Da casa na mãe à casa no Pai!

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Nossa primeira casa foi o útero da nossa mãe. Não temos lembranças conscientes, mas assimilamos as emoções associadas à nossa gestação. Se fomos esperados, celebrados, se chegamos no meio de uma crise, se houve tentativa de aborto, tudo isto já deixou marcas profundas. Esta casa foi se tornando apertada até que fomos expulsos dela de forma agressiva: passagem estreita ou intromissão invasiva. Fomos expostos à luz, esticados e nosso choro de dor e pavor acolhido com sorrisos, numa primeira experiência de total incompreensão!

Outra casa fundamental foi a casa da nossa infância, cheia de mistérios e encantos, já que o olhar da criança transforma pedras em carros, lençóis em fantasmas, sem falar nos amigos e monstros imaginários tão bem revelados nas tiras do Calvin. Tenho uma ternura profunda pela casa das férias no sul da França, que propiciou nossas únicas raízes já que moramos em vários países diferentes. É lá que reencontrava meus brinquedos da fase anterior, armários cheios de fantasias no sótão, a natureza generosa do verão com suas amoras colhidas no pé. Quando meus pais faleceram, este tesouro teve que ser vendido e suas entranhas distribuídas entre os irmãos. Voltando para lá recentemente, reencontrei o jardim e os muros, mas a alma da casa foi totalmente transformada pelos novos proprietários. Que alívio perceber que o encanto permanece em mim inalterado e imune às mudanças externas! Como frisa Mia Couto: O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra). Cabe a nós fazer com que alguns lugares permaneçam vivos dentro da gente.

Lembrei de uma sábia reflexão da Lia Luft no seu lindo livro Perdas e Ganhos: A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Em plena maturidade sinto em mim a menina assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim de muitas décadas atrás. Precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente eu armazenaria as ruins. É minha responsabilidade cultivar estas memórias estruturantes e soltar aquelas que me feriram. Neste processo de apego às expressões da Graça, sigo o conselho bíblico de considerar todas as coisas e reter o que é bom.

Se cada casa pela qual transitamos deixou alguma marca, a casa fundamental é a casa em mim onde Deus escolheu fazer morada. Esta casa é muitas vezes ignorada, negligenciada, desconhecida, já que tendemos a nos alienar do nosso mundo interior e ficar a mercê dos desafios e demandas do sistema no qual vivemos. Como diz Tereza de Avila, no Caminho da Perfeição: Se eu tivesse entendido, como entendo hoje, que neste minúsculo palácio da minha alma mora um tão grande Rei, eu não o teria deixado só tão frequentemente; eu teria permanecido de vez em quando perto dele, e teria feito o necessário para que o palácio seja menos sujo. Que admirável pensar que aquele cuja grandeza encheria mil mundos e muito mais, se tranque assim numa moradia tão pequena!

Sigamos a pista de Angelus Silésius: Algumas pessoas partem para peregrinações distantes. Elas fazem procissões em volta do templo, sem entrar no santuário. Eu vou em peregrinação, em direção ao Amigo que mora em mim. Como revela Anselm Grun, no livro O Céu Começa em Você: Cada um de nós carrega em si um lugar de silêncio… ali, onde Deus habita em nós, somos salvos e íntegros; ali ninguém pode nos atingir e é também ali que somos livres. É no silêncio que adentramos esta casa onde somos recebidos com um abraço e ouvimos a saudação do amado.

Fugimos deste caminho interior porque há muitos entulhos, medos, frustrações, preocupações, que preferimos ignorar e que nos perseguem, levando­-nos a um ativismo desenfreado. Quem não consegue parar, na realidade não consegue ficar consigo mesmo. Como diz Henri Nouwen: Muitas vozes chamam nossa atenção. Há uma voz que diz: “Prove que você é uma boa pessoa”. Outra censura: “Você deveria se envergonhar de si mesmo”. Há também uma voz que diz: “Ninguém realmente se importa com você”, e outra: “Tenha certeza de se tornar uma pessoa bem sucedida, popular e poderosa”. Mas sob todas essas vozes, que são quase sempre muito estridentes, há uma voz calma e discreta que diz: “Tu és meu amado, meus favores recaem sobre ti”. Essa é a voz que realmente precisamos ouvir. No entanto, é necessário um esforço especial para isso; ouvi­-la requer solitude, silêncio e uma forte determinação. Isso é a oração. É ouvir a voz que nos chama de “meus amados”.

