Fui machucada pela Igreja… mas a história não acaba aí

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja. No meu caso, a igreja que eu frequentava era a minha segunda casa, para a qual eu segui, voluntária e feliz, todos os fins de semana, durante 20 anos. Ali eu fiz melhores amigas, aprendi a cantar em coral, a amar os idosos, a ajudar quem carecia de recursos, a respeitar pessoas diferentes de mim, a guardar segredos, a desenvolver minha concentração por longo tempo. E foi dentro das salas dessa mesma igreja que as raízes do Cristianismo se fincaram no solo fofo e fértil da minha alma.

Um dia, essa mesma igreja me golpeou duramente. Eu havia confessado a uma pessoa um pecado bastante grave, que a envolvia diretamente, e ela, desnorteada pela minha confissão e precisando de ajuda, contou ao pastor e a outras pessoas da igreja. Logo, a notícia se espalhou como piolho em cabeça de criança e eu comecei a receber e-mails e telefonemas em casa. Alguns, mais sensíveis, me perguntavam como poderiam me ajudar, enquanto outros foram duros e me ofenderam de formas diversas (houve até quem quisesse me bater). Perdi cabelo, passei a pesar 47 quilos e entrei em depressão. Minha situação se tornou assunto de assembleia (reuniões que todos os membros da igreja fazem, de tempos em tempos, para tomar decisões sobre questões que envolvem a igreja) e depois algumas amigas me contaram como foi pesado… alguns choraram por mim, outros quiseram apagar o meu nome da lista de membros. Por fim, o pastor sugeriu que meu nome permanecesse e assim foi por alguns meses. Em um contexto desconfortável assim, era natural que eu deixasse de frequentar aquela igreja.

Nunca me isentei da responsabilidade pelo pecado que cometi. Ao mesmo tempo, por anos seguidos, fiquei sentindo a ferida da humilhação sofrida naquela igreja sangrar em mim. Mas uma coisa que sempre esteve clara é que a atitude de muitos ali nada tinha a ver com o perdão e a graça de Jesus Cristo. É óbvio e esperado associar os cristãos a Cristo. Mas seria muito ingênuo achar que os cristãos possam ser menos falhos do que os demais seres humanos. Vivo na pele o fato de que nós, cristãos, temos dúvidas e, por uma ansiedade indescritível de amar e seguir a Jesus, nos confundimos ao tentar praticar seus ensinamentos. Alguns se apegam às leis como cachorro em osso, porque sabem que são as leis que vão mantê-los seguros dos desejos egoístas de seu coração. Outros acham que o sacrifício e a graça de Cristo valem o mesmo que banana na feira e saem por aí pecando como se não houvesse amanhã. E tem também aqueles maduros na fé (cujos sermões a gente ouve várias vezes e fica maravilhada com tanta coisa linda e profunda), que conseguem colocar Graça e Lei na mesma balança, de forma a equilibrar as duas e balizar sua vida nesse equilíbrio.

Não teve pecado e nem fofoca fortes o suficiente, que tenham feito eu desistir da Igreja. Depois que me recuperei da situação em que me envolvi, encontrei uma nova casa espiritual, uma nova igreja, onde fui recebida com carinho. Eu podia e queria começar de novo. Recebi de Deus novos melhores amigos, novas músicas, novos idosos para amar, novos necessitados para ajudar e pessoas ainda mais diferentes para lidar. É ali que meus irmãos na fé e eu insistimos em entender e aceitar a Graça e entender e aceitar a Lei. Entre acertos e erros, cuidamos uns dos outros, amamos uns aos outros. Porque Cristo sabe do que somos feitos e, ainda assim, fez de nós o seu próprio Corpo. A Igreja – distribuída em igrejas – não é um erro de Deus. É a chance que Ele nos dá de não nos conformarmos conosco mesmos – seja na rigidez de nosso julgamento ou na flacidez de nosso caráter. A Igreja é a nossa escola de fé, a nossa família imperfeita e amada, o nosso centro de treinamento da alma e é natural que, de um grupo de seres humanos que tentam acertar, saiam erros. Mas a Igreja é o nosso espelho. Ela e eu somos a mesma coisa. Suas imperfeições são as minhas imperfeições. Seus acertos são os meus acertos. É por ela que Cristo deu a sua vida e é nela que escolho investir os meus dias.

