As Armadilhas do Coração – Parte 1: O tédio e a murmuração

Sobre o tédio nosso de cada dia

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

O tic-tac do relógio é ensurdecedor. O tempo parece não passar. Tudo está absolutamente igual, imóvel. Nenhuma previsão de mudança. Nenhum indício, por menor que seja, de qualquer alteração em minha vida. Nenhuma esperança.

É o tédio; de novo. Me atormentando e dizendo que a vida é sem graça, que não passa. Que não vale a pena e me levando a murmurar; de novo. E a duvidar; de novo.

Vazio, tudo é um grande vazio!
Nada vale a pena! Nada faz sentido!

O que resta de uma vida inteira de trabalho sofrido?

Uma geração passa e outra geração chega,
mas nada muda – é sempre a mesma coisa.

O sol nasce e se põe,
um dia após o outro – é sempre igual.

O vento sopra para o sul e depois para o norte.
Gira e dá muitas voltas
sopra aqui e acolá – e vai seguindo o mesmo rumo.

Todos os rios vão para o vasto oceano,
mas o oceano nunca transborda.

Os rios correm para o mar
e logo depois voltam a fazer o mesmo percurso.

É um tédio só! É uma mesmice sem tamanho!
Nada tem sentido!

Será que os olhos não cansam de ver
nem os ouvidos de ouvir?

O que foi será novamente,
o que aconteceu acontecerá de novo.

Não há nada novo neste mundo.
Ano após ano, é sempre a mesma coisa.

Se alguém grita: “Ei, isso é novo!”,
Não se anime – é a mesma velha história!

Ninguém se lembra do que aconteceu ontem.
E as coisas que vão acontecer amanhã?

Ninguém se lembrará delas também.
Você acha que será lembrado? Pode esquecer!

Eclesiastes 1.2–11 – A Mensagem

Salomão1 também enfrentou esse enorme e profundo tédio. Depois de uma vida inteira, de luxos, riquezas e vontades satisfeitas, olhou para trás e se questionou: – O que nessa vida vale a pena? O que de fato faz, e traz, sentido?

O tédio, então, me toma por completa. E inevitavelmente, a seguir, começo a reclamar, e muito. Murmuro constantemente. Em pensamentos audíveis me pergunto: Por que não tenho aquilo? Por que só acontece, ou não acontece, comigo? Por que não eu? Por que só eu? Por quês e mais por quês invadem meu ser. Roubam a minha alegria e me enchem de dúvidas. Posteriormente, e instintivamente, me encho de certezas: Ah, com toda a certeza, se eu tivesse aquilo eu estaria melhor! Se isso não estivesse acontecendo comigo eu estaria, e seria, diferente! Se eu pudesse fazer tal coisa, aí sim, eu estaria mais feliz!

“Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!”

O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina. O povo saía recolhendo o maná nas redondezas e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva. Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná.

Números 11.4–9 – A Mensagem

Acho que deixei de apreciar e agradecer o maná me ofertado diariamente. E o resultado foi uma fome insaciável. A gula me consumiu e a constante reclamação me cegou.

O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor dará carne a vocês, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que saia carne pelo nariz de vocês e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?’ ”

Números 11.18–20 – A Mensagem

 

Diferentemente dos animais, que parecem bem satisfeitos em ser apenas eles mesmos, nós, humanos, estamos sempre procurando meios de ser mais do que somos ou mesmo ser outra pessoa. Exploramos o país por instigação, examinamos nossa alma em busca de sentido, compramos o mundo pensando no prazer. Tentamos de tudo. As áreas comuns de esforço são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento.

Nossas incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nada parece nos satisfazer. Por isso, intensificamos nossos esforços, e quanto mais nos dedicamos a algo, menos extraímos dele. Algumas pessoas acordam cedo e empreendem em uma jornada tediosa e repetitiva. Outros parecem nunca aprender e se debatem por aí a vida inteira, tornando-se cada vez menos humanos com o passar dos anos, até que, ao morrer, não resta humanidade o bastante para compor um cadáver.

Eclesiastes, na verdade, não diz muito a cerca de Deus. (…) Sua tarefa é expor a total incapacidade humana de encontrar o sentido e a completude da vida por nós mesmos.

É nossa propensão desistir de nós mesmos, tentando ser humanos por meio de projetos e desejos próprios.

Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes na Bíblia A Mensagem

Eu não quero mais levar uma vida inteira sem sentido, rotineira e sem graça. Não quero chegar ao final da vida e perceber que eu poderia fazer, e ser, diferente.

Eu quero me livrar de todas minhas pseudo-garantias, e agora! Quero me alimentar do suficiente – que é dado por Deus, e em uma dose especial, que só Ele sabe medir para mim.

Quero me lavar de toda e qualquer rebeldia e ideia idólatra. Quero, e desejo, me purificar com a água que é a Fonte da Vida. Que sacia o coração, renova a alma, limpa o entendimento e regenera minha força [Marcos 12.30].

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidãohttp://bit.ly/2uxdQ4H

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NOTAS:
1Sem dizer abertamente, o narrador dá a entender que é o rei Salomão. Fabulosamente rico, internacionalmente famoso, com centenas de mulheres em seu harém, ele agora é um senhor de idade que percebe como foi pequeno seu “sucesso”, quando vê a morte se aproximar. Após o imenso trabalho que teve para construir seu império, teria de deixá-lo para seu filho Roboão, um homem moralmente fraco. As dez tribos do norte de Israel não escondiam o fato de que não confiavam em Roboão. Não precisavam da inteligência de Salomão para ver que seu país logo entraria em colapso (e isso de fato ocorreu). [Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes]

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minúscula investigação sobre a felicidade

cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”

Não é de hoje, que o tema felicidade, permeia nossas vidas e a buscamos com dedicação.

Por vezes, essa busca torna-se obsessiva, e tal intensidade não nos é natural – analisando sob a perspectiva de quem deveríamos ser e não de quem nos tornamos, é claro.

Pós-queda, o vazio instalou-se em nós de forma intensa, devido a uma ruptura profunda, e vivemos tentando preencher esse vazio com coisas, pessoas, conquistas, conhecimentos, status, dinheiro, sexo, poder, etc – e a lista é infinita

a felicidade ontem

Com o surgimento da filosofia, perguntas sobre a vida, o universo ou o cotidiano, começaram a ser discutidas e estudadas “formalmente”.

Sócrates, por exemplo, acreditou que felicidade era levar uma vida virtuosa. Ou seja, ele não estava interessado em ganhar dinheiro, não procurava respostas ou explicações definitivas mas investigava a base dos conceitos como bom, ruim e justo. Ele acreditava que a virtude (areté em grego, que na época implicava excelência e concretização) era o ‘mais valioso dos bens’.1 Para ele, havia apenas uma coisa boa: conhecimento; e uma coisa má: ignorância’. O conhecimento, para ele, era indissociável da moralidade. E era a ‘única coisa boa’.2

Epicuro, acreditava que o prazer era o fim e o princípio de uma vida feliz, objetivo em direção ao qual todo o indivíduo deveria orientar a própria ação.3 E para isso, seria preciso distinguir entre prazer efêmero (felicidade, alegria) e prazer estável, definido pela negativa, como ausência de dor. Dado que somente o segundo tipo de prazer deveria ser perseguido pelo sábio.4

a felicidade hoje

Analisando tantas outras pessoas, e suas respectivas ideias, percebo que com o passar dos anos, muita coisa na verdade não mudou. Evoluímos científicamente, criamos roupas que não precisam passar, bebemos café gourmet, estamos conectados 24h por dia – 365 dias por ano, moramos em prédios que parecem mini-cidades, pagamos nossas contas on-line, mas continuamos sedentos, com as mesmas questões dentro de nós.

Nossa época, também conhecida como pós-modernidade, ou hipermodernidade, vive a máxima: compre o máximo que puder [eu mereço, eu trabalhei muito para isso] e descarte tão rápido que puder [moda é tendência e tendência é passageira]. Compramos roupas e descartamos pessoas. Trabalhamos para viver e vivemos para trabalhar. Nos sentimos solitários mas não dedicamos tempo em relacionamentos. Compramos o tão sonhado apartamento, do tamanho de uma caixa de fósforos: mas com duas vagas de garagem! Aos 30 anos, temos mestrado, doutorado, pós-doutorado mas somos analfabetos emocionalmente. Vivemos uma verdadeira corrida contra o tempo mas sem saber o por que [ou por quem] estamos correndo.

a felicidade verdadeira

No livro de Eclesiastes, Salomão5 descreve de forma brilhante, todo o processo de sua descoberta sobre o sentido da vida e, por que não dizer, sua busca pela verdadeira felicidade.

