A falta que a leveza faz

Era um desses videos da época em que a internet estava deixando de ser discada para ser aquela outra mais “moderna”, que não usava linha telefônica direta. E era um vídeo bonito, sensível, que começava com uma voz ao fundo dizendo: wear sunscreen (use protetor solar). A partir daí, a voz, aliada a uma seleção de imagens impecável, compartilhava uma série de segredos para uma vida longa, jovem e… leve.

Assisti a esse vídeo tantas vezes, que quase posso dizer de cor todas as falas. E me lembrei especialmente de quando ele diz para não nos preocuparmos demais com a vida, porque os problemas que de fato são reais não passam quase nunca pela nossa cabeça, a não ser numa tarde ociosa de terça-feira… e é bem nessa parte que paro e respiro fundo.

Para uma melancólica incorrigível como eu, ouvir alguém dizendo que o que recheia a nossa cabeça, na maior parte do tempo, são caramelos coloridos é o mesmo que um viciado em jogo ouvir que ganhar na Mega-Sena é fácil. Desanima. Eu não apenas penso, mas sou torturada por minhas questões existenciais quase 24 horas por dia. E que questões seriam essas?– ouço a voz do hedonista do vídeo me indagando. Tudo, praticamente – respondo. Preocupa-me se estou sendo uma mãe presente para o Álef, se deveríamos mesmo nos dar ao luxo de tomar o sorvete granfino uma vez por mês, se meus estudantes estão explorando seus potenciais ao máximo, se chegarei no horário aos compromissos, se um dia serei uma cristã exemplar, se sou maluca, se deveria me exercitar mais e por aí a lista vai embora. É uma inquietação incessante em torno do atual estado das coisas. Cansativo, não?

Nessa semana, porém, aconteceu um imprevisto: recebi uma pincelada de leveza na alma. Olhei para os meus livros de ficção – a maioria tão convidativos, atraindo a gente para uma viagem a mundos paralelos -, para uma taça de vinho – mimo recebido dos meus pais apenas pelo mérito de existirmos -, para o meu próprio filho, elaborando suas primeiras frases e tropeçando na língua ao dizer coçalão no lugar de coração e jacaleca em vez de jacaré, e acho que finalmente compreendi. Compreendi que Deus é o Soberano das galáxias imensuráveis e também dos micromundos dos protozoários. Que Deus criou um mundo complexo, sim, mas também colorido e engraçado (olha o ornitorrinco!). Compreendi que, assim como as grandes questões, a leveza também faz parte da minha realidade, e que ela pode entrar aqui dentro e me oferecer um revigorante copo de trégua, do qual sou tão sedenta.

E, para dar as boas vindas à leveza, coloco MGMT no player e saio dançando pela casa.

 

Folon
Por Jean Michel Folon

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

No limbo eu sofri, mas dele tirei muitas lições

Ontem eu estava mexendo em um pendrive antigo, o primeiro pendrive que tive, aliás, quando encontrei entre as músicas gravadas lá dentro uma da Alanis Morissette, chamada Limbo No More. Ao colocá-la para tocar, me senti viajando no tempo, de volta ao ano de 2008, época em que essa música foi lançada e que, coincidentemente, minha vida se tornou um caos, para em seguida ser levada ao limbo, à suspensão total de tudo como até então eu conhecia.

Eu havia acabado de sair de um casamento, tinha perdido amigos, mudara de casa, tinha deixado a igreja da qual fiz parte desde criança e, um mês depois disso tudo, ainda perdi o emprego. Não restou quase nada a que me apegar. Senti o fundo úmido do poço contra o meu rosto. Eu não via nada à frente. Tudo ficou escuro e frio.

