento teológico.

Katharina e Matthäus tiveram dois filhos, porém ambos faleceram ainda quando eram bebês. E apesar de ter sofrido muito com tais perdas, canalizou e buscou ocupar seu tempo exercendo atividades diaconais importantes além de buscar na escrita seu posicionamento teológico e intelectual.

Matthäus Zell falece em 1548 quando Katharina tinha 51 anos de idade. Martin Bucer é quem faz o pronunciamento no enterro de Matthäus e ao final Katharina pede a palavra e fala publicamente para toda a comunidade reunida. Tempos depois, publica um escrito de sua reflexão com alguns detalhes sobre os últimos momentos de vida de seu esposo.

Antes de falar, porém, peço que não me levem a mal nem que se aborreçam comigo, como se eu fosse querer me colocar agora no lugar do ministério do pregador e apóstolo; não, de forma alguma, porém somente como o amor agiu, sem preconceitos, nos pensamentos de Maria Madalena […] assim também agora eu.

Comentário de Katharina à comunidade sobre sua publicação posterior ao falecimento de seu esposo

Autora de 3 cartas panfletárias, de 6 livros e também de vários outros escritos, Katharina não só ficou conhecida escritora, mas também como pregadora. Pregando e celebrando também outros sepultamentos além de seu esposo, Matthäus – principalmente quando pastores se recusavam a fazê-lo.

E apesar de sua dor, lutos e incertezas seguiu sua luta pelo movimento da Reforma até o fim de seus dias, falecendo no dia 5 de setembro de 1562, aos 65 anos de idade. 

 

MARIE DENTIÈRE

Marie foi teóloga e uma ativa reformadora. Inspirava mulheres a estudarem e a interpretarem as Escrituras

Marie Dentière nasceu em 1495 em Tournai, na Bélgica. Passou boa parte de sua vida em um convento tornando-se abadessa no Convento Agostiniano da Abadia de Saint-Nicolas-des-près. Ainda no convento, por ter livre acesso a biblioteca, tem acesso aos escritos de Lutero e converte-se a reforma luterana em 1524.

Abandona o convento e foge para Estrasburgo. Marie acompanhava seu compatriota, Guilherme Farel, em diversas campanhas evangelizadoras e em 1528 casa-se com o ex-padre Simon Robert, que era famoso estudioso da língua grega e com quem teve duas filhas. Foram para Bex, e em seguida para Aigle onde Simon Robert foi pastor até o ano de sua morte, em 1532.

Marie casa-se novamente, com o pregador Antoniere Froment, e por volta de 1535 mudam-se para Genebra. Torna-se a primeira mulher teóloga da Reforma e ali sofre perseguição principalmente por parte das autoridades católicas – que impediam qualquer publicação escrita por uma mulher.

Mas Dentière sempre declarou seu desejo de encorajar as mulheres. Para ela a Bíblia era o único fundamento da verdade e encorajava, as pessoas, principalmente as mulheres a terem um espírito de ousadia e destemor.

Ao visitar o convento de Jussy, como parte de suas campanhas evangelísticas, declara aquela que seria uma de suas frases mais conhecidas: Passei muito tempo na escuridão da hipocrisia. Mas somente Deus foi capaz de fazer-me enxergar minha condição e conduzir-me à luz verdadeira.

Em 1536, publica “Guerra e Libertação de Genebra”, o que mostra sua sólida instrução teológica, intelectual e domínio da Bíblia.

Em uma das duas cartas abertas que escreveu à rainha Margarida de Navarra, esta intitulada “Em Defesa das Mulheres”, Marie Dentière faz um apelo à rainha: para que ela intercedesse junto a seu irmão, Francisco I que era o rei da França, para que se eliminasse a divisão entre homens e mulheres, pois elas também recebiam revelações que não podiam ficar escondidas. O que foi um escândalo para o seu tempo defender igual tratamento entre homens e mulheres na habilidade para ler e interpretar as escrituras.

Mesmo que não nos permitam pregar em assembleias ou lugares públicos, não nos proibiram de escrever ou de nos aconselhar mutuamente.

Trecho da carta pública de Marie Dentière para Margarida de Navarra

Em 1540, enquanto Froment era pastor em Massongy, o casal resolveu abrir um colégio interno para meninas em sua casa. Além de suas 3 filhas (duas filhas do 1º casamento de Marie e uma filha de seu casamento com Froment) outras meninas tiveram a oportunidade de uma educação completa além de aulas de grego e hebraico.

