Quando alguém destrói algo em nós, de quem é a culpa?

É sempre um desafio a gente olhar para dentro de si para se conhecer – exercício fundamental para compreender de onde vêm nossas manias chatas, os traumas arrepiantes, as carências e os vícios grudentos  para, então, a partir do que encontramos em nós, tentarmos nos lapidar e nos tornar seres mais “convivíveis”. Nesse mergulho, encontramos de tudo, entulho nosso e (muito) entulho jogado por outros, nas vivências mais diversas do processo penoso que é o de crescer e amadurecer. Uma dessas vivências, geradora de um grande dano na parte que corresponde à minha criatividade, tem voltado à minha mente com frequência nos últimos tempos.

Era um colégio de elite esse que eu estudei como bolsista praticamente a minha vida inteira. Nele existiam dois grandes ateliês de arte. Um deles, destinado às aulas de artes plásticas, tinha mesas grandes e altas, com vãos largos embaixo, onde se acomodavam perfeitamente as nossas folhas de papel A3. Prateleiras cheias de materiais diferentes –  coloridos, espessos, lisos, rugosos, translúcidos, opacos -, grandes potes com pincéis de espessuras variadas, blocos de argila, papéis em rolo, em dobraduras, em pilhas, de todos os formatos e tipos. Estiletes, réguas, espátulas, palitos e todas as ferramentas possíveis repousavam ali, nesse lindo ateliê. O outro ateliê servia às nossas aulas de artes aplicadas e ali lidávamos com serras, lixas, vernizes, telas, madeiras e outros materiais mais robustos para produzirmos utilidades. Tudo isso compunha uma estrutura incrível e invejável.

Mas foram nesses espaços equipados e incríveis que eu vivi algumas das crises mais agudas de nervosismo da minha formação escolar.  Porque foi ali que eu tremia de medo da professora, que logo me dava uma nota vermelha pelo meu traço inábil. Não havia nada que me fizesse crescer naquele espaço; pelo contrário, a cada ano eu me sentia menor e menor. Técnica de vitral? Eu rasgava o papel. Escultura em argila? A cabeça do padre que eu esculpi insistia em despencar do corpo. Pontilismo? Os meus pontos distavam tanto um do outro, que quando um gritava o outro não conseguia ouvir. E, assim, de nota baixa em nota baixa e após muitos comentários negativos da minha professora quanto ao meu trabalho, fui me convencendo de que eu era um monstro do lago Ness das artes visuais – um desastre sem esperança.

Como vocês podem imaginar, minha formação como profissional passou longe das tesouras e das tintas. Tornei-me educadora.  Trabalho hoje numa escola, em que o foco não é a perfeição ou a técnica , mas as habilidades de um estudante. Ele não entende a relação do passado com o presente? Vamos ajudá-lo a entender, contando sobre a origem da família dele… O raciocínio está lento? Fazemos uma feira de trocas para despertá-lo… A criatividade anda meio travada? Fala com a Luciana, porque ela é especialista em falta de criatividade. Hahaha! Bom, piadinha infame à parte, foi nessa escola que tive um grande confronto: eu e a criatividade, cara a cara, depois de todos esses anos. Porque se a criatividade é uma habilidade – e, de fato, é e é uma das mais cruciais para a vida – como eu a estimularia nos meus estudantes, sendo que eu mesma tenho medo dela e a evito a todo custo?? E, assim, tive que destrancar aquele quarto escuro dentro de mim e tatear pelos cantos até encontrar a criatividade ali, mirradinha e desnutrida. Tive que olhar para ela e convencê-la de que tinha potencial para renascer de mim e em mim. Que difícil! E como alguém que tenta escrever com a mão não-dominante, eu, a de traço inábil, me arrisquei em algumas atividades criativas. Até um grupo de escrita criativa eu estou orientando! (pois é, não foi só nas artes visuais que fui lesada)

Guardo uma mágoa profunda dessa professora de artes, confesso. Ela tinha nas mãos o material mais precioso que um artista pode querer – nós, estudantes novinhos e maleáveis, de mente aberta e fresquinha – e ela escolheu alguns (eu inclusive) para deixar esturricando no forno castrador de imaginações. Mas aí volto à ideia do olhar para dentro, que escrevi no primeiro parágrafo. Ao localizarmos episódios como esse no nosso passado, o que fazemos em seguida? Nos entregamos? Nos tornamos eternas vítimas? Vamos reclamar e reclamar? Um primo meu uma vez me ensinou algo que ele aprendeu depois de muita terapia: a partir do momento em que identificamos os “vilões” de nossos traumas, eles automaticamente deixam de ser os vilões e nós as vítimas, porque o que fazemos a partir dessa descoberta passa a ser escolha nossa, responsabilidade nossa. Os vilões nada mais têm a ver com isso.

