O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

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1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liturgia do ordinário

Encontrando o Sagrado na rotina comum da vida diária e entendendo o tempo.

Foto de Wil Stewart

A nossa rotina, as coisas que fazemos e como as fazemos, a forma como gastamos o nosso tempo, as demandas que nos ocupam, o jeito que vivemos cada dia ordinário de 24 horas… importam grandemente e são o substrato onde Deus nos encontra, nos transforma, nos ensina a amá-lo e a amar os outros.

A divisão entre secular e sagrado é tão natural em nossa mente que normalmente separamos Deus das coisas ordinárias da vida, associando-o com situações mais ‘santas’ como um momento de oração, uma reunião da igreja, o culto, etc.

Afinal, o que há de sagrado em acordar e escovar os dentes, arrumar a casa, responder uma lista infinita de emails e mensagens de WhatsApp, ficar parada no trânsito, comer, lavar a louça, tomar banho, lavar roupa, trabalhar, encontrar com as pessoas, participar de reuniões, conversar ao telefone, consertar coisas que estragam, perder e (às vezes) encontrar coisas perdidas, dormir? (E mais um monte de outras coisas muito ordinárias que acontecem entre essas atividades em um dia comum).

Talvez, inconscientemente, nós acreditamos que a santificação acontece naqueles momentos especiais de adoração e revelação, geralmente durante um momento de louvor. Como se o processo de transformação que Deus está operando em nós fosse desconectado das atividades ordinárias da vida comum.

O curioso é que são essas atividades ordinárias que ocupam a maior parte do nosso tempo. Tempo. Nosso tempo. Corremos para lá e para cá, executando um monte de atividades, de acordo com nossas agendas. Agimos como se controlássemos o ‘nosso’ tempo e o que acontece dentro dele. E deixamos apenas algumas horas para Deus nesse ‘nosso’ tempo cada vez mais escasso, onde lemos a Bíblia, meditamos, oramos ou fazemos algum estudo bíblico.

Esse ‘nosso’ tempo é guiado por diferentes calendários, de acordo com o que é prioridade no momento: o calendário escolar, depois o calendário acadêmico, depois o calendário do trabalho… eles é que nos dizem quando é hora de trabalhar e de descansar, quando é hora de celebrar e de fazer uma prova. E todas as demais atividades são espremidas no tempo que sobra.

Mas, e se o tempo não fosse apenas algo que nos limita? E se o tempo (e cada coisa ordinária que fazemos dentro dele) fosse sagrado? E se houvesse um tempo marcado por um calendário que desse forma à nossa vida? Um tempo não arbitrário, não definido pelo mercado de trabalho. Um calendário que contasse uma história, que tivesse uma liturgia própria que trouxesse sentido a cada atividade ordinária, que nos moldasse e nos ensinasse a viver cada dia debaixo do sol?

Descobrir o calendário litúrgico foi como descobrir o tempo real. — Tish Harrison Warren

Sim, existe um outro tipo de calendário conhecido como Calendário Litúrgico ou Calendário Cristão, também chamado de Ano Litúrgico ou Cristão. Um calendário elaborado em tempos antigos e utilizado ao longo da história da igreja. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa.

A cada semana nós participamos do trabalho criativo de Deus e descansamos. A cada ano nós recontamos a história de Jesus. Advento, Natal, Epifania: a história do povo de Deus esperando pelo Messias, o nascimento de Jesus, sua revelação como Rei. Quaresma, Páscoa, Pentecostes: a história da tentação de Jesus, a vida em um mundo caído, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão, a vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja. Nós vivemos esta história a cada ano, semana a semana, vivendo o que confessamos nos credos no modo como nomeamos os nossos dias. — Tish Harrison Warren

O Calendário Cristão é organizado diante da narrativa da revelação de Deus através de Jesus, de sua ação no mundo e em nossas vidas. O ritmo ensinado nesse calendário nos ajuda a abraçar as tensões de nossa realidade e a enxergá-las sob a perspectiva desta grande narrativa. A trabalhar já por um novo reino e a esperar porque ele ainda não está completo. Nós aprendemos a celebrar e a chorar. A nos apropriar da vida de Jesus que nos é oferecida a cada dia. A trabalhar e a multiplicar os talentos que nos foram dados. A amar cada um que encontramos da forma mais prática que esse amor pode assumir. E a descansar, porque Ele já completou o seu trabalho e tem cuidado de nós.

