O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da mulher que somos e da criança que fomos

wolf-moon_med-2
Ilustração incrível da artista Andrea Hrnjak

Não é novidade, aqui, que sou encantada pelo livro Mulheres que Correm com os Lobos. Aliás, acredito que falei dele em quase todos os meus textos do Santa Paciência! Bom, aqui vai mais uma recomendação sobre ele! É repetitivo, mas, coisa boa a gente não pode deixar passar ;)

Uma querida amiga psicóloga, a Vanessa Maichin, que escreve no blog Sou Existencialista, realiza um trabalho primoroso com mulheres. São vivências terapêuticas, baseadas nesse que é um dos meus livros favoritos. A Van, inclusive, foi quem me introduziu ao cativante mundo da busca pelo resgate da natureza selvagem e pela liberdade da mulher que foi por tanto tempo domesticada.

Participei do último encontro, realizado em Abril, e serei eternamente grata pelo presente da Vanessa, porque a vivência é, na verdade, um despertar. Mulheres que Correm com Lobos… Integrando o Espírito da Criança: O resgate da mulher que somos e da criança que fomos, é uma vivência que nos coloca em conexão com nossa criança. 

“A criança é inocência, é o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação”.

(Nietzsche)

Tudo começa alguns dias antes da vivência. A Van nos dá algumas orientações pra entrarmos no clima do processo todo, com alguns exercícios que já nos incentivam a olhar pra dentro de nós com mais carinho e menos exigências. Chegando ao local do encontro, somos acolhidas e respeitadas dentro de um ambiente harmonioso. Tudo é caprichosamente preparado pra que nos sintamos queridas e bem cuidadas.

Brincamos ao som de cantigas que lembram nossa infância, recordamos momentos marcantes e compartilhamos histórias. Mas não é tão simples assim. Olhar pra nossa criança pode doer. Mas ali está a essência. No cuidado da nossa criança interior, ou do espírito da nossa criança, está o resgate da mulher selvagem que somos.

“No momento que a mulher selvagem se posiciona, ela dá espaço para a mulher que sabe o que quer! Acolhe a criança carente e ensina-lhe a dar os primeiros passos rumo a sua autenticidade! A mulher que sabe o que quer integra em seu ser a mulher forte e guerreira com sua criança leve e espontânea”.

(Vanessa Maichin)

20160430_103711
Brincando de Adoleta!

Ao longo da vivência, somos convidadas a explorar nossa experiência de infância, provocadas pela leitura de alguns contos do livro, e a Vanessa nos conduz nesse processo indicando nosso olhar a perceber novas possibilidades de ser e existir. Podemos acolher nossa criança, ouvi-la, pegá-la no colo e cuidar daqueles machucados que remédio nenhum cura, só um beijo afetuoso pode fazer isso, sabe? E quem dá esse beijo somos nós mesmas. A gente tem a oportunidade de abrir espaço pra começar a compreender a nossa história de vida. A sensação que fica é que um peso foi tirado, uma porta foi aberta e agora é preciso seguir um caminho de re-significações e novos aprendizados.

Minha experiência foi de ser apresentada à minha criança. Eu cresci escutando que nunca fui criança, que sempre fui precoce e já nasci adulta. Parar pra olhar a Talita criança me fez, de fato, enxergá-la. Ela existiu sim, o tempo todo, mas foi muito cobrada a ser tão perfeita que mais parecia uma adulta, séria, rígida, tensa, inflexível e exausta…

Olhei pra “Talitinha” e vi espontaneidade, graciosidade e alegria. Percebi que foram tiradas dela a criatividade, a vitalidade e a energia. E que já não importa mais quem fez isso, nem como ou por qual motivo, importa que agora eu olhe pra ela e resgate sua essência autêntica e livre.

“Resgatar a criança que fomos um dia é acolher sua história de vida. É compreender os significados dessa infância, é deixar doer o que precisa ser doído, é abrir espaço para nossos medos, carências, fragilidades, frustrações, angústias… É costurar, remendar, bordar e tecer nossa própria história. É abrir espaço para novas possibilidades de ser e existir… É abrir espaço para a mulher selvagem que corre com os lobos”. 

(Vanessa Maichin)

Claro que muito mais do encontro mexeu comigo e com as mulheres fortes e corajosas do grupo, mas, quero deixar aqui só um gostinho pra aguçar sua curiosidade e incitar seu desejo de se reconectar com si mesmo e participar da vivência! Foi delicioso despertar pra minha criança e descobrir como integrá-la à mulher que sou. Indico e espero que muito mais mulheres possam viver essa experiência.

P1030072
Vanessa (de cachecol laranja) e o grupo de mulheres que acolheu suas crianças!

E o próximo encontro já tem data marcada! Será no dia 25 de junho (sábado), das 10h00 às 14h00.

