Relato de um parto desplanejado

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Quando o David me mostrou essa foto que ele tirou nos primeiros minutos de vida do Dominic, eu escutei a voz de Deus falando comigo, de novo, sobre controle. Eu sonhei, literalmente, com um parto natural humanizado, com velas aromáticas e som ambiente com a playlist escolhida cuidadosamente pra ocasião, aliviando as contrações na banheira, me movimentando livremente, parindo junto com o Dom minhas dores, meus medos e fazendo print da placenta depois, pra enquadrar e colocar na parede.

Fiz atividade física específica pensando nisso, preparei minha mente, fiz o pré natal numa Casa de Parto acolhedora, li sobre um milhão de coisas relacionadas ao tema, fiz cursos pra gestante, me empoderei.

Tive mais ou menos 15 dias de pródomos (que é tipo um pré parto, digamos assim, o que anuncia que a primeira, de três fases do trabalho de parto está por chegar). Com 40 semanas exatas perdi o tampão e com 40 semanas e 1 dia, tive uma consulta com a parteira e nesse dia já estávamos com tudo pronto no carro, a mochila do Dom, a nossa, o bebê conforto pra volta pra casa de carro, tudo preparado, porque as contrações estavam evoluindo, eu imaginava. Estava tão cansada e pesada, que queria e pedia que elas progredissem logo. Quase como se estar com tudo já no carro fosse atrair o parto ou algo assim.

A parteira mediu a altura uterina e ficou preocupada, porque era um bebezão ali dentro e a Casa Ângela só faz partos de bebês até 4kg, por questões de segurança e saúde da mãe e do bebê. Chamou outra parteira pra medir também e conferir. As duas visivelmente chateadas me disseram a mesma coisa: ele era um bebezão. Pediram um ultrassom e disseram que sentiam muito, mas, o resultado dele diria se eu poderia parir ali ou não.

Acho que eu nunca vou esquecer a cara de tristeza e choro que o David fez quando ouviu isso. A gente estava há 40 semanas se preparando, 8 semanas indo periodicamente a consultas com as parteiras, 6 semanas fazendo cursos sobre o fim da gestação, trabalho de parto, parto natural, puerpério e cuidados com o bebê, e de repente estava tudo escapando das nossas mãos. Claro, a gente sabia que tudo aquilo era só um plano, tanto que tínhamos 3, o A, o B e o C. Estávamos relativamente satisfeitos com os 3, mas queríamos muito o primeiro. Não fazíamos ideia de que iríamos direto pro terceiro. Na Casa Ângela é feito um plano de parto, que fala sobre nossas pretensões pra esse momento e, somos orientados a incluir mais algumas possibilidades, caso a ideia principal não seja mais viável.

Procurei manter a calma, principalmente pra não afetar o Dominic, mas, eu sentia que meu desejo primeiro tinha se perdido. Dali mesmo fomos pro Hospital fazer o ultrassom, apreensivos, frustrados e tristes. A conduta do Hospital do meu plano de saúde pra uma gestação à partir de 40 semanas de um bebê grande era cesariana, eu já sabia disso. Tinha certeza que poderia entrar e não sair sem o Dom nos braços. Fiquei chateada de novo e pensei: o Hospital não pode me amarrar e prender lá, certo? Mas, aí eu me dei conta de que eu poderia conhecer o Dominic naquele dia mesmo! Tínhamos que fazer e aguardar o ultrassom e só depois disso resolver o que concluir, mas, essa ideia de que nosso encontro estava muito, muito perto me deixou tão feliz que eu falei pro David: tudo bem, se for cesariana, tudo bem, se o médico orientar a tirar hoje, tudo bem. Fiquei inesperadamente feliz e curiosa.