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que já machucou a Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que pode curar e ser curada pela Igreja.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Vinho, desperdício e inteligência

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Sangria que fizemos em casa a partir de um vinho “ruim”

 

Algum tempo atrás recebemos amigos aqui em casa, que trouxeram uma garrafa de vinho. Ao prová-lo, meus amigos o acharam azedo e não só jogaram fora o vinho que estava na taça deles, como queriam jogar a garrafa inteira pelo ralo. Quando sugeriram isso, meu marido e eu trocamos olhares esbugalhados de espanto, como se nossos amigos tivessem proposto a coisa mais obscena do mundo. Foi uma reação automática, sem que a gente tivesse tido tempo de disfarçar. Para nós dois, que desenvolvemos juntos a cultura do não-desperdício, ouvir alguém dizer que vai jogar fora algo que não está estragado e que ainda nem acabou nos deixa, de fato, atordoados. O desperdício – não só de comida, mas de qualquer outro bem de consumo – se tornou uma das minhas maiores dores quando penso nas grandes questões sociais/globais/humanas/e-o-que-mais-couber-aqui.

Para começar de um ponto de vista bem capitalista, tudo o que você desperdiça representa dinheiro. Dinheiro que você pagou pelo vinho (você jogaria 30 ou 40 reais pelo ralo??) e que você conseguiu com o seu trabalho. Já pensou se o seu chefe “joga pelo ralo” uma hora do seu serviço e não te paga? Afinal, o correspondente em salário desse tempo vai pelo ralo em forma de vinho mesmo. Que diferença faz?

Em segundo lugar, existe a questão administrativa das coisas. Explico: se você administra seus compromissos, sua rotina, suas responsabilidades no trabalho, seu dinheiro e seus relacionamentos, por que não administrar o seu consumo e o excedente dele? Será que você realmente precisa comprar tanta carne no fim de semana, sabendo que você só estará em casa no sábado e no domingo e que, a partir de segunda-feira, você volta a comer perto do trabalho? E quando você vai a um restaurante, você come tudo o que está no seu prato? Se a resposta for não, por que não? Será que não conseguiu calcular corretamente o quanto seu estômago aguenta ou será que você já está intoxicado com a cultura da sobra, do lixo, do desperdício? Com isso, não estou sugerindo que você coma pouco e passe fome, claro que não. Mas convido você a fazer uma reflexão inteligente sobre o que é suficiente. Ah, essa palavrinha… tudo o que vem em porções suficientes na nossa vida nos satisfaz e não prejudica os outros.

Falando em outros… eu não poderia deixar de citar aqui o que o desperdício representa para as pessoas que você não conhece, mas que existem mesmo assim e que têm o mesmo direito que você àquilo tudo que você não só consome, mas joga fora. Eu poderia citar estatísticas, mas serei direta quanto à relação “você-desperdiça-na-sua-casa-e-uma-pessoa-na-Etiópia-passa-fome”:  jogar comida fora significa que você compra demais (mais do que precisa), o que acaba valorizando o que é produzido e permite que o produtor cobre mais caro pelo alimento que produz. Uma vez que o alimento está caro, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-lo e, dessa forma, ele não chega até a mesa dos menos favorecidos. Simples e triste assim. Eu poderia falar de questões ambientais também, como o excesso de lixo orgânico, além da exploração nas relações de trabalho, trabalho escravo e um mundo de outras coisas, mas acho que você já entendeu o meu ponto.

Por fim, este parágrafo é para os cristãos: desperdício é pecado. É você desconsiderar o que a terra produz, é você administrar mal o que Deus te dá, é você não pensar no outro nem na Criação (afinal, está contribuindo para o acúmulo de lixo), é você querer mais do que precisa, é você mostrar ingratidão a Deus porque não está contente com o que Ele te dá, é você pensar só em você mesmo. Está bom ou quer mais?

