O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minúscula investigação sobre a felicidade

cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”

Não é de hoje, que o tema felicidade, permeia nossas vidas e a buscamos com dedicação.

Por vezes, essa busca torna-se obsessiva, e tal intensidade não nos é natural – analisando sob a perspectiva de quem deveríamos ser e não de quem nos tornamos, é claro.

Pós-queda, o vazio instalou-se em nós de forma intensa, devido a uma ruptura profunda, e vivemos tentando preencher esse vazio com coisas, pessoas, conquistas, conhecimentos, status, dinheiro, sexo, poder, etc – e a lista é infinita

a felicidade ontem

Com o surgimento da filosofia, perguntas sobre a vida, o universo ou o cotidiano, começaram a ser discutidas e estudadas “formalmente”.

Sócrates, por exemplo, acreditou que felicidade era levar uma vida virtuosa. Ou seja, ele não estava interessado em ganhar dinheiro, não procurava respostas ou explicações definitivas mas investigava a base dos conceitos como bom, ruim e justo. Ele acreditava que a virtude (areté em grego, que na época implicava excelência e concretização) era o ‘mais valioso dos bens’.1 Para ele, havia apenas uma coisa boa: conhecimento; e uma coisa má: ignorância’. O conhecimento, para ele, era indissociável da moralidade. E era a ‘única coisa boa’.2

Epicuro, acreditava que o prazer era o fim e o princípio de uma vida feliz, objetivo em direção ao qual todo o indivíduo deveria orientar a própria ação.3 E para isso, seria preciso distinguir entre prazer efêmero (felicidade, alegria) e prazer estável, definido pela negativa, como ausência de dor. Dado que somente o segundo tipo de prazer deveria ser perseguido pelo sábio.4

a felicidade hoje

Analisando tantas outras pessoas, e suas respectivas ideias, percebo que com o passar dos anos, muita coisa na verdade não mudou. Evoluímos científicamente, criamos roupas que não precisam passar, bebemos café gourmet, estamos conectados 24h por dia – 365 dias por ano, moramos em prédios que parecem mini-cidades, pagamos nossas contas on-line, mas continuamos sedentos, com as mesmas questões dentro de nós.

Nossa época, também conhecida como pós-modernidade, ou hipermodernidade, vive a máxima: compre o máximo que puder [eu mereço, eu trabalhei muito para isso] e descarte tão rápido que puder [moda é tendência e tendência é passageira]. Compramos roupas e descartamos pessoas. Trabalhamos para viver e vivemos para trabalhar. Nos sentimos solitários mas não dedicamos tempo em relacionamentos. Compramos o tão sonhado apartamento, do tamanho de uma caixa de fósforos: mas com duas vagas de garagem! Aos 30 anos, temos mestrado, doutorado, pós-doutorado mas somos analfabetos emocionalmente. Vivemos uma verdadeira corrida contra o tempo mas sem saber o por que [ou por quem] estamos correndo.

a felicidade verdadeira

No livro de Eclesiastes, Salomão5 descreve de forma brilhante, todo o processo de sua descoberta sobre o sentido da vida e, por que não dizer, sua busca pela verdadeira felicidade.

Logo no início, ele derrama em nós, leitores, um enorme balde de água fria: Vazio, tudo é um grande vazio! Nada vale a pena! Nada faz sentido!6 Enfatiza também, por diversas vezes, que tudo não passa de correr atrás do vento que tudo é vaidade de vaidades. E, por maior que seja seu desespero, toda essa busca e questionamento é tão autêntico e tão, por assim dizer, humano.

cena do filme "Advogado do Diabo"
cena do filme “Advogado do Diabo”

“Morrer antes de aprender a viver: esse sim é um pesadelo que se pode ter ao meio-dia, debaixo do sol. Não é preciso esperar a noite chegar, para então dormir e ter pesadelos. Não é preciso nada além de estar acordado e consciente de si mesmo. Geralmente, pensar na vida, no que tem ou não tem valor, porque isso ou qual a razão daquilo, implica uma dor quase insuportável.