Fizemos o ultrassom e, claro, não tem balança dentro daquela máquina e era só uma estimativa, muito próxima da realidade, mas, só uma estimativa que mostrou Dominic com 4,270kg. Por isso tanto cansaço, por isso uma sinusite de dois meses sem curar mesmo com antibióticos, por isso minhas pernas não fechavam mais, por isso a dor terrível nas costas, por isso abaixar era impossível, por isso o David secava minhas pernas e pés todo dia após o banho, por isso eu não conseguia mais dormir. Era um bebezão. Um bebezão que eu viria a qualquer hora!

Como não estava nem na fase latente ainda (a primeira fase do trabalho de parto, com as contrações regulares e intensas), precisaria agendar uma cesariana. Era véspera de Sexta Feira Santa, já tinha passado o horário de agendamento, eu só conseguiria resolver isso na Segunda, dia 17. O lindo dia 17. Eu deveria chegar às 10h no Hospital, passar no pronto socorro e avisar que queria marcar a cirurgia. Simples assim. Mas, dolorido assim, também. Tudo bem, meu sonho tinha ido pro ralo, mas, agendar a cirurgia? Marcar hora, dia? Engoli a seco. A gravidez inteira eu disse pro Dominic que ele nasceria no dia que quisesse e agendar uma cesariana me parecia ser um desrespeito. Obviamente, essa é a minha opinião, a minha história. Eu não sou ativista do parto normal, eu não sou ativista da cesariana, eu só queria seguir com meu desejo e agir conforme meus princípios e com o que acredito. De qualquer forma, apesar da frustração, relaxei, porque a verdade dura é que eu não tenho controle de nada, simples assim. Era isso que Deus estava me ensinando, enfaticamente. Considero absolutamente importante planejar, estruturar, prever, avaliar riscos, mas, sabendo e aceitando que as coisas podem não acontecer como o esperado e ok, não é o fim do mundo e a gente pode não saber lidar com isso, mas, tem que lidar mesmo assim.

Já que não tinha o que fazer além de esperar o feriado prolongado passar, na Sexta fomos ao cinema assistir Velozes e Furiosos 8, mantendo a tradição de quase 10 anos que temos em casa e que confesso: eu estava triste, porque a data prevista de parto era justamente na pré estreia e eu perderia. Mas, Dominic foi gentil com a gente e então levamos ele pra conhecer seu xará! E sim, o nome dele é Dominic, inspirado no Dominic Toretto. E sim, eu realmente gosto dessa franquia!

Nesse meio tempo eu perdi, gradativamente, o que mais tarde eu soube que era líquido amniótico, mas, que enquanto perdia, achava só que era um corrimento mais intenso, ou escape leve de urina. Nem me importei…

A Segunda chegou e, na saída de casa o David lembrou que era rodízio do carro! Comecei a chorar, porque a essa altura eu já estava de saco cheio. Eu passei toda a gestação sem ansiedade, mas, estava começando a ficar tensa e desejando que tudo acabasse, ou, melhor dizendo, começasse logo. Era como se, já que meu plano A não deu certo, vamos logo com isso, plano C! Muito cansaço, falta de ar, tosse da sinusite, dor da contratura muscular que tive de tanto tossir, dificuldade pra andar, peso e blá-blá-blá. O David achou um caminho alternativo e fomos.

Durante a consulta, soube que me deram informação errada e que os dias para agendar cesariana eram terça e quinta, não de segunda à sexta. Fiquei brava, muito brava. Estava realmente me esforçando pra lidar com a frustração e a coisa toda só se prolongando. Eu conversava com o Dom, dizia pra ele que estava tudo bem, eu só estava cansada. E dá-lhe aprender que eu não controlo nada, não importa o quanto eu tente ou queira. E já ia dizendo isso pra ele, também. Total exercício de impermanência, de fluidez, de desprendimento, de suspensão, de desapego, de deixar-ser.

A médica do pronto socorro explicou que o médico que agendava as cesarianas ia pedir dois exames e que sem eles ele não agendava as cirurgias: um cardiotoco, que analisa os batimentos cardíacos do bebê, e um perfil de vitalidade fetal, que é um ultrassom bem detalhado que vê umas coisas importantes aí. Ela fez os pedidos e disse pra eu já adiantar e fazê-los na Segunda mesmo. Outra notícia importuna? Isso foi às 10h e o perfil de vitalidade fetal só era feito após às 16h. Manda mais, Deus, que tá pouco.

