O que você quer?

Escrever sobre o livro O que você quer?, da escritora norte-americana Jen Pollock Michel, lançamento da Ultimato aqui no Brasil, significou um mundo de coisas para mim. Primeiro, porque esta é a primeira resenha que escrevo aqui no blog; segundo, porque sou apaixonada por livros; e último, mas não menos importante, porque eu mesma quero me tornar uma escritora um dia. Assim, se apenas por comentar sobre a obra de outra pessoa já me dá um frio gostoso na barriga, imagina só a insônia que eu não vou sofrer quando eu escrever o meu próprio livro e ele for comentado por alguém. Vai ser incrível!

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Nosso exemplar :)

A empatia que senti pela Jen, a escritora, desde o início, não diz respeito apenas à nossa paixão comum, a escrita. Logo nas primeiras páginas de seu livro, já percebi que tínhamos, pelo menos, mais duas afinidades: a tendência de escrever de maneira informal, como no blog, e a predileção pelas confissões. É reconfortante ler que outra pessoa também passa por perrengues emocionais e espirituais, bem semelhantes, aliás, aos meus. Dá uma sensação de irmandade, como se a autora fosse uma grande amiga minha e escrevesse para me mostrar que eu não estou sozinha.

Outro ponto empático entre nós duas aconteceu quando entendi qual seria o tema do livro: o desejo. Está aí um tema comum à raça humana inteirinha, mas que pouco é discutido nas igrejas. Segundo a autora, o desejo, no contexto eclesiástico, geralmente é visto como essencialmente mau, logo, deve ser suprimido do vocabulário e do imaginário dos membros como peste em plantação. O problema é que não adianta fingirmos que o desejo não existe, porque somos feitos dele. Desde bebês, somos guiados pelo que sentimos vontade e esse impulso tão primário tem muito a dizer sobre quem somos e quem nos tornamos. Se não o encaramos de forma honesta é porque o tememos. O grande desafio para nós todos – e que Jen enfrenta com profundidade – é encontrar o lugar do desejo dentro da proposta de Deus para a humanidade.

O que você quer? é um livro belamente tecido de forma a nos convencer de que o querer, em si, não é um problema, mas algo natural e bom: embora facilmente corrupto, o desejo é bom, correto e necessário. É uma força motora na nossa vida, um meio de transporte (p. 200).  E não só isso – a autora defende também que temos total liberdade de dizer a Deus o que queremos. A oração é o ato corajoso de colocar nossos desejos autênticos diante de Deus (p.116).

Mas se engana quem pensa que esse livro é uma apologia ao desejo desenfreado e inconsequente:  é-nos concedida a coragem de querer, mas também nos é concedido o entendimento de que obter o desejo do nosso coração, quando esse coração é idólatra, pode ser a nossa maior tragédia (p.200).

E é nesse equilíbrio entre as visões sobre o desejo, juntamente com um embasamento bíblico incrível, que Jen Pollock Michel fala diretamente ao nosso coração, nos confortando com a esperança de que não somos ETs dentro do Corpo de Cristo por assumir o que queremos, mas sim seres feitos por Deus para desejar.


*O básico do livro:
O que você quer?  – Desejo, ambição e fé cristã
Título original em inglês: Teach Us To Want
Autora: Jen Pollock Michel
Editora Ultimato
224 páginas

** As ilustrações deste post foram retiradas da página da Editora Ultimato no Facebook.
*** Agradecemos à Editora Ultimato pelo presente.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A incansável necessidade de interpretar tudo

Henrietta Harris
Retrato desconstruído pela artista Henrietta Harris

Tenho uma tendência quase que automática de ficar interpretando o que os outros querem dizer com certas frases ou atitudes. Se uma amiga troca mensagens monossilábicas comigo pelo Whatsapp, logo presumo que ela esteja brava ou chateada; se minha mãe começa a dar conselhos sobre como criar o meu filho, suspeito que ela ache que eu não cuido dele direito e por aí a lista vai, com uma infinidade de situações que serviriam de exemplos para a minha necessidade de ler nas entrelinhas de tudo, o tempo todo, sem trégua. Assim, vou criando histórias e interpretações mirabolantes na cabeça, como uma forma de explicar aquilo que desconheço por completo e que é o que me angustia de fato: a motivação das outras pessoas para agir como agem.

Tal atitude só tem lados negativos: a ilusão de que você está enxergando uma situação por todos os ângulos, a ilusão de que você tem controle sobre os fatos e a ilusão de que você é a espertona da história, que captou tudo. Sim, você de fato captou…. você captou tudo errado. Sinto ter de admitir, mas ao interpretarmos as ações alheias, cometemos julgamentos, injustiças e ainda corremos o risco de reagir de acordo com esse mundo de equívocos e, assim, magoarmos nossos queridos de graça, sem a menor base na realidade.

Mas não quero que neste meu texto falte a empatia. Afinal, escrevo justamente por sofrer – e muito! – desse mal da interpretação ininterrupta. Existe dentro de nós – amantes da interpretação – uma ansiedade por entender o mundo, as pessoas… queremos solucionar o quebra-cabeça das relações humanas e, por isso, nos entregamos aos pensamentos equivocados, crendo que são reais. Vamos observando a realidade de perto… depois de mais perto… depois de mais perto ainda, até que ela vai se distorcendo e saindo de foco, perdendo a proporção. Seria uma tendência nossa de querer brincar de Deus? Pode ser. Como também pode ser uma vontade incontrolável de antever todas as possibilidades para se evitar uma grande dor.

A questão em tudo isso é que ser um amante da interpretação e enxergar em tudo um enigma a ser desvendado cansa. Desgasta. Passamos a não acreditar em mais nada e em mais ninguém e perdemos a graça existente na credulidade, na ingenuidade – o oásis do não-saber.  Às vezes vamos acabar nos dando mal por acreditar em alguém, é verdade. Por outro lado, vamos ganhar muito mais em intimidade, cumplicidade, confiança e alegria. Nos libertamos e libertamos os outros do fardo impossível da perfeição. É relaxar e deixar a cargo de Deus o que só Ele consegue fazer: conhecer a fundo os porquês do coração humano.

 

Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros!

Fernando Pessoa no Livro do Desassossego

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A arte da autossabotagem

Michelle Kingdom - www.michellekingdom.com
Michelle Kingdom – michellekingdom.com

Um texto, dias atrás (Gente que tá atrás do relacionamento perfeito mas não se entrega a relacionamento algum – via Papo de Homem), me chamou a atenção.