Aprendemos que o tempo não pertence a nós. Que nosso valor não está na quantidade de tarefas realizadas, na eficiência no controle do tempo.

Eu preciso da igreja para me lembrar da realidade: o tempo não é uma mercadoria que eu controlo, administro ou consumo. A prática do tempo litúrgico me ensina, dia a dia, que o tempo não é meu. Ele não gira ao redor de mim. O tempo gira ao redor de Deus — o que ele fez, o que está fazendo e o que vai fazer. — Tish Harrison Warren

É como se estivéssemos em treinamento. Aprendendo a viver em uma outra realidade, a seguir um outro ritmo, a responder a um outro tempo. E cada dia de 24 horas nos oferece um tempo sagrado, no qual surgem as oportunidades para esse aprendizado, para essa transformação, através das atividades mais ordinárias.

Quando eu acordo, por exemplo, me lembro de quem sou: amada, escolhida, aceita. E antes de mergulhar nas redes sociais com os olhos semiabertos, ou afundar na lista de atividades como um zumbi, eu faço uma oração, converso com meu Senhor que me concede mais um dia de vida.

Somos marcados desde o primeiro momento em que acordamos por uma identidade que nos é dada pela graça: uma identidade mais profunda e mais real do que qualquer outra identidade que podemos usar ao longo do nosso dia.— Tish Harrison Warren

Então escovamos os dentes, cuidamos do corpo, nos alimentamos. Um ritmo que demonstra nossa finitude, a necessidade de alimento diário, de cuidado diário. Reflete o próprio ritmo da fé: de dependência, de cuidado, de obediência diários, momento a momento. Nossos corações e nossos amores são moldados pelo que fazemos diariamente.

Arrumamos a cama, lavamos a louça, cuidamos da casa, da roupa. Trabalhamos, respondemos emails, encontramos pessoas, participamos de reuniões. Através das tarefas mais cotidianas a transformação de Deus espalha suas raízes e cresce. Exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, organizamos, criamos, cuidamos, somos cuidados.

Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.

Foto de Poppy Barach

Preparamos refeições, comemos sozinhos, comemos com os amigos e com a família, rimos e conversamos, abraçamos, dormimos e descansamos. Experimentamos prazeres ordinários, de alegria, encanto, satisfação e divertimento. Ação de graças, reconhecimento da bondade, adoração, entrega.

Esses são apenas alguns exemplos de situações ordinárias que vivemos todos os dias. Deus nos chama para vivermos uma vida de alegria e contentamento no meio de circunstâncias bem concretas como essas, situações que experimentamos diariamente. Situações que são cheias de encanto, de aprendizado, de revelação, de confronto, de crescimento, de beleza, de vida.

Em um mundo sempre ocupado e com pressa, desenvolvemos hábitos de falta de atenção e perdemos a manifestação de sentido nas pequenas coisas. Caminhamos como mortos vivos e não como pessoas cheias de vida. A vida que nos é oferecida na história contada pelo tempo é tão exuberante que nos transforma, nos cura, nos faz inteiros e completamente vivos.

Eu preciso aprender a encontrar a alegria e a rejeitar o desespero no momento em que eu estou vivendo agora. Em meio às pequenas pressões e ansiedades, preciso aprender a confiar em Deus, a olhar para a cruz e a me apropriar do que Ele já fez por mim. A depender dele, a esperar com fé e a agir não baseada em minha própria força ou entendimento.

O calendário cristão traz luz para minha rotina diária ao me lembrar que eu faço parte de um povo que vive em uma história diferente. Que junto com esse povo, com a igreja, eu estou inserida nessa história e ela também se torna a minha, a nossa, história. Deus está redimindo todas as coisas, incluindo cada um de nós. Nossas vidas — e nossos dias — são parte dessa redenção. Nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido.

Então, o meu dia de hoje se torna transparente e eu vejo vislumbres de algo maior por trás dos inúmeros pequenos cuidados diários. E eu posso ter uma atitude diferente de simplesmente me entregar a uma rotina sem vida, ao cumprimento automático de atividades sem sentido, ao tédio, à pressa.