Marie Dentière faleceu em 1561, aos 66 anos. Em 2002 tem seu nome gravado no Monumento da Reforma, localizado em Genebra, em reconhecimento de sua vasta contribuição à história e ao movimento da Reforma.

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um desabafo e um apelo às feministas cristãs

Esta semana chegaram em minha timeline dois ou três artigos falando sobre o crescente número de evangélicas que têm aderido ao feminismo. Se por um lado essa notícia é de animar, uma vez que esse tabu finalmente tem sido quebrado no meio cristão (demorou, não?), por outro, existe um discurso rançoso e insistente nas entrelinhas de algumas entrevistas que tratam desse assunto, que é o seguinte: a Bíblia é ultrapassada e não pode ser levada a sério. Tudo ali deve ser relativizado. Agora me respondam vocês, companheiras na causa e na fé: por que precisamos colocar em xeque o caráter sagrado das Escrituras para validar o nosso discurso? Por quê???? (perdoem-me pelo excesso de interrogações, mas preciso deixar bem expresso aqui o grau da minha indignação).

A não ser que eu seja muito ignorante mesmo, essa necessidade de estabelecer uma dicotomia entre a Bíblia como verdade e o feminismo, a fim de justificar a aderência das cristãs ao movimento, não entra na minha cabeça de forma alguma. Eis algumas considerações e textos retirados da Bíblia, que explicam o tamanho do meu espanto:

  • Pelo que eu entendo do feminismo, trata-se, essencialmente, de um movimento que luta por respeito e direitos iguais entre os gêneros. Sei que existe uma vertente mais radical, que preconiza a superioridade do gênero feminino sobre o masculino, mas imagino (e me corrijam se eu estiver errada), que não é isso que o feminismo como um movimento mais abrangente defende, uma vez que o que o move é o ideal de justiça. E olha só o que diz a Bíblia: Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gálatas 3.28, negrito meu).
  • Só o texto bíblico acima já daria conta de justificar a causa feminista mais abrangente. Mas aí virão algumas dizer sobre o versículo famoso de Paulo sobre o casamento, que propõe a submissão da mulher em relação ao marido (Efésios 5.22). Vou repetir o que muitos já disseram: continue lendo que você verá que o marido, em troca, deve amar tanto a mulher, que deve estar disposto a dar a própria vida por ela (são vááários versículos sucessivos que reforçam isso, a partir do 5.25). É como minha amiga Fernanda Pinilha falou: relação de submissão é diferente de relação de opressão. Uma relação movida por um amor puro como o descrito nesse texto do apóstolo Paulo certamente cria um ambiente propício para ambos encontrarem seu espaço. Submissão, neste texto, definitivamente significa respeito (só ver o resumo de tudo no verso 33) e respeito é a cola básica de qualquer união.
  • Podíamos passar parágrafos e mais parágrafos citando exemplos do protagonismo de certas mulheres em diversas narrativas bíblicas (as próprias reportagens sobre o feminismo entre as evangélicas já citam alguns exemplos, como as mulheres que divulgaram a ressurreição de Jesus), mas é fato que o machismo é presente na maioria das histórias que compõem as Escrituras, principalmente o Antigo Testamento. Mas companheiras queridas, vamos ser bastante lógicas neste momento: estamos falando de sociedades ancestrais, cujas organização familiar e mentalidade não podem, de maneira alguma, ser analisadas tendo como referência, base, teoria ou o que quer que seja a mentalidade da cultura ocidental atual. Isso seria como querer tratar uma doença típica daquela época, como a hanseníase (vulgo lepra), com uma medicação desenvolvida nos dias de hoje – ou seja, impossível! Simplesmente a igualdade entre os gêneros não existia como possibilidade de problematização para as pessoas daquela época. Cada sociedade tratava a mulher da forma como entendia ser o certo e ninguém questionava isso, fazer o quê? Isso não quer dizer que a Bíblia endosse esse comportamento específico. Ela apenas o retrata, com as virtudes e as mazelas típicas da história de qualquer povo.
  • Agora que já passamos pela questão da Bíblia e vimos que – ufa! – ela não está dissociada da causa feminista abrangente, vamos à questão que, aí sim, é de um machismo evidente: a participação das mulheres na igreja. Aí o nosso olhar não está mais sobre o que Deus acha disso, mas como as pessoas dentro de uma igreja lidam com isso. Como não sou homem, não sei explicar tamanha resistência em abrir espaço para as mulheres ocuparem (a não ser no ministério infantil, claro): seria medo de elas falarem besteira? De se destacarem? Ou então falarem demais? Sensualizarem enquanto lideram? Não serem suficientemente inteligentes? Algumas amigas e eu já especulamos um pouco o assunto e chegamos a pensar que todo esse medo denota uma insegurança do homem frente a uma mulher, em termos de sexualidade mesmo. Bom, como eu falei, são só especulações e não afirmações. Apenas os homens podem analisar suas motivações para barrarem tanto a contribuição feminina em postos de destaque na igreja. Só espero que eles não continuem recorrendo à Bíblia para justificar um preconceito ou uma dificuldade que está dentro deles próprios e não em outro lugar.