A Vanessa Maichin é Mestre em Práticas Clínicas pela PUCSP, tem formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial e Daseinsanalyse e atuação como Professora de Pós-Graduação na UNIPAR e UNIP.

Mais informações:
Cel./WhatsApp (11) 995685159
E-mail: vanessamaichin@gmail.com

As inscrições estão abertas e as vagas são limitadas.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A incrível experiência de ser mãe

 

mamaeursa
Mamãe ursa, ilustração do meu marido David

 

Anos antes de eu me tornar mãe, uma amiga e eu conversávamos sobre os dilemas da mulher quanto à decisão pela maternidade e ela, que tem um filho de 10 anos, me disse: “Lu, sempre falo a mesma coisa para as mulheres que ainda não decidiram se querem ser mães: se você acha que não consegue, que não é pra você, não tenha filhos mesmo, porque dá trabalho, cansa, desgasta. Agora, se você optar por ser, você vai viver uma experiência incrível, que não pode ser comparada a mais nada nesta vida”.

Guardei isso comigo por anos e, ao contrário da Talita, minha amiga e colaboradora do blog, que escreveu aqui sobre como foi complexo para ela decidir pela maternidade, eu resolvi ser mãe meio que do nada mesmo, puramente movida pela curiosidade em viver essa experiência incrível (e mais curiosa ainda me tornei ao imaginar a misturinha intrigante que sairia de um marido coreano com uma brasileira aguada como eu).

Apesar de não saber exatamente o que representava ter um filho, eu e o David resolvemos arriscar. Pois é, foi arriscar mesmo, porque eu tinha um pequeno problema nos ovários, o que tornava a gravidez apenas uma possibilidade e não uma garantia. E, quanto mais demorava para engravidar, mais eu queria essa experiência incrível.

Durante o tempo em que tentei engravidar, várias coisas passaram pela minha cabeça. O primeiro tratamento não deu certo e tudo o que ele fez por mim foi me deixar obcecada por testes de farmácia. A cada teste que eu fazia, sempre a frustração. E ali, escondida no banheiro, eu deixava as lágrimas correrem livremente.

No segundo tratamento, troquei os testes de farmácia por uma espécie de “termômetro” gringo, que conta para você os seus dias altamente férteis. E qual não foi a minha decepção quando, mesmo me tratando, o termômetro não marcava NENHUM dia fértil para mim?? Só podia estar quebrado. Ou então…

Antes de ter tido tempo de deixar a ideia de infertilidade tomar a minha mente, uma dor terrível no abdômen me levou ao hospital. Depois de dois exames, foi confirmado o comecinho do comecinho da minha gravidez. Pronto. Eu havia dado o salto no escuro. Não tinha mais volta. Agora era só esperar 9 meses.

Dar à luz ao Álef foi um momento único, tanto no sentido bom como no ruim. Contra todas as probabilidades, o meu bebê nasceu prematuro de parto normal. No hospital, eu só ria de alegria, mas ao chegar em casa, me senti sendo engolida por um furacão, porque nada estava pronto ainda e eu experimentei uma solidão e uma sensação de incapacidade como nunca antes. Fiquei me perguntando sem parar se existiriam no mundo psicólogas especializadas em mulheres no puerpério, porque olha… como essas especialistas ganhariam dinheiro! O estado emocional de uma recém-mãe é vidro em estilhaços no chão. Tudo o que eu sentia era medo, incapacidade e exaustão.

Depois de poucos dias, um sentimento feroz me tomou. Era uma sensação avassaladora, totalmente fora de mim e completamente depositada naquele outro ser recém-chegado ao mundo, vulnerável, que se sofresse alguma coisa acabaria comigo. De repente, senti que sem aquela coisinha chorona eu não seria mais nada. Ele havia me arrebatado por completo e que o sentido da minha vida não estava mais só na minha vida, mas na vida de outro ser humano. Eu não era mais dona de mim. Ele era. Eu não estava mais no controle do que eu sentia. Eu não era mais a medida da minha compreensão sobre mim mesma e sobre o mundo. Agora tudo passava das minhas mãos para as mãos do meu filho. O que acontecesse com ele aconteceria comigo. Estávamos intrínseca e eternamente ligados um ao outro. Ao me dar conta de tudo isso, chorei como se não houvesse amanhã.

Hoje, depois de 1 ano e quase 6 meses do nascimento do Álef, que se desenvolve fofamente aliás, compreendo melhor (mas ainda não por inteiro) o comentário da minha amiga sobre a experiência incrível. Com isso, ela não queria dizer que eu veria pôneis cor-de-rosa todos os dias da minha vida como mãe. Com isso, ela não queria dizer que seria fácil como namorar na praia. Com isso, ela não queria dizer que seria leve e indolor.

