Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo II.

Em Fevereiro fui lá eu tomar a radiação, chateada. Saindo da clínica, fui correr no Parque Chico Mendes. E enquanto eu corria eu batia um papo com Deus e me dei conta de uma coisa horrível: eu não estava triste porque não poderia ser mãe. Eu estava triste porque o meu planejamento tinha ido por água abaixo. Eu não pensei em nenhum momento num bebê fofinho. Eu só pensava que o que eu construí de ideal durante anos era algo completamente volúvel e fora do meu controle. Na real, descobri que eu não estava no controle.

Precisei começar um processo de auto perdão. Me senti um ser humano horroroso por ter criado um plano totalmente auto centrado e até sem sentido, porque a verdade é que eu nem sabia se queria mesmo ter filhos. Vasculhei minha mente e meu coração e notei que quando eu pensava em filhos, eu pensava no tema de aniversário de um ano, no tamanho que minha barriga ia ficar na gravidez, no hidratante que ia usar pra evitar estrias, na cor da parede do quarto do bebê, no berço amarelo… Só. Superficial e com pouquíssimo significado.

E mais, eu amo o silêncio. Eu durmo às 5h e acordo às 12h. Eu me irrito em ter que repetir a mesma coisa 3 vezes pro David, imagine 87952 vezes pra uma criança. Eu costumo chamar fetos de “pequeno Alien” ou “sangue suga”. Eu sou completamente louca pela minha privacidade. Eu não sei cozinhar. Eu não me vejo mãe. Eu nunca senti falta de criança na minha casa. Minha casa já é bagunçada o bastante sem bebê nenhum. Eu morro de nojo de baba. Morro de nojo de baba. No-jo de ba-ba. Eu não gosto de ninguém no meu pé. Eu não devo ser mãe.

Álef 2
Não é uma delicinha? Mas, não era pra mim. E também não foi porque bebês são umas delicinhas que eu decidi que quero ter um filho :).

O problema é que seis meses após a radiação, minha tireoide estava firme, forte e cheia de nódulos no mesmo lugar de sempre, onde não deveria estar mais. O médico disse que ou eu repetia a radiação numa dose mais alta ou fazia a cirurgia.  Fui pra outro médico. Eu estava cansada, com raiva e sem entender nada. Nesse meio tempo, o David foi desligado do banco onde trabalhou por quase dez anos, a gente ia perder o convênio muito em breve. Muitas mudanças aconteceram, passamos por um vale muito escuro e frio. Eu nunca tinha feito isso, mas antes de chegar no consultório do novo médico eu falei pra Deus: a não ser que o médico diga clara e objetivamente que tenho que fazer a cirurgia, não vou fazer. Se ele não me disser que é a única opção, não vou entender que devo fazer, então, por favor, seja claro, porque eu estou completamente perdida em meio a tantos problemas!

Eu entrei no consultório, falei bom dia, o médico respondeu com outro bom dia, disse pra eu me sentar e pediu os exames. Leu pacientemente os exames e laudos de tudo que eu tinha feito em relação à tireoide nos últimos 4 anos (sim, eu levei tudo). Fechou o último envelope, olhou pra minha cara e disse: cirurgia. Só isso, só essa palavra. Minha fé precária me fez perguntar mil coisas, tirar mil dúvidas, etc. e tal.

Saí da sala do médico com a cirurgia pré agendada e pensando (entre outras muitas coisas): uau! Então é isso, eu não devo ter filhos. Posso ficar em paz, posso aceitar e me tranquilizar. Eu já não queria, eu tinha criado um projeto sem sentido só porque achava que toda mulher devia ser mãe, eu baseei muitas coisas em puro pré conceito e até limitação intelectual, aí eu faço uma porcaria de procedimento que me impede de engravidar (de forma saudável e em paz) por dois anos, isso frustra os meus planos, e então, seis meses depois a cirurgia se torna a minha única opção (o último médico explicou melhor meu caso e disse que a cirurgia não era apenas minha única opção naquele momento, como foi o tempo todo, desde que descobri a doença)?! Deus?! Entendi o recado. Obrigada.