Fiz o cardiotoco, que estava lindinho, e voltamos pra casa. Já tinha largado mão e falei pra Deus que beleza, eu ia suspender, ia fazer o que devia ter feito antes: aceitar, esperar, desencanar, confiar. Almocei deliciosamente, já que fui pro hospital de manhã em jejum pensando “vai que”… E pra cirurgia deveria estar em jejum de 8h.

Pontualmente às 16h estávamos na porta da sala de exame do perfil de vitalidade fetal. Ali começou. Uma médica muito atenciosa explicou detalhadamente o exame. A previsão de peso, de tamanho, como ele estava… Avisamos que nossa intenção era o parto natural, mas que na Casa Ângela não seria mais possível. Avisamos que eu não tive dilatação, nem contrações regulares, nada além dos pródomos. Ela terminou o exame e disse que a médica do pronto socorro explicaria melhor, mas, pra eu subir até o consultório com a ideia de que ficaria, pelo menos, internada. O Dominic estava bem, mas era um gorducho e talvez o tamanho dele estaria dificultando o encaixe perfeito na pelve pro início das contrações regulares. Só seria possível ter certeza disso se de fato o trabalho de parto ativo (a segunda fase do trabalho de parto, lembra?) iniciasse, e aí se estendesse muito e aí um sofrimento fetal acontecesse. Ela também falou sobre o líquido amniótico, que eu estava perdendo consideravelmente e não era lá uma coisa muito bacana. Ela avisou que não era impossível um parto normal, mas, que poderia ser mais difícil e demorado.

Só que, na verdade, não importava mais nada disso, porque eu não confio em parto normal hospitalar. Eu confio em parto normal e natural em Casa de Parto, ou domiciliar assistido por uma equipe especializada. Só. Não podendo ter isso, vamos pra cirurgia, sim, porque eu acredito que médico que não seja de equipe especializada em parto normal não tá preparado pra isso, mas faz uma cesariana como ninguém.

Voltamos pro consultório da obstetra plantonista do pronto socorro, ela leu os exames, falou a mesma coisa que a médica do exame havia dito, com um adendo: “pai, você vai descer com os documentos dela pra fazer a internação e mãe, você espera aqui ele voltar, aí a enfermeira vai te chamar pra se vestir pra cirurgia”. 

Aí meu coração acelerou, aí eu fui tomada por uma porção de sensações e sentimentos que nem sei dizer. O Dominic estava chegando! Eu estava aliviada. Não teria meu parto natural, mas, o dia e a hora em que ele quis nascer foram respeitados, minha angústia de agendar a cesariana tinha passado. Eu estava segura da decisão, o David também, estávamos em órbita.

Foi o tempo do David voltar pro andar do centro cirúrgico, avisarmos nossos pais, irmãos e alguns amigos, e fui tomar a anestesia enquanto o David se paramentava. A sala estava em temperatura ambiente, rádio ligado na estação Alpha FM, luz baixa e um anestesista cuidadoso que finalmente conseguiu colocar o acesso, depois de 5 tentativas frustradas das enfermeiras. Tomei a anestesia e o David entrou, sentou ao meu lado. Começou a me dar falta de ar, já que a sinusite ainda estava atacada e eu precisei ficar completamente deitada. Tampou tudo. Por causa da anestesia, eu não sentia o ar entrando pela boca e indo pro pulmão. O anestesista ficava dizendo “relaxa, respira, seus batimentos estão perfeitos, sua pressão tá ótima, confia em mim, tá tudo bem, olha lá o aparelho marcando, tá tudo bem…”.