O que Ele fez e está fazendo têm reflexos na forma como eu vivo o meu dia. Nada do que vivo ou faço, minhas escolhas e sonhos, foge do Senhorio dele em minha vida. Além disso, o que experimento no culto aos domingos — a adoração, a leitura da Palavra, a oração, a confissão de pecados, o perdão, o pão e o vinho, a oferta, a comunhão, o abraço do meu irmão, a bênção… — molda a minha experiência diária em cada um dos outros seis dias.

Deus está nos formando em um novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos do hoje. — Tish Harrison Warren

Ele está nos formando quando vivemos o tempo sagrado que nos é dado, por graça, e fazemos o que precisa ser feito nas rotinas mais ordinárias do nosso dia. Cada dia, por mais comum, é carregado de sentido e parte da vida abundante que Deus tem para nós. Como vivemos cada dia ordinário é como estamos vivendo nossa vida inteira.

Precisamos ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia. Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura. Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

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Essa reflexão foi baseada no livro de Tish Harrison Warren: Liturgy of the ordinary, sacred practices in everyday life, de onde tirei as citações apresentadas ao longo do texto (em tradução livre). Aprendi tanto que estou pensando em escrever uma reflexão para alguns capítulos dele.

Também estão alinhadas com as discussões que fazemos no L’Abri, em especial, o sacramento do momento presente.

Além disso, tenho usado o Calendário Cristão há alguns anos e o Lecionário mais recentemente. Minha sensação também é a de que descobri o tempo real e meus dias têm sido mais ricos com a ajuda desses recursos, com o entendimento dessa narrativa.

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Texto publicado originalmente em Lecionáriohttps://lecionario.com/a-liturgia-do-ordinário

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Relato de um parto desplanejado

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Quando o David me mostrou essa foto que ele tirou nos primeiros minutos de vida do Dominic, eu escutei a voz de Deus falando comigo, de novo, sobre controle. Eu sonhei, literalmente, com um parto natural humanizado, com velas aromáticas e som ambiente com a playlist escolhida cuidadosamente pra ocasião, aliviando as contrações na banheira, me movimentando livremente, parindo junto com o Dom minhas dores, meus medos e fazendo print da placenta depois, pra enquadrar e colocar na parede.

Fiz atividade física específica pensando nisso, preparei minha mente, fiz o pré natal numa Casa de Parto acolhedora, li sobre um milhão de coisas relacionadas ao tema, fiz cursos pra gestante, me empoderei.

Tive mais ou menos 15 dias de pródomos (que é tipo um pré parto, digamos assim, o que anuncia que a primeira, de três fases do trabalho de parto está por chegar). Com 40 semanas exatas perdi o tampão e com 40 semanas e 1 dia, tive uma consulta com a parteira e nesse dia já estávamos com tudo pronto no carro, a mochila do Dom, a nossa, o bebê conforto pra volta pra casa de carro, tudo preparado, porque as contrações estavam evoluindo, eu imaginava. Estava tão cansada e pesada, que queria e pedia que elas progredissem logo. Quase como se estar com tudo já no carro fosse atrair o parto ou algo assim.

A parteira mediu a altura uterina e ficou preocupada, porque era um bebezão ali dentro e a Casa Ângela só faz partos de bebês até 4kg, por questões de segurança e saúde da mãe e do bebê. Chamou outra parteira pra medir também e conferir. As duas visivelmente chateadas me disseram a mesma coisa: ele era um bebezão. Pediram um ultrassom e disseram que sentiam muito, mas, o resultado dele diria se eu poderia parir ali ou não.

Acho que eu nunca vou esquecer a cara de tristeza e choro que o David fez quando ouviu isso. A gente estava há 40 semanas se preparando, 8 semanas indo periodicamente a consultas com as parteiras, 6 semanas fazendo cursos sobre o fim da gestação, trabalho de parto, parto natural, puerpério e cuidados com o bebê, e de repente estava tudo escapando das nossas mãos. Claro, a gente sabia que tudo aquilo era só um plano, tanto que tínhamos 3, o A, o B e o C. Estávamos relativamente satisfeitos com os 3, mas queríamos muito o primeiro. Não fazíamos ideia de que iríamos direto pro terceiro. Na Casa Ângela é feito um plano de parto, que fala sobre nossas pretensões pra esse momento e, somos orientados a incluir mais algumas possibilidades, caso a ideia principal não seja mais viável.