Sim, a questão do desperdício é complexa, profunda, delicada e chata de ser abordada. Mas pode ter certeza que, quando você domina a arte do não-desperdício, você se sente livre, satisfeito e ainda tem um dinheirinho extra – fruto dos gastos controlados – para investir naquele sonho antigo seu. Para mim, o não-desperdício foi uma lição que aprendi aos poucos, depois de muito conviver com o David, meu marido, que, por ser filho de pais que viveram num contexto de guerra, aprendeu a reaproveitar tudo. Tudo mesmo.

Se você estiver sem ideias sobre como reaproveitar as coisas, aqui vão algumas sugestões que usamos aqui em casa (mas que são só isto mesmo: sugestões. O intuito é você adaptá-las de acordo com a sua realidade e disposição):

– O vinho ruim pode servir para receitas ou para uma refrescante sangria em dia quente (a foto lá do topo comprova que dá certo);

– Se você tem plantas em casa, as cascas de frutas e legumes podem virar adubo; além disso, fazemos também caldo de legumes com essas cascas (cozinhando tudo junto – até a casca da cebola – por algum tempo) e os talos dos brócolis, da couve, do espinafre e da couve-flor viram uma sopa-creme deliciosa em noites frias.

– Até 1 ano de idade, o nosso filho Álef usou fraldas laváveis. Ao contrário do que você pode pensar, essas fraldas são modernas e feitas para entrar sem dramas na máquina de lavar. Usando essas fraldas, produzimos menos lixo e economizamos um bom dinheiro (e não, não gastamos mais água por conta disso. Gastam-se muitos mais litros do que a nossa modesta máquina de lavar na produção de uma única fralda descartável).

– Sacolas plásticas de mercado só entram em casa por pessoas que vêm nos visitar.

– Fazemos os presentes de aniversário que damos (tenho certeza que alguma habilidade artística você também tem).

– Fazemos o nosso próprio pão, a nossa manteiga, a nossa geleia… dá mais vontade de comer até o fim.

– Temos espátulas de silicone de vários tamanhos diferentes. Elas permitem que a gente raspe fundinhos de copo de requeijão, panela, liquidificador e outros recipientes que acumulam restinhos que acabam sendo desperdiçados.

– Não enchemos muito a geladeira com sobras de comida, senão não damos conta de comer a tempo, antes que estraguem. E usamos sobras para fazer um novo prato: um arroz de forno, uma pizza de frango (sobrado) desfiado e por aí vai.

– Antes de irmos ao mercado, espiamos os armários e a geladeira e só compramos aquilo que irá repor o que já acabou. Ah, e também fazemos uma lista dos itens que vamos comprar antes de sair de casa. Isso nos ajuda a não cair na tentação de comprar mais do que precisamos.

– Só lavamos roupa quando temos roupas suficientes para encher a máquina. Senão, será desperdício de água e eletricidade na certa.

– Nem tudo o que passou da validade está estragado. A validade, na verdade, indica quando o produto está em sua melhor época para ser consumido, e não que ele estará estragado depois disso, necessariamente. Isso tanto é verdade, que em inglês a expressão para a validade das coisas é “best before” (“melhor antes de”) e não “spoiled after” (“estragado depois de”). Cheirar o alimento, observar o seu aspecto e colocar um pouquinho na boca para testar o gosto ainda são as melhores formas para detectar se ele ainda está bom para o consumo. E não raras vezes, ele ainda está bom.

– Compramos o mínimo de produtos industrializados. Isso economiza dinheiro, evita o descarte excessivo de embalagens, ativa a imaginação para cozinharmos nossa própria comida e tentarmos receitas diferentes (que podem ser simples) e ainda nos faz mais saudáveis.

– A água de lavagem de frutas e vegetais vai para uma bacia e depois é destinada para matar a sede das plantas.

– Repassamos roupas em bom estado para outras pessoas e ganhamos roupas também. Isso vale especialmente para o Álef, que ganha quase tudo dos primos e depois repassa o que usou para o filhinho do mecânico que cuida do nosso carro.