A princípio, porque o texto foi escrito por um homem, e confesso, achei que ele escreveu sob um olhar atento e sensível para o tema (como se homens não fossem capaz de tal proeza. Sim, admito: meu pensamento foi pobre, limitado e enviesado, desculpa aê gente!). Mas, ao finalizar a leitura, percebi que era um post patrocinado, ou seja, o conteúdo, na realidade foi pensado e escrito para vender! A propaganda, ao meu ver, sugeria algo entre a “solução” para pessoas tímidas (óbvio! já que se referia a um app de relacionamento virtual) e uma “vantagem” para as mulheres, pois, o poder de “escolha” nesse app é colocado como sendo nosso, já que são as mulheres que “chegam” e “escolhem” os caras colocando os mais interessantes no seu “carrinho de compra”. Ok, críticas à sites de relacionamento a parte (quem sabe um dia eu não escrevo sobre isso?!), ler esse texto, sobretudo dias atrás, foi muito legal para mim. Justamente porque eu estava refletindo sobre o tema abordado no texto. Aliás, me arrisco a dizer, que foi o texto que jogou luz no que eu estava pensando e tentando compreender. Então, mesmo que ele tenha sido pensado para ser uma propaganda acabou me ajudando a dar nome a arte de dificultar (às vezes de impedir) alguma coisa para si mesmo: a autossabotagem.

O texto é escrito por um cara casado falando de seu amigo solteiro. O papo é informal: uma conversa de boteco – e entre risadas e cervejas, o cara casado observa que a cada história contada pelo seu amigo o que fica claro e evidente é sua autossabotagem. Sua busca pelo relacionamento perfeito e, consequentemente, pelas namoradas (ou candidatas) perfeitas, não o deixa viver e desenvolver qualquer relação em potencial. Mas, quem foi que disse que relacionamentos não são complicados? Porque pessoas são complicadas, logo, relacionamentos também o são. A grande questão é como eu lido com tudo isso, ou melhor, com toda essa idealização de relacionamentos e pessoas.

Infelizmente, vivemos em uma época que tudo é demasiadamente idealizado e uma das consequências é a supervalorização da perfeição (o selfie perfeito com o ângulo perfeito; a viagem perfeita com o clima perfeito no país perfeito; o trabalho perfeito com a carreira perfeita e o salário perfeito; o namoro perfeito para o projeto de casamento perfeito com filhos perfeitos). Tudo tem que ser tão “perfeito” que nada dura; muitas vezes sequer começa! Acredito que essa (auto)análise seja como uma via de mão dupla: reconhecer no outro suas falhas e imperfeições implica olhar para dentro de mim e também admitir que tenho inúmeras falhas e imperfeições. Mas, em tempos como os nossos, em que a imperfeição não é tolerada, o descarte é inevitável e acaba sendo a “única solução”.

Outra coisa que percebi com a autossabotagem é que além de não querer olhar para meus próprios defeitos, eu fico em uma zona de conforto extremamente cômoda, reclamando da vida (como se eu não fosse sujeito-ativo nela) desejando arduamente por mudança alheia, é claro! Porque convenhamos, é muito mais fácil achar que o problema está somente no outro, jamais em mim. Assim, seguimos vivendo e esperando que tudo e todos mudem, menos eu. Mas, viver não é também mudar? Crescer? Se transformar?

Pensando sobre isso, e sobre as minhas próprias idealizações, ao me deparar com o texto, percebi que muitas vezes eu também me autossaboto deixando de viver relações (nas esferas mais diferentes possíveis) que poderiam me ser tão enriquecedoras. Quem sabe?!

Então, eu oro. Oro para que Deus me ajude a ter coragem e que dia a dia eu me torne cada vez mais vulnerável. Mas, não essa vulnerabilidade que é sinônimo de fraqueza moral, mas, a vulnerabilidade que me coloca em contato com o mundo e com o outro. Que me abre e me conecta com experiências, que me faz sentir viva sendo simplesmente quem sou. Oro também para que, antes de enumerar as diversas falhas do outro Ele me ajude a enxergar a viga em meu próprio olho. E, assim, sigo tentando dia a dia me lembrar mas principalmente viver isso…

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Vinho, desperdício e inteligência

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Sangria que fizemos em casa a partir de um vinho “ruim”

 

Algum tempo atrás recebemos amigos aqui em casa, que trouxeram uma garrafa de vinho. Ao prová-lo, meus amigos o acharam azedo e não só jogaram fora o vinho que estava na taça deles, como queriam jogar a garrafa inteira pelo ralo. Quando sugeriram isso, meu marido e eu trocamos olhares esbugalhados de espanto, como se nossos amigos tivessem proposto a coisa mais obscena do mundo. Foi uma reação automática, sem que a gente tivesse tido tempo de disfarçar. Para nós dois, que desenvolvemos juntos a cultura do não-desperdício, ouvir alguém dizer que vai jogar fora algo que não está estragado e que ainda nem acabou nos deixa, de fato, atordoados. O desperdício – não só de comida, mas de qualquer outro bem de consumo – se tornou uma das minhas maiores dores quando penso nas grandes questões sociais/globais/humanas/e-o-que-mais-couber-aqui.

Para começar de um ponto de vista bem capitalista, tudo o que você desperdiça representa dinheiro. Dinheiro que você pagou pelo vinho (você jogaria 30 ou 40 reais pelo ralo??) e que você conseguiu com o seu trabalho. Já pensou se o seu chefe “joga pelo ralo” uma hora do seu serviço e não te paga? Afinal, o correspondente em salário desse tempo vai pelo ralo em forma de vinho mesmo. Que diferença faz?

Em segundo lugar, existe a questão administrativa das coisas. Explico: se você administra seus compromissos, sua rotina, suas responsabilidades no trabalho, seu dinheiro e seus relacionamentos, por que não administrar o seu consumo e o excedente dele? Será que você realmente precisa comprar tanta carne no fim de semana, sabendo que você só estará em casa no sábado e no domingo e que, a partir de segunda-feira, você volta a comer perto do trabalho? E quando você vai a um restaurante, você come tudo o que está no seu prato? Se a resposta for não, por que não? Será que não conseguiu calcular corretamente o quanto seu estômago aguenta ou será que você já está intoxicado com a cultura da sobra, do lixo, do desperdício? Com isso, não estou sugerindo que você coma pouco e passe fome, claro que não. Mas convido você a fazer uma reflexão inteligente sobre o que é suficiente. Ah, essa palavrinha… tudo o que vem em porções suficientes na nossa vida nos satisfaz e não prejudica os outros.