E então, nos últimos três anos eu fui me conformando de que a maternidade não era pra mim e eu estava bem com isso, quando pensava de maneira autêntica. David só me dizia que gostaria de ter um filho, mas comigo e, se eu não queria, ele não fazia questão, não insistiria, não cobraria.

* Estrelando na foto deste post, o Álef, um dos bebês mais graciosos que já conheci, filho da Luciana Mendes Kim, uma das idealizadoras do Santa Paciência, e do David Kim, ilustrador da nossa incrível arte que representa o Santa Paciência, que me deram a devida autorização de compartilhar a gostosura que tão criando!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

(e)Fême(r)a.

httpo4s.tumblr.compost51525159809ser-mulher

(e)Fême(r)a

anda além alinhando austera

brisa bailarina britadeira bucólica

cantando colhendo calando corajosa

doutrinas disparos dores diamantes

esgueira esguicha escorre encara

fortalecidas flores fabricadas fugazes

gritos grunhidos gatunos gemidos

humana hosana holística Havana

inunda iguala inspira insulta

Joana Julieta Joquebede Janis

Kuwait Kosovo Kyoto Kabul

lunática linguagens lúcidas lugares

mares mirongas mergulhando milhares

noturna nobre navega navalha

orgulha ouve ofusca os olhares

paixão poder perece promete

quarenta quebranta quente quântica

reluz rasga revela resguarda

sangue suor sorriso selvagem

tateia tolera traduz toca

uiva ultraja urbana une

voz vidente viagem vertigem

Wendy Winona Whitney Winnie

Xavantes xinga xereta Xaxim

Yara Yumi Yonara Yoki

zen

(palavras soltas desenhadas numa mente inquieta que deseja com profundidade que a feminilidade seja autenticamente livre em meio à realidade efêmera).

Imagem furtada daqui.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulherões da literatura

C.E.Chambers
Ilustração de C.E. Chambers, 1900

 

Tenho pensado bastante sobre a relevância das mulheres no campo das artes e do pensamento. O motivo das minhas reflexões é o paradigma (para não dizer preconceito) de que elas não se interessariam por assuntos muito profundos. Infelizmente, uma grande parte delas, de fato, não toma a iniciativa de procurar seu espaço ao sol entre os produtores e difusores de conhecimento e cultura, o que só acaba reforçando a fofoquinha de que somos meras manequins de vitrine. A boa notícia, porém, é que não precisamos abdicar de nossas características femininas mais intrínsecas (ai, se uma feminista queer me ouve!!) para produzir coisa boa. Se você não acredita no meu argumento, sugiro que leia com atenção a seleção que fiz de cinco mulherões que arrasaram na literatura, enriquecendo o mundo com suas ideias e críticas e escrevendo com o que todas nós temos em comum: muita beleza.

  1. Doris Lessing

Filha de britânicos, Doris Lessing nasceu no Irã e cresceu no Zimbábue. Seu livro mais famoso,  O carnê dourado, se tornou leitura obrigatória e referência para as feministas. Eu li outro clássico dela, O sonho mais doce, e o que me chamou a atenção foram as suas personagens femininas, sempre progressistas, social e politicamente engajadas e de personalidade forte. Nas histórias das mulheres criadas por Lessing, não há espaço para perfumaria.

  1. Flannery O’Connor

Uma das mais importantes contistas norte-americanas do século 20, Flannery O’Connor imprimiu em seus contos muitos dos seus valores cristãos. Temáticas como culpa e redenção são retratadas de forma profundamente reflexiva e autêntica. Também abordou temas sociais, como o racismo. Sua escrita é bem descritiva e, por isso mesmo, perfeita para ser degustada sem pressa, numa construção detalhada de cada uma das ricas imagens. Duas características fundamentalmente femininas que você certamente encontrará impressas na obra de O’Connor: sensibilidade e sagacidade. Alguma identificação?

Dica de conto: Tudo o que sobe deve convergir (tem o conto com esse nome e tem uma coletânea de contos que leva esse nome também. Indico tudo.)