A experiência incrível de tornar-se mãe é viajar até o magma da vida e sentir ali todo o seu calor, que aquece, mas que também queima. É deixar que a lava de amor e fúria preencha os cantos antes mais desconhecidos da nossa alma e exploda pelos poros em forma de cuidado e carinho. É curvar-se diante do Eterno, humildemente, e contar com a vontade Dele para que você não enlouqueça de preocupação e nem sufoque o seu filho dentro de uma bolha de superproteção. É medo, risadas sem hora marcada, ternura sem fim e muita oração.

Sim, faço do conselho da minha amiga também o meu conselho às mulheres que ainda não se decidiram. Se você quer uma vida cômoda, sem sustos, nem improvisos, não tenha filhos. Agora, se você gosta de emoção e tem estômago forte, vá em frente. A maternidade é a montanha-russa mais realista e sem volta que você poderia desejar nesta terra.  E ela é, de fato, INCRÍVEL!

Ofereço este texto à minha mãe Carmem, mulher forte, que deu à luz a CINCO filhos! Fico imaginando todas as emoções que ela não passou e não passa todos os dias. :)

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Fazendo as pazes com a idade

Brazil_TerryGilliam
Cena do filme ‘Brazil’, de 1985 – uma distopia imaginada por Terry Gilliam

 

Com a proximidade dos meus 35 anos, também vêm chegando mais e mais pensamentos sobre o processo de envelhecimento. Mesmo que eu quisesse ignorar a realidade desse fenômeno, os sinais do meu corpo não me deixariam: já vejo alguns reflexos brancos nos meus cabelos e a minha pele mais marcada. Minha disposição para dançar, por exemplo, coisa que adoro, não é mais a mesma. Só de pensar no tempo que eu ficaria esperando na fila para entrar em alguma balada já me faz dar um suspiro profundo de cansaço. Abomino aglomerações e prezo mais do que nunca o silêncio. Resultado: me contento em dançar em casa mesmo, dentro das condições mais convenientes para mim (pois é, essa é a prova cabal de que estou, de fato, envelhecendo).

Mas o que poderia ser motivo para desespero está sendo trabalhado em minha mente para que se torne um aliado. Assim como quase todo ser humano desta geração, eu também não passei ilesa às influências do manual Disney-Hollywood para a vida: você só existe para o mundo se for jovem. Ou melhor, você pode até não ser jovem, mas sem dúvida alguma você precisa parecer jovem, mesmo que o preço para isso seja a sua identidade e você tenha que se transformar na Maga Patalógica (afinal, ela mesma é uma personagem Disney! Olha que ótima referência!).

Certa vez uma amiga me disse que nunca colocaria Botox ou nada que disfarçasse seu tempo de vida, porque aquelas eram as marcas de que ela tinha vivido. Achei isso tão sábio e… tão óbvio por ser um processo natural, não? De fato, viver deixa marcas, preenche os espaços vazios da nossa bagagem e escreve na pele da gente como hieróglifos de antigos egípcios nas paredes. É o corpo contando a nossa história: tombos levados na infância, artigos lidos com curiosidade de criança sobre rituais de tribos africanas, brincadeiras de professora com uma lousa caindo aos pedaços, a caixa d’água transformada em piscina (!) para duas amiguinhas em dia quente, o quase-afogamento numa piscina de verdade em Cuiabá; a paixão pelo inglês, a descoberta da literatura com Homero e Dostoiévski; os encontros dos adolescentes da igreja, os acampamentos, as experiências com Deus; o primeiro emprego no shopping, a viagem para Londres, os amigos que se foram e os amigos que chegaram; a faculdade de Letras, o mestrado, o casamento que não deu certo, a terapia que deu; a igreja maravilhosa que se tornou segunda família, o segundo casamento, o primeiro filho, o trabalho que finalmente faz sentido. Quanta riqueza!

Quando olho para o Álef, meu filho de 1 ano e 5 meses, penso no quanto a mochilinha de vida dele ainda é vazia. Se por um lado isso é promissor, claro que é, por outro, me causa um pouco de dó. Ele ainda não conhece tanta coisa bonita, profunda e gostosa como eu conheço… mal sabe ele o quanto a vida é incrível com suas dores e delícias. Vive na ignorância pura de uma existência ainda bebê.  Não consegue sentir o prazer de tomar grandes decisões por si mesmo, nem preparar uma comidinha saborosa na hora que quer. Não consegue ler Georges Bernanos, nem flutuar na suavidade da voz norueguesa do Kings of Convenience ou dançar ao som de Beirut (sou eu que proporciono esse prazer para ele, segurando-o no meu colo enquanto danço). Sua capacidade de apreender o mundo ainda é tão limitada! Que bom que nem sempre será assim para ele.