A obstetra entrou (uma diferente da consulta), se apresentou, me disse o que iria fazer, explicou como estavam as coisas, eu não prestei atenção porque achei que fosse morrer sem ar hahaha

Eu pedi pro David segurar minha mão, porque se fosse morrer, pelo menos ele tava ali do lado rs 

A cirurgia começou e o David ficou com um olho lá outro cá. A médica ia me falando o que estava fazendo, eu continuei sem conseguir prestar atenção. De repente vi uma movimentação diferente, o olhar do David mudar, mas não ouvi nada e estava esperando um chorinho ou um resmungo, qualquer coisa do tipo, mas, nada…

Perguntei o que estava acontecendo e alguém disse “nasceu”. Mas Jesus, cadê o menino, cadê qualquer reação dele?! Aí o David começou a dizer que estava tudo bem, que ele estava ótimo, que estavam limpando ele pra trazer pra vermos. Perguntei por que ele não chorou e alguém disse (não lembro quem): porque ele é calminho! 

Esquecemos de todo nosso plano de parto (tinha um pra cesariana, também)! Esqueci de falar pra esperar o cordão parar de pulsar pra cortar (mas a médica esperou mesmo assim, ufa), o David esqueceu de dizer que queria cortar, esquecemos de pedir pra não pingar nitrato de prata nos olhos dele e quando lembramos já era tarde demais, o que causou uma queimadura (leve, mas mesmo assim, que ódio) na pálpebra dele, esquecemos de pedir pra dar a vitamina K e a vacina contra hepatite no colo… Tudo saiu fora do esperado. A única coisa que lembrei foi de pedir pra amamentar ele ainda ali, mas a médica disse que não era ideal, por causa da anestesia. Eu concordei, embora chateada.

Finalmente (na verdade foi tudo muito rápido, mas eu estava sem ar, sem ouvir nenhuma reação do Dominic, pareceu um ano inteiro ali) trouxeram ele até nós e eu achei ele lindo, cheiroso, fiquei emocionada e encantada com cada pedaço dele que eu consegui enxergar. Não me apaixonei à primeira vista, nem amei louca e instantaneamente, mas eu já esperava por isso e tava super tranquila, porque não acredito nesse tipo de coisa, eu acredito que amor é construção diária e aquele era só o primeiro minuto da nossa relação que vai ser trabalhada dia a dia. Mas, isso é assunto pra outro post…

O que eu senti mesmo foi uma gratidão sem explicação! É absurda a ideia de que aquele menino tinha sido feito por nós, gerado dentro de mim. Eu olhava pra ele, pro David, e pensava “Deus, Deus, você realmente me ama, obrigada obrigada obrigada”. Foi quando a enfermeira perguntou se queríamos fotos e tiramos duas. Não curtimos a super exposição e o show do nascimento e da maternidade/paternidade, então isso nos pareceu suficiente. Além do que, não foi em cinco minutos que eu elaborei bem a frustração de que a foto do nascimento do Dominic não ia ser dentro da banheira da Casa Ângela rsrs.

Pedi pra ver a placenta, esse órgão incrível que simplesmente é criado com o objetivo de nutrir o bebê, e fiquei muito feliz da enfermeira pegá-la pra eu ver, embora ela tenha se espatifado no chão segundos depois!

Ficamos uns minutos juntos, nós três, e o David segurou ele com tanto jeito que pareceu ter nascido praquele momento. E eu que tava achando que ia morrer sem ar, pensei que se fosse a hora, podia morrer sim, de boa, porque ver aqueles dois juntos daquele jeito já tinha valido meus trinta anos vividos até ali.

A médica começou a me fechar e foi explicando tudo que ia fazendo. Eu não prestei atenção em nada, mas achei educado e importante. Quando a enfermeira pediu pro David sair também, porque iam me arrumar pra ir pra sala de recuperação, eu odiei, queria que ele ficasse o tempo todo comigo, porque se tem alguém nesse mundo que me faz sentir segura e amparada é ele. Por Lei, ele poderia ficar, mas, o Hospital não é nada preparado pra isso e eu desejo imensamente que se prepare, porque isso faria muita diferença. O Dominic foi pro berço aquecido, a enfermeira saiu e eu fiquei alguns minutos sozinha na sala de cirurgia, entortando o pescoço pra ver ele atrás de mim, ainda sem conseguir entender bem o que eu estava sentindo ou pensando.

