A Dança da Vida

The Essence of Ballet - La Bayadére - Edition 7 @ 2014 - ingridbugge.com
The Essence of Ballet – La Bayadére – Edition 7 @ 2014 – ingridbugge.com

– Vamos dançar? – a Vida me convidou.
E, assim, começou minha grande aventura,
marcada para esse tempo e espaço.

O tempo, passando foi.
E deixei o ritmo acelerado desse tal tempo ditar o rumo.
– Acho que algo está fora de compasso, fora do prumo – senti.

– É… Acho que entendi.
   É que, durante a dança, esqueci que tenho par e
   sozinha continuei a dançar.

– Vida, onde te deixei? – cansei de sozinha dançar.
– Você cansou porque esqueceu que Eu sou o seu par!
    Me permite te (re)conduzir? – sussurrou a Vida para mim.

E eu, cansada de sozinha dançar,
me entreguei novamente à dança,
mas, agora com a Vida feito par.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Eu & Ele

Talvez, ao chegar em casa, eu te convide para uma conversa, um diálogo, um bate-papo sobre a vida, escolhas, decisões, esperanças, esperas… E sobre como algumas coisas que acontecem e todos dizem ser permissão tua, são tão dificeis de compreender, aceitar, entender…

Talvez, eu faça um café ou chá e te convide pra sentarmos à mesa, numa tentativa maluca de dar um tom informal a nossa conversa, e, assim quem sabe, você responda a alguns dos meus dilemas, me dê respostas à perguntas há muito esquecidas ou mesmo deixadas de lado por parecer não haver saída.

Talvez, eu lhe escreva uma carta contando como tem sido dificil a angústia da espera, como meu coração oscila entre momentos de paz e esperança, de apreensão e medo.
Talvez, eu ponha uma música que me faça pensar em você e te diga então, o quanto me sinto cansada e envergonhada por estar sempre me desculpando pelas mesmas coisas.

Eu não vou me perder dessa vez! Na correria da cidade, as luzes acendem e quase me esqueço que estou com você. Nossa conversa não se estende, e eu adormeço com a ideia de continuar numa próxima vez…
Você é paciente e sempre me espera. Sempre me entende e eu continuo o monólogo sem te dar chance do retorno.

E num rompante de coragem, resolvo mudar o rumo do papo: me conte de você! Me fale como foi ser tão obediente, como pode continuar sendo tão tolerante? Me fale da sua vida, o que passa pela sua cabeça? Por que me ama tanto? Quero que fique até sentir seu perfume em todos os cantos da casa, até que eu tenha gestos parecidos com os seus. Converse mais comigo, até que eu pegue o seu jeito de falar, caminhar, amar…

Quero aquele algo íntimo que faz de gente tão diferente parecer igual, e de tão igual, não se sabe onde começa um e termina o outro. E só assim poderei dizer que estou em ti e você em mim.

E então, talvez assim, eu entenda que não se trata de mim, nem das minhas dores, anseios, esperas… Mas sim, de você.

“Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada”.
(Lucas 10.42)

 


Alesandra Freitas é mineira, estuda Teologia, é formada em Pedagogia, trabalha com Educação e ama aprender com os pequenos.

Parem o mundo que eu quero descompressurizar

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Criar, educar e amar um filho (não necessariamente nessa  ordem) têm sido uma tarefa tão desafiadora para mim, que me  deixa, por vezes, exausta. Não disponho mais das mesmas horas  de sono, nem do mesmo tempo livre – que, quando existe, é  dedicado a uma brincadeira ou um passeio mais longo com o bebê  –, nem do mesmo pique para frequentar festas ou eventos cheios  de gente. Minha vida nunca foi tão corrida e dependente da minha  atuação como agora.

Mas existe algo que tem o poder de me desgastar ainda mais do que os cuidados inerentes à maternidade: a realidade do mundo. Pessoas impondo sua visão sobre as outras, sob o argumento de que discordar é intolerar ou discriminar, polêmicas estéreis infindas sobre partidos políticos, teologias, o chef de cozinha que falou mal do brigadeiro, o cantor que pediu mais respeito em seus shows. Greves, guerrilhas, tragédias, desemprego, deseducação, carências, melindres, preconceitos sufocados pela ditadura do politicamente correto (e os politicamente corretos jurando que estão vencendo o preconceito, como se ele fosse um problema fácil assim, de superfície, quando o buraco é bem mais embaixo, onde poucos têm acesso).

Obviamente que, globalizados como estamos, esses e outros problemas não são exclusividade do Brasil, mas reverberam em maior ou menor grau por todos os continentes. A questão não é brasileira, mas humana. E é aí que me bate um cansaço, uma preocupação, uma tensão nos ombros: o que será de nós??

O convite de Jesus, então, aparece como um alívio, uma esguichada de água em dia quente, uma coca gelada com limão para acompanhar a feijoada: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28). Sério mesmo, Jesus? Sério que posso chegar até você e ter todo o peso do mundo retirado dos meus ombros: pressão, prazos, polêmicas, mimimis e todo o resto??

E, assim, numa oração, sou descompressurizada.

O convite de Jesus ao descanso é autenticamente democrático. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, pode aceitá-lo e usufruir de seus efeitos. É revigorante e, de quebra, nos torna bem preparados e ativos para retornar ao cenário do caos.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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