Logo no início, ele derrama em nós, leitores, um enorme balde de água fria: Vazio, tudo é um grande vazio! Nada vale a pena! Nada faz sentido!6 Enfatiza também, por diversas vezes, que tudo não passa de correr atrás do vento que tudo é vaidade de vaidades. E, por maior que seja seu desespero, toda essa busca e questionamento é tão autêntico e tão, por assim dizer, humano.

cena do filme "Advogado do Diabo"
cena do filme “Advogado do Diabo”

“Morrer antes de aprender a viver: esse sim é um pesadelo que se pode ter ao meio-dia, debaixo do sol. Não é preciso esperar a noite chegar, para então dormir e ter pesadelos. Não é preciso nada além de estar acordado e consciente de si mesmo. Geralmente, pensar na vida, no que tem ou não tem valor, porque isso ou qual a razão daquilo, implica uma dor quase insuportável.

Quem, em sã consciência, poderia dizer que realizou tudo o que queria na vida? Quem viajou para todos os lugares que queria, ou desfrutou do quanto quis do bom e do melhor? Quem ajuntou tanta riqueza que poderia sustentar três ou quatro gerações? Quem fez coisas grandiosas, belas e úteis? Quem adquiriu conhecimento sobre tudo o que há para ser conhecido? “Ah, eu não, nem cheguei perto”, provavelmente você e eu diríamos. Diríamos também: “Se eu tivesse feito tudo isso, e experimentado toda essas coisas, poderia morrer realizado, pois minha vida teria sentido”. Mas lembre-se de que é Salomão quem está fazendo todos esses questionamentos, e ele realizou todas essas coisas. Ele aprendeu a sabedoria e adquiriu conhecimento, construiu obras grandes e vistosas, foi o rei mais sábio e mais rico que já existiu, e desfrutou intensamente todos os prazeres. Mas ao final ainda tinha na mente a mesma pergunta: que é a vida, senão uma sucessão de fatos sem sentido?”

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz
Introdução: páginas 23-24 (e-book)

A cada capítulo, vamos junto com Salomão, fazendo uma investigação minuciosa sobre o verdadeiro bem-viver. Experimentando e testando hipóteses. Frustando-se e voltando a questionar-se novamente, e novamente, e novamente.

É… Talvez viver seja mais ou menos isso: nos questionar até o cansaço vir à tona, até perdermos todas as nossas forças, para então, nos voltarmos Àquele que É a resposta.

E o mais legal, é que o livro não termina com uma descoberta mirabolante, (…) uma declaração emblemática do tipo “o sentido da vida é…”. Não há resposta para o dilema a respeito do sentido da vida. A sugestão é que, em vez de se desgastar na busca da elucidação do enigma do sentido da vida, o melhor mesmo é correr atrás da própria vida. A filosofia se presta a ajudar a viver, mas viver é muito mais do que filosofar. Mais do que saber, é preciso viver. O que realmente interessa é a satisfação com a vida, a gratidão pelo privilégio de viver e a vontade de continuar vivendo. Saber coisas sobre a vida e não viver bem: isso sim é algo que não faz sentido.7

 

A PALAVRA FINAL
Aquele que está em busca também possuía sabedoria e transmitiu conhecimento a outros. Ele pesou, examinou e organizou muitos provérbios. Ele fez o melhor que pôde para encontrar as palavras certas e escrever a verdade como ela é.

As palavras dos sábios estimulam a viver bem.
São como pregos bem martelados que mantêm a vida unida.
São dadas por Deus, o único Pastor.

Mas, a respeito de qualquer outra coisa, meu amigo vá com calma. Não há limite para se produzir livros, e estudar demais deixa qualquer um esgotado. Para finalizar, a conclusão é a seguinte:

Tema a Deus.
E faça tudo que ele mandar. 

É isso. No devido tempo, Deus deixará às claras tudo o que fazemos e fará o julgamento. E ele conhece até mesmo as nossas intenções mais secretas, sejam elas boas ou más.

Eclesiastes 12.9-14 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea

 

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NOTAS:

1 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
2 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
3 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
4 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
5 A autoria do livro ser de Salomão é questionado por muitas pessoas
6 Eclesiastes 1.2 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea
7 Trecho extraído de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz, página 324 (e-book)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.