– Por último e mais chocante item de todos desta lista (preparado??): substituímos os passeios ao shopping por visitas a museus (!!). Essa troca representa economia de tempo, geralmente desperdiçado na procura de vagas em estacionamentos superlotados e filas eternas nos fast-foods, além de limpar a nossa cabeça do consumismo e recheá-la de novo com cultura. :)

Claro que somos bastante criticados por adotar essas medidas todas (e olha que sabemos de gente que economiza bem mais do que a gente). As pessoas tendem a achar que riqueza e fartura significam você poder comprar e jogar fora o que comprou e que economizar é o mesmo que ser mesquinho, avarento. Para nós, que somos mais do que felizes com tudo o que temos, o não-desperdício ganhou outros três nomes: consciência, autocontrole e  inteligência.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

httpblogcademeulivro.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Distrito 13, subterrâneo. 
finn annie
Annie e Finnick.
finn e annie dançando foto
Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
httpnicinefilo.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo II.

Em Fevereiro fui lá eu tomar a radiação, chateada. Saindo da clínica, fui correr no Parque Chico Mendes. E enquanto eu corria eu batia um papo com Deus e me dei conta de uma coisa horrível: eu não estava triste porque não poderia ser mãe. Eu estava triste porque o meu planejamento tinha ido por água abaixo. Eu não pensei em nenhum momento num bebê fofinho. Eu só pensava que o que eu construí de ideal durante anos era algo completamente volúvel e fora do meu controle. Na real, descobri que eu não estava no controle.

Precisei começar um processo de auto perdão. Me senti um ser humano horroroso por ter criado um plano totalmente auto centrado e até sem sentido, porque a verdade é que eu nem sabia se queria mesmo ter filhos. Vasculhei minha mente e meu coração e notei que quando eu pensava em filhos, eu pensava no tema de aniversário de um ano, no tamanho que minha barriga ia ficar na gravidez, no hidratante que ia usar pra evitar estrias, na cor da parede do quarto do bebê, no berço amarelo… Só. Superficial e com pouquíssimo significado.

E mais, eu amo o silêncio. Eu durmo às 5h e acordo às 12h. Eu me irrito em ter que repetir a mesma coisa 3 vezes pro David, imagine 87952 vezes pra uma criança. Eu costumo chamar fetos de “pequeno Alien” ou “sangue suga”. Eu sou completamente louca pela minha privacidade. Eu não sei cozinhar. Eu não me vejo mãe. Eu nunca senti falta de criança na minha casa. Minha casa já é bagunçada o bastante sem bebê nenhum. Eu morro de nojo de baba. Morro de nojo de baba. No-jo de ba-ba. Eu não gosto de ninguém no meu pé. Eu não devo ser mãe.

Álef 2
Não é uma delicinha? Mas, não era pra mim. E também não foi porque bebês são umas delicinhas que eu decidi que quero ter um filho :).

O problema é que seis meses após a radiação, minha tireoide estava firme, forte e cheia de nódulos no mesmo lugar de sempre, onde não deveria estar mais. O médico disse que ou eu repetia a radiação numa dose mais alta ou fazia a cirurgia.  Fui pra outro médico. Eu estava cansada, com raiva e sem entender nada. Nesse meio tempo, o David foi desligado do banco onde trabalhou por quase dez anos, a gente ia perder o convênio muito em breve. Muitas mudanças aconteceram, passamos por um vale muito escuro e frio. Eu nunca tinha feito isso, mas antes de chegar no consultório do novo médico eu falei pra Deus: a não ser que o médico diga clara e objetivamente que tenho que fazer a cirurgia, não vou fazer. Se ele não me disser que é a única opção, não vou entender que devo fazer, então, por favor, seja claro, porque eu estou completamente perdida em meio a tantos problemas!