Por que então eu iria querer aparentar ter vivido pouco como o Álef ou como um adolescente? No que isso adiciona? Pelo contrário, subtrai! Recuso-me a ser uma pele repuxada para permanecer parecida com alguém que ainda não provou da vida. Não. O meu rosto é o distintivo da soma de todas as minhas experiências e quero me orgulhar dele, me sentir grata por tudo o que ele representa, por tudo o que de mim ele mostra para os outros. Que venham as rugas, os sulcos, as manchas, os cabelos brancos que um dia eu espero não tingir. Claro que me cuido e quero continuar me cuidando, mas se cuidar é bem diferente de se auto-enganar. Afinal de contas, assumir a vida é não temê-la, é entregar-se a ela toda até que, de tanto ter sido vida – em sua máxima capacidade – ela se esvaia de nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Não nos deem os parabéns

Dia das mulheres_2016
‘Mirror’, por Tigran Tsitoghdzyan, óleo sobre tela

 

Não gosto de receber ‘parabéns’ pelo dia das mulheres, nem flores, menos ainda um poema breguinha. E explico por quê:  minha indisposição para sorrisinhos e congratulações não se devem à data em si, que é, na verdade, um marco na história feminina e deve sim continuar no calendário como um memorial de que, um dia, mulheres se recusaram a ser exploradas no trabalho e lutaram por seus direitos como… seres humanos que são. Entretanto, com o passar do tempo, a força dessa data começou a ser diluída e, no lugar, passamos a receber gracejos e elogios por nossa fragilidade (!!), quase como uma declaração do tipo: “sinto por você ter nascido mais fraca, mas veja pelo lado bom, você é bonita!”. Aff!

Quando leio Provérbios 31.10 em diante, respiro aliviada: Salomão entendeu do que somos feitas e, acima de tudo, fez uso da palavra que resume todas as coisas, que atinge o cerne da questão feminina e que responde a pergunta sobre o que eu quero receber no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano e da vida: DIGNIDADE (verso 25).

Pronto! Se fosse dignidade o que regesse nossas relações todos os dias do ano, a mulher não serviria de objeto sexual, não veria seu direito à educação negada em países regidos pelo Talibã, não teria medo de ser estuprada na rua quando seu carro quebrasse no meio da noite (pois é, isso aconteceu ontem mesmo), não seria alvo de piadas, nem de agressão física, nem de preconceitos de diversas naturezas.

A passagem da mulher virtuosa de Provérbios não é apenas uma homenagem (aí sim, genuína e linda e recebo-a no dia de hoje com o coração aberto e feliz) para as mulheres, mas sim uma lição para a humanidade sobre dignidade, respeito e justiça. Se fossem esses os princípios que regessem as nossas relações de fato, os poemas, os ‘parabéns’ ou qualquer outro gesto atencioso não teria esse gosto de coisa forçada, artificial, hipócrita, do tipo você-finge-que-me-respeita-e-eu-finjo-que-acredito. Se aprendêssemos com Provérbios 31, este momento seria mais um dia de celebração natural do amor e da graça de Deus, espelhados através de todos nós sobre todos nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a tal mulher virtuosa

A Bíblia, ao contrário do que muitos pensam, não é um livro (ou um conjunto de livros) retrógrado, desatualizado e completamente fora de contexto. Creio realmente que até aqueles que não acreditam em sua veracidade, e como nós, a têm como Palavra de Deus, poderiam se beneficiar (e muito!) de seus conselhos. Porque se tem uma coisa que o homem está fadado é repetir, e repetir, e repetir os mesmos erros. Indiferente de época, civilização ou cultura. É isso: somos previsíveis!

Linda ilustração de Lady Desidia (ladydesidiashop.bigcartel.com)

Mas, hoje, meu intuito não é esse, aproveitando a data comemorativa, o Dia Internacional das Mulheres, gostaria de discorrer um pouquinho sobre a tal mulher virtuosa que Salomão fala em Provérbios 31 e que também tece tão belos elogios.

O que me chama a atenção logo no início do texto é a cumplicidade que esse casal tem. Ele fala que Seu marido tem plena confiança nela 11 e ao meu ver, confiança, é um dos itens de necessidade básica para qualquer relacionamento, quem dirá em um casamento! Como ser-casal sem ter confiança? Como ser-casal sem ser unidade? Como se relacionar sem confiar? Então, item básico exposto, prossigamos a análise…

Posteriormente, Salomão fala sobre várias atividades domésticas, de administração de negócios (eu disse negócios!), de virtudes altruístas, de habilidades manuais, de não ter medo (e muito menos preguiça!) de trabalhar, de ser acolhedora, do dom da educação, enfim, quando leio dos versículos 12 ao 28, na verdade, eu penso em muitas mulheres! E, com isso, eu não creio que ele esteja falando que uma única mulher, para ser virtuosa, tenha que saber, e fazer, item por item tudo aquilo que ele descreveu, como numa espécie de check-list. Por quê? Porque, para mim, é simples: primeiro que um único dia não seria suficiente para fazer tudo isso, a não ser que essa mulher não dormisse, porém, muito mais do que isso, penso que somos únicas, criadas com tanta criatividade e exclusividade que seria muito chato se fossemos todas idênticas umas às outras tentando ser aquilo que não somos e tentando calçar os sapatos que não são nossos (como já disse a Fernanda em um post tempos atrás).

