A crítica e nossa dependência de enxergar através de lentes negativas

catherine_marshallAcabei de ler um trecho escrito por Catherine Marshall* e fiquei com muita vontade de compartilhá-lo (essa publicação foi postada originalmente aqui). Aparentemente, ela era uma pessoa muito crítica e que não pensava duas vezes em falar sua opinião com julgamentos, censuras e desaprovação para quem estivesse em volta.

Sendo cristã, um belo dia, o Senhor lhe pediu para fazer um jejum de crítica, a seguir, traduzo o trecho no qual ela conta essa história.

“O Senhor continua a lidar comigo em relação ao meu espírito crítico, me convencendo de que tenho estado errada ao julgar qualquer pessoa ou situação:

Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque sereis julgados pelo critério com que julgais e sereis medidos pela medida com que medis’ (Mateus 7:1–2)

Em uma manhã, na última semana, Ele me deu uma tarefa: por um dia eu faria um ‘jejum’ de julgamento crítico. Eu não criticaria ninguém sobre nada.

Minha mente encheu-se das objeções usuais: ‘Mas, então, o que acontece com os juízos de valor? O Senhor mesmo fala de ‘julgamento correto’. Como uma sociedade vai funcionar sem padrões e limites?

Toda resistência foi posta de lado: ‘Somente me obedeça sem questionar, um jejum absoluto de declarações críticas durante um dia.’ Enquanto eu ponderava essa tarefa, eu percebi um pouco de humor nesse tipo de jejum. O que o Senhor queria me mostrar?

Na primeira metade do dia, eu simplesmente senti um vazio, quase como que se eu tivesse sido apagada como pessoa. Isso foi especialmente verdade na hora do almoço com meu marido, Len, minha mãe, meu filho Jeff e minha secretária Jeanne. Muitos assuntos surgiram sobre os quais eu tinha, definitivamente, uma opinião. Eu ouvi a todos e me mantive em silêncio. Comentários farpados ficaram na ponta da minha língua. Em nossa família tagarela, ninguém pareceu notar.

Confusa, eu notei que não sentiram falta de meus comentários. O governo federal, o sistema jurídico e a igreja poderiam, aparentemente, continuar muito bem sem minhas observações penetrantes. Mas, ainda assim, eu não tinha enxergado o que esse jejum de críticas tinha alcançado — até o meio da tarde.

Por muitos anos, eu tenho orado por um jovem muito talentoso cuja vida foi desviada. Talvez, as minhas orações por ele tenham sido muito negativas. Naquela tarde, uma visão específica e positiva sobre a vida dele foi colocada em minha mente com uma inconfundível marca de Deus — alegria.

Ideias começaram a fluir de um jeito que eu não experimentara em anos. Agora era nítido o que o Senhor queria que eu visse. Minha natureza crítica não corrigiu uma única coisa da multidão na qual eu vejo erros. A única coisa que minha crítica tem feito é sufocar a minha criatividade — em oração, nos relacionamentos, talvez até em escrever — ideias que Ele quer me dar.

No último domingo a noite, em um grupo de estudo Bíblico, eu contei sobre a minha experiência de um dia de jejum. A resposta foi surpreendente. Muitos admitiram que a crítica era o principal problema em seus escritórios, em seus casamentos e com os filhos adolescentes.

A minha falha de caráter não será corrigida de um dia para o outro. Mas ao pensar sobre isso nos últimos dias, eu encontrei uma base sólida nas Escrituras para lidar com isso. Ao longo de todo o Sermão do Monte, Jesus se posiciona diretamente contra vermos os outros e as situações da vida através de lentes negativas.

O que Ele me ensinou, até agora, pode ser resumido em:

  1. Um espírito crítico foca apenas em nós mesmos e nos faz infelizes. Perdemos perspectiva e humor.
  2. Um espírito crítico bloqueia os pensamentos criativos positivos que Deus anseia por nos dar.
  3. Um espírito crítico impede bons relacionamento entre indivíduos e, geralmente, produz mais crítica em retaliação.
  4. A crítica bloqueia o trabalho do Espírito de Deus: amor, boa vontade e misericórdia.
  5. Sempre que vemos algo genuinamente errado no comportamento de outra pessoa, ao invés de criticá-la diretamente, ou — ainda pior — reclamar pelas costas, deveríamos pedir ao Espírito de Deus para fazer a correção necessária.

Convencida da destrutividade de uma mente muito crítica, de joelhos, eu repito essa oração: “Senhor, eu me arrependo deste pecado de julgamento. Eu sinto muito por ter sido tão grosseira em ofensas contra Ti e contra mim mesma (sem falar nos demais) tão continuamente. Eu reivindico sua promessa de perdão e busco um novo começo.”

Fonte: Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 57–59.