  1. Ingrid Jonker

Ingrid Jonker foi uma poetisa sul-africana e é justamente a poesia que a torna tão feminina. Seus poemas lhe renderam pouco reconhecimento em vida e muitos amantes, dos quais dois eram importantes escritores de seu país. Foi quando Nelson Mandela leu seu poema A criança (morta a tiros por soldados em Nyanga) no dia de sua posse, em 1994, é que Jonker finalmente recebeu o reconhecimento merecido. O que mais me toca nela é a sua capacidade de transformar a crítica social e racial em versos sublimes e perturbadores. O filme Borboletas Negras conta uma parte de sua história.

  1. Virginia Woolf

Não poderia deixar de citar aqui a mais melancólica de nossas autoras, a inglesa Virginia Woolf. O que marca em suas obras é o fluxo de consciência – técnica literária de transcrição dos pensamentos de um personagem em toda sua complexidade e não-linearidade. Para quem gosta de dar mergulhos profundos na existência e não tem medo das angústias que inevitavelmente vai encontrar por lá, os contos e romances de Virginia Woolf são ideais. Sua obra mais conhecida e minha recomendação para você começar a gostar da escritora é Mrs. Dalloway.

  1. Clarice Lispector

Sou suspeitíssima para falar da Clarice. Se combinarmos aqui entre nós de deixarmos todas as máscaras de lado, prometo que não terei vergonha de dizer que ela foi tudo o que eu queria ser na vida: linda, inteligente, talentosa, mãe de dois (até hoje só tive coragem de me tornar mãe de um), enigmática e por aí vai. Como comentei uma vez com um amigo, sua escrita não é um dom, é um milagre. E, ao contrário do que muita gente afirma, sua linguagem não é assim tão difícil. A questão – e é aqui que entra a sua característica mais feminina – é que Clarice verbaliza o que se passa na alma e não no intelecto. Logo, alcançar o íntimo de suas obras exige boa dose de entrega. Você tem que se abandonar (e desistir de ficar interpretando tudo ao pé da letra) e deixar-se ser preenchida por toda a beleza e profundidade de seus textos. Como fã incurável de Clarice, eu garanto: a viagem vale muito a pena!

Dicas de contos para começar: Tentação e Felicidade Clandestina.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Ler opiniões diferentes do senso comum é também PENSAR!

Bruce

A questão de gênero e a decisão da Suprema Corte americana em favor da união civil gay têm suscitado reações das mais indiferentes às mais apaixonadas e contundentes. Raro, porém, tem sido ouvir uma voz ecoando contra toda a maré do senso comum, que leve à uma reflexão que possa contrabalancear – e por que não discordar? – tudo o que vem sendo dito e repetido à exaustão em todo veículo midiático de grande alcance.

Este artigo, competentemente traduzido pelo amigo Cristian Faber, trata da polêmica capa da revista americana Vanity Fair de junho (foto que ilustra este post, em que o ex-atleta olímpico Bruce Jenner aparece com sua nova identidade sexual) e o conteúdo do artigo traz à tona pontos nevrálgicos de uma questão que está longe de ser resolvida… de forma respeitosa, eu diria. Como era de se esperar, Matt Walsh, o autor do post original, recebeu críticas agressivas e muito, mas muito intolerantes da galera do bem, mas não cedeu às ameaças. Se você não concorda com o que ele escreve, precisa reconhecer, no mínimo, que o cara pensa por si próprio e tem uma coragem que é para poucos.

Pronto para encarar uma dose cavalar de argumentos que dão a cara pra bater em toda a ondinha pós-gênero que quer engolir o mundo inteiro?? Aí vai!

Chamar Bruce Jenner de mulher é um insulto às mulheres

Pais, atenção: em breve a gôndola de revistas no caixa do supermercado incluirá esta imagem profundamente perturbadora de Bruce Jenner. A foto está estampada na capa da próxima edição da revista Vanity Fair, e mostra Bruce produzido como uma boneca, com extensões de cabelo, vestindo um corset, partes do seu rosto, testa e pescoço depilados por motivos cosméticos, e seu peito modificado por pílulas de hormônio, Photoshop e silicone. A ideia é fazer um vovô de 65 anos parecer uma colegial, mas o resultado é uma versão distorcida de nenhum dos dois.