Nesta casa interior, podemos derramar o nosso coração, nossas feridas são curadas, nossos pecados confessados e perdoados. Alí, nossa identidade de filhos ganha consistência e somos transformados à imagem de Cristo. Assim, podemos enfrentar o mundo, não para mendigar afeto, reconhecimento, afirmação, mas para ser luz e compartilhar o que recebemos. Sendo amigos da Trindade, somos chamados a ser amigos uns dos outros e sinalizar o fonte desta amizade. Lembrei então do lindo poema de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, cantado por Lenine e Zé Renato: Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre. Construímos cômodos para abrigar os amigos que moram em nosso coração. Esta hospitalidade expande nossas paredes e amplia nosso espaço interior, tornando­nos ricos de tudo o que doamos.

Assim, vamos ao encontro da nossa última morada que Cristo já nos preparou, onde não haverá mais choro, nem dolo, apenas celebração, banquete e comunhão. Cuidemos bem da nossa casa interior porque dela procedem as fontes da vida.

 


Isabelle Ludovico é francesa de nascimento e brasileira de coração, peregrina, aprendiz da Graça, companheira do Osmar, mãe, avó, amiga, psicóloga clínica sistêmica com especial atenção para adultos e casais.

Quando os amigos não são tudo

Agata Wierzbicka
Arte da ilustradora polonesa Agata Wierzbicka

 

Desde a adolescência, minhas amizades sempre foram muito intensas. Eu estava disposta a oferecer para os meus amigos tudo o que eu tinha e, em troca, eu esperava tudo deles: lealdade, confiança, presença, disponibilidade, apoio e consolo eternos. Os amigos eram a família que escolhíamos, os irmãos por afinidade. Eram os laços que nunca se desfariam, quando todo o resto poderia se desmanchar no ar. Porque eles eram os amigos e isso era o mesmo que dizer que eles eram sólidos, fixos, estáveis… enfim, eles eram os meus amigos, não importasse em que circunstâncias. E uma coisa para a qual eu não dava a mínima era essa história de ser amigO ou amigA. Eu tinha a consciência leve como o ar de que amigos homens podiam, sim, continuar sendo meus amigos sem que existisse nisso alguma conotação amorosa (ainda penso assim, com ressalvas em determinadas situações… enfim, assunto para outro post).

Com essa concepção que eu tinha – de amizade profunda, que “tudo sofre e tudo crê” (porque qual é a base de uma amizade genuína, senão o amor?) –, eu comecei a buscar nos amigos as respostas para os  dilemas da minha vida: “Será que saio para dançar escondida dos meus pais?” (eles raramente me deixavam sair para dançar) ou… “Será que eu deveria deixar esse emprego no banco, que eu detesto mas que paga bem, para voltar a dar aulas de inglês, que eu gosto mas que paga mal?”, ou ainda: “Será que a [um nome qualquer] vai com a minha cara? Porque hoje ela me disse isso e isso e assim e assim… ”. E, desse jeito, minha visão sobre o mundo ia sendo construída a partir da visão dos meus amigos sobre o mundo e as demais infinitas possibilidades que explicassem a minha vida iam sendo trancadas dentro de uma caixinha. Eu dependia dos amigos não para que me aconselhassem apenas, mas para que me dissessem exatamente o que fazer.

Além dos problemas óbvios que se criam com essa tamanha dependência que desenvolvi por meus amigos, “me abrir” com eles em crises existenciais passou a ser também um hábito (natural?). Eu depositava neles o peso da minha angústia e esperava que suas palavras me oferecessem respostas. Não raras vezes, eles me olhavam, aflitos, sem saber o que dizer para amenizar minha dor. E eu os olhava de volta, ávida por uma palavra deles que resolvesse tudo. Eles me entendiam. Eles sabiam. Eles viam de fora. E, assim, meus amigos deixavam de ser amigos para desempenhar um papel impossível, quase divino, de oráculos, sábios, videntes, deuses. Com isso, não digo que desabafar com os amigos seja algo ruim. O problema é quando esperamos que eles não só nos ouçam, mas também nos ofereçam uma solução, o que nem sempre está ao alcance deles (e nem deveria estar).