Eu entrei no consultório, falei bom dia, o médico respondeu com outro bom dia, disse pra eu me sentar e pediu os exames. Leu pacientemente os exames e laudos de tudo que eu tinha feito em relação à tireoide nos últimos 4 anos (sim, eu levei tudo). Fechou o último envelope, olhou pra minha cara e disse: cirurgia. Só isso, só essa palavra. Minha fé precária me fez perguntar mil coisas, tirar mil dúvidas, etc. e tal.

Saí da sala do médico com a cirurgia pré agendada e pensando (entre outras muitas coisas): uau! Então é isso, eu não devo ter filhos. Posso ficar em paz, posso aceitar e me tranquilizar. Eu já não queria, eu tinha criado um projeto sem sentido só porque achava que toda mulher devia ser mãe, eu baseei muitas coisas em puro pré conceito e até limitação intelectual, aí eu faço uma porcaria de procedimento que me impede de engravidar (de forma saudável e em paz) por dois anos, isso frustra os meus planos, e então, seis meses depois a cirurgia se torna a minha única opção (o último médico explicou melhor meu caso e disse que a cirurgia não era apenas minha única opção naquele momento, como foi o tempo todo, desde que descobri a doença)?! Deus?! Entendi o recado. Obrigada.

E então, nos últimos três anos eu fui me conformando de que a maternidade não era pra mim e eu estava bem com isso, quando pensava de maneira autêntica. David só me dizia que gostaria de ter um filho, mas comigo e, se eu não queria, ele não fazia questão, não insistiria, não cobraria.

* Estrelando na foto deste post, o Álef, um dos bebês mais graciosos que já conheci, filho da Luciana Mendes Kim, uma das idealizadoras do Santa Paciência, e do David Kim, ilustrador da nossa incrível arte que representa o Santa Paciência, que me deram a devida autorização de compartilhar a gostosura que tão criando!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Nó na garganta

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Perdão (grafite e digital), por David Kim

 

As devocionais que faço em casa funcionam assim: escolho um livro da Bíblia e começo a leitura, um trecho por dia. Leio aquele trecho quantas vezes forem necessárias para eu entender bem o contexto. Dentro do trecho escolhido, seleciono um versículo ou mais, uma expressão ou até mesmo uma palavra-chave e, a partir disso, construo – por escrito – uma pequena reflexão, que mais tem a ver com o que entendo do texto e com a maneira que posso aplicar aquela ideia à minha vida, do que com conhecimento teológico (isso explica a quantidade de especulações que recheiam as minhas devocionais). Por fim, escrevo uma oração, que expressa como me sinto e o que desejo a partir do que aprendi sobre a vontade de Deus. Na verdade, essa dinâmica devocional não fui eu que inventei, mas adaptei de um livro – que recomendo, aliás – chamado Mentores segundo o coração de Deus, do Wayne Cordeiro.  E, quando percebo que uma devocional se desenvolve de maneira mais interessante, venho aqui postá-la.

De forma geral, esses momentos a sós com Deus me dão forças e me oferecem esperança (mesmo quando a mensagem é mais confrontadora do que consoladora). Desta vez, porém, aconteceu algo raro, com o qual não estou sabendo exatamente como lidar: a devocional estabeleceu um conflito em mim, me perturbou e me colocou em uma posição esquisita, bem longe do ideal. Respiro fundo e tomo coragem para compartilhá-la com vocês:

Se, porém, Cristo está em vós, o corpo está morto, pelo pecado, mas o Espírito é vida, pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós. (Romanos 8.10 e 11)

Interessante o movimento que acontece a partir do momento em que estamos em Cristo: a princípio, nos encontramos mortos pelo pecado e pelos desejos da carne, mas não permanecemos assim. Por meio de Cristo, somos levados de volta à vida e podemos usufruir dela aqui mesmo, neste corpo mortal em que habitamos.