O que ele mais parece é um homem mentalmente perturbado que tem sido manipulado por gayzistas prepotentes e progressistas dissimulados. Longe de ter a aparência de uma mulher de verdade, ele me parece uma pessoa abandonada às suas próprias ilusões por uma cultura de imbecis narcisísticos. Tenho grande compaixão quando me deparo com essa tragédia – especialmente porque “transgêneros” recém operados frequentemente se arrependem da suas decisões, e em muitos casos tentam suicídio – mas poucos compartilham meu amor e preocupação com ele.

De fato, Bruce admitiu que depois da sua cirurgia de “feminização facial” teve um ataque de pânico, olhando no espelho e perguntando a si mesmo “o que foi que eu fiz comigo?” Esperamos que esse arrependimento não o leve a mais auto-mutilação, como levou muitos homens nessa situação. Eu temo o pior, porque Bruce está apressando os procedimentos para que a “transformação” coincida com a estreia de um reality show que está prestes a ser filmado. Eventualmente as cameras sumirão, e Bruce estará preso com o que ele fez consigo mesmo. Eu oro por ele quando esse momento sombrio chegar.

Em contraste, as chamadas animadas da mídia nos informam que Bruce posou para Vanity Fair para “estrear sua nova identidade”. Na entrevista acompanhando essas fotos terríveis, Bruce esquizofrenicamente refere a si mesmo na terceira pessoa, falando como se ele fosse duas pessoas diferentes.

Ele diz que ainda não decidiu se a segunda pessoa vai começar a dormir com homens, mas que não está focado nisso neste momento. Ele está apenas feliz que, por meio de extensa cirurgia plástica, altas doses de química sintética, kilos de maquiagem, e uso indiscriminado de Photoshop, ele pode finalmente ser ele mesmo. Desmantelando, mutilando, e editando a si mesmo, ele diz que é ele mesmo.

Em um segmento particularmente deprimente do artigo, Cassandra, filha de Bruce, diz que eles finalmente tem um relacionamento. Eles podem “ser meninas juntas”. Cassandra aparentemente desistiu de ter um pai, e se conformou em ter uma amiga com quem pode fofocar.

Isso é errado. Francamente, é nojento. Ao mesmo tempo em que sinto compaixão pelos problemas psicológicos de Bruce, é egoísmo fazer isso com seus filhos. Primeiro tira-se o pai deles, depois os força a lidar com esse processo devastador pro mundo todo ver.

É claro, enquanto a família carrega esse peso, a turba se estapeia para parabenizar o “heróico Bruce”. A ESPN até anunciou planos de dar-lhe o “Troféu da Coragem”. Houve um tempo em que esse tipo de coisa era dada a caras como Pat Tillman, que desistiu de fortuna e fama para sacrificar sua vida no campo de batalha, mas o significado de honra mudou muito desde então. Eu achei que tinha chegado ao fundo do poço ano passado quando deram esse troféu ao ex-jogador da NFL Michael Sam por ter alcançando o incrível feito de ser gay enquanto ainda era jogador.

Surpreendentemente, parece que a ESPN na verdade não é o árbitro mais confiável em termos de coragem.

(Falando de ESPN, noite passada, eu liguei a TV para ver o que costumava ser um dos meus programas preferidos, “Around the Horn” (programa esportivo em formato de mesa redonda da ESPN Americana), para ouvir suas análises das finais da NBA desta semana. Em vez disso, eu fui presenteado com um sermão de um escritor esportivo sobre como me certificar de estar usando os pronomes corretos quando me refiro a travestis. Eu realmente preferia saber como Lebron James e o Cavaliers estão, mas, sim, vamos ter uma lição de vocabulário transgênero. Legal! Obrigado! Sabe, se eu quisesse receber um sermão sem graça de bufões esquerdistas, eu não precisaria assistir ao maior canal de esportes do mundo. Existe Comedy Central pra isso)

A ESPN não está sozinha. Uma busca pelo Twitter e Facebook revela uma glorificação unânime, com “corajoso”, “linda” e “histórico” sendo indiscriminadamente jogados como confete.

É tudo muito triste.