Ainda tenho uma relação delicada com a criatividade. Nós nos entendemos só com extremo esforço e bem de vez em quando. Mas é dela que mais preciso agora, justamente para encontrar caminhos que me afastem da autopiedade e do vitimismo por carregar na cabeça um mundinho limitado. Li num livro sobre uma das características do Espírito Santo, que era o de ser infinitamente criativo. Respiro aliviada por saber que eu mesma (e mais ninguém por mim), agraciada pelo Espírito Santo, posso perfeitamente encontrar o caminho da cura.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Filmes & a temática feminina

Aproveitando que o final de semana está aí, que tal escolher um desses filmes (ou todos eles! por que não?!) para assistir?

Tenho certeza que será mais do que um entretenimento; será uma ótima reflexão.

Girl Rising

Richard Robbins, 2013 

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=81x6mYNxqzU

Não tem como assistir esse filme e não ser impactada… Em alguns momentos você se indignará, ficará pensativa, em estupefação, porém em outros (talvez na maior parte do filme), sentirá um enorme constrangimento, e daqueles que só é sentido quando comparamos nossas condições, estruturas e oportunidades com essas e tantas outras meninas ao redor do mundo que não possuem sequer 1/3 do que chamamos aqui no Ocidente, ou como nossa classe média abastada define, por direitos básicos.

O filme conta a história de 9 meninas de países diversos. Tais histórias foram recontadas por escritores, mas para trazer a essência de suas experiências, de forma bela, porém real. E entre uma história e outra o documentário traz dados interessantíssimos como, por exemplo:

“Aqui está um fato perturbador. A causa número um de morte para garotas entre 15 e 19? Não é Aids. Não é fome. Não é guerra. É parto. Quando as meninas se casam jovens, a educação termina. E os ciclos anteriores continuam. Ciclos de pobreza, ciclos de violência, ciclos de ignorância (Colocar todas as crianças na escola evitaria 700 mil casos de HIV por ano). Mas uma garota que vai estudar inicia outro ciclo (Meninas que estudam 8 anos são 4 vezes menos propensas a se casar jovem). Porque ela se manterá mais saudável. Ela vai se casar mais tarde. Ela terá filhos mais saudáveis (Um filho nascido de uma mãe alfabetizada tem 50% mais chance de passar dos 5 anos). E acima de tudo, ela terá filhos estudados (Mães estudadas são duas vezes mais propensas a mandar seus filhos para à escola). E não são só as mães. Os pais também devem investir. Assim, suas filhas podem sonhar.”

E eu se fosse você, começaria por ele ;-)


Miss Representation

Jennifer Siebel Newsom, 2011

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://vimeo.com/72015293

Esse documentário aborda a falta de representatividade das mulheres na grande mídia. Seja a representatividade atrás das telas, como ‘cabeças pensantes’, criadoras e geradoras de conteúdo, seja reproduzindo e representando o papel da mulher sob uma ótica distorcida, comercializada e machista.

“Mulheres detêm apenas 3% de cargos de poder em telecomunicações, entretenimento, publicações e propaganda. Isso significa que 97% de tudo o que você ‘sabe’ sobre si mesma, sobre seu país e o mundo vêm de uma perspectiva masculina. E não significa que isto esteja errado. Significa simplesmente que em uma democracia, que nós dizemos ser igualitária e com a participação de todos mais da metade da população não está participando” – Carol Jenkins (Presidente Women’s Media Center)


Pray The Devil Back To Hell

Gini Reticker, 2008

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=bi3nvH_Po5E

O cenário deste documentário é a Libéria, país que viveu uma sangrenta guerra civil durante o regime de Charles Taylor, que em 2003 foi forçado a exilar-se na Nigéria.

E como parte dessa revolução e fim da guerra, várias mulheres se unem, deixando de lado diferenças religiosas, para protestarem pacificamente pela paz. A Libéria é abençoada por ter essas mulheres que ajudaram a definir o destino de seu país sem derramar uma gota de sangue, mas que com lágrimas, orações e súplicas trouxeram um futuro melhor à sua nação.


Persépolis

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2008

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jUXo4zw0vXA

Persépolis é uma animação francesa, baseada na história em quadrinhos homônimo e autobiográfico da Marjane Satrapi.

A animação começa antes da Revolução Iraniana, quando Marjane tinha 8 anos, mostrando como ela era igual a qualquer outra menina de sua idade, mas conforme o tempo vai passando, a nova República Islâmica toma o poder do Irã, seu país de origem, e começa a controlar como as pessoas (as mulheres em especial) deveriam se vestir e se portar, obrigando-a a expatriar-se.

O filme é bem rico também, porque ao narrar toda a história da personagem, traz as angústias, os medos, as frustrações e traumas que todo o conflito e a ruptura acabaram causando em sua vida.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.