Procurei manter a calma, principalmente pra não afetar o Dominic, mas, eu sentia que meu desejo primeiro tinha se perdido. Dali mesmo fomos pro Hospital fazer o ultrassom, apreensivos, frustrados e tristes. A conduta do Hospital do meu plano de saúde pra uma gestação à partir de 40 semanas de um bebê grande era cesariana, eu já sabia disso. Tinha certeza que poderia entrar e não sair sem o Dom nos braços. Fiquei chateada de novo e pensei: o Hospital não pode me amarrar e prender lá, certo? Mas, aí eu me dei conta de que eu poderia conhecer o Dominic naquele dia mesmo! Tínhamos que fazer e aguardar o ultrassom e só depois disso resolver o que concluir, mas, essa ideia de que nosso encontro estava muito, muito perto me deixou tão feliz que eu falei pro David: tudo bem, se for cesariana, tudo bem, se o médico orientar a tirar hoje, tudo bem. Fiquei inesperadamente feliz e curiosa.

Fizemos o ultrassom e, claro, não tem balança dentro daquela máquina e era só uma estimativa, muito próxima da realidade, mas, só uma estimativa que mostrou Dominic com 4,270kg. Por isso tanto cansaço, por isso uma sinusite de dois meses sem curar mesmo com antibióticos, por isso minhas pernas não fechavam mais, por isso a dor terrível nas costas, por isso abaixar era impossível, por isso o David secava minhas pernas e pés todo dia após o banho, por isso eu não conseguia mais dormir. Era um bebezão. Um bebezão que eu viria a qualquer hora!

Como não estava nem na fase latente ainda (a primeira fase do trabalho de parto, com as contrações regulares e intensas), precisaria agendar uma cesariana. Era véspera de Sexta Feira Santa, já tinha passado o horário de agendamento, eu só conseguiria resolver isso na Segunda, dia 17. O lindo dia 17. Eu deveria chegar às 10h no Hospital, passar no pronto socorro e avisar que queria marcar a cirurgia. Simples assim. Mas, dolorido assim, também. Tudo bem, meu sonho tinha ido pro ralo, mas, agendar a cirurgia? Marcar hora, dia? Engoli a seco. A gravidez inteira eu disse pro Dominic que ele nasceria no dia que quisesse e agendar uma cesariana me parecia ser um desrespeito. Obviamente, essa é a minha opinião, a minha história. Eu não sou ativista do parto normal, eu não sou ativista da cesariana, eu só queria seguir com meu desejo e agir conforme meus princípios e com o que acredito. De qualquer forma, apesar da frustração, relaxei, porque a verdade dura é que eu não tenho controle de nada, simples assim. Era isso que Deus estava me ensinando, enfaticamente. Considero absolutamente importante planejar, estruturar, prever, avaliar riscos, mas, sabendo e aceitando que as coisas podem não acontecer como o esperado e ok, não é o fim do mundo e a gente pode não saber lidar com isso, mas, tem que lidar mesmo assim.

Já que não tinha o que fazer além de esperar o feriado prolongado passar, na Sexta fomos ao cinema assistir Velozes e Furiosos 8, mantendo a tradição de quase 10 anos que temos em casa e que confesso: eu estava triste, porque a data prevista de parto era justamente na pré estreia e eu perderia. Mas, Dominic foi gentil com a gente e então levamos ele pra conhecer seu xará! E sim, o nome dele é Dominic, inspirado no Dominic Toretto. E sim, eu realmente gosto dessa franquia!

Nesse meio tempo eu perdi, gradativamente, o que mais tarde eu soube que era líquido amniótico, mas, que enquanto perdia, achava só que era um corrimento mais intenso, ou escape leve de urina. Nem me importei…

A Segunda chegou e, na saída de casa o David lembrou que era rodízio do carro! Comecei a chorar, porque a essa altura eu já estava de saco cheio. Eu passei toda a gestação sem ansiedade, mas, estava começando a ficar tensa e desejando que tudo acabasse, ou, melhor dizendo, começasse logo. Era como se, já que meu plano A não deu certo, vamos logo com isso, plano C! Muito cansaço, falta de ar, tosse da sinusite, dor da contratura muscular que tive de tanto tossir, dificuldade pra andar, peso e blá-blá-blá. O David achou um caminho alternativo e fomos.