Minha casa, meu papel
Meus amigos, meu homem
Minha devoção a Deus
Tudo amorfo
Indefinido

Nada mais está claro
Nada mais se encaixa
Nada mais parece verdade
E eu nunca me entreguei por completo

Nada tem durado 
Nada mais é afirmativo
Nenhum lugar é lar 
E eu estou pronta para não mais ser limbo

Meu gosto, meus pares
Minha identidade, minha afiliação
Tudo amorfo
Indefinido*

(…)

Uma vez ouvi que a crise guarda em si um grande potencial para que algo novo surja, como uma semente. Lembro de minha psicoterapeuta dizendo algo parecido: Lu, a angústia é boa e saudável quando aponta para uma saída. E se naquele ano tudo tinha vindo abaixo, se nada do que havia sido um dia existia mais, então aquele era um momento crucial na minha vida. Porque era a partir daquele nada que tudo haveria de ser reconstruído. E de uma forma dolorosa e estranhamente prazerosa ao mesmo tempo, todas as escolhas se puseram à minha frente de novo, aguardando por mim. Eu estava pronta para me refazer.

E foi aos poucos e sentindo a mão de Deus pegar a minha e me erguer do chão, que fui fazendo novas escolhas. A primeira delas foi me inscrever no programa de mestrado em literatura. Depois, procurei novos amigos, a partir daqueles que haviam restado. Voltei a dar aulas de inglês e, um ano após a minha separação, encontrei uma nova comunidade de fé, à qual pertenço até hoje. Antes de encontrar essa igreja, porém, eu havia frequentado uma outra, formada de jovens universitários. Cheguei a ir a um acampamento com eles e me lembro de uma reunião que fizemos ali, em que eles oraram pela família que um dia formariam. Nem tive coragem de me unir a eles nessa oração. Sentada mais longe, falei para Deus muito rapidinho: Se eu pudesse… um dia… formar uma família…. eu ficaria muito… feliz. Depois de um ano dessa oração, conheci o David – o descendente de coreano, artista e talentoso, cujo trabalho todo mundo admirava -, que veio a se tornar meu querido marido e pai do nosso coreaninho loiro, o Álef.

Faz quase 9 anos que a Alanis Morissette lançou o seu álbum com a música Limbo No More nele. E faz esse mesmo tempo que a minha vida foi varrida pelo terremoto metafórico mais tenebroso que já experimentei. Ainda assim, chegou o dia em que eu pude dizer como ela: estou pronta para não mais ser limbo. Mas foi no limbo que eu aprendi. Foi no limbo que me humanizei, que estourei a bolha em que eu vivia e que, longe de me rebelar contra Deus, me vi mais dependente Dele e de suas segundas e terceiras chances. O limbo me ensinou a fazer escolhas responsáveis e mais do que isso ainda: foi no limbo que enxerguei o valor e os efeitos edificadores do arrependimento e da humildade. Finalmente, foi no limbo que eu aprendi a ter esperança.

Eu sento com quadros preenchidos e
Meus livros e meus cachorros aos meus pés
Meu amigos ao meu lado
Meu passado amontoado numa pilha

Joguei fora a maior parte das minhas coisas
E só mantive o que eu preciso 
Para aperfeiçoar algo consistente e notavelmente eu

Tatuagem na minha pele
Meus professores no coração
Minha casa é um lar
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Um senso de mim mesma
Meu propósito é claro
Minhas raízes no solo
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Algo alinhado
Com o qual finalmente me comprometer
Algum lugar ao qual eu pertenço
Porque estou pronta para não mais ser limbo

Minha sabedoria na prática
Um alicerce firme
Uma promessa a mim mesma
Porque estou pronta para não mais ser limbo*

 

*Tradução livre de Limbo No More, Alanis Morissette. Letra original aqui.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Estou de mudança, de novo

Remedios Varo (1908-1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana - Tela: Tránsito en Espiral (1962)
Remedios Varo (1908 – 1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana — Tela: Tránsito en Espiral (1962), essa imagem foi a capa da edição brasileira (2014) do livro de Santa Teresa d’Ávila “As Moradas do Castelo Interior”

Estou de mudança, de novo.
Mudando de apartamento para casa, da zona norte para o centro de São Paulo. De vizinhos e companheiras de viagem. De renúncias para novas oportunidades. De ares e paisagens.