Falando em outros… eu não poderia deixar de citar aqui o que o desperdício representa para as pessoas que você não conhece, mas que existem mesmo assim e que têm o mesmo direito que você àquilo tudo que você não só consome, mas joga fora. Eu poderia citar estatísticas, mas serei direta quanto à relação “você-desperdiça-na-sua-casa-e-uma-pessoa-na-Etiópia-passa-fome”:  jogar comida fora significa que você compra demais (mais do que precisa), o que acaba valorizando o que é produzido e permite que o produtor cobre mais caro pelo alimento que produz. Uma vez que o alimento está caro, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-lo e, dessa forma, ele não chega até a mesa dos menos favorecidos. Simples e triste assim. Eu poderia falar de questões ambientais também, como o excesso de lixo orgânico, além da exploração nas relações de trabalho, trabalho escravo e um mundo de outras coisas, mas acho que você já entendeu o meu ponto.

Por fim, este parágrafo é para os cristãos: desperdício é pecado. É você desconsiderar o que a terra produz, é você administrar mal o que Deus te dá, é você não pensar no outro nem na Criação (afinal, está contribuindo para o acúmulo de lixo), é você querer mais do que precisa, é você mostrar ingratidão a Deus porque não está contente com o que Ele te dá, é você pensar só em você mesmo. Está bom ou quer mais?

Sim, a questão do desperdício é complexa, profunda, delicada e chata de ser abordada. Mas pode ter certeza que, quando você domina a arte do não-desperdício, você se sente livre, satisfeito e ainda tem um dinheirinho extra – fruto dos gastos controlados – para investir naquele sonho antigo seu. Para mim, o não-desperdício foi uma lição que aprendi aos poucos, depois de muito conviver com o David, meu marido, que, por ser filho de pais que viveram num contexto de guerra, aprendeu a reaproveitar tudo. Tudo mesmo.

Se você estiver sem ideias sobre como reaproveitar as coisas, aqui vão algumas sugestões que usamos aqui em casa (mas que são só isto mesmo: sugestões. O intuito é você adaptá-las de acordo com a sua realidade e disposição):

– O vinho ruim pode servir para receitas ou para uma refrescante sangria em dia quente (a foto lá do topo comprova que dá certo);

– Se você tem plantas em casa, as cascas de frutas e legumes podem virar adubo; além disso, fazemos também caldo de legumes com essas cascas (cozinhando tudo junto – até a casca da cebola – por algum tempo) e os talos dos brócolis, da couve, do espinafre e da couve-flor viram uma sopa-creme deliciosa em noites frias.

– Até 1 ano de idade, o nosso filho Álef usou fraldas laváveis. Ao contrário do que você pode pensar, essas fraldas são modernas e feitas para entrar sem dramas na máquina de lavar. Usando essas fraldas, produzimos menos lixo e economizamos um bom dinheiro (e não, não gastamos mais água por conta disso. Gastam-se muitos mais litros do que a nossa modesta máquina de lavar na produção de uma única fralda descartável).

– Sacolas plásticas de mercado só entram em casa por pessoas que vêm nos visitar.

– Fazemos os presentes de aniversário que damos (tenho certeza que alguma habilidade artística você também tem).

– Fazemos o nosso próprio pão, a nossa manteiga, a nossa geleia… dá mais vontade de comer até o fim.

– Temos espátulas de silicone de vários tamanhos diferentes. Elas permitem que a gente raspe fundinhos de copo de requeijão, panela, liquidificador e outros recipientes que acumulam restinhos que acabam sendo desperdiçados.

– Não enchemos muito a geladeira com sobras de comida, senão não damos conta de comer a tempo, antes que estraguem. E usamos sobras para fazer um novo prato: um arroz de forno, uma pizza de frango (sobrado) desfiado e por aí vai.

– Antes de irmos ao mercado, espiamos os armários e a geladeira e só compramos aquilo que irá repor o que já acabou. Ah, e também fazemos uma lista dos itens que vamos comprar antes de sair de casa. Isso nos ajuda a não cair na tentação de comprar mais do que precisamos.

– Só lavamos roupa quando temos roupas suficientes para encher a máquina. Senão, será desperdício de água e eletricidade na certa.

– Nem tudo o que passou da validade está estragado. A validade, na verdade, indica quando o produto está em sua melhor época para ser consumido, e não que ele estará estragado depois disso, necessariamente. Isso tanto é verdade, que em inglês a expressão para a validade das coisas é “best before” (“melhor antes de”) e não “spoiled after” (“estragado depois de”). Cheirar o alimento, observar o seu aspecto e colocar um pouquinho na boca para testar o gosto ainda são as melhores formas para detectar se ele ainda está bom para o consumo. E não raras vezes, ele ainda está bom.

– Compramos o mínimo de produtos industrializados. Isso economiza dinheiro, evita o descarte excessivo de embalagens, ativa a imaginação para cozinharmos nossa própria comida e tentarmos receitas diferentes (que podem ser simples) e ainda nos faz mais saudáveis.

– A água de lavagem de frutas e vegetais vai para uma bacia e depois é destinada para matar a sede das plantas.

– Repassamos roupas em bom estado para outras pessoas e ganhamos roupas também. Isso vale especialmente para o Álef, que ganha quase tudo dos primos e depois repassa o que usou para o filhinho do mecânico que cuida do nosso carro.