Durante a consulta, soube que me deram informação errada e que os dias para agendar cesariana eram terça e quinta, não de segunda à sexta. Fiquei brava, muito brava. Estava realmente me esforçando pra lidar com a frustração e a coisa toda só se prolongando. Eu conversava com o Dom, dizia pra ele que estava tudo bem, eu só estava cansada. E dá-lhe aprender que eu não controlo nada, não importa o quanto eu tente ou queira. E já ia dizendo isso pra ele, também. Total exercício de impermanência, de fluidez, de desprendimento, de suspensão, de desapego, de deixar-ser.

A médica do pronto socorro explicou que o médico que agendava as cesarianas ia pedir dois exames e que sem eles ele não agendava as cirurgias: um cardiotoco, que analisa os batimentos cardíacos do bebê, e um perfil de vitalidade fetal, que é um ultrassom bem detalhado que vê umas coisas importantes aí. Ela fez os pedidos e disse pra eu já adiantar e fazê-los na Segunda mesmo. Outra notícia importuna? Isso foi às 10h e o perfil de vitalidade fetal só era feito após às 16h. Manda mais, Deus, que tá pouco.

Fiz o cardiotoco, que estava lindinho, e voltamos pra casa. Já tinha largado mão e falei pra Deus que beleza, eu ia suspender, ia fazer o que devia ter feito antes: aceitar, esperar, desencanar, confiar. Almocei deliciosamente, já que fui pro hospital de manhã em jejum pensando “vai que”… E pra cirurgia deveria estar em jejum de 8h.

Pontualmente às 16h estávamos na porta da sala de exame do perfil de vitalidade fetal. Ali começou. Uma médica muito atenciosa explicou detalhadamente o exame. A previsão de peso, de tamanho, como ele estava… Avisamos que nossa intenção era o parto natural, mas que na Casa Ângela não seria mais possível. Avisamos que eu não tive dilatação, nem contrações regulares, nada além dos pródomos. Ela terminou o exame e disse que a médica do pronto socorro explicaria melhor, mas, pra eu subir até o consultório com a ideia de que ficaria, pelo menos, internada. O Dominic estava bem, mas era um gorducho e talvez o tamanho dele estaria dificultando o encaixe perfeito na pelve pro início das contrações regulares. Só seria possível ter certeza disso se de fato o trabalho de parto ativo (a segunda fase do trabalho de parto, lembra?) iniciasse, e aí se estendesse muito e aí um sofrimento fetal acontecesse. Ela também falou sobre o líquido amniótico, que eu estava perdendo consideravelmente e não era lá uma coisa muito bacana. Ela avisou que não era impossível um parto normal, mas, que poderia ser mais difícil e demorado.

Só que, na verdade, não importava mais nada disso, porque eu não confio em parto normal hospitalar. Eu confio em parto normal e natural em Casa de Parto, ou domiciliar assistido por uma equipe especializada. Só. Não podendo ter isso, vamos pra cirurgia, sim, porque eu acredito que médico que não seja de equipe especializada em parto normal não tá preparado pra isso, mas faz uma cesariana como ninguém.

Voltamos pro consultório da obstetra plantonista do pronto socorro, ela leu os exames, falou a mesma coisa que a médica do exame havia dito, com um adendo: “pai, você vai descer com os documentos dela pra fazer a internação e mãe, você espera aqui ele voltar, aí a enfermeira vai te chamar pra se vestir pra cirurgia”. 

Aí meu coração acelerou, aí eu fui tomada por uma porção de sensações e sentimentos que nem sei dizer. O Dominic estava chegando! Eu estava aliviada. Não teria meu parto natural, mas, o dia e a hora em que ele quis nascer foram respeitados, minha angústia de agendar a cesariana tinha passado. Eu estava segura da decisão, o David também, estávamos em órbita.

Foi o tempo do David voltar pro andar do centro cirúrgico, avisarmos nossos pais, irmãos e alguns amigos, e fui tomar a anestesia enquanto o David se paramentava. A sala estava em temperatura ambiente, rádio ligado na estação Alpha FM, luz baixa e um anestesista cuidadoso que finalmente conseguiu colocar o acesso, depois de 5 tentativas frustradas das enfermeiras. Tomei a anestesia e o David entrou, sentou ao meu lado. Começou a me dar falta de ar, já que a sinusite ainda estava atacada e eu precisei ficar completamente deitada. Tampou tudo. Por causa da anestesia, eu não sentia o ar entrando pela boca e indo pro pulmão. O anestesista ficava dizendo “relaxa, respira, seus batimentos estão perfeitos, sua pressão tá ótima, confia em mim, tá tudo bem, olha lá o aparelho marcando, tá tudo bem…”.