Mulheres cristãs feministas, que bom que vocês existem! E que papel importante estão desempenhando dentro de uma realidade que deveria ser, por essência, igualitária, justa e graciosa! Não deixem a causa. Nem a fé. Porque a causa sem a fé pode gerar extremismos e distorções e a fé sem a causa deixa tudo como está dentro das igrejas: um monte de mentes femininas brilhantes e cheias do Espírito sendo desperdiçadas por preconceito injustificável.

Que a fé no Autor das Escrituras nos leve à oração e à união para que continuemos a influenciar nosso contexto.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

 

Sobre a tal mulher virtuosa

A Bíblia, ao contrário do que muitos pensam, não é um livro (ou um conjunto de livros) retrógrado, desatualizado e completamente fora de contexto. Creio realmente que até aqueles que não acreditam em sua veracidade, e como nós, a têm como Palavra de Deus, poderiam se beneficiar (e muito!) de seus conselhos. Porque se tem uma coisa que o homem está fadado é repetir, e repetir, e repetir os mesmos erros. Indiferente de época, civilização ou cultura. É isso: somos previsíveis!

Linda ilustração de Lady Desidia (ladydesidiashop.bigcartel.com)

Mas, hoje, meu intuito não é esse, aproveitando a data comemorativa, o Dia Internacional das Mulheres, gostaria de discorrer um pouquinho sobre a tal mulher virtuosa que Salomão fala em Provérbios 31 e que também tece tão belos elogios.

O que me chama a atenção logo no início do texto é a cumplicidade que esse casal tem. Ele fala que Seu marido tem plena confiança nela 11 e ao meu ver, confiança, é um dos itens de necessidade básica para qualquer relacionamento, quem dirá em um casamento! Como ser-casal sem ter confiança? Como ser-casal sem ser unidade? Como se relacionar sem confiar? Então, item básico exposto, prossigamos a análise…

Posteriormente, Salomão fala sobre várias atividades domésticas, de administração de negócios (eu disse negócios!), de virtudes altruístas, de habilidades manuais, de não ter medo (e muito menos preguiça!) de trabalhar, de ser acolhedora, do dom da educação, enfim, quando leio dos versículos 12 ao 28, na verdade, eu penso em muitas mulheres! E, com isso, eu não creio que ele esteja falando que uma única mulher, para ser virtuosa, tenha que saber, e fazer, item por item tudo aquilo que ele descreveu, como numa espécie de check-list. Por quê? Porque, para mim, é simples: primeiro que um único dia não seria suficiente para fazer tudo isso, a não ser que essa mulher não dormisse, porém, muito mais do que isso, penso que somos únicas, criadas com tanta criatividade e exclusividade que seria muito chato se fossemos todas idênticas umas às outras tentando ser aquilo que não somos e tentando calçar os sapatos que não são nossos (como já disse a Fernanda em um post tempos atrás).

Por isso, penso que Salomão foi extremamente sábio (e quando criança eu desejei tanto a sabedoria dele!) em discorrer em poucos versículos, as várias mulheres que existem, tomando o cuidado para não excluir a diferença. E, é exatamente aí, que eu vejo a graça desse epílogo: ele fala de mim, mas, fala de você também! Ele não exclui a diferença, mas exalta as qualidades que todas nós temos. Por isso, esse texto é tão belo, porque se há apenas algum item do qual devemos ser idênticas, é o que ele expõe no versículo 30, que devemos temer ao Senhor. Pois, temendo a Deus, acima de todas as coisas, seremos verdadeiramente recompensadas.

Um Feliz Dia das Mulheres para mim e para você!