– Por último e mais chocante item de todos desta lista (preparado??): substituímos os passeios ao shopping por visitas a museus (!!). Essa troca representa economia de tempo, geralmente desperdiçado na procura de vagas em estacionamentos superlotados e filas eternas nos fast-foods, além de limpar a nossa cabeça do consumismo e recheá-la de novo com cultura. :)

Claro que somos bastante criticados por adotar essas medidas todas (e olha que sabemos de gente que economiza bem mais do que a gente). As pessoas tendem a achar que riqueza e fartura significam você poder comprar e jogar fora o que comprou e que economizar é o mesmo que ser mesquinho, avarento. Para nós, que somos mais do que felizes com tudo o que temos, o não-desperdício ganhou outros três nomes: consciência, autocontrole e  inteligência.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Fazendo as pazes com a idade

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Cena do filme ‘Brazil’, de 1985 – uma distopia imaginada por Terry Gilliam

 

Com a proximidade dos meus 35 anos, também vêm chegando mais e mais pensamentos sobre o processo de envelhecimento. Mesmo que eu quisesse ignorar a realidade desse fenômeno, os sinais do meu corpo não me deixariam: já vejo alguns reflexos brancos nos meus cabelos e a minha pele mais marcada. Minha disposição para dançar, por exemplo, coisa que adoro, não é mais a mesma. Só de pensar no tempo que eu ficaria esperando na fila para entrar em alguma balada já me faz dar um suspiro profundo de cansaço. Abomino aglomerações e prezo mais do que nunca o silêncio. Resultado: me contento em dançar em casa mesmo, dentro das condições mais convenientes para mim (pois é, essa é a prova cabal de que estou, de fato, envelhecendo).

Mas o que poderia ser motivo para desespero está sendo trabalhado em minha mente para que se torne um aliado. Assim como quase todo ser humano desta geração, eu também não passei ilesa às influências do manual Disney-Hollywood para a vida: você só existe para o mundo se for jovem. Ou melhor, você pode até não ser jovem, mas sem dúvida alguma você precisa parecer jovem, mesmo que o preço para isso seja a sua identidade e você tenha que se transformar na Maga Patalógica (afinal, ela mesma é uma personagem Disney! Olha que ótima referência!).

Certa vez uma amiga me disse que nunca colocaria Botox ou nada que disfarçasse seu tempo de vida, porque aquelas eram as marcas de que ela tinha vivido. Achei isso tão sábio e… tão óbvio por ser um processo natural, não? De fato, viver deixa marcas, preenche os espaços vazios da nossa bagagem e escreve na pele da gente como hieróglifos de antigos egípcios nas paredes. É o corpo contando a nossa história: tombos levados na infância, artigos lidos com curiosidade de criança sobre rituais de tribos africanas, brincadeiras de professora com uma lousa caindo aos pedaços, a caixa d’água transformada em piscina (!) para duas amiguinhas em dia quente, o quase-afogamento numa piscina de verdade em Cuiabá; a paixão pelo inglês, a descoberta da literatura com Homero e Dostoiévski; os encontros dos adolescentes da igreja, os acampamentos, as experiências com Deus; o primeiro emprego no shopping, a viagem para Londres, os amigos que se foram e os amigos que chegaram; a faculdade de Letras, o mestrado, o casamento que não deu certo, a terapia que deu; a igreja maravilhosa que se tornou segunda família, o segundo casamento, o primeiro filho, o trabalho que finalmente faz sentido. Quanta riqueza!

Quando olho para o Álef, meu filho de 1 ano e 5 meses, penso no quanto a mochilinha de vida dele ainda é vazia. Se por um lado isso é promissor, claro que é, por outro, me causa um pouco de dó. Ele ainda não conhece tanta coisa bonita, profunda e gostosa como eu conheço… mal sabe ele o quanto a vida é incrível com suas dores e delícias. Vive na ignorância pura de uma existência ainda bebê.  Não consegue sentir o prazer de tomar grandes decisões por si mesmo, nem preparar uma comidinha saborosa na hora que quer. Não consegue ler Georges Bernanos, nem flutuar na suavidade da voz norueguesa do Kings of Convenience ou dançar ao som de Beirut (sou eu que proporciono esse prazer para ele, segurando-o no meu colo enquanto danço). Sua capacidade de apreender o mundo ainda é tão limitada! Que bom que nem sempre será assim para ele.

Por que então eu iria querer aparentar ter vivido pouco como o Álef ou como um adolescente? No que isso adiciona? Pelo contrário, subtrai! Recuso-me a ser uma pele repuxada para permanecer parecida com alguém que ainda não provou da vida. Não. O meu rosto é o distintivo da soma de todas as minhas experiências e quero me orgulhar dele, me sentir grata por tudo o que ele representa, por tudo o que de mim ele mostra para os outros. Que venham as rugas, os sulcos, as manchas, os cabelos brancos que um dia eu espero não tingir. Claro que me cuido e quero continuar me cuidando, mas se cuidar é bem diferente de se auto-enganar. Afinal de contas, assumir a vida é não temê-la, é entregar-se a ela toda até que, de tanto ter sido vida – em sua máxima capacidade – ela se esvaia de nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Feliz Luta Internacional da Mulher

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Imagem daqui.

Hoje é dia Internacional da mulher e, entre tantas mensagens nas redes sociais, notícias e falatórios, lojas oferecendo rosas às mulheres nas ruas, empresas fingindo que valorizam suas funcionárias e presenteando com “coisas de mulherzinha”, me pergunto se as pessoas realmente sabem o motivo dessa data ter sido instituída e a importância que essa luta (sim, luta, não é comemoração) tem pra toda a sociedade. Se você não sabe o motivo do dia 08 de Março ser estipulado como Dia Internacional da Mulher, vá atrás de saber. Não, eu não vou dar o caminho das pedras, vá ao Google, vá pesquisar. Se você que está lendo isso é uma mulher, digo isso porque faz parte do empoderamento feminino ir atrás daquilo que se quer, tornar-se protagonista das próprias decisões e escolhas, estudar, pesquisar, ir além. Se você que está lendo isso é um homem, faz parte da sua humanidade entender porque é que o dia 08 de Março é um dia de luta e não de entregar flores ou bombons às mulheres.

Pensar no Dia Internacional da Mulher, é, pra mim, angustiante, porque ser-mulher é uma das coisas mais difíceis que existem.

Eu não quero, no dia de hoje, receber flores, mensagens fofas ou declarações de quanto as mulheres são lindas ou poderosas porque “fazem tudo que o homem faz, de salto alto”. Não quero brindes comerciais que só servem pra fomentar a produção capitalista massificante ou enobrecer empregadores que no resto do ano não fazem porcaria nenhuma por suas funcionárias e/ou clientes mulheres. Não quero um jantar chique num restaurante, não quero que seja o dia de “folga dos afazeres domésticos”, o dia que os papais “ajudam” as mamães olhando as crianças pra elas irem tomar um café com as amigas. Não quero ser ressaltada e elogiada por minha fragilidade (hein?), minha capacidade de cuidar de marido e filho (oi?), minha competência de fazer jornada dupla – trabalho e casa (hahaha).