Dito isso, eu não gostaria que alguém me acusasse de estar sendo crítico, então eu gostaria de oferecer, nesta ocasião gloriosa e sem precedentes do lançamento de uma revista “photoshopada”, umas poucas observações. Eu não estou interessando em destilar insultos sem embasamento – o que ainda sim seria muito menos danoso do que os elogios sem embasamento sendo lançados na direção de Bruce – então eu vou me limitar simplesmente a observar a realidade.

Neste momento, existem 5 realidades que saltam aos meus olhos:

Ideologia de gênero acaba com o feminismo

Como conservadores e cristãos fugiram apavorados da possibilidade de terem palavras sem sentido como “transfóbico” lançadas em sua direção, pode ser que em última instância, numa estranha virada do destino, as feministas é que tenham que combater a narrativa do “transgênero”. Se elas em algum momento entenderem que “ideologia de gênero” é um ataque direto à sua visão de mundo, talvez isso até cause uma guerra dentro das trincheiras progressistas.

Porque afinal, de acordo com a sabedoria feminista, não existe essa coisa de “cérebro feminino” ou “alma feminina” ou “se sentir feminina”. Pelas palavras de qualquer esquerdista que algum dia disse qualquer coisa sobre direito da mulher nas últimas 4 décadas, o modo como você se veste, pensa e sente não tem nada a ver com a sua feminilidade. Normalmente seria ofensivo e sexista acusar uma mulher de agir como, pensar como ou se sentir como uma mulher.

Mesmo assim, de repente, emoções e aparências definem uma mulher de maneira tão definitiva que até um homem pode se tornar uma, se ele alegar ter sentimentos que ele pensa serem femininos?

A coisa toda é uma grande contradição.

Feminismo e ideologia de gênero dizem duas coisas contrárias uma a outra sobre o que significa ser uma mulher. De fato, feministas criaram o termo “neurosexismo” para condenar a ideia misógina e pseudo-científica de que os cérebros do homen e da mulher são diferentes. Mas Bruce Jenner alega ter “o cérebro de uma mulher”. Então como isso funciona? Você vai me dizer que as únicas pessoas que podem ter cérebro feminino são… os homens?

Enquanto isso, feministas insistem regularmente que a ausência de útero e vagina tira dos homens o direito de terem uma opinião sobre aborto e coisas do tipo. Então um homem não pode ter opinião sobre problemas de mulher porque lhe falta a anatomia correta, mas ele pode na verdade se tornar uma, mesmo não tendo a anatomia correta?

Como é que isso pode fazer qualquer sentido?

Ideologia de gênero e feminismo não podem coexistir. Progressistas não podem ter os dois. Eles terão que escolher.

Da mina parte, eu concordo que nenhum homem pode jamais requerer feminilidade. Eu também concordo que existe sim cérebro feminino e alma feminina – e consequentemente emoções femininas, personalidade feminina e características femininas – mas o problema é que cérebro e alma femininos estão sempre contidos em corpos femininos. Um homem nunca vai nascer com o coração de um bicho preguiça, ou o fígado de um rinoceronte, ou o sistema de raízes de uma árvore, do mesmo jeito que nunca vai nascer com o cérebro de uma mulher.

Me disseram que brancos se apropriam da cultura negra quando ouvem Nikki Minaj ou usam aqueles bonés de aba reta. Não tenho certeza se essas ofensas constituem apropriação cultural indevida tanto quanto indicam um possível dano cerebral, mas esse não é o ponto. Se estamos mesmo preocupados com grupos se apropriando de outros grupos, eu acho que precisamos investigar essa coisa que chamar um homem de mulher só porque ele raspou o osso da testa, usa maquiagem e prende a genitália pra trás. Se você olhar bem, talvez encontre uma razão para achar que isso é uma apropriação indevida de feminilidade, ou pior, a degradação dela.

Há mais numa mulher do que apenas linhas faciais “feminizadas” e lingerie de babados. Bruce Jenner travestido não é bonito! Mulheres são lindas porque são mulheres. Feminilidade é bonito. Mulheres representam algo distinto e especial no mundo. Elas preenchem um vazio e desempenham um papel que nenhum homem pode.