Aprender que amigos são (e devem ser, por amor a eles) limitados tem sido uma lição dura para mim. Hoje, mais do que antes, as questões existenciais se apresentam com frequência, pedindo de mim que eu tire conclusões, que eu repense, ressignifique, volte atrás, dê um passo para frente, mude, transforme, me autodomine, me auto-responsabilize (ou ‘autorresponsabilize’ tudo junto?).
É o lindo, mas espinhoso caminho da autonomia emocional… eita, expressão difícil essa!

Semana passada passei por um momento de angústia das bravas. Queria chorar no ombro de alguém e pensei em duas grandes amigas para isso (uma delas minha irmã de sangue). Bastou que eu imaginasse a reação de uma delas – uma frustração profunda por não ter uma resposta pronta, uma solução rápida para o meu problema – para que eu desistisse de contar a elas. Não. Tem que ser diferente. Não posso depender delas para me erguer. Era preciso encontrar outra forma, contar com os meus próprios recursos e, na falta deles, recorrer a uma Pessoa muito, mas muito específica.

Há alguns anos já que venho confiando em um outro Amigo. Como não tenho dificuldade para amizades profundas (para amizades mais superficiais eu tenho uma meeega dificuldade!), fiz dessa Pessoa um confidente dos mais confiáveis. Chego para Ele em oração e não conto, me derramo. Choro e falo de frustrações, de raiva, dos medos, das maldades, dos sentimentos puros, de tudo, tudinho de tudo que vai aqui nesse coração sovado pela vida. E sempre, sem exceção, recebo alívio. É um alívio parecido com ar condicionado de carro, quando chove e a gente liga o ar e os vidros vão sendo desembaçados, sabe? É assim quando conto tudo para o meu Amigo. Ele desembaça o meu olhar. Me dá perspectiva e esperança. Me devolve os recursos para avaliar, escolher e seguir o caminho por mim mesma, sem que eu precise que os amigos me sirvam de muleta.

A essa altura, você deve estar se perguntando: e seus amigos de carne, osso e sinceridade? Onde ficam numa hora dessas? Meus amigos queridos – e que para sempre serão – ficam ao meu lado, me oferecendo sua presença apoiadora (às vezes até silenciosa), conscientes de que existe Alguém do lado de dentro de mim, trabalhando para que eu me fortaleça. Meus amigos queridos, então, são convidados à minha casa, para celebrarem comigo mais uma resposta não necessariamente encontrada, mas sim buscada no lugar certo: Nele, que é a verdadeira Fonte de toda vida, de todo conhecimento e conforto.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

httpblogcademeulivro.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Distrito 13, subterrâneo. 
finn annie
Annie e Finnick.
finn e annie dançando foto
Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
httpnicinefilo.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo II.

Em Fevereiro fui lá eu tomar a radiação, chateada. Saindo da clínica, fui correr no Parque Chico Mendes. E enquanto eu corria eu batia um papo com Deus e me dei conta de uma coisa horrível: eu não estava triste porque não poderia ser mãe. Eu estava triste porque o meu planejamento tinha ido por água abaixo. Eu não pensei em nenhum momento num bebê fofinho. Eu só pensava que o que eu construí de ideal durante anos era algo completamente volúvel e fora do meu controle. Na real, descobri que eu não estava no controle.

Precisei começar um processo de auto perdão. Me senti um ser humano horroroso por ter criado um plano totalmente auto centrado e até sem sentido, porque a verdade é que eu nem sabia se queria mesmo ter filhos. Vasculhei minha mente e meu coração e notei que quando eu pensava em filhos, eu pensava no tema de aniversário de um ano, no tamanho que minha barriga ia ficar na gravidez, no hidratante que ia usar pra evitar estrias, na cor da parede do quarto do bebê, no berço amarelo… Só. Superficial e com pouquíssimo significado.

E mais, eu amo o silêncio. Eu durmo às 5h e acordo às 12h. Eu me irrito em ter que repetir a mesma coisa 3 vezes pro David, imagine 87952 vezes pra uma criança. Eu costumo chamar fetos de “pequeno Alien” ou “sangue suga”. Eu sou completamente louca pela minha privacidade. Eu não sei cozinhar. Eu não me vejo mãe. Eu nunca senti falta de criança na minha casa. Minha casa já é bagunçada o bastante sem bebê nenhum. Eu morro de nojo de baba. Morro de nojo de baba. No-jo de ba-ba. Eu não gosto de ninguém no meu pé. Eu não devo ser mãe.