Por isso, penso que Salomão foi extremamente sábio (e quando criança eu desejei tanto a sabedoria dele!) em discorrer em poucos versículos, as várias mulheres que existem, tomando o cuidado para não excluir a diferença. E, é exatamente aí, que eu vejo a graça desse epílogo: ele fala de mim, mas, fala de você também! Ele não exclui a diferença, mas exalta as qualidades que todas nós temos. Por isso, esse texto é tão belo, porque se há apenas algum item do qual devemos ser idênticas, é o que ele expõe no versículo 30, que devemos temer ao Senhor. Pois, temendo a Deus, acima de todas as coisas, seremos verdadeiramente recompensadas.

Um Feliz Dia das Mulheres para mim e para você!

Gif de Monica Crema: www.monicacrema.com.br
Gif de Monica Crema: http://www.monicacrema.com.br

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulherões da literatura

C.E.Chambers
Ilustração de C.E. Chambers, 1900

 

Tenho pensado bastante sobre a relevância das mulheres no campo das artes e do pensamento. O motivo das minhas reflexões é o paradigma (para não dizer preconceito) de que elas não se interessariam por assuntos muito profundos. Infelizmente, uma grande parte delas, de fato, não toma a iniciativa de procurar seu espaço ao sol entre os produtores e difusores de conhecimento e cultura, o que só acaba reforçando a fofoquinha de que somos meras manequins de vitrine. A boa notícia, porém, é que não precisamos abdicar de nossas características femininas mais intrínsecas (ai, se uma feminista queer me ouve!!) para produzir coisa boa. Se você não acredita no meu argumento, sugiro que leia com atenção a seleção que fiz de cinco mulherões que arrasaram na literatura, enriquecendo o mundo com suas ideias e críticas e escrevendo com o que todas nós temos em comum: muita beleza.

  1. Doris Lessing

Filha de britânicos, Doris Lessing nasceu no Irã e cresceu no Zimbábue. Seu livro mais famoso,  O carnê dourado, se tornou leitura obrigatória e referência para as feministas. Eu li outro clássico dela, O sonho mais doce, e o que me chamou a atenção foram as suas personagens femininas, sempre progressistas, social e politicamente engajadas e de personalidade forte. Nas histórias das mulheres criadas por Lessing, não há espaço para perfumaria.

  1. Flannery O’Connor

Uma das mais importantes contistas norte-americanas do século 20, Flannery O’Connor imprimiu em seus contos muitos dos seus valores cristãos. Temáticas como culpa e redenção são retratadas de forma profundamente reflexiva e autêntica. Também abordou temas sociais, como o racismo. Sua escrita é bem descritiva e, por isso mesmo, perfeita para ser degustada sem pressa, numa construção detalhada de cada uma das ricas imagens. Duas características fundamentalmente femininas que você certamente encontrará impressas na obra de O’Connor: sensibilidade e sagacidade. Alguma identificação?

Dica de conto: Tudo o que sobe deve convergir (tem o conto com esse nome e tem uma coletânea de contos que leva esse nome também. Indico tudo.)

  1. Ingrid Jonker

Ingrid Jonker foi uma poetisa sul-africana e é justamente a poesia que a torna tão feminina. Seus poemas lhe renderam pouco reconhecimento em vida e muitos amantes, dos quais dois eram importantes escritores de seu país. Foi quando Nelson Mandela leu seu poema A criança (morta a tiros por soldados em Nyanga) no dia de sua posse, em 1994, é que Jonker finalmente recebeu o reconhecimento merecido. O que mais me toca nela é a sua capacidade de transformar a crítica social e racial em versos sublimes e perturbadores. O filme Borboletas Negras conta uma parte de sua história.

  1. Virginia Woolf

Não poderia deixar de citar aqui a mais melancólica de nossas autoras, a inglesa Virginia Woolf. O que marca em suas obras é o fluxo de consciência – técnica literária de transcrição dos pensamentos de um personagem em toda sua complexidade e não-linearidade. Para quem gosta de dar mergulhos profundos na existência e não tem medo das angústias que inevitavelmente vai encontrar por lá, os contos e romances de Virginia Woolf são ideais. Sua obra mais conhecida e minha recomendação para você começar a gostar da escritora é Mrs. Dalloway.