A obstetra entrou (uma diferente da consulta), se apresentou, me disse o que iria fazer, explicou como estavam as coisas, eu não prestei atenção porque achei que fosse morrer sem ar hahaha

Eu pedi pro David segurar minha mão, porque se fosse morrer, pelo menos ele tava ali do lado rs 

A cirurgia começou e o David ficou com um olho lá outro cá. A médica ia me falando o que estava fazendo, eu continuei sem conseguir prestar atenção. De repente vi uma movimentação diferente, o olhar do David mudar, mas não ouvi nada e estava esperando um chorinho ou um resmungo, qualquer coisa do tipo, mas, nada…

Perguntei o que estava acontecendo e alguém disse “nasceu”. Mas Jesus, cadê o menino, cadê qualquer reação dele?! Aí o David começou a dizer que estava tudo bem, que ele estava ótimo, que estavam limpando ele pra trazer pra vermos. Perguntei por que ele não chorou e alguém disse (não lembro quem): porque ele é calminho! 

Esquecemos de todo nosso plano de parto (tinha um pra cesariana, também)! Esqueci de falar pra esperar o cordão parar de pulsar pra cortar (mas a médica esperou mesmo assim, ufa), o David esqueceu de dizer que queria cortar, esquecemos de pedir pra não pingar nitrato de prata nos olhos dele e quando lembramos já era tarde demais, o que causou uma queimadura (leve, mas mesmo assim, que ódio) na pálpebra dele, esquecemos de pedir pra dar a vitamina K e a vacina contra hepatite no colo… Tudo saiu fora do esperado. A única coisa que lembrei foi de pedir pra amamentar ele ainda ali, mas a médica disse que não era ideal, por causa da anestesia. Eu concordei, embora chateada.

Finalmente (na verdade foi tudo muito rápido, mas eu estava sem ar, sem ouvir nenhuma reação do Dominic, pareceu um ano inteiro ali) trouxeram ele até nós e eu achei ele lindo, cheiroso, fiquei emocionada e encantada com cada pedaço dele que eu consegui enxergar. Não me apaixonei à primeira vista, nem amei louca e instantaneamente, mas eu já esperava por isso e tava super tranquila, porque não acredito nesse tipo de coisa, eu acredito que amor é construção diária e aquele era só o primeiro minuto da nossa relação que vai ser trabalhada dia a dia. Mas, isso é assunto pra outro post…

O que eu senti mesmo foi uma gratidão sem explicação! É absurda a ideia de que aquele menino tinha sido feito por nós, gerado dentro de mim. Eu olhava pra ele, pro David, e pensava “Deus, Deus, você realmente me ama, obrigada obrigada obrigada”. Foi quando a enfermeira perguntou se queríamos fotos e tiramos duas. Não curtimos a super exposição e o show do nascimento e da maternidade/paternidade, então isso nos pareceu suficiente. Além do que, não foi em cinco minutos que eu elaborei bem a frustração de que a foto do nascimento do Dominic não ia ser dentro da banheira da Casa Ângela rsrs.

Pedi pra ver a placenta, esse órgão incrível que simplesmente é criado com o objetivo de nutrir o bebê, e fiquei muito feliz da enfermeira pegá-la pra eu ver, embora ela tenha se espatifado no chão segundos depois!

Ficamos uns minutos juntos, nós três, e o David segurou ele com tanto jeito que pareceu ter nascido praquele momento. E eu que tava achando que ia morrer sem ar, pensei que se fosse a hora, podia morrer sim, de boa, porque ver aqueles dois juntos daquele jeito já tinha valido meus trinta anos vividos até ali.

A médica começou a me fechar e foi explicando tudo que ia fazendo. Eu não prestei atenção em nada, mas achei educado e importante. Quando a enfermeira pediu pro David sair também, porque iam me arrumar pra ir pra sala de recuperação, eu odiei, queria que ele ficasse o tempo todo comigo, porque se tem alguém nesse mundo que me faz sentir segura e amparada é ele. Por Lei, ele poderia ficar, mas, o Hospital não é nada preparado pra isso e eu desejo imensamente que se prepare, porque isso faria muita diferença. O Dominic foi pro berço aquecido, a enfermeira saiu e eu fiquei alguns minutos sozinha na sala de cirurgia, entortando o pescoço pra ver ele atrás de mim, ainda sem conseguir entender bem o que eu estava sentindo ou pensando.