Uma mulher não é uma mulher simplesmente por causa dos traços cosméticos que um homem possa simular. Uma mulher é uma mulher por conta da biologia, que Bruce não tem e nunca terá. Uma mulher é uma mulher por causa da sua capacidade de criar vida e abrigá-la em seu corpo até o nascimento, coisa que Bruce não pode fazer. Uma mulher é uma mulher por sua alma, mente, perspectiva, experiências e seu jeito único de pensar, de amar e de ser – todas essas coisas que Bruce pode apenas tentar simular.

Uma mulher é uma mulher. Ela mereceu esse título. Ela pagou por esse título. Ela sofre com esse título, dá vida com esse título, vive da concepção à morte e além com esse título. Ela é esse título. Ninguém deveria dizer a essa mulher que isso é uma coisa qualquer que um homem com dinheiro suficiente possa comprar. É degradante e reducionista, em como pai, marido, filho e irmão, eu não posso concordar com isso. Só posso imaginar como uma mulher se sentiria se sequer pensasse numa coisa dessas.

E note que eu digo “eu só posso imaginar” porque é o máximo que eu posso fazer. Eu não posso vivenciar os pensamentos ou sentimentos de uma mulher pelo fato de que eu não sou uma.

E Bruce também não é.

Identidade não está nos olhos de quem vê

Sendo honesto, eu não gosto do título que o site TheBlaze usou para esse artigo, e também não gosto dos títulos usados por outras publicações.

“Bruce Jenner Revela Novo Eu Feminino”

O quê?

Não tem essa de “novo eu”, ou “outro eu”, ou um “eu diferente”, ou um “eu 2.0”. O seu “eu” é você. É a sua existência. A sua pessoa; seu caráter único e irrepetível. Seu “eu” é seu corpo, mente, alma. É fisicamente, metafisicamente, espiritualmente, filosoficamente, cientificamente, racionalmente e logicamente impossível para um “eu” se transformar num “novo eu”. Um “eu” só pode ser o que já é.

“Bruce Jenner Revela Novo Eu”

“Bruce Jenner Estreia Nova Identidade”

“Bruce Jenner Faz Premier Mundial de Nova Alma”

Estamos falando de mudança de sexo como se fosse um produto da Apple! Com essa linguagem nós não apenas fizemos o “eu” mutável, como também o mercantilizamos e o transformamos num espetáculo que pode ser usado para fins lucrativos. Isso é a bastardização da nossa humanidade em escala e nível que não teriam passado nem pelas mentes mais perturbadas dos mais proféticos críticos sociais do último século!

É tudo tão vil, bizarro e ridiculamente impensável que nenhum escritor distópico de ficção científica poderia ter pensado que o colapso da sociedade ocidental se pareceria com isso. Neste momento Orwell e Huxley estão rolando na tumba com profundo arrependimento: “Cara! Um futuro apocalíptico onde pessoas são tão mimadas, vaidosas e entediadas que fingem poder estalar os dedos e reformatar suas almas do zero – por que eu não pensei nisso?”

Não há nada de autêntico nessa versão de Bruce

Depois de muitos anos e pelo menos uma dúzia de campanhas da Dove, parece que, pelo bem da agenda gay, nós abandonamos completamente a ideia de que “mulheres não devem ser photoshopadas ou rebocadas com maquiagem e silicone de modo a reforçar o padrão subjetivo de feminilidade”. Talvez a única coisa na qual os esquerdistas estiveram realmente certos, agora foi jogada no lixo porque não corrobora com a narrativa gay/transgênero.

Ou seja, você não pode mais voltar a falar por aí coisas como “beleza natural” da mulher, depois de ter chamado Bruce de “corajoso” por ter usado melhorias cosméticas e digitais pra tentar alcançar uma aproximação superficial disso. Você não pode mais amaldiçoar a indústria da moda por aparar, emagrecer, cortar, pintar e operar mulheres pelo bem do encanto físico depois de ter acabado de falar sobre como Bruce alcançou sua “verdadeira identidade” através dos mesmos métodos.

GLAAD (ONG Americana que defende homossexuais e transgêneros contra violência física e verbal) aplaudiu Bruce por ser agora seu “eu autêntico”. Tragicamente eles não estavam tentando ser irônicos. Uma imagem digitalmente modificada, alterada cosmeticamente, de pose manipulada, adulterada quimicamente, basicamente um cartoon numa capa de revista, agora é “autêntico”, de acordo com os desonestos incuráveis da militância gay.