Fomos os dois juntinhos pra sala de recuperação, onde ficamos por umas seis horas, até ir pro quarto.

Mas, foi no minuto dessa foto que nossa jornada começou. Foi no minuto dessa foto que tivemos nosso primeiro encontro familiar! Nesse minuto eu ouvi Deus falando que desde que Ele se tornou meu Senhor, os planos são feitos por Ele. Não é fácil, eu ainda preferia ter tido um parto natural humanizado e não é que eu esteja pulando de alegrias por ter feito a cesariana. O que acontece é que estou aprendendo a desapegar, a ser grata por aquilo que me é dado.

Talvez você que lê isso não acredita em Deus e ache toda essa história uma grande bobagem, mas, eu acredito e aqui me lembro de uma passagem bíblica em que Ele diz “eu bem sei os planos que estou projetando para vocês; planos de paz, e não de mal, para dar a vocês um futuro e uma esperança”.

O Dominic é nossa fonte de Esperança. Veio direto do Alto, transbordando tudo, transformando tudo. Ele chegou nesse mundo de malucos de uma forma diferente da que eu queria, mas, no dia que quis e do jeito que Deus permitiu, saudável, tranquilo, querido e respeitado. Me transformando em mãe, me dando um novo papel e nova responsabilidade. Já me ensinando sobre resignação, entrega, confiança, aceitação, gratidão.

Hoje ele completa 1 mês de vida e já tem cumprido essa promessa de Jeremias 29:11 que citei acima. Apesar de todo o furacão, as mudanças, o medo, a insegurança, apesar da maternidade e paternidade serem coisas avassaladoras, estamos vertendo amor e alegria. Louvo a Deus pela vida do Dom, o nosso dom.


Eu sou a Talita, nada mais que uma alma encarnada lutando pra cumprir minha missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. Junto com a Carol e a Lu, reflito sobre a vida aqui no Santa Paciência.

O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As marés da vida

Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick
Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick

No devocional desta semana, li um texto lindo escrito por Anne Morrow Lindbergh* no qual ela compara os ciclos da vida às marés de uma praia. Ela escreveu este texto quando ficou sozinha em uma ilha, durante um mês inteiro, para descansar de sua rotina (escritora, piloto de avião, casada e com 5 filhos) e buscar a solitude.

Usando metáforas relacionadas à ilha na qual ela estava (o mar, as conchas, as marés, os pássaros…), Anne reflete sobre as diversas etapas da vida e dos relacionamentos; sobre a necessidade de estar sozinho (viver a solitude regularmente) para poder estar junto com os outros, de se fortalecer para só depois se doar, de ser inteiro quando o mundo nos torna fragmentados.

Sua reflexão me fez pensar nos ciclos normais de nossas vidas e de nossos relacionamentos. Os momentos em que estamos totalmente dedicados aos amigos e os momentos em que nos afastamos para estudar para uma prova difícil; os momentos em que nos apaixonamos e os momentos em que estamos sozinhos; os momentos em que vivemos para os filhos e os momentos de dedicação a um trabalho; os momentos em que adoecemos e diminuímos o ritmo e os momentos em que esbanjamos energia e saúde…

Também nos afastamos e aproximamos daqueles que amamos e que caminham mais perto de nós (nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, namorados, maridos e esposas). Os relacionamentos não são estáticos, há encontros e desencontros enquanto caminhamos juntos e nunca estamos sempre próximos ou sempre distantes. Há ciclos, há fases… como as marés.