Fomos os dois juntinhos pra sala de recuperação, onde ficamos por umas seis horas, até ir pro quarto.

Mas, foi no minuto dessa foto que nossa jornada começou. Foi no minuto dessa foto que tivemos nosso primeiro encontro familiar! Nesse minuto eu ouvi Deus falando que desde que Ele se tornou meu Senhor, os planos são feitos por Ele. Não é fácil, eu ainda preferia ter tido um parto natural humanizado e não é que eu esteja pulando de alegrias por ter feito a cesariana. O que acontece é que estou aprendendo a desapegar, a ser grata por aquilo que me é dado.

Talvez você que lê isso não acredita em Deus e ache toda essa história uma grande bobagem, mas, eu acredito e aqui me lembro de uma passagem bíblica em que Ele diz “eu bem sei os planos que estou projetando para vocês; planos de paz, e não de mal, para dar a vocês um futuro e uma esperança”.

O Dominic é nossa fonte de Esperança. Veio direto do Alto, transbordando tudo, transformando tudo. Ele chegou nesse mundo de malucos de uma forma diferente da que eu queria, mas, no dia que quis e do jeito que Deus permitiu, saudável, tranquilo, querido e respeitado. Me transformando em mãe, me dando um novo papel e nova responsabilidade. Já me ensinando sobre resignação, entrega, confiança, aceitação, gratidão.

Hoje ele completa 1 mês de vida e já tem cumprido essa promessa de Jeremias 29:11 que citei acima. Apesar de todo o furacão, as mudanças, o medo, a insegurança, apesar da maternidade e paternidade serem coisas avassaladoras, estamos vertendo amor e alegria. Louvo a Deus pela vida do Dom, o nosso dom.


Eu sou a Talita, nada mais que uma alma encarnada lutando pra cumprir minha missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. Junto com a Carol e a Lu, reflito sobre a vida aqui no Santa Paciência.

Eu já fui Marta

"Outgrowing the Comfort Zone" [Kathrin Honesta]
“Outgrowing the Comfort Zone” [Kathrin Honesta]
Sim, eu já fui Marta.
Ao nascer, recebi outro nome, o meu verdadeiro nome, mas já adulta fui me transformando.
Sem perceber, fui perdendo minha identidade, me descaracterizando, deixando de ser eu mesma. Buscava reconhecimento na realização de tarefas. Achava que minha identidade seria definida pelo fazer e não em ser. Ser autêntica. Ser eu mesma. Apenas Ser.

Me alienei no trabalho, no tal: ambiente “controlado” e “seguro”. Nada escapava do meu controle. Quando algo, começava a escorrer pelas minhas mãos, eu agarrava bem forte e fazia o impossível para mantê-lo sob a minha atenta e vigilante inspeção.

Eu trabalhava bastante. 44 horas semanais, muitas vezes, eram insuficientes. Afinal, o e-mail do fornecedor na China não podia esperar. Por isso, muitas vezes, depois de uma jornada de quase 10 horas em um escritório, eu chegava em casa e a primeira coisa a fazer era abrir meu e-mail corporativo e garantir que tudo fosse respondido e nada ficasse por fazer. Muitas vezes, era via celular mesmo, no trajeto trabalho-casa. Ficar offline, o que era isso?!

Reconheço que todo esse meu “profissionalismo” foi muito mais fuga, somado ao desejo de aceitação, do que qualquer outra coisa. Eu fugia da minha realidade, que não era nada controlável e sequer algum dia seria, para não encarar de frente meus anseios, faltas e expectativas. Eu me enganava e já não sabia ao certo quem eu era e porque fazia o que fazia. Até que compreendi o verdadeiro engano em que me meti.

Hoje, eu já não sou mais Marta.
Apesar de me inspirar em Maria1, sua irmã, já não quero ser ninguém além de mim mesma. Mas, como ela, também quero escolher a “melhor parte”, me deleitar aos pés de Cristo e escutar o que Ele tem a me dizer.

Como é libertador ser eu mesma e tudo bem não saber, tampouco achar que é minha responsabilidade saber, o que é melhor para mim. Na real, é bom viver na própria pele que habita em mim.2

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Referências:
1Lucas 10:38-42
2Referência ao filme de Pedro AlmodóvarA Pele que Habito

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.