Autêntico, pelo amor de Deus. Eu tenho mesmo que explicar o porque dessas palavras serem completamente impróprias nesse contexto?

Essa foto é a definição literal de falso. Se isso não é falso, então nada é. Você não pode chamar de “falsa” uma mulher, legitimamente atraente, por causa de algumas fotos retocadas para aumentar o que já estava lá, se Bruce não recebe esse rótulo tendo passado por cirurgias no rosto, usado uma quantidade absurda de maquiagem, e ter escondido suas mãos e enfiado seu pênis entre as pernas, para disfarçar o que nunca esteve lá. Se isso é “autêntico” então eu posso despejar um pouco de Mac and Cheese da Kraft numa tigela e chamar de “autêntica cozinha italiana”, e Taylor Swift pode fazer umas musiquinhas dance sobre brigas de namorados e chamar isso de “autêntica música country”.

A batalha pela realidade

Vão me dizer, principalmente os conservadores, para deixar esse assunto pra lá e achar algo mais importante pra comentar. Mas milhões e milhões e milhões de pessoas – na mídia e fora dela – já falaram mais sobre esse assunto e já demonstraram mais interesse por ele do que eu jamais fiz, e mesmo assim nunca ninguém os mandou calar a boca e esquecer. Enquanto conservadores justificam sua covardia miserável insistindo que isso é apenas um showzinho secundário irrelevante e que eles estão ocupados em assuntos mais sérios, você vai perceber que esquerdistas tratam “ideologia de gênero” como uma das mais importantes fronteiras culturais.

Toda vez que um transgênero usa o banheiro hoje, esquerdistas fazem um carnaval, como se os Aliados tivessem acabado de derrotar a Alemanha Nazista.

Bruce Jenner posando com roupa íntima de mulher foi manchete no país todo. A Casa Branca chamou isso de “corajoso” e “poderoso”. O Presidente dos Estados Unidos da América, líder da nação mais poderosa da Terra, veio publicamente para saudar a “coragem” de Bruce em ter seios falsos e pernas depiladas. Foi o trending topic número 1 em todas as redes sociais. O alterego feminino de Bruce Jenner ganhou mais de 1 milhão de seguidores no Twitter em 4 horas.

Todos agem como se fosse uma grande coisa. Contanto que tenham a opinião “correta”, eles tem permissão.

E eles tem razão – é uma grande coisa.

Esta é uma batalha pela realidade, gente. Acordem pro jogo!

Se progressistas podem exercer o poder de demolir e reinventar a definição mesma de “homem” e “mulher” à sua imagem ideológica, então eles alcançaram uma total e irreversível vitória cultural. Eles engolfaram o universo e remodelaram a realidade. Eles se tornaram deuses, ou pelo menos é esse o poder que estamos dando a eles. Você pode tagarelar sem parar sobre economia e política externa, mas se vivemos num país onde confusão, perversão e auto-adoração reinam supremos, qual o objetivo? A América já estará morta.

Todos nós sabemos a verdade

Última pergunta para as pessoas – especialmente homens heteros – que alegam que não há diferença real entre um “transgênero” feminino e uma mulher de verdade: Você casaria com uma mulher que era homem? Você olharia para esse “ex” homem e pensaria “Eu quero que ele seja minha esposa”?

Resposta: Não. Você não faria isso. Você não fará isso. E você sabe disso. Instintivamente, quando o que está em jogo é sua vida e amor, você reconhece a diferença entre uma mulher biológica em toda a sua glória, e um homem castrado em toda a sua loucura. Estou gastando milhares de palavras convencendo você de algo que você já sabe. E eu sei que você sabe. E todo mundo sabe que todo mundo sabe.

Então porque ainda estamos tendo essa conversa?

Isso eu não sei. Mas enquanto ela continuar, eu vou continuar lembrando você de coisas que você já sabe, porque alguém tem que fazer isso.

Bruce Jenner não é uma mulher, em nenhum sentido ou medida.

E você já sabia disso”.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.