Gif de Monica Crema: www.monicacrema.com.br
Gif de Monica Crema: http://www.monicacrema.com.br

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O silêncio de Maria

‘The Virgin Mary Consoles Eve’, por Grace Remington

 

Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. (Lucas 2.19)

 

Muito curiosa essa reação de Maria quanto ao que os pastores vieram contar para ela e para José. Os pastores tinham acabado de ser visitados por um anjo lindo, enorme, que os envolveu de luz, e, de quebra, ainda assistiram a uma miríade de seres do Céu dando glória a Deus. Ou seja, não era à toa que eles estivessem empolgadíssimos e extremamente ansiosos para conhecer Jesus. Quando chegaram ali onde Cristo havia nascido e contaram a experiência deles, todos os outros ficaram impressionados (verso 18), menos Maria. Ela só ouvia, sem emitir grandes reações. Isso, porém, não quer dizer que Maria não havia sido impactada com o relato dos pastores. Como mãe que sou, ouso arriscar o palpite de que, no mínimo, ela se sentiu orgulhosa de seu rebento. Mas mais do que isso ainda:  ela sabia que era privilegiada por ter sido escolhida a dedo por Deus para concebê-lo na sua forma humana.

Coloco-me no lugar de Maria e fico me imaginando lá, toda consciente daquele acontecimento milagroso, olhando para o “meu” bebê-Deus. A consciência de quem aquela criança é, de fato, provocaria em mim uma série de reações: maravilhamento, sim, em um primeiro momento, mas também uma reverência incrível e, acima de tudo, um sentimento de cumplicidade, como se o bebê fosse bebê só por fora, mas por dentro, divino como era, ele pudesse ler os meus pensamentos e, assim, ele e eu compactuássemos com o seu plano de salvar a humanidade, o que era ainda pouco compreensível para os judeus, incluindo aqueles pastores festejantes. Adorá-lo em silêncio e em meditação seria, portanto, a maneira mais natural de consumar a minha fé em seu plano perfeito.

Hoje, 2015 anos após o nascimento de Cristo, me inspiro em Maria e, em silêncio, reflito cuidadosamente sobre o significado e a profundidade desse fato e, como resultado, vou sentindo a minha fé se renovar.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Jesus – machista ou feminista?

Reza a lenda feminista contemporânea que o cristianismo é, entre outros defeitos, machista. Claro que, depois que alguém afirmou e uma segunda pessoa reafirmou, virou um clichê e, a partir daí, ninguém mais quis ter o cérebro de questionar a informação. Virou história de papagaio pós-modernoso: você vai lá, repete o que ouve de terceiros e fica de boa, só aguardando pelos likes. Afinal de contas, dá uma preguiça ir atrás e questionar. Por que questionar, se a verdade do outro já chegou até mim mastigadinha, pronta para eu me apropriar dela? E assim, enquanto copio e colo o clichê, cometo o erro que tanto condeno nos outros: o preconceito – julgar algo e tachá-lo sem conhecer sobre o que se trata.

Compreendo que as evidências, das quais as feministas contemporâneas se valem para chamar o cristianismo de machista, sejam o padrão patriarcal de família retratado na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento (que funcionava muito bem para a organização da sociedade na época), e talvez algumas afirmações de Paulo, as quais, se retiradas de seu contexto e de uma interpretação mais cuidadosa, de fato, dão margem para pensarmos em modelos machistas – mas acredite: não são (podemos discuti-los em uma outra postagem).

Fora esses dois casos, porém, não vejo a menor base para a afirmação de que o cristianismo seja uma fé antimulher. Jesus – figura central do cristianismo, reverenciado pelos cristãos como sendo o próprio Deus encarnado – além de ter tido amigas, que apoiavam financeiramente o seu ministério, também conversou com mulheres rejeitadas pela sociedade com respeito, sem dar em cima delas. Uma dessas mulheres, aliás, havia sido condenada à morte a pedradas, porque foi pega traindo o marido, enquanto o amante fugia de fininho. Jesus foi até a muvuca de gente que a cercava para apedrejá-la e impediu sua execução. Em outro momento, Jesus começou a conversar com uma mulher que não era da sua etnia – e isso era contrário às regras machistas de seu contexto social e religioso –, mas ele não se importou e, como nos contou a Talita em outro post, ele foi até essa mulher compartilhar de algo bom que ele tinha: um sentido para a vida. Isso sem mencionar que foi a três mulheres que o anjo apareceu para contar que Jesus tinha ressuscitado e foi para uma delas que Jesus apareceu primeiro depois de ressuscitar, e não para os discípulos. E por aí vai…

E aí, Jesus era machista ou feminista?

Nada melhor do que a Bíblia para responder essa pergunta:

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus (Gálatas 3.28).

Não, Jesus não era machista. E nem feminista. Nele, a igualdade de gênero é total, definitiva e extrema: todos somos um. Não existe discriminação no amor que ele nutre pelo ser humano. E a nós, mulheres e homens alcançadxs por um amor tão desprendido e sem letras miúdas, só nos resta espalhar o mesmo amor – sem distinção.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.