O que eu quero é que meu direito de ir e vir, garantido por Lei, seja respeitado. Eu, como muitas mulheres, sinto medo de ir ao mercadinho perto de casa a pé, porque no meio do caminho tem uma praça que está sempre cheia de homens desocupados que me tratam como objeto e ficam fazendo caras e bocas que me dão vontade de vomitar e de esfaquear cada um deles, fazendo-os sentir muita dor. Eles dizem coisas que tenho vergonha de reproduzir em voz alta. Eles torcem os pescoços pra ver minhas pernas, minha bunda e meus peitos e eu queria que os pescoços torcessem de vez e quebrassem ali mesmo, no meio da praça.

mulher e o lobo
Re-significando a natureza selvagem da mulher. Foto daqui.

O que eu quero é meu direito de existir sozinha. Alguns anos atrás eu saí do meu antigo consultório, às 22h30m, sozinha, depois de trabalhar muito o dia todo. Era semi final da Libertadores e o Corinthians estava num momento histórico. Meu marido foi assistir ao jogo com amigos e eu preferi ir pra casa, mas, antes resolvi passar no mercado e comprar o jantar. No estacionamento, quando terminei de colocar a última sacola no porta malas, um homem e uma mulher (sim, existem mulheres ladras e más) me abordaram, avisando que aquilo era um assalto e me fizeram ir dirigindo até a agência bancária mais próxima. Limparam minha conta, apontaram uma arma pra mim, riram de mim, me humilharam, me xingaram, depois me fizeram dirigir até um beco, vazio e desconhecido por mim, saíram do carro levando a chave e me ameaçaram ao dizer que eu não devia procurar ajuda pra sair dali. Sabem o que eu ouvi da minha mãe, da minha sogra, de muitas amigas? “Nossa Talita, mas por que é que você foi ao mercado essa hora da noite sozinha?!” Também ouvi: você devia ter ido assistir ao jogo com seu marido, se estivesse ao lado dele, nada teria acontecido com você. E também ouvi: a culpa é do seu marido, se ele não tivesse deixado (isso mesmo, deixado, como se ele mandasse em mim) você ir ao mercado sozinha, isso não teria te acontecido; você devia ter ido com ele, outro dia, não nesse (sim, porque o marido deixar de assistir o futebol pra ir ao mercado não pode, entendeu?). Eu tinha sofrido um sequestro relâmpago, mas a culpa não era da violência, a culpa não era dos assaltantes, a culpa era minha por ser mulher e ter ido ao mercado sozinha.

O que eu quero é poder realizar as minhas atividades diárias e até passar por imprevistos na rua, sem medo de ser estuprada. Meu carro está com problemas no reservatório de água. Como eu trabalho demais e uso o carro pra trabalhar, ainda não tive tempo de deixá-lo no conserto. Ontem à noite (pois é, eu não aprendo sociedade, eu continuo indo trabalhar a noite, sozinha) estava indo pro trabalho e já tinha vazado, ao longo do dia, toda a água. Não tinha posto de gasolina no caminho (e mesmo que tivesse, eu não pararia, porque uma mulher sozinha não pode ir em paz ao posto de gasolina, os frentistas acham que podem ficar mexendo com a gente no ambiente deles, “masculino”) e então, fui com o carro fervendo até um dos Shoppings onde atendo, e, só lá, no estacionamento, peguei a garrafa de água que já deixei no carro e enchi o reservatório. E ainda tive que me preocupar em estacionar numa vaga próximo à porta de entrada, onde tem guarda e mais movimento. Sim, isso tudo porque sou mulher. Não é o máximo? E aí, no dia 08 de Março vêm me entregar flores? Ah vá.

O que eu quero é que ao invés de brindes como creme hidratante, batom, perfume, rosas, cartinhas coloridas, as mulheres ganhem no dia 08 de Março, de seus empregadores e outras empresas, DVD’s de filmes de grandes cineastas mulheres, como a Sofia Coppola, ou livros de grandes autoras, como a Clarice Lispector ou a Doris Lessing. Por que sempre tem que ser presentinho fofinho que incentiva a beleza física da mulher, e não sua inteligência, sua intelectualidade, seu brilho interno? Por que sempre os produtos de beleza são mais valorizados ou vêm em primeiro lugar, antes de algo que valorize a sabedoria feminina? E aqui eu indico a leitura desse texto, bacanérrimo, que a Ana Lucie – querida leitora do Santa Paciência – me enviou hoje, sobre a Jenny Beavan, ganhadora do Oscar 2016 de Melhor Figurino por Mad Max: Fury Road (história de uma outra super mulher!). Jenny já foi indicada ao Oscar DEZ vezes na categoria Melhor Figurino, já levou a estatueta em duas premiações (por Mad Max, já citado, e por A Room With a View), e recebeu olhares julgadores e tortuosos pura e simplesmente por ter escolhido ir vestida confortavelmente à entrega do prêmio, muito diferente das mulheres exageradamente arrumadas no tapete vermelho mais famoso do mundo. Sério, eu quero muito mais Jennys no mundo!

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Jenny Beavan, winner for Best Costume Design for “Mad Max: Fury Road”, poses during the 88th Academy Awards in Hollywood, California February 28, 2016. REUTERS/Mike Blake – RTS8H6D

O que eu quero é que os produtores de cerveja parem de usar a mulher como objeto sexual pra atrair mais consumidores homens e se lembrem que as mulheres também são suas clientes, também bebem cerveja.

O que eu quero é que parem de usar mulheres quase nuas como ring girls em eventos de lutas, como o UFC, só pra atrair Ibope pros canais televisivos e pro “show” em si. E quero que mais mulheres lutadoras tenham espaço no esporte de lutas e artes marciais. Quero que homens pensem quinze vezes antes de dizer que alguém mais fraco ou menos habilidoso “luta igual uma menininha”. Quero que entendam que mulher também gosta de esportes, inclusive de MMA, porque esporte é esporte e ponto, não existe esporte de homem ou esporte de mulher.

O que eu quero é que as mulheres tenham direito à educação, direito à voz. Eu já escutei uma moça dizendo que se ela tivesse oportunidade de colocar só um dos filhos em escola particular, seria o menino, porque ele se tornaria o líder da família quando adulto, o provedor, então precisaria ter melhor educação. A filha não, tudo bem estudar na escola pública, mesmo. Não te dá vontade de chorar de tristeza? A mim, dá.