Álef 2
Não é uma delicinha? Mas, não era pra mim. E também não foi porque bebês são umas delicinhas que eu decidi que quero ter um filho :).

O problema é que seis meses após a radiação, minha tireoide estava firme, forte e cheia de nódulos no mesmo lugar de sempre, onde não deveria estar mais. O médico disse que ou eu repetia a radiação numa dose mais alta ou fazia a cirurgia.  Fui pra outro médico. Eu estava cansada, com raiva e sem entender nada. Nesse meio tempo, o David foi desligado do banco onde trabalhou por quase dez anos, a gente ia perder o convênio muito em breve. Muitas mudanças aconteceram, passamos por um vale muito escuro e frio. Eu nunca tinha feito isso, mas antes de chegar no consultório do novo médico eu falei pra Deus: a não ser que o médico diga clara e objetivamente que tenho que fazer a cirurgia, não vou fazer. Se ele não me disser que é a única opção, não vou entender que devo fazer, então, por favor, seja claro, porque eu estou completamente perdida em meio a tantos problemas!

Eu entrei no consultório, falei bom dia, o médico respondeu com outro bom dia, disse pra eu me sentar e pediu os exames. Leu pacientemente os exames e laudos de tudo que eu tinha feito em relação à tireoide nos últimos 4 anos (sim, eu levei tudo). Fechou o último envelope, olhou pra minha cara e disse: cirurgia. Só isso, só essa palavra. Minha fé precária me fez perguntar mil coisas, tirar mil dúvidas, etc. e tal.

Saí da sala do médico com a cirurgia pré agendada e pensando (entre outras muitas coisas): uau! Então é isso, eu não devo ter filhos. Posso ficar em paz, posso aceitar e me tranquilizar. Eu já não queria, eu tinha criado um projeto sem sentido só porque achava que toda mulher devia ser mãe, eu baseei muitas coisas em puro pré conceito e até limitação intelectual, aí eu faço uma porcaria de procedimento que me impede de engravidar (de forma saudável e em paz) por dois anos, isso frustra os meus planos, e então, seis meses depois a cirurgia se torna a minha única opção (o último médico explicou melhor meu caso e disse que a cirurgia não era apenas minha única opção naquele momento, como foi o tempo todo, desde que descobri a doença)?! Deus?! Entendi o recado. Obrigada.

E então, nos últimos três anos eu fui me conformando de que a maternidade não era pra mim e eu estava bem com isso, quando pensava de maneira autêntica. David só me dizia que gostaria de ter um filho, mas comigo e, se eu não queria, ele não fazia questão, não insistiria, não cobraria.

* Estrelando na foto deste post, o Álef, um dos bebês mais graciosos que já conheci, filho da Luciana Mendes Kim, uma das idealizadoras do Santa Paciência, e do David Kim, ilustrador da nossa incrível arte que representa o Santa Paciência, que me deram a devida autorização de compartilhar a gostosura que tão criando!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Os frutos atemporais de Árvore da vida

Demorei para assistir ao filme A Árvore da Vida, do cineasta americano Terrence Malick.

O filme foi lançado em 2011 e, como vocês podem perceber, levei apenas alguns anos para assisti-lo (rs).

É que às vezes gosto de esperar a poeira baixar, gosto de descobrir por mim mesma, ter minhas próprias impressões. Sei que estou “atrasada” e que este já não é o assunto discutido nas timelines da vida, mas depois que eu o assisti, percebi que, para cada fase da vida, determinado filme (ou livro) faz muito mais sentido, fala mais diretamente à alma da gente. E assim, fiquei muito feliz de tê-lo assistido só agora, porque percebi que não haveria melhor momento do que este, no qual me encontro. Assim, acredito que o assisti no tempo certo. No meu tempo certo.

Onde você estava quando lancei os alicerces da terra?
Responda-me, se é que você sabe tanto.
Quem marcou os limites das suas dimensões? Talvez você saiba!
E quem estendeu sobre ela a linha de medir?
E os seus fundamentos, sobre o que foram postos?
E quem colocou sua pedra de esquina,
enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam
e todos os anjos se regozijavam?
Jó 38:4-7 (NVI)

São esses os versículos que abrem o filme. Meu coração palpitou, meus olhos umedeceram e ainda não havia aparecido qualquer outra imagem, senão esse trecho do livro de Jó. Nesse instante, percebi que, desde o primeiro frame, o filme já tinha me capturado, me levando ao início de uma contemplação e reflexão, que eu sequer havia imaginado que o filme poderia me levar.