Quem, em sã consciência, poderia dizer que realizou tudo o que queria na vida? Quem viajou para todos os lugares que queria, ou desfrutou do quanto quis do bom e do melhor? Quem ajuntou tanta riqueza que poderia sustentar três ou quatro gerações? Quem fez coisas grandiosas, belas e úteis? Quem adquiriu conhecimento sobre tudo o que há para ser conhecido? “Ah, eu não, nem cheguei perto”, provavelmente você e eu diríamos. Diríamos também: “Se eu tivesse feito tudo isso, e experimentado toda essas coisas, poderia morrer realizado, pois minha vida teria sentido”. Mas lembre-se de que é Salomão quem está fazendo todos esses questionamentos, e ele realizou todas essas coisas. Ele aprendeu a sabedoria e adquiriu conhecimento, construiu obras grandes e vistosas, foi o rei mais sábio e mais rico que já existiu, e desfrutou intensamente todos os prazeres. Mas ao final ainda tinha na mente a mesma pergunta: que é a vida, senão uma sucessão de fatos sem sentido?”

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz
Introdução: páginas 23-24 (e-book)

A cada capítulo, vamos junto com Salomão, fazendo uma investigação minuciosa sobre o verdadeiro bem-viver. Experimentando e testando hipóteses. Frustando-se e voltando a questionar-se novamente, e novamente, e novamente.

É… Talvez viver seja mais ou menos isso: nos questionar até o cansaço vir à tona, até perdermos todas as nossas forças, para então, nos voltarmos Àquele que É a resposta.

E o mais legal, é que o livro não termina com uma descoberta mirabolante, (…) uma declaração emblemática do tipo “o sentido da vida é…”. Não há resposta para o dilema a respeito do sentido da vida. A sugestão é que, em vez de se desgastar na busca da elucidação do enigma do sentido da vida, o melhor mesmo é correr atrás da própria vida. A filosofia se presta a ajudar a viver, mas viver é muito mais do que filosofar. Mais do que saber, é preciso viver. O que realmente interessa é a satisfação com a vida, a gratidão pelo privilégio de viver e a vontade de continuar vivendo. Saber coisas sobre a vida e não viver bem: isso sim é algo que não faz sentido.7

 

A PALAVRA FINAL
Aquele que está em busca também possuía sabedoria e transmitiu conhecimento a outros. Ele pesou, examinou e organizou muitos provérbios. Ele fez o melhor que pôde para encontrar as palavras certas e escrever a verdade como ela é.

As palavras dos sábios estimulam a viver bem.
São como pregos bem martelados que mantêm a vida unida.
São dadas por Deus, o único Pastor.

Mas, a respeito de qualquer outra coisa, meu amigo vá com calma. Não há limite para se produzir livros, e estudar demais deixa qualquer um esgotado. Para finalizar, a conclusão é a seguinte:

Tema a Deus.
E faça tudo que ele mandar. 

É isso. No devido tempo, Deus deixará às claras tudo o que fazemos e fará o julgamento. E ele conhece até mesmo as nossas intenções mais secretas, sejam elas boas ou más.

Eclesiastes 12.9-14 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea

 

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NOTAS:

1 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
2 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
3 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
4 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
5 A autoria do livro ser de Salomão é questionado por muitas pessoas
6 Eclesiastes 1.2 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea
7 Trecho extraído de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz, página 324 (e-book)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Da casa na mãe à casa no Pai!

CasaIsabelle

Nossa primeira casa foi o útero da nossa mãe. Não temos lembranças conscientes, mas assimilamos as emoções associadas à nossa gestação. Se fomos esperados, celebrados, se chegamos no meio de uma crise, se houve tentativa de aborto, tudo isto já deixou marcas profundas. Esta casa foi se tornando apertada até que fomos expulsos dela de forma agressiva: passagem estreita ou intromissão invasiva. Fomos expostos à luz, esticados e nosso choro de dor e pavor acolhido com sorrisos, numa primeira experiência de total incompreensão!

Outra casa fundamental foi a casa da nossa infância, cheia de mistérios e encantos, já que o olhar da criança transforma pedras em carros, lençóis em fantasmas, sem falar nos amigos e monstros imaginários tão bem revelados nas tiras do Calvin. Tenho uma ternura profunda pela casa das férias no sul da França, que propiciou nossas únicas raízes já que moramos em vários países diferentes. É lá que reencontrava meus brinquedos da fase anterior, armários cheios de fantasias no sótão, a natureza generosa do verão com suas amoras colhidas no pé. Quando meus pais faleceram, este tesouro teve que ser vendido e suas entranhas distribuídas entre os irmãos. Voltando para lá recentemente, reencontrei o jardim e os muros, mas a alma da casa foi totalmente transformada pelos novos proprietários. Que alívio perceber que o encanto permanece em mim inalterado e imune às mudanças externas! Como frisa Mia Couto: O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra). Cabe a nós fazer com que alguns lugares permaneçam vivos dentro da gente.