Incrível ler sobre o que o Espírito de Deus faz e, mais ainda, saber que essa realidade não depende do que sinto ou do que acredito para que exista. É verdade e ponto. O problema que se estabelece, então, é como tornar essa realidade atuante em mim. Porque o que eu mais vivencio na minha lida espiritual é justamente a carne querendo comandar. Pior e mais embaraçoso que isso ainda!: sinto-me triste quando não é ela que dá a palavra final nas minhas decisões e atitudes (e a carne só não dá as cartas por pura e linda misericórdia de Deus, que sabe quão trágico seria se assim fosse).  Repito: sei que a ação do Espírito não depende do que sinto e sim, que ela é um fato, por si mesmo existente e atuante, porém, me sinto frustrada por não a desejar com a mesma intensidade com que desejo as outras coisas que desejo. Por que, então, meu Deus, sinto falta do erro, do pecado, da ação da carne?? Por que não me satisfaço integralmente com a misericórdia divina, que me poupa diariamente de cair? Por que quero a morte do pecado no lugar da vida no Espírito? “Livra-me, Deus, de mim mesma, ainda que eu não queira que me livres” – suplico em minha oração. E, assim, com mais perguntas do que respostas, encerro a minha devocional.

Ainda longe de resolver meus conflitos e meu nó na garganta, encontro certo alívio na letra de uma música do Mumford & Sons: I was still/ I was under your spell/ When I was told by Jesus all was well/ So all must be well (eu estava imóvel/ eu estava sob o seu feitiço/ quando me foi dito por Jesus que tudo estava bem/ então tudo deve estar bem).


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O silêncio de Maria

‘The Virgin Mary Consoles Eve’, por Grace Remington

 

Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. (Lucas 2.19)

 

Muito curiosa essa reação de Maria quanto ao que os pastores vieram contar para ela e para José. Os pastores tinham acabado de ser visitados por um anjo lindo, enorme, que os envolveu de luz, e, de quebra, ainda assistiram a uma miríade de seres do Céu dando glória a Deus. Ou seja, não era à toa que eles estivessem empolgadíssimos e extremamente ansiosos para conhecer Jesus. Quando chegaram ali onde Cristo havia nascido e contaram a experiência deles, todos os outros ficaram impressionados (verso 18), menos Maria. Ela só ouvia, sem emitir grandes reações. Isso, porém, não quer dizer que Maria não havia sido impactada com o relato dos pastores. Como mãe que sou, ouso arriscar o palpite de que, no mínimo, ela se sentiu orgulhosa de seu rebento. Mas mais do que isso ainda:  ela sabia que era privilegiada por ter sido escolhida a dedo por Deus para concebê-lo na sua forma humana.

Coloco-me no lugar de Maria e fico me imaginando lá, toda consciente daquele acontecimento milagroso, olhando para o “meu” bebê-Deus. A consciência de quem aquela criança é, de fato, provocaria em mim uma série de reações: maravilhamento, sim, em um primeiro momento, mas também uma reverência incrível e, acima de tudo, um sentimento de cumplicidade, como se o bebê fosse bebê só por fora, mas por dentro, divino como era, ele pudesse ler os meus pensamentos e, assim, ele e eu compactuássemos com o seu plano de salvar a humanidade, o que era ainda pouco compreensível para os judeus, incluindo aqueles pastores festejantes. Adorá-lo em silêncio e em meditação seria, portanto, a maneira mais natural de consumar a minha fé em seu plano perfeito.

Hoje, 2015 anos após o nascimento de Cristo, me inspiro em Maria e, em silêncio, reflito cuidadosamente sobre o significado e a profundidade desse fato e, como resultado, vou sentindo a minha fé se renovar.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Amor 80% cacau

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Mas Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores. (Romanos 5.8)

Clarice Lispector, no conto Os desastres de Sofia (meu preferido, aliás), compreendeu exatamente (mesmo sem querer) o que Paulo quer dizer nesse versículo quando escreveu: Seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. Pois é. Fácil é sermos amadas quando estamos cheirosas, charmosas, bem-sucedidas, bem resolvidas, talentosas, bonitas, intelectuais, espirituais ou espirituosas. Mas e quando cansamos de sustentar esses rótulos todos e queremos ser só a gente? De repente chorar ou rir de alguma piada do Chaves ou ainda curtir as músicas românticas dos anos 80 (quem não se emocionava com Slave to Love?), sem receber uma risadinha mal-intencionada de alguém sentado na outra ponta do sofá?

