Por que voltei a tingir meus cabelos brancos

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Sete meses sem tingir os cabelos

 

Esta semana vou voltar a tingir o meu cabelo. Depois de sete meses deixando os fios brancos nascerem e aparecerem, desisti de continuar a ver minha cabeça embranquecer aos poucos. Quando comuniquei minha decisão para o meu marido, ele perguntou: e o que você vai dizer para as leitoras e os leitores da série ‘Fio de Prata’ do blog? Respondi que eu diria a verdade:

  1. Vou tingir os cabelos, porque a transição de um cabelo com cor para um cabelo branco tem implicações dolorosas de encarar

Isso é fato. Ocupo-me mais pensando na minha vida avançando no tempo quando vejo o branco dos meus fios do que quando eles estão disfarçados na tintura. Penso, me comparo com pessoas mais novas do que eu, lembro-me da morte. Não acho que temos que nos sentir lindas, jovens, cheirosas e felizes o tempo todo – mas me sentir sempre rumo ao envelhecimento também não tem me feito bem.

  1. Vou tingir os cabelos, porque necessito da aprovação de outras pessoas

Não posso negar que um dos fatores, que me deram força para não tingir o cabelo branco nesse tempo, é que deixá-los ao natural tem se tornado uma tendência cada vez mais forte entre as mulheres. Olha só o que eu disse: tendência. Eita palavrinha tentadora! Quando um comportamento vira tendência, nos sentimos mais confortáveis para adotá-lo, não? Afinal, ele denota mais aceitação entre um maior número de pessoas agora do que antes. Assim, ao olhar para dentro de mim e perceber que ainda busco aceitação e aprovação, perguntei a mim mesma: por que eu deveria continuar a agir como se não precisasse dessas coisas? Afinal, a mensagem que eu buscava passar para os outros ao deixar de tingir os meus fios brancos é que eu não precisava agradar ninguém mais, além de mim mesma. O triste é que nem a mim mesma eu estava agradando.

  1. Vou tingir os cabelos, porque minha atitude está envelhecendo

Muita gente com cabelos brancos por aí é super bem resolvida, jovem, moderna, linda. Nunca me esqueço da inveja que senti de uma mulher no cinema, com seus 45 anos mais ou menos, cheia de presença e cabelos brancos assumidíssimos. E uma asiática então, em quem fiquei reparando uma vez num café coreano? Ela tinha cabelos bem longos, lisos e cinzentos. Parecia um ser élfico vindo direto dos livros do Tolkien. Exótica e deslumbrante.

Para mim, porém, os cabelos brancos têm exercido um efeito contrário: em vez de me empoderarem (detesto esta palavra, mas não achei outra melhor), me atrofiaram. Vi que comecei a me esconder das pessoas, a evitar lugares em que temos que nos arrumar muito, a evitar aparecer para conhecidos que não encontro há muito tempo. Minha autoconfiança foi sendo minada e eu, que já moro no meio do mato, fui me isolando cada vez mais, com vergonha de assumir que minha juventude está indo embora. Fui desenvolvendo uma “atitude envelhecida”, que vai muito além de um simples punhado de cabelos brancos na cabeça, é verdade, mas que acabou sendo desencadeada por eles.

….

Ao mesmo tempo que pondero sobre tudo isso, preciso admitir quão profundo fui nas reflexões que fiz durante esses meses, em que deixei meus cabelos brancos aparecerem. Uma das conclusões a que cheguei é quão falho, superficial e ridículo é o estereótipo de beleza que nos move. Pior ainda é me ver tão presa a ele. Aí, então, vejo Deus, escolhendo aqueles que escapam totalmente aos estereótipos de beleza das épocas e os honrando lindamente (sendo Davi o mais famoso exemplo, resumido no livro bíblico de 1 Samuel, capítulo 16, verso 7) e me encanto.

Se quero me libertar dos estereótipos um dia? Quero muito! Contanto que isso não signifique autotortura. Não quero forçar uma situação, um estado de espírito, um desprendimento, só porque pareço cool assim. É hipocrisia. Tenho estado aberta