Há tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar.
(Eclesiastes 3:5)

Às vezes caminhamos muito próximos de alguns amigos, depois nos afastamos, apesar de continuarmos amigos. É interessante também perceber as marés de nosso relacionamento com Deus. Às vezes, temos experiências de sua presença marcante, outras vezes, sentimos seu silêncio.

A vida é dinâmica. Mas tendemos a nos apegar com força para tentar fazer o momento durar para sempre. Schaeffer já dizia que precisamos aprender a estar presentes para o outro e a viver o momento presente. Respeitar estes ciclos de nossos relacionamentos pode resultar em mais gratidão (e alegria) e em menos ansiedade (e medo).

Se você se render completamente aos momentos que passam, viverá de maneira mais rica esses momentos.
(Anne M. Lindbergh)

A seguir, compartilho um trecho desse devocional com vocês.

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O fluxo e o refluxo da vida

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

Como podemos aprender a viver através das marés de nossa vida? Como se pode aprender a viver as marés baixas da vida? Como aprender a aceitar o vácuo entre duas ondas? É fácil entender isso aqui, na praia; onde a maré baixa, em seu silêncio, revela uma outra vida sobre a superfície, o reino secreto do fundo do mar… moluscos, estrelas-do-mar, mariscos coloridos, conchas… É tão linda a hora silenciosa do refluxo do mar, tão linda quanto a hora do retorno, quando as ondas agitadas se quebram na praia.

Talvez seja esta a coisa mais importante que levo de volta da minha estada à beira mar: simplesmente a lembrança de que cada ciclo da maré é válido; cada ciclo da onda é válido; cada ciclo de um relacionamento é válido.

Quando se aceita o fato de que, mesmo entre os seres humanos mais próximos, continuam a existir distâncias infinitas, pode-se desenvolver uma vida maravilhosa lado a lado. Para isso, os parceiros precisam aprender a amar a distância que os separa, e que possibilita a cada um ver o outro inteiro, como um todo, tendo como fundo a amplidão do céu!
(Rainer Maria Rilke)

Fonte: Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 143–144.

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Anne e Charles Lindbergh
Anne e Charles Lindbergh

*Anne Morrow Lindbergh (1906–2001) e seu marido Charles Lindbergh ficaram conhecidos por realizar viagens de avião transoceânicas (ele era piloto e ela era navegadora e operadora de rádio, mais tarde ela se tornou a primeira mulher americana a obter brevê de piloto de planador). Ela escreveu várias histórias das viagens. Sua fé aparece em seus escritos, principalmente no livro Presente do Mar (que apresenta estes trechos citados acima).

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E ainda pensando nisso. Pensando nas marés da vida e dos relacionamentos, podemos nos sentir inseguros com essa intermitência e ciclos contínuos, com medo de fazer algo errado e perder a relação imediata com a realidade e com aqueles que amamos.

Mas, então, eu me lembrei do que Bonhoeffer (no livro Discipulado) fala sobre a relação imediata ser uma ilusão (por causa da queda, eu não tenho mais uma relação direta com o outro) e Cristo ser o mediador. Não apenas entre mim e Deus, mas entre mim e a realidade, e também entre mim e os outros, Cristo é o único mediador.

Por isso, então, podemos nos sentir seguros em nossos relacionamentos e nas marés da vida. Podemos reconhecer nossas falhas e limitações, assim como as dos outros. Aceitar as ondas de alegria e as ondas de tristeza. Podemos exercer o perdão e a paciência, podemos experimentar a beleza e a esperança ao vivermos o presente.

Porém, não ao olhar para nós ou para os outros, mas apenas ao confiar nAquele que sustenta nossos relacionamentos (que nos aproxima e afasta) e que conduz cada ciclo de nossas vidas em amor.

Entre pai e filho, marido e mulher, entre o indivíduo e o povo, ergue-se Cristo, o Mediador, quer consigam reconhecê-lo, quer não. Não há para nós qualquer caminho ao semelhante que não seja o caminho através de Cristo, da sua Palavra e de nosso discipulado.
(Dietrich Bonhoeffer)


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.