Bom, exemplos pouco criativos à parte, só Deus teria coragem de amar o que é feio. E ele amou. E aquilo que era feio era o nosso interior, cheio de soberba e inveja. É nisto que consiste a perfeição do amor de Deus: chegou antes de termos tido a chance de maquiarmos nossa identidade e aparecido com um sorriso falso na selfie da nossa alma. E o que é o melhor de tudo é que Ele tem por mim e por você um amor sem medida, sem letras miúdas, sem condicionais. É puro, absoluto e incompreensível, por isso duvidamos tanto dele.

Estamos acostumadas a sofrer, a mendigar amor e, o que é ainda mais triste, a mendigar um amor de péssima qualidade: condicional, oscilante, falho, com data para terminar… ou seja, um amor humano. É como gostar de chocolate 80% cacau e se contentar com chocolate hidrogenado. Um horror! Com isso, entretanto, não sugiro que deixemos de amar ou esperar amor de outras pessoas, óbvio, mas sim que não nos limitemos a esse amor, apostando que ele trará sentido à nossa existência, nos preencherá e nos oferecerá esperança para aqui e além. Não dá para atribuirmos ao homem um tipo de amor que é divino somente. Fatalmente, sentiremos sede de novo.

O que nos resta, então? Proponho: nadar no amor profundo de Deus e senti-lo todo em torno e dentro de nós, inundando-nos e envolvendo-nos em um invólucro, desde a ponta dos dedos dos pés e das mãos até o âmago da alma. Não existirá nesta terra nada mais revigorante, eu garanto.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quer saber a verdade?

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Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça.

Esse versículo, de Romanos 1.18, traz uma palavra-chave, polêmica para a nossa cultura ocidental: a verdade. O texto afirma também que os homens eliminaram a verdade para favorecer a injustiça. Mas qual é a relação direta existente entre verdade e injustiça? Proponho uma reflexão sobre essa pergunta, considerando a ótica líquida da nossa cultura, para quem a verdade é customizada (eu a construo como eu quiser) e intransferível (cada um tem a sua).

O homem hipermoderno suprimiu a ideia de uma verdade única, total, para, em lugar dela, adotar incontáveis verdades – uma para cada pessoa da terra (ou seja, são 7 bilhões de verdades no globo). Mas se tudo é verdade, o que não é verdade? Nada. Não existe a não-verdade, ou melhor, a mentira. E se cada um constrói a verdade como quer, por que a chamamos verdade e não de … jenga*, por exemplo? Podíamos riscar a palavra e todo o significado de verdade – logo, a autenticidade, o fato, a exatidão, a precisão – do nosso repertório de conhecimento das dinâmicas do mundo e das linguagens que as representam.

Quando o homem suprime a verdade única e a multiplica (ou a divide?) pelo número de habitantes da terra, ele a reduz ao tamanho e à abrangência da minha limitada percepção do mundo. Assim, cometer injustiças fica muito fácil: percebo e me conecto com o outro a partir do que eu acredito ser o certo, e o que é certo para mim é definido pelas minhas experiências, que, por sua vez, acontecem dentro de uma moldura social, econômica, etária, familiar, geográfica, educacional, cultural, relacional muito, mas muito específica e particular. Ou melhor, única. O outro, por sua vez, se conecta comigo a partir dos mesmos critérios, específicos do contexto dele. Impossível alguma injustiça não escapar da interação entre essas complexidades todas. Se formos ampliar essa percepção pelo número de conexões entre as pessoas, quantos atos de preconceito, intolerância, guerras, torturas, mortes, doenças e outros sofrimentos não são cometidos a cada momento?? Gosto de imaginar como seria a existência se a verdade fosse tomada como única – como ela é, de fato: a humanidade convergindo, inteira, para um único Ponto, de onde emana a justiça extrema, sem medidas, nem limites.

 

*jenga – jogo de blocos de madeira, com os quais se constrói uma torre. O objetivo desse jogo é ir removendo, aos poucos, os blocos da base da torre e colocá-los no topo sem que a torre caia.

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.