O que eu quero é que meninas em idade escolar não se sintam mal por não serem as populares, as preferidas pelos garotos por alcançarem um padrão ridículo de beleza. Quero que meninas parem de sentir que precisam ser as preferidas dos garotos pra se perceberem como seres humanos importantes. Quero que meninas tenham a oportunidade de crescerem seguras, aceitas, queridas, antes de tudo, por si mesmas.

O que eu quero é que deixe de existir esse acúmulo terrível de notícias sobre feminicídio, sobre homens e mulheres que matam suas parceiras por ciúme e possessividade, que espancam suas esposas porque se sentem poderosos e superiores, que violentam física e emocionalmente meninas, tirando delas a liberdade de crescer em uma vida em paz.

O que eu quero é valorização no trabalho. Não é mais destaque, não é mais firula, é reconhecimento daquilo que as mulheres já fazem o tempo todo. Quero que as mulheres não sejam mais assediadas sexual ou moralmente por seus chefes (homens ou mulheres). Quero que tenham salários baseados em suas competências, não no que tem (ou não tem) no meio das pernas. Quero que mulheres não sejam fantoches de homens.

O que eu quero é respeito, entendeu? Quero que as mulheres sejam tratadas com dignidade. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres com educação e gentileza, com presteza, com afeto. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres como seres humanos que são, co-existentes no mundo. De forma justa. Quero mais mulheres empoderadas, quero menos homens babacas.

Quero mais mulheres como a descrita em Provérbios 31. Essa mulher hardcore, como eu disse aqui uns dias atrás.

Se você pegar a Bíblia e ler decentemente o que está escrito em Provérbios capítulo 31, do versículo 10 até o 31, vai entender que a mulher que Salomão (um homem, sim, um homem, um rei, descrevendo características de uma mulher “de valor”; baixa a guarda e presta atenção) descreveu como virtuosa não é uma cafona, bobalhona, amélia, domesticada (no sentido ínfimo de cada palavra). Ele já começa dizendo que a bendita é difícil de achar. Ou seja, se é difícil de achar, também é difícil ser, certo? Certo. Depois ele fala que essa mulher vale mais que diamantes. Que ela é confiável, tem temperamento equilibrado, é inteligente, não é do tipo que é passada pra trás, é esperta. É analítica, de mente organizada, planeja, não tem medo de trabalhar pesado e sente alegria e prazer no trabalho. Não tem pressa de dar o dia por encerrado e compreende o valor do que faz, compreende o valor que tem. Ela se cuida, se preocupa com si mesmo e também não demora em ajudar quem precisa dela, sendo que sempre tem o que oferecer, porque é prevenida e habilidosa. Faz as coisas com zelo, é criativa, intuitiva e sabe bem o que faz e o que diz. É atenta, sabe dar orientações eficazes e conselhos sábios. Torna quem está ao seu redor produtivo e sempre encara o dia de amanhã com um sorriso. É humilde e vive no temor do Eterno, seu Deus.

lucia e aslan
Aaah, Aslan! (Cena do filme As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian)

Percebe que essa descrição bíblica combina com o conceito de uma mulher forte e de atitude? Pois é, combina. Percebe que é o conceito de mulher que não é obrigada a casar e ser mãe pra ser feliz, que trabalha e garante seu sustento, que vai atrás do que quer, que não fica à sombra dos homens? Percebe que é uma mulher que brilha? Isso é o que eu quero pra mim e pra você, querida mulher, hoje e todos os dias.

Feliz Luta Internacional da Mulher.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Não nos deem os parabéns

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‘Mirror’, por Tigran Tsitoghdzyan, óleo sobre tela

 

Não gosto de receber ‘parabéns’ pelo dia das mulheres, nem flores, menos ainda um poema breguinha. E explico por quê:  minha indisposição para sorrisinhos e congratulações não se devem à data em si, que é, na verdade, um marco na história feminina e deve sim continuar no calendário como um memorial de que, um dia, mulheres se recusaram a ser exploradas no trabalho e lutaram por seus direitos como… seres humanos que são. Entretanto, com o passar do tempo, a força dessa data começou a ser diluída e, no lugar, passamos a receber gracejos e elogios por nossa fragilidade (!!), quase como uma declaração do tipo: “sinto por você ter nascido mais fraca, mas veja pelo lado bom, você é bonita!”. Aff!

Quando leio Provérbios 31.10 em diante, respiro aliviada: Salomão entendeu do que somos feitas e, acima de tudo, fez uso da palavra que resume todas as coisas, que atinge o cerne da questão feminina e que responde a pergunta sobre o que eu quero receber no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano e da vida: DIGNIDADE (verso 25).

Pronto! Se fosse dignidade o que regesse nossas relações todos os dias do ano, a mulher não serviria de objeto sexual, não veria seu direito à educação negada em países regidos pelo Talibã, não teria medo de ser estuprada na rua quando seu carro quebrasse no meio da noite (pois é, isso aconteceu ontem mesmo), não seria alvo de piadas, nem de agressão física, nem de preconceitos de diversas naturezas.

A passagem da mulher virtuosa de Provérbios não é apenas uma homenagem (aí sim, genuína e linda e recebo-a no dia de hoje com o coração aberto e feliz) para as mulheres, mas sim uma lição para a humanidade sobre dignidade, respeito e justiça. Se fossem esses os princípios que regessem as nossas relações de fato, os poemas, os ‘parabéns’ ou qualquer outro gesto atencioso não teria esse gosto de coisa forçada, artificial, hipócrita, do tipo você-finge-que-me-respeita-e-eu-finjo-que-acredito. Se aprendêssemos com Provérbios 31, este momento seria mais um dia de celebração natural do amor e da graça de Deus, espelhados através de todos nós sobre todos nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a tal mulher virtuosa

A Bíblia, ao contrário do que muitos pensam, não é um livro (ou um conjunto de livros) retrógrado, desatualizado e completamente fora de contexto. Creio realmente que até aqueles que não acreditam em sua veracidade, e como nós, a têm como Palavra de Deus, poderiam se beneficiar (e muito!) de seus conselhos. Porque se tem uma coisa que o homem está fadado é repetir, e repetir, e repetir os mesmos erros. Indiferente de época, civilização ou cultura. É isso: somos previsíveis!

Linda ilustração de Lady Desidia (ladydesidiashop.bigcartel.com)

Mas, hoje, meu intuito não é esse, aproveitando a data comemorativa, o Dia Internacional das Mulheres, gostaria de discorrer um pouquinho sobre a tal mulher virtuosa que Salomão fala em Provérbios 31 e que também tece tão belos elogios.