  1. Clarice Lispector

Sou suspeitíssima para falar da Clarice. Se combinarmos aqui entre nós de deixarmos todas as máscaras de lado, prometo que não terei vergonha de dizer que ela foi tudo o que eu queria ser na vida: linda, inteligente, talentosa, mãe de dois (até hoje só tive coragem de me tornar mãe de um), enigmática e por aí vai. Como comentei uma vez com um amigo, sua escrita não é um dom, é um milagre. E, ao contrário do que muita gente afirma, sua linguagem não é assim tão difícil. A questão – e é aqui que entra a sua característica mais feminina – é que Clarice verbaliza o que se passa na alma e não no intelecto. Logo, alcançar o íntimo de suas obras exige boa dose de entrega. Você tem que se abandonar (e desistir de ficar interpretando tudo ao pé da letra) e deixar-se ser preenchida por toda a beleza e profundidade de seus textos. Como fã incurável de Clarice, eu garanto: a viagem vale muito a pena!

Dicas de contos para começar: Tentação e Felicidade Clandestina.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A arte de qualidade e a arte… feita por cristãos

AsasdoDesejo
“O que eu sei agora nenhum anjo sabe” (Asas do Desejo, Wim Wenders)

 

Em março de 2015, o cineasta alemão Wim Wenders gravou uma entrevista para o canal do MoMA no YouTube. Estavam ele e o Peter Handke, que escreve os roteiros juntamente com Wenders. Em uma das perguntas, o entrevistador sugeriu que ele, Wenders, enfatizava um aspecto mais espiritualizado em suas histórias e quis saber se isso tinha a ver com a sua migração do catolicismo para o protestantismo. Ao responder, Wenders não pendeu para a questão de sua vertente religiosa, mas comentou que “havia sido encontrado” enquanto gravava Asas do desejo. E foi além. Contou como a produção do filme aconteceu em bases milagrosas, visto que ele não tinha nenhuma ideia para o roteiro e Peter Handke, naquela época, estava ocupadíssimo escrevendo um livro. Enquanto filmava a esmo, Wenders recebeu uma carta de Handke, em que ele havia escrito – em nome da amizade que tinham – um poema que pudesse, quem sabe, inspirá-lo ao longo das gravações. Wim Wenders não só usou o poema (Canção da Infância), como seus versos acabaram se tornando o cerne da beleza da história. Mas não parou por aí. Toda semana, Wenders recebia novas cartas de Peter Handke, que se encaixavam perfeitamente no que Wim Wenders estava criando como enredo. Detalhe: Peter Handke não fazia a menor ideia do que seu amigo estava filmando, porque não podia participar das gravações. Assim, Asas do desejo não só foi finalizado com excelência, como venceu o Festival de Cannes com o prêmio de melhor diretor em 1987.

De toda a entrevista – que foi riquíssima, aliás –, a parte em que o entrevistador posicionou Wim Wenders como protestante foi a que provocou em mim uma secreta e estridente alegria, que acabou redundando em um alívio totalmente inesperado, algo como: ufa! Tá vendo? Os cristãos também podem produzir arte de qualidade!

Esse meu alívio espontâneo, que tomou forma com a constatação de que cristãos também podem produzir arte de qualidade, pressupõe pelo menos três realidades: 1) o cristão não produz arte de qualidade; 2) embora não o faça, o cristão é capaz de produzir arte de qualidade; 3) a imagem dos cristãos como detentores de talento e criatividade está um tanto denegrida. Em outras palavras: arte feita por cristãos não é arte, é piada.

Se você acha que estou sendo preconceituosa ou herética quando penso na arte dos cristãos em geral, dê um google em um “artista” norte-americano cristão chamado Thomas Kinkade. Kinkade – também pretensiosamente chamado de The Painter of Light (o pintor da luz) – foi uma figura contemporânea simpática, que ficou podre de rico ao pintar um quadro à lá Disney, em que retrata um bosque todo brumoso com uma cabaninha romântica no meio, de cujas janelas emana uma luz quente, como se todos os cômodos estivessem ocupados com gente feliz. Se a história terminasse aí, a arte de Kinkade não seria de toda medíocre, por possuir relativa originalidade. Entretanto, a mediocridade, no caso dele, começa a ficar evidente quando a primeira versão da cabaninha no bosque brumoso, ao agradar um grande número de cristãos, passou a ser reproduzida em larga escala e Kinkade, em vez de ter outras ideias, que levassem as pessoas a reflexões e mergulhos mais profundos, resolveu só mudar a cabaninha de lugar e a posição da luz externa. Pronto! Lá estava um novo quadro! E, assim, foi criando uma série de quadros – uns parecidíssimos com os outros – e vendendo horrores. Mas não, a mediocridade artística de Kinkade não se encerra aí. Quem acha que o pintor norte-americano ia lá pessoalmente rabiscar e preencher cada espaço de suas bucólicas cenas se engana. O artista contratava pessoas que trabalhavam para ele como numa linha de produção: cada funcionário recebia um pincelzinho para dar uma pincelada em um ponto específico dos quadros, para que assim a produção fosse massiva e nenhuma senhorinha protestante norte-americana ficasse sem o seu exemplar na parede.  E a mediocridade finalmente termina: como Kinkade foi declaradamente cristão e como sua arte é considerada uma piada entre os artistas norte-americanos, logo, a arte cristã – cuja bandeira Kinkade levantou com orgulho e foi o que caracterizou seu trabalho – é considerada também uma piada.