Lembrei de uma sábia reflexão da Lia Luft no seu lindo livro Perdas e Ganhos: A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Em plena maturidade sinto em mim a menina assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim de muitas décadas atrás. Precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente eu armazenaria as ruins. É minha responsabilidade cultivar estas memórias estruturantes e soltar aquelas que me feriram. Neste processo de apego às expressões da Graça, sigo o conselho bíblico de considerar todas as coisas e reter o que é bom.

Se cada casa pela qual transitamos deixou alguma marca, a casa fundamental é a casa em mim onde Deus escolheu fazer morada. Esta casa é muitas vezes ignorada, negligenciada, desconhecida, já que tendemos a nos alienar do nosso mundo interior e ficar a mercê dos desafios e demandas do sistema no qual vivemos. Como diz Tereza de Avila, no Caminho da Perfeição: Se eu tivesse entendido, como entendo hoje, que neste minúsculo palácio da minha alma mora um tão grande Rei, eu não o teria deixado só tão frequentemente; eu teria permanecido de vez em quando perto dele, e teria feito o necessário para que o palácio seja menos sujo. Que admirável pensar que aquele cuja grandeza encheria mil mundos e muito mais, se tranque assim numa moradia tão pequena!

Sigamos a pista de Angelus Silésius: Algumas pessoas partem para peregrinações distantes. Elas fazem procissões em volta do templo, sem entrar no santuário. Eu vou em peregrinação, em direção ao Amigo que mora em mim. Como revela Anselm Grun, no livro O Céu Começa em Você: Cada um de nós carrega em si um lugar de silêncio… ali, onde Deus habita em nós, somos salvos e íntegros; ali ninguém pode nos atingir e é também ali que somos livres. É no silêncio que adentramos esta casa onde somos recebidos com um abraço e ouvimos a saudação do amado.

Fugimos deste caminho interior porque há muitos entulhos, medos, frustrações, preocupações, que preferimos ignorar e que nos perseguem, levando­-nos a um ativismo desenfreado. Quem não consegue parar, na realidade não consegue ficar consigo mesmo. Como diz Henri Nouwen: Muitas vozes chamam nossa atenção. Há uma voz que diz: “Prove que você é uma boa pessoa”. Outra censura: “Você deveria se envergonhar de si mesmo”. Há também uma voz que diz: “Ninguém realmente se importa com você”, e outra: “Tenha certeza de se tornar uma pessoa bem sucedida, popular e poderosa”. Mas sob todas essas vozes, que são quase sempre muito estridentes, há uma voz calma e discreta que diz: “Tu és meu amado, meus favores recaem sobre ti”. Essa é a voz que realmente precisamos ouvir. No entanto, é necessário um esforço especial para isso; ouvi­-la requer solitude, silêncio e uma forte determinação. Isso é a oração. É ouvir a voz que nos chama de “meus amados”.

Nesta casa interior, podemos derramar o nosso coração, nossas feridas são curadas, nossos pecados confessados e perdoados. Alí, nossa identidade de filhos ganha consistência e somos transformados à imagem de Cristo. Assim, podemos enfrentar o mundo, não para mendigar afeto, reconhecimento, afirmação, mas para ser luz e compartilhar o que recebemos. Sendo amigos da Trindade, somos chamados a ser amigos uns dos outros e sinalizar o fonte desta amizade. Lembrei então do lindo poema de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, cantado por Lenine e Zé Renato: Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre. Construímos cômodos para abrigar os amigos que moram em nosso coração. Esta hospitalidade expande nossas paredes e amplia nosso espaço interior, tornando­nos ricos de tudo o que doamos.

Assim, vamos ao encontro da nossa última morada que Cristo já nos preparou, onde não haverá mais choro, nem dolo, apenas celebração, banquete e comunhão. Cuidemos bem da nossa casa interior porque dela procedem as fontes da vida.

 


Isabelle Ludovico é francesa de nascimento e brasileira de coração, peregrina, aprendiz da Graça, companheira do Osmar, mãe, avó, amiga, psicóloga clínica sistêmica com especial atenção para adultos e casais.