Estou de mudança, de novo.
– E quem é que permanece sempre igual e no mesmo lugar? Faço a pergunta a mim mesma quase em voz alta.
– Talvez mudar (geograficamente falando) possa ser uma espécie de experiência-metáfora do que acontece dentro da gente e que Deus permite e nos chama a viver. Penso, mas desta vez, sinto um nó na garganta e envolta a algumas incertezas a Voz interna, paradoxalmente, me acalma e me envolve em uma extrema alegria, não há como negar, é Ele, dentro de mim, mudando as coisas de lugar*.

Estou de mudança, de novo.
Mas desta vez, também, caminhando para novas moradas, dessas que não estão localizadas em bairros, ruas ou avenidas, tampouco são feitas de tijolos e cimento. Estou caminhando para as moradas que se encontram nesse enorme Castelo Forte**, que é Deus.

Aprendendo a desapegar, a cada mudança, do supérfluo.
Deixando, quer dizer, tentando deixar a bagagem mais leve. Assim, fica mais fácil de respirar…
Já posso até ver e sentir o peso desse fardo menor, mesmo em meio a alguns apegos, que ainda teimam, em mim, ficar.

Sei, que estou longe, bem longe de onde Ele gostaria que eu estivesse, ainda me faltam muitas e muitas milhas – talvez, eu ainda caminhe por passagens bem estreitas, desérticas e hostis. Talvez ainda, durante o meu longo (ou curto, quem sabe?!) percurso de uma vida toda, eu tenha que enfrentar muitos, ou poucos, obstáculos. Não sei. Mas o que importa, o que realmente importa, é que tenho a certeza que sempre haverá um oásis para matar minha sede e restaurar as energias gastas durante a viagem.

Minha alegria é saber que Ele me aguarda (e guarda) mesmo em meio a tanta incerteza minha. E lança fora todo o meu medo e me ajuda – diariamente – a não desistir, a persistir e olhar só para Ele, que é o mais puro, sincero e verdadeiro Amor.

“No Amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor”

1 João 4:18

“…sabemos que temos almas; mas que bens possa haver nesta alma, ou quem está dentro dela, ou seu grande valor, isso poucas vezes levamos em consideração, e assim nos preocupamos tão pouco em conservar sua beleza com todo o cuidado. Tudo se limita para nós ao grosseiro engaste ou muralha deste castelo, que são nossos corpos. Pois consideremos que este castelo tem, como eu disse, muitas moradas, umas no alto, outras embaixo, outras nos lados, e no centro, no meio de todas estas está a principal, que é onde ocorrem as coisas mais secretas entre Deus e a alma”.

Santa Teresa d’Ávila
As Moradas do Castelo Interior,
Primeiras Moradas: Capítulo 1

Santa Teresa d’Ávila (1515 – 1582) em seu livro As Moradas do Castelo Interior nos ajuda a usar a força da imaginação para fazer compreender quem é o ser humano e quem é Deus. A imagem do castelo não é estática, mas dinâmica. É uma viagem ao interior, na qual superamos os obstáculos exteriores que nos impedem de entrar no castelo e cujo caminho prosseguimos sem parar, até chegar a “morada central, onde habita o Rei, sua Majestade” – trecho retirado do Prefácio à edição brasileira feita pelo Frei Patrício Sciadini, o.c.d. do livro.

 

 

*trecho da música Casa de Palavrantiga
**menção ao hino Castelo Forte escrito por Martinho Lutero em 1529

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As marés da vida

Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick
Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick

No devocional desta semana, li um texto lindo escrito por Anne Morrow Lindbergh* no qual ela compara os ciclos da vida às marés de uma praia. Ela escreveu este texto quando ficou sozinha em uma ilha, durante um mês inteiro, para descansar de sua rotina (escritora, piloto de avião, casada e com 5 filhos) e buscar a solitude.