O que me chama a atenção logo no início do texto é a cumplicidade que esse casal tem. Ele fala que Seu marido tem plena confiança nela 11 e ao meu ver, confiança, é um dos itens de necessidade básica para qualquer relacionamento, quem dirá em um casamento! Como ser-casal sem ter confiança? Como ser-casal sem ser unidade? Como se relacionar sem confiar? Então, item básico exposto, prossigamos a análise…

Posteriormente, Salomão fala sobre várias atividades domésticas, de administração de negócios (eu disse negócios!), de virtudes altruístas, de habilidades manuais, de não ter medo (e muito menos preguiça!) de trabalhar, de ser acolhedora, do dom da educação, enfim, quando leio dos versículos 12 ao 28, na verdade, eu penso em muitas mulheres! E, com isso, eu não creio que ele esteja falando que uma única mulher, para ser virtuosa, tenha que saber, e fazer, item por item tudo aquilo que ele descreveu, como numa espécie de check-list. Por quê? Porque, para mim, é simples: primeiro que um único dia não seria suficiente para fazer tudo isso, a não ser que essa mulher não dormisse, porém, muito mais do que isso, penso que somos únicas, criadas com tanta criatividade e exclusividade que seria muito chato se fossemos todas idênticas umas às outras tentando ser aquilo que não somos e tentando calçar os sapatos que não são nossos (como já disse a Fernanda em um post tempos atrás).

Por isso, penso que Salomão foi extremamente sábio (e quando criança eu desejei tanto a sabedoria dele!) em discorrer em poucos versículos, as várias mulheres que existem, tomando o cuidado para não excluir a diferença. E, é exatamente aí, que eu vejo a graça desse epílogo: ele fala de mim, mas, fala de você também! Ele não exclui a diferença, mas exalta as qualidades que todas nós temos. Por isso, esse texto é tão belo, porque se há apenas algum item do qual devemos ser idênticas, é o que ele expõe no versículo 30, que devemos temer ao Senhor. Pois, temendo a Deus, acima de todas as coisas, seremos verdadeiramente recompensadas.

Um Feliz Dia das Mulheres para mim e para você!

Gif de Monica Crema: www.monicacrema.com.br
Gif de Monica Crema: http://www.monicacrema.com.br

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Nasci Menina, me pari mulher

O Santa Paciência chegou à minha vida em um momento de re-significações. E aí eu me propus a escrever um texto sobre feminilidade, mas, entendi que, então, eu preciso escrever sobre a mulher que eu quero ser. Como eu vou escrever sobre feminilidade, se eu não entendo bem a minha feminilidade? E esse texto será, na verdade, um parto daquilo que vem sendo gerado há exatos 29 anos na Terra, já que hoje completo minha vigésima nona volta ao redor do sol e entro no meu ano trinta, mais os 9 meses no ventre da dona Nena.

Fiquei pensando nessa mulher que quero ser e aí, me auto boicotei usando uma ferramenta conhecida: racionalizei. Eu racionalizo tudo, tenho resposta pra tudo e dessa vez a resposta foi: Talita, sua tola, você é existencialista, é ser-de-infinitas-possibilidades, nunca deverá se fechar num tipo só, você é o que quiser ser, não fique pensando nisso. Pois bem, de fato eu existo no mundo de formas diversas, mas, eu sinto a necessidade de me apropriar de mim mesmo, ser autêntica, e isso inclui pensar na minha feminilidade.

“Então chegou o dia em que o risco necessário de permanecer apertada em um botão era mais doloroso que o risco necessário para florir”.
(Anaïs Nin)

Sempre tive interesse no tema, provavelmente pelo fato de ter ouvido incontáveis vezes, desde pequena, que eu deveria ser mais feminina. Aliás, creio que escutei demais que eu deveria muitas coisas. Talvez, por isso, cresci me cobrando a perfeição e sendo tão intolerante às minhas falhas humanas e tendo contratura muscular durante a meditação no yoga. Meu Deus, quem é que tem contratura muscular em plena meditação?! Eu tenho. Eu tinha. Eu tive, não quero ter mais.

Nunca tive o perfil de mocinha. Eu gostava de brinquedos, brincadeiras, roupas e várias outras coisas consideradas de menina, mas, eu também gostava disso tudo quando era considerado de menino e eu era, já na infância, segundo meus pais, afiada nas respostas, teimosa, brava, arisca. Não combinava com a delicadeza que era esperada por parte das garotas. Contrariava, impunha minha opinião e não baixava a cabeça pros meninos. Incomum. Meio estranha. Dizem por aí que é porque sou de Peixes, mas eu não entendo muito bem de signos.

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Crédito na imagem

Sei que a cada dia que passa me descubro, me revelo e me desvelo, na tentativa de encontrar meu caminho próprio. Sim, o meu caminho, onde só se encaixam os meus pés, o meu corpo e o meu ritmo. Onde sou apropriada de mim. E ser menininha parece que nunca me foi próprio, embora traga isso em meu nome, nome próprio. Não é engraçado, aquilo que chamamos de próprio não foi escolhido por nós? Nosso nome.  Meu nome é Talita (sem h, pelo amor de Jesus Cristo nosso Senhor amém), uma palavra aramaica, cuja tradução em português é nada menos que menina. Sou-Menina. Nasci Menina. E embora cor de rosa, ballet e frufrus não combinem comigo, tem uma história sobre meu nome próprio que eu adoro, está registrada na Bíblia, em Marcos, capítulo 5. Tá, a história não é sobre meu nome, vai, mas nessa história Jesus falou meu nome num contexto que eu interpreto como fazendo parte de quem eu sou e do que eu tenho entendido como sendo próprio de mim.

Jesus estava passando por vários lugares, curando pessoas, fazendo milagres e mostrando sinais. Então, à beira mar, um cara chamado Jairo, que era um dos líderes da igreja dali da região, implorou que Jesus fosse ver sua filha, que estava morrendo. Jesus foi. No meio do caminho, algumas pessoas cruzaram com eles, vindas da casa do Jairo e falaram pra ele parar de incomodar Jesus, porque a filha dele já tinha morrido. Pessoas agradabilíssimas deviam ser. Jesus virou pro Jairo e disse: não liga pra eles, simplesmente confie em mim (olha, eu já perdi as contas de quantas vezes Jesus me disse isso também). Quando chegaram à casa do Jairo, um bando de gente inconveniente e intrometida ficou no meio do caminho. Jesus deu um fora neles (Ele devia ter umas tiradas sensacionais) e falou pra pararem com o falatório, porque a menina estava apenas dormindo. Aí Ele entrou no quarto da menina, segurou a mão dela e disse: “Talita cumi!”, que traduzindo do aramaico significa: menina, levante!