Vinho, desperdício e inteligência

sangria
Sangria que fizemos em casa a partir de um vinho “ruim”

 

Algum tempo atrás recebemos amigos aqui em casa, que trouxeram uma garrafa de vinho. Ao prová-lo, meus amigos o acharam azedo e não só jogaram fora o vinho que estava na taça deles, como queriam jogar a garrafa inteira pelo ralo. Quando sugeriram isso, meu marido e eu trocamos olhares esbugalhados de espanto, como se nossos amigos tivessem proposto a coisa mais obscena do mundo. Foi uma reação automática, sem que a gente tivesse tido tempo de disfarçar. Para nós dois, que desenvolvemos juntos a cultura do não-desperdício, ouvir alguém dizer que vai jogar fora algo que não está estragado e que ainda nem acabou nos deixa, de fato, atordoados. O desperdício – não só de comida, mas de qualquer outro bem de consumo – se tornou uma das minhas maiores dores quando penso nas grandes questões sociais/globais/humanas/e-o-que-mais-couber-aqui.

Para começar de um ponto de vista bem capitalista, tudo o que você desperdiça representa dinheiro. Dinheiro que você pagou pelo vinho (você jogaria 30 ou 40 reais pelo ralo??) e que você conseguiu com o seu trabalho. Já pensou se o seu chefe “joga pelo ralo” uma hora do seu serviço e não te paga? Afinal, o correspondente em salário desse tempo vai pelo ralo em forma de vinho mesmo. Que diferença faz?

Em segundo lugar, existe a questão administrativa das coisas. Explico: se você administra seus compromissos, sua rotina, suas responsabilidades no trabalho, seu dinheiro e seus relacionamentos, por que não administrar o seu consumo e o excedente dele? Será que você realmente precisa comprar tanta carne no fim de semana, sabendo que você só estará em casa no sábado e no domingo e que, a partir de segunda-feira, você volta a comer perto do trabalho? E quando você vai a um restaurante, você come tudo o que está no seu prato? Se a resposta for não, por que não? Será que não conseguiu calcular corretamente o quanto seu estômago aguenta ou será que você já está intoxicado com a cultura da sobra, do lixo, do desperdício? Com isso, não estou sugerindo que você coma pouco e passe fome, claro que não. Mas convido você a fazer uma reflexão inteligente sobre o que é suficiente. Ah, essa palavrinha… tudo o que vem em porções suficientes na nossa vida nos satisfaz e não prejudica os outros.

Falando em outros… eu não poderia deixar de citar aqui o que o desperdício representa para as pessoas que você não conhece, mas que existem mesmo assim e que têm o mesmo direito que você àquilo tudo que você não só consome, mas joga fora. Eu poderia citar estatísticas, mas serei direta quanto à relação “você-desperdiça-na-sua-casa-e-uma-pessoa-na-Etiópia-passa-fome”:  jogar comida fora significa que você compra demais (mais do que precisa), o que acaba valorizando o que é produzido e permite que o produtor cobre mais caro pelo alimento que produz. Uma vez que o alimento está caro, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-lo e, dessa forma, ele não chega até a mesa dos menos favorecidos. Simples e triste assim. Eu poderia falar de questões ambientais também, como o excesso de lixo orgânico, além da exploração nas relações de trabalho, trabalho escravo e um mundo de outras coisas, mas acho que você já entendeu o meu ponto.

Por fim, este parágrafo é para os cristãos: desperdício é pecado. É você desconsiderar o que a terra produz, é você administrar mal o que Deus te dá, é você não pensar no outro nem na Criação (afinal, está contribuindo para o acúmulo de lixo), é você querer mais do que precisa, é você mostrar ingratidão a Deus porque não está contente com o que Ele te dá, é você pensar só em você mesmo. Está bom ou quer mais?

Sim, a questão do desperdício é complexa, profunda, delicada e chata de ser abordada. Mas pode ter certeza que, quando você domina a arte do não-desperdício, você se sente livre, satisfeito e ainda tem um dinheirinho extra – fruto dos gastos controlados – para investir naquele sonho antigo seu. Para mim, o não-desperdício foi uma lição que aprendi aos poucos, depois de muito conviver com o David, meu marido, que, por ser filho de pais que viveram num contexto de guerra, aprendeu a reaproveitar tudo. Tudo mesmo.