Usando metáforas relacionadas à ilha na qual ela estava (o mar, as conchas, as marés, os pássaros…), Anne reflete sobre as diversas etapas da vida e dos relacionamentos; sobre a necessidade de estar sozinho (viver a solitude regularmente) para poder estar junto com os outros, de se fortalecer para só depois se doar, de ser inteiro quando o mundo nos torna fragmentados.

Sua reflexão me fez pensar nos ciclos normais de nossas vidas e de nossos relacionamentos. Os momentos em que estamos totalmente dedicados aos amigos e os momentos em que nos afastamos para estudar para uma prova difícil; os momentos em que nos apaixonamos e os momentos em que estamos sozinhos; os momentos em que vivemos para os filhos e os momentos de dedicação a um trabalho; os momentos em que adoecemos e diminuímos o ritmo e os momentos em que esbanjamos energia e saúde…

Também nos afastamos e aproximamos daqueles que amamos e que caminham mais perto de nós (nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, namorados, maridos e esposas). Os relacionamentos não são estáticos, há encontros e desencontros enquanto caminhamos juntos e nunca estamos sempre próximos ou sempre distantes. Há ciclos, há fases… como as marés.

Há tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar.
(Eclesiastes 3:5)

Às vezes caminhamos muito próximos de alguns amigos, depois nos afastamos, apesar de continuarmos amigos. É interessante também perceber as marés de nosso relacionamento com Deus. Às vezes, temos experiências de sua presença marcante, outras vezes, sentimos seu silêncio.

A vida é dinâmica. Mas tendemos a nos apegar com força para tentar fazer o momento durar para sempre. Schaeffer já dizia que precisamos aprender a estar presentes para o outro e a viver o momento presente. Respeitar estes ciclos de nossos relacionamentos pode resultar em mais gratidão (e alegria) e em menos ansiedade (e medo).

Se você se render completamente aos momentos que passam, viverá de maneira mais rica esses momentos.
(Anne M. Lindbergh)

A seguir, compartilho um trecho desse devocional com vocês.

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O fluxo e o refluxo da vida

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

Como podemos aprender a viver através das marés de nossa vida? Como se pode aprender a viver as marés baixas da vida? Como aprender a aceitar o vácuo entre duas ondas? É fácil entender isso aqui, na praia; onde a maré baixa, em seu silêncio, revela uma outra vida sobre a superfície, o reino secreto do fundo do mar… moluscos, estrelas-do-mar, mariscos coloridos, conchas… É tão linda a hora silenciosa do refluxo do mar, tão linda quanto a hora do retorno, quando as ondas agitadas se quebram na praia.

Talvez seja esta a coisa mais importante que levo de volta da minha estada à beira mar: simplesmente a lembrança de que cada ciclo da maré é válido; cada ciclo da onda é válido; cada ciclo de um relacionamento é válido.

Quando se aceita o fato de que, mesmo entre os seres humanos mais próximos, continuam a existir distâncias infinitas, pode-se desenvolver uma vida maravilhosa lado a lado. Para isso, os parceiros precisam aprender a amar a distância que os separa, e que possibilita a cada um ver o outro inteiro, como um todo, tendo como fundo a amplidão do céu!
(Rainer Maria Rilke)

Fonte: Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 143–144.

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Anne e Charles Lindbergh
Anne e Charles Lindbergh

*Anne Morrow Lindbergh (1906–2001) e seu marido Charles Lindbergh ficaram conhecidos por realizar viagens de avião transoceânicas (ele era piloto e ela era navegadora e operadora de rádio, mais tarde ela se tornou a primeira mulher americana a obter brevê de piloto de planador). Ela escreveu várias histórias das viagens. Sua fé aparece em seus escritos, principalmente no livro Presente do Mar (que apresenta estes trechos citados acima).

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E ainda pensando nisso. Pensando nas marés da vida e dos relacionamentos, podemos nos sentir inseguros com essa intermitência e ciclos contínuos, com medo de fazer algo errado e perder a relação imediata com a realidade e com aqueles que amamos.