As freiras nos ensinaram que existem dois caminhos na vida. O caminho da Natureza e o caminho da Graça. Você precisa escolher qual deles irá seguir. A Graça não procura satisfazer a si própria, ela aceita que a desprezem, que a esqueçam, que não gostem dela. Ela aceita ser insultada e ser ferida. A Natureza só quer satisfazer a si mesmo, e fazer com que os outros a satisfaçam. Ela gosta de ser livre e que façam a sua vontade. Ela procura razões para ser infeliz quando o mundo todo está feliz ao seu redor e o Amor está sorrindo através de todas as coisas. As freiras nos ensinaram que quem ama o caminho da Graça jamais têm um fim triste. Eu serei leal à Você aconteça o que acontecer.
(trecho posterior ao frame dos versículos citados acima)

Confesso que me faltam palavras para descrever tudo o que vi, ou melhor, o que eu senti ao ver A Árvore da vida. Mesmo porque algumas pessoas já teceram ótimos comentários sobre o filme e deram explicações que estão longe do meu humilde repertório. Essas contribuições, aliás, me ajudaram a compreender algumas partes mais complexas (que foi o caso do Guilherme de Carvalho, por exemplo. A propósito, seus comentários sempre me ajudam a compreender melhor a filosofia, a teologia e, agora, por que não dizer as artes? Você pode ler seu artigo sobre o filme aqui). Já outros escreveram sobre como o filme mudou suas percepções sobre a fé (como foi o caso do Zeca Camargo e você pode ler o blog dele aqui). Mas se eu pudesse me arriscar, humildemente eu diria que, para mim, o filme funcionou como uma luz e, por ser tão belo, acabou iluminando não a si próprio, mas a Deus. Sim, Deus é o foco, não tem como negar. Fiquei tão extasiada em ver uma obra de arte como essa, com imagens maravilhosas, trilha sonora perfeita, lindos enquadramentos, metáforas imagéticas*, narrações que poderiam facilmente ser pensamentos meus, tudo em conjunto glorificando a Deus, e o que é melhor: sem cair no clichê.

É confortante ver artistas como Malick – conhecidos da grande mídia e pertencentes a um circuito tão restrito – não abrindo mão de uma obra autoral e fazendo do cinema um verdadeiro suporte artístico. Seu filme nos leva à contemplação e à reflexão sobre a fé de um jeito que os filmes cristãos, com suas historinhas bobinhas e irreais, não poderiam fazer.

Obrigada, Malick, por nos levar à profundidade. E obrigada também a tantos outros “Malicks”, não conhecidos da grande mídia, mas que fazem a diferença em seu meio, nos presenteando com belas obras de arte, no cinema, na música, nas artes plásticas, no grafite, na poesia, no design, no artesanato, na gastronomia, na moda, enfim. Saibam que vocês nos inspiram, e que a arte é, sim, um meio de glorificar a Deus e também de trazer mais beleza e leveza à nossa vida.

E o que mais dizer sobre o filme?

Bem, eu diria para você: simplesmente o assista e se delicie com cada minuto dele. Acredito que, assim como eu, você também ficará com a sensação de que qualquer palavra, frase ou conceito que tente definir o que é ou o porquê do filme possa soar como mera especulação.

Trailer aqui:

A Árvore da vida [The tree of life], EUA, 2011
Diretor: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Fiona Shaw, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Kari Matchett, Dalip Singh, Joanna Going, Jackson Hurst, Brenna Roth, Jennifer Sipes, Crystal Mantecon, Lisa Marie Newmyer
Produção: Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, Brad Pitt, Bill Pohlad
Roteiro: Terrence Malick
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Duração: 138min.
Distribuidora:
 Imagem Filmes
Estúdio: Cottonwood Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment / Brace Cove Productions

 

metáforas imagéticas* = eu não sei se existe essa expressão. Na verdade, pensei em dizer que há metáforas através de imagens no filme (o que pra mim fez total sentido essa expressão, hehe)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A lua que inspira o amor, que inspira a arte: adoração em forma de poema

Lua

Quando a gente fala sobre adoração, logo vem à mente “músicas”.