Se você estiver sem ideias sobre como reaproveitar as coisas, aqui vão algumas sugestões que usamos aqui em casa (mas que são só isto mesmo: sugestões. O intuito é você adaptá-las de acordo com a sua realidade e disposição):

– O vinho ruim pode servir para receitas ou para uma refrescante sangria em dia quente (a foto lá do topo comprova que dá certo);

– Se você tem plantas em casa, as cascas de frutas e legumes podem virar adubo; além disso, fazemos também caldo de legumes com essas cascas (cozinhando tudo junto – até a casca da cebola – por algum tempo) e os talos dos brócolis, da couve, do espinafre e da couve-flor viram uma sopa-creme deliciosa em noites frias.

– Até 1 ano de idade, o nosso filho Álef usou fraldas laváveis. Ao contrário do que você pode pensar, essas fraldas são modernas e feitas para entrar sem dramas na máquina de lavar. Usando essas fraldas, produzimos menos lixo e economizamos um bom dinheiro (e não, não gastamos mais água por conta disso. Gastam-se muitos mais litros do que a nossa modesta máquina de lavar na produção de uma única fralda descartável).

– Sacolas plásticas de mercado só entram em casa por pessoas que vêm nos visitar.

– Fazemos os presentes de aniversário que damos (tenho certeza que alguma habilidade artística você também tem).

– Fazemos o nosso próprio pão, a nossa manteiga, a nossa geleia… dá mais vontade de comer até o fim.

– Temos espátulas de silicone de vários tamanhos diferentes. Elas permitem que a gente raspe fundinhos de copo de requeijão, panela, liquidificador e outros recipientes que acumulam restinhos que acabam sendo desperdiçados.

– Não enchemos muito a geladeira com sobras de comida, senão não damos conta de comer a tempo, antes que estraguem. E usamos sobras para fazer um novo prato: um arroz de forno, uma pizza de frango (sobrado) desfiado e por aí vai.

– Antes de irmos ao mercado, espiamos os armários e a geladeira e só compramos aquilo que irá repor o que já acabou. Ah, e também fazemos uma lista dos itens que vamos comprar antes de sair de casa. Isso nos ajuda a não cair na tentação de comprar mais do que precisamos.

– Só lavamos roupa quando temos roupas suficientes para encher a máquina. Senão, será desperdício de água e eletricidade na certa.

– Nem tudo o que passou da validade está estragado. A validade, na verdade, indica quando o produto está em sua melhor época para ser consumido, e não que ele estará estragado depois disso, necessariamente. Isso tanto é verdade, que em inglês a expressão para a validade das coisas é “best before” (“melhor antes de”) e não “spoiled after” (“estragado depois de”). Cheirar o alimento, observar o seu aspecto e colocar um pouquinho na boca para testar o gosto ainda são as melhores formas para detectar se ele ainda está bom para o consumo. E não raras vezes, ele ainda está bom.

– Compramos o mínimo de produtos industrializados. Isso economiza dinheiro, evita o descarte excessivo de embalagens, ativa a imaginação para cozinharmos nossa própria comida e tentarmos receitas diferentes (que podem ser simples) e ainda nos faz mais saudáveis.

– A água de lavagem de frutas e vegetais vai para uma bacia e depois é destinada para matar a sede das plantas.

– Repassamos roupas em bom estado para outras pessoas e ganhamos roupas também. Isso vale especialmente para o Álef, que ganha quase tudo dos primos e depois repassa o que usou para o filhinho do mecânico que cuida do nosso carro.

– Por último e mais chocante item de todos desta lista (preparado??): substituímos os passeios ao shopping por visitas a museus (!!). Essa troca representa economia de tempo, geralmente desperdiçado na procura de vagas em estacionamentos superlotados e filas eternas nos fast-foods, além de limpar a nossa cabeça do consumismo e recheá-la de novo com cultura. :)

Claro que somos bastante criticados por adotar essas medidas todas (e olha que sabemos de gente que economiza bem mais do que a gente). As pessoas tendem a achar que riqueza e fartura significam você poder comprar e jogar fora o que comprou e que economizar é o mesmo que ser mesquinho, avarento. Para nós, que somos mais do que felizes com tudo o que temos, o não-desperdício ganhou outros três nomes: consciência, autocontrole e  inteligência.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.