É importante deixar claro que o que critico aqui não é Kinkade como cristão ou como pessoa. Não o conheci e nunca poderia julgar o seu caráter. O que trato aqui é de Kinkade como artista, ou mais especificamente, como artista cristão. Olhar os quadros dele e questionar sua falta de profundidade, sua falta de originalidade e sua alta capacidade de reproduzir uma fórmula e fazer dinheiro com ela é uma obrigação de qualquer ser humano pensante. Mais uma ressalva: produzir arte medíocre não é privilégio de cristãos. Qualquer artista corre esse risco. A questão é a enorme quantidade de arte medíocre feita por cristãos. Tristemente, pouca coisa é relevante e se salva.

Mas voltemos ao Wim Wenders e encerremos com ele:

Recentemente, assisti a Asas do desejo pela segunda vez. A primeira foi no colégio, por empréstimo de uma amiga cinéfila, que o tinha em VHS (!). Ainda eu, naquela época, não sabia que adentrava terreno sublime. São imagens do invisível, do subjacente, do não-dito, do inexprimível em palavras. É o Belo em sua forma primeira, imaculada.  O transcendente tangível. A poesia. Ao final do filme, senti que fui agraciada.

Quando um artista, seja do cinema, das artes plásticas, da literatura ou da música, tem um compromisso com a arte – e se tratando de um artista cristão, esse compromisso é também com Deus – ele oferece aos demais a possibilidade de olharem além da superfície. É como um convite para se voar mais alto. É a representação do que é eterno no máximo da capacidade humana de o representar. Não há proselitismos, nem obviedades. Só há arte. E há Ele. O Belo e Único está lá.

Na mais pura e profunda arte, não há como deixar de experimentar o que Wim Wenders experimentou. Ele foi encontrado. E conosco ocorrerá o mesmo. Basta deixarmo-nos ser encontrados.


Abaixo, uma lista com alguns dos filmes do Wim Winders para você degustar e ser agraciado:

Asas do desejo, 1987

Paris, Texas, 1984

Buena Vista Social Club, 1999

Pina, 2011

O céu de Lisboa, 1994

O sal da terra (este é sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado), 2014


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quer saber a verdade?

 the-truth-shall-make-you-free-1201069

Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça.

Esse versículo, de Romanos 1.18, traz uma palavra-chave, polêmica para a nossa cultura ocidental: a verdade. O texto afirma também que os homens eliminaram a verdade para favorecer a injustiça. Mas qual é a relação direta existente entre verdade e injustiça? Proponho uma reflexão sobre essa pergunta, considerando a ótica líquida da nossa cultura, para quem a verdade é customizada (eu a construo como eu quiser) e intransferível (cada um tem a sua).

O homem hipermoderno suprimiu a ideia de uma verdade única, total, para, em lugar dela, adotar incontáveis verdades – uma para cada pessoa da terra (ou seja, são 7 bilhões de verdades no globo). Mas se tudo é verdade, o que não é verdade? Nada. Não existe a não-verdade, ou melhor, a mentira. E se cada um constrói a verdade como quer, por que a chamamos verdade e não de … jenga*, por exemplo? Podíamos riscar a palavra e todo o significado de verdade – logo, a autenticidade, o fato, a exatidão, a precisão – do nosso repertório de conhecimento das dinâmicas do mundo e das linguagens que as representam.

Quando o homem suprime a verdade única e a multiplica (ou a divide?) pelo número de habitantes da terra, ele a reduz ao tamanho e à abrangência da minha limitada percepção do mundo. Assim, cometer injustiças fica muito fácil: percebo e me conecto com o outro a partir do que eu acredito ser o certo, e o que é certo para mim é definido pelas minhas experiências, que, por sua vez, acontecem dentro de uma moldura social, econômica, etária, familiar, geográfica, educacional, cultural, relacional muito, mas muito específica e particular. Ou melhor, única. O outro, por sua vez, se conecta comigo a partir dos mesmos critérios, específicos do contexto dele. Impossível alguma injustiça não escapar da interação entre essas complexidades todas. Se formos ampliar essa percepção pelo número de conexões entre as pessoas, quantos atos de preconceito, intolerância, guerras, torturas, mortes, doenças e outros sofrimentos não são cometidos a cada momento?? Gosto de imaginar como seria a existência se a verdade fosse tomada como única – como ela é, de fato: a humanidade convergindo, inteira, para um único Ponto, de onde emana a justiça extrema, sem medidas, nem limites.