E é aqui que tudo começa a fazer sentido pra mim e que eu entendo como sendo a história da minha construção, da minha feminilidade e da minha forma de existir-no-mundo. Talvez você se familiarize, talvez ache uma completa bobagem ou talvez se identifique. Seja como for, a questão é gerar a reflexão de que nós, mulheres, não temos um padrão exato em que devemos nos encaixar e plastificar (Já assistiram ao filme Mulheres Perfeitas? E o filme Garota Exemplar? Assistam!). Somos um movimento, uma construção.

 “Seu lugar está entre as flores silvestres
Seu lugar está em um barco em alto mar
Seu lugar está com seu amor em seus braços
Seu lugar está em algum lugar onde você se sinta livre”.
(Tom Petty)

E a sociedade, o machismo, a mídia, as igrejas, as religiões, as novelas, os livros, Hollywood, a Disney, o feminismo, nossos pais e mães, nossos companheiros e companheiras, a líder do nosso grupo pequeno ou do ministério de mulheres, nossos professores, nossos terapeutas, nossos filhos, nossos amigos e amigas, não são os designers, arquitetos, engenheiros, mestres de obra e pedreiros do nosso próprio projeto de existência.

Temos um Criador. E quem trabalha junto dEle somos nós, nessa tarefa árdua e sublime de construção do eu. Conexão direta, pá-pum. Essa galera toda pode e vai atuar como colaboradores terceirizados, mas a responsabilidade de ser e existir autenticamente é nossa, doa o quanto doer e custe o quanto custar. E dói. E custa.

Sim, eu sei de tudo isso desde sempre, mas, nesse contexto sexista em que vivo, fui patinho feio em muitas turmas ao me afirmar uma feminina fora do padrão imposto. Principalmente no meio cristão, porque, veja bem, a chamada mulher virtuosa te parece combinar com o conceito de uma mulher independente, forte e de atitude? Eu aprendi que não. Não a mulher virtuosa da Bíblia, mas o conceito torto que fizeram do que aparece na Bíblia. A mulher virtuosa da Bíblia é hardcore, depois falo dela aqui, também!

Muitas vezes precisamos nos desconstruir e reconstruir a partir daquilo que é verdadeiramente nosso, e não dos nossos pais (o que é feito na nossa criação, nosso desenvolvimento), da sociedade e desses outros agentes que já falei aí em cima. E eu acredito que pra mulher esse trabalho pode ser mais puxado, porque a cobrança em cima de nós é devastadora.

“Deus pôs em seu íntimo uma feminilidade que é poderosa e terna, impetuosa e fascinante. Não há dúvida de que ela tem sido mal compreendida. Certamente, tem sido agredida. Mas está ali, seu verdadeiro coração, e vale a pena recuperá-lo”.
(Stasi Eldredge no livro Em Busca da Alma Feminina)

Já ouvi absurdos de vários tipos (cito aqui só as coisas mais básicas, ok?), como pessoas dizendo que eu ficaria mais bonita se usasse maquiagem, que salto alto valorizaria minhas pernas, que se eu emagrecesse uns 5 quilinhos ia ficar melhor apresentável, que eu deveria ser mais meiga porque boas moças não são enérgicas, que eu tenho muita atitude e isso assusta, que eu tenho um jeitinho determinado que intimidaria os rapazes, que não posso ser muito independente porque homem gosta de cuidar, que não posso ser forte porque homem gosta de proteger, que não posso ser muito segura porque homem se sente inferiorizado, que meu cabelo enrolado e volumoso chama muita atenção e eu deveria alisá-lo. E talvez eu chame tudo isso de absurdos porque se trata justamente do que eu não quero ser como mulher. Eu não quero ser bonita segundo o padrão das revistas de moda, eu não quero ser maternal com os homens, eu não quero ser dependente do meu marido, eu não quero ser o sexo frágil. Também não quero ser caracterizada como masculina por não ser melindrosa, não ser fofa, não ser delicada, por ter firmeza e atitude. O sexismo me dá preguiça, eu só quero ser eu.

E percebo que pra construir minha identidade, não adianta ficar tentando encontrar uma mulher referência. Minha autenticidade está no construir e re-significar, está na minha relação com o Deus que acredito, está na história da filha do Jairo. Isso é o que eu tenho escutado do meu Criador a respeito do modo como minha feminilidade se mostrará própria. A forma como aos poucos me desconstruirei, me livrarei da domesticação a qual fui submetida e poderei me identificar com a mulher saudável que a Clarissa cita no livro Mulheres que Correm com os Lobos, que eu vivo indicando aqui no Santa Paciência:

“Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas pra ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez”.

E quando eu leio isso, eu percebo o quão feminina eu sou, justamente por estar fora do padrão imposto que dita o que é a feminilidade. E lembro da história da filha de Jairo, quando Jesus diz meu nome e ordena: levante! Meu, essa é a mulher que eu quero ser! Que levanta! Que se movimenta como um lobo saudável. E eu fico ainda mais feliz com meu nome, porque mesmo eu não sendo mais uma menina em idade, Deus me olha como uma menina, assim como um pai sempre vê sua filha como uma garotinha, e Ele me diz: levanta! Ele me move pra cima, pra frente, me tira do tédio e me mostra a natureza selvagem dentro de mim que vem dEle, Ele alimenta minha fé.

Lembro de uma frase da Katniss Everdeen no livro Jogos Vorazes (sim, esse livro de novo!):

“(…) Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis”.

Jesus pega minha mão e diz: Talita, levanta!

Mesmo assim, sei que não serei completa até minha passagem da Terra. E isso é ótimo! Eu quero ser ser-em-movimento o tempo todo. Aprender, mudar, re-significar.

 “Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer”.
(Ana Jacomo)

TalitaBirthdaySP


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

httpblogcademeulivro.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Distrito 13, subterrâneo. 
finn annie
Annie e Finnick.
finn e annie dançando foto
Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
httpnicinefilo.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.