Eu nunca tive a musicalidade muito afinada. Eu não canto, não sei e não gosto. Também não toco nenhum instrumento. Participei da fanfarra na escola, quando tinha uns nove ou dez anos, tocando caixa de guerra, nem sei dizer o porquê. Fiz aulas de violão por dois anos por vontade dos meus pais e detestava. Tenho vontade de aprender piano, mas… Eu sei que não vai acontecer rs. Me sinto desajeitada, desconfortável e nem um pouco apropriada de mim mesma. Não me sinto livre pra adorar. Resolvi, então, simplesmente não insistir nisso.

Mas sempre via a adoração ser associada às músicas e pensava: que desperdício!

Também via o tempo todo definições sobre a mulher, tachando-a como mais emotiva, afável, meiga e delicada e que ao adorar, uma mulher chora, se expressa veementemente, se fragiliza. Por essa definição, eu não seria mulher…

Particularmente, o meu maior momento de conexão com Deus e o qual eu me sinto realmente o adorando em espírito e em verdade¹, é quando olho para a lua. Em quaisquer de suas formas. Me sinto, verdadeiramente, re-ligada. Todas as vezes que vejo a lua e sou abalada por sua beleza, sinto o amor inexplicável de Deus e o adoro.

Porém, não é só nesse momento. Toda a natureza me faz refletir sobre a grandeza de Deus². E a natureza me faz refletir sobre a arte. E a arte também me re-liga e me leva a adorar, através da minha apreciação das obras de diversos artistas.

Mas eu queria criar um pedacinho de arte própria e adorar meu Deus com ela, de forma mais original e pessoal. Uma experiência diferente da que eu estava habituada. Adoração não é um momento, é um modo de vida. E aí, paralisei, porque estava tentando criar um momento específico para uma adoração específica. Não sei, mas isso não me caiu bem.

Eu esqueci e deixei correr de forma fluida e natural, espontânea como acredito que a adoração acontece. E, sem esperar, sem programar, escrevi meu primeiro poema para Deus:

“Essência da minha existência.
Minha inspiração e expiração.
Minha busca, meu caminho, minha saudade.
Meu grito por liberdade.
O raio de sol que me aquece.
A lua que me ilumina.
O sopro que me refresca.
O abraço que me conforta.
A voz que me consola.
O som que me alegra.
O impulso que me pulsa vida.
Acalento. Sussurro Suave. Paz. Plenitude. Serenidade”.

¹João 4:23 e 24.
²Salmos 19:1.
A foto foi tirada por mim, na rua de casa, num lindo entardecer.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Paz nas decisões

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Tomar decisões é sempre um parto. Passamos dias pesando prós e contras e, mesmo assim, o medo do desconhecido que acompanha a decisão não deixa a gente dormir ou comer direito. Ou o contrário: dormimos e comemos demais, por pura ansiedade sobre o que será. Então, finalmente, nos decidimos. Mas ainda assim, seguimos adiante com um pé atrás, sem ter muita certeza, procurando com rabo de olho algum flash lá trás que sinalize para nós que ainda podemos mudar de decisão, caso nos arrependamos.

E todo esse processo penoso não é privilégio de pessoas inseguras. Quando a decisão é séria, todo mundo pasta para tomá-la. Principalmente, se ela envolve alguma questão moral suculenta, daquelas que atingem em cheio o nosso ponto mais fraco.

Por muito tempo, tive dificuldade para entender o que Paulo queria dizer exatamente com o termo ‘árbitro’, quando escreveu: Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração (Colossenses 3.15, primeira parte). Porém um dia, enquanto assistia ao filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, captei finalmente o sentido desse versículo, numa cena sensacional. Quando Joel (Jim Carrey) chama Clementine (Kate Winslet) para sair, sendo ele quase casado com outra pessoa, ela recusa e responde: eu sou só uma garota cheia de problemas, procurando minha paz de espírito. Não me torne responsável por sua paz de espírito também.  Pronto! O elemento-chave estava aí: paz. Devo sempre buscar por ela, em todas as minhas decisões. Na verdade, em termos simples, nem preciso me dar ao trabalho de escolher, porque é a paz que fará a escolha por mim. Ela aponta o caminho e eu sigo por ele. Claro que outros elementos vão tentar trabalhar contra esse fluxo, mas aí é ligar o modo automático em Deus e seguir em frente, sem muitas conjecturas – ouso propor. Afinal de contas, desde quando os fantasmas não fazem parte do pacote da existência pós-queda? A graça de tudo isso, porém, está justamente em dependermos da Graça.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A imagem veio daqui