 

*jenga – jogo de blocos de madeira, com os quais se constrói uma torre. O objetivo desse jogo é ir removendo, aos poucos, os blocos da base da torre e colocá-los no topo sem que a torre caia.

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Filmes & a temática feminina

Aproveitando que o final de semana está aí, que tal escolher um desses filmes (ou todos eles! por que não?!) para assistir?

Tenho certeza que será mais do que um entretenimento; será uma ótima reflexão.

Girl Rising

Richard Robbins, 2013 

1girlrising

trailer: https://www.youtube.com/watch?v=81x6mYNxqzU

Não tem como assistir esse filme e não ser impactada… Em alguns momentos você se indignará, ficará pensativa, em estupefação, porém em outros (talvez na maior parte do filme), sentirá um enorme constrangimento, e daqueles que só é sentido quando comparamos nossas condições, estruturas e oportunidades com essas e tantas outras meninas ao redor do mundo que não possuem sequer 1/3 do que chamamos aqui no Ocidente, ou como nossa classe média abastada define, por direitos básicos.

O filme conta a história de 9 meninas de países diversos. Tais histórias foram recontadas por escritores, mas para trazer a essência de suas experiências, de forma bela, porém real. E entre uma história e outra o documentário traz dados interessantíssimos como, por exemplo:

“Aqui está um fato perturbador. A causa número um de morte para garotas entre 15 e 19? Não é Aids. Não é fome. Não é guerra. É parto. Quando as meninas se casam jovens, a educação termina. E os ciclos anteriores continuam. Ciclos de pobreza, ciclos de violência, ciclos de ignorância (Colocar todas as crianças na escola evitaria 700 mil casos de HIV por ano). Mas uma garota que vai estudar inicia outro ciclo (Meninas que estudam 8 anos são 4 vezes menos propensas a se casar jovem). Porque ela se manterá mais saudável. Ela vai se casar mais tarde. Ela terá filhos mais saudáveis (Um filho nascido de uma mãe alfabetizada tem 50% mais chance de passar dos 5 anos). E acima de tudo, ela terá filhos estudados (Mães estudadas são duas vezes mais propensas a mandar seus filhos para à escola). E não são só as mães. Os pais também devem investir. Assim, suas filhas podem sonhar.”

E eu se fosse você, começaria por ele ;-)


Miss Representation

Jennifer Siebel Newsom, 2011

2missrepresentation

você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://vimeo.com/72015293

Esse documentário aborda a falta de representatividade das mulheres na grande mídia. Seja a representatividade atrás das telas, como ‘cabeças pensantes’, criadoras e geradoras de conteúdo, seja reproduzindo e representando o papel da mulher sob uma ótica distorcida, comercializada e machista.

“Mulheres detêm apenas 3% de cargos de poder em telecomunicações, entretenimento, publicações e propaganda. Isso significa que 97% de tudo o que você ‘sabe’ sobre si mesma, sobre seu país e o mundo vêm de uma perspectiva masculina. E não significa que isto esteja errado. Significa simplesmente que em uma democracia, que nós dizemos ser igualitária e com a participação de todos mais da metade da população não está participando” – Carol Jenkins (Presidente Women’s Media Center)


Pray The Devil Back To Hell

Gini Reticker, 2008

3praythedevilbacktohell

trailer: https://www.youtube.com/watch?v=bi3nvH_Po5E

O cenário deste documentário é a Libéria, país que viveu uma sangrenta guerra civil durante o regime de Charles Taylor, que em 2003 foi forçado a exilar-se na Nigéria.

E como parte dessa revolução e fim da guerra, várias mulheres se unem, deixando de lado diferenças religiosas, para protestarem pacificamente pela paz. A Libéria é abençoada por ter essas mulheres que ajudaram a definir o destino de seu país sem derramar uma gota de sangue, mas que com lágrimas, orações e súplicas trouxeram um futuro melhor à sua nação.


Persépolis

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2008

4persepolis

você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jUXo4zw0vXA

Persépolis é uma animação francesa, baseada na história em quadrinhos homônimo e autobiográfico da Marjane Satrapi.

A animação começa antes da Revolução Iraniana, quando Marjane tinha 8 anos, mostrando como ela era igual a qualquer outra menina de sua idade, mas conforme o tempo vai passando, a nova República Islâmica toma o poder do Irã, seu país de origem, e começa a controlar como as pessoas (as mulheres em especial) deveriam se vestir e se portar, obrigando-a a expatriar-se.

O filme é bem rico também, porque ao narrar toda a história da personagem, traz as angústias, os medos, as frustrações e traumas que todo o conflito e a ruptura acabaram causando em sua vida.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.