Mas, então, eu me lembrei do que Bonhoeffer (no livro Discipulado) fala sobre a relação imediata ser uma ilusão (por causa da queda, eu não tenho mais uma relação direta com o outro) e Cristo ser o mediador. Não apenas entre mim e Deus, mas entre mim e a realidade, e também entre mim e os outros, Cristo é o único mediador.

Por isso, então, podemos nos sentir seguros em nossos relacionamentos e nas marés da vida. Podemos reconhecer nossas falhas e limitações, assim como as dos outros. Aceitar as ondas de alegria e as ondas de tristeza. Podemos exercer o perdão e a paciência, podemos experimentar a beleza e a esperança ao vivermos o presente.

Porém, não ao olhar para nós ou para os outros, mas apenas ao confiar nAquele que sustenta nossos relacionamentos (que nos aproxima e afasta) e que conduz cada ciclo de nossas vidas em amor.

Entre pai e filho, marido e mulher, entre o indivíduo e o povo, ergue-se Cristo, o Mediador, quer consigam reconhecê-lo, quer não. Não há para nós qualquer caminho ao semelhante que não seja o caminho através de Cristo, da sua Palavra e de nosso discipulado.
(Dietrich Bonhoeffer)


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

A incansável necessidade de interpretar tudo

Henrietta Harris
Retrato desconstruído pela artista Henrietta Harris

Tenho uma tendência quase que automática de ficar interpretando o que os outros querem dizer com certas frases ou atitudes. Se uma amiga troca mensagens monossilábicas comigo pelo Whatsapp, logo presumo que ela esteja brava ou chateada; se minha mãe começa a dar conselhos sobre como criar o meu filho, suspeito que ela ache que eu não cuido dele direito e por aí a lista vai, com uma infinidade de situações que serviriam de exemplos para a minha necessidade de ler nas entrelinhas de tudo, o tempo todo, sem trégua. Assim, vou criando histórias e interpretações mirabolantes na cabeça, como uma forma de explicar aquilo que desconheço por completo e que é o que me angustia de fato: a motivação das outras pessoas para agir como agem.

Tal atitude só tem lados negativos: a ilusão de que você está enxergando uma situação por todos os ângulos, a ilusão de que você tem controle sobre os fatos e a ilusão de que você é a espertona da história, que captou tudo. Sim, você de fato captou…. você captou tudo errado. Sinto ter de admitir, mas ao interpretarmos as ações alheias, cometemos julgamentos, injustiças e ainda corremos o risco de reagir de acordo com esse mundo de equívocos e, assim, magoarmos nossos queridos de graça, sem a menor base na realidade.

Mas não quero que neste meu texto falte a empatia. Afinal, escrevo justamente por sofrer – e muito! – desse mal da interpretação ininterrupta. Existe dentro de nós – amantes da interpretação – uma ansiedade por entender o mundo, as pessoas… queremos solucionar o quebra-cabeça das relações humanas e, por isso, nos entregamos aos pensamentos equivocados, crendo que são reais. Vamos observando a realidade de perto… depois de mais perto… depois de mais perto ainda, até que ela vai se distorcendo e saindo de foco, perdendo a proporção. Seria uma tendência nossa de querer brincar de Deus? Pode ser. Como também pode ser uma vontade incontrolável de antever todas as possibilidades para se evitar uma grande dor.

A questão em tudo isso é que ser um amante da interpretação e enxergar em tudo um enigma a ser desvendado cansa. Desgasta. Passamos a não acreditar em mais nada e em mais ninguém e perdemos a graça existente na credulidade, na ingenuidade – o oásis do não-saber.  Às vezes vamos acabar nos dando mal por acreditar em alguém, é verdade. Por outro lado, vamos ganhar muito mais em intimidade, cumplicidade, confiança e alegria. Nos libertamos e libertamos os outros do fardo impossível da perfeição. É relaxar e deixar a cargo de Deus o que só Ele consegue fazer: conhecer a fundo os porquês do coração humano.

 

Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros!

Fernando Pessoa no Livro do Desassossego

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.