*Catherine Marshall (1914–1983) ficou conhecida, inicialmente, após a morte de seu primeiro marido, Peter Marshall, famoso ministro presbiteriano, pastor e capelão do Senado dos Estados Unidos. Ela escreveu um livro sobre ele que se tornou um best-seller: A Man called Petter (um homem chamado Pedro). Ela era uma contadora de histórias muito talentosa, com grande capacidade para reflexão espiritual e escreveu vários livros sobre oração e espiritualidade. Casou-se com Leonard LeSourd, continuou escrevendo e se tornou editora.


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Mulherões da literatura

C.E.Chambers
Ilustração de C.E. Chambers, 1900

 

Tenho pensado bastante sobre a relevância das mulheres no campo das artes e do pensamento. O motivo das minhas reflexões é o paradigma (para não dizer preconceito) de que elas não se interessariam por assuntos muito profundos. Infelizmente, uma grande parte delas, de fato, não toma a iniciativa de procurar seu espaço ao sol entre os produtores e difusores de conhecimento e cultura, o que só acaba reforçando a fofoquinha de que somos meras manequins de vitrine. A boa notícia, porém, é que não precisamos abdicar de nossas características femininas mais intrínsecas (ai, se uma feminista queer me ouve!!) para produzir coisa boa. Se você não acredita no meu argumento, sugiro que leia com atenção a seleção que fiz de cinco mulherões que arrasaram na literatura, enriquecendo o mundo com suas ideias e críticas e escrevendo com o que todas nós temos em comum: muita beleza.

  1. Doris Lessing

Filha de britânicos, Doris Lessing nasceu no Irã e cresceu no Zimbábue. Seu livro mais famoso,  O carnê dourado, se tornou leitura obrigatória e referência para as feministas. Eu li outro clássico dela, O sonho mais doce, e o que me chamou a atenção foram as suas personagens femininas, sempre progressistas, social e politicamente engajadas e de personalidade forte. Nas histórias das mulheres criadas por Lessing, não há espaço para perfumaria.

  1. Flannery O’Connor

Uma das mais importantes contistas norte-americanas do século 20, Flannery O’Connor imprimiu em seus contos muitos dos seus valores cristãos. Temáticas como culpa e redenção são retratadas de forma profundamente reflexiva e autêntica. Também abordou temas sociais, como o racismo. Sua escrita é bem descritiva e, por isso mesmo, perfeita para ser degustada sem pressa, numa construção detalhada de cada uma das ricas imagens. Duas características fundamentalmente femininas que você certamente encontrará impressas na obra de O’Connor: sensibilidade e sagacidade. Alguma identificação?

Dica de conto: Tudo o que sobe deve convergir (tem o conto com esse nome e tem uma coletânea de contos que leva esse nome também. Indico tudo.)

  1. Ingrid Jonker

Ingrid Jonker foi uma poetisa sul-africana e é justamente a poesia que a torna tão feminina. Seus poemas lhe renderam pouco reconhecimento em vida e muitos amantes, dos quais dois eram importantes escritores de seu país. Foi quando Nelson Mandela leu seu poema A criança (morta a tiros por soldados em Nyanga) no dia de sua posse, em 1994, é que Jonker finalmente recebeu o reconhecimento merecido. O que mais me toca nela é a sua capacidade de transformar a crítica social e racial em versos sublimes e perturbadores. O filme Borboletas Negras conta uma parte de sua história.

  1. Virginia Woolf

Não poderia deixar de citar aqui a mais melancólica de nossas autoras, a inglesa Virginia Woolf. O que marca em suas obras é o fluxo de consciência – técnica literária de transcrição dos pensamentos de um personagem em toda sua complexidade e não-linearidade. Para quem gosta de dar mergulhos profundos na existência e não tem medo das angústias que inevitavelmente vai encontrar por lá, os contos e romances de Virginia Woolf são ideais. Sua obra mais conhecida e minha recomendação para você começar a gostar da escritora é Mrs. Dalloway.

  1. Clarice Lispector

Sou suspeitíssima para falar da Clarice. Se combinarmos aqui entre nós de deixarmos todas as máscaras de lado, prometo que não terei vergonha de dizer que ela foi tudo o que eu queria ser na vida: linda, inteligente, talentosa, mãe de dois (até hoje só tive coragem de me tornar mãe de um), enigmática e por aí vai. Como comentei uma vez com um amigo, sua escrita não é um dom, é um milagre. E, ao contrário do que muita gente afirma, sua linguagem não é assim tão difícil. A questão – e é aqui que entra a sua característica mais feminina – é que Clarice verbaliza o que se passa na alma e não no intelecto. Logo, alcançar o íntimo de suas obras exige boa dose de entrega. Você tem que se abandonar (e desistir de ficar interpretando tudo ao pé da letra) e deixar-se ser preenchida por toda a beleza e profundidade de seus textos. Como fã incurável de Clarice, eu garanto: a viagem vale muito a pena!

Dicas de contos para começar: Tentação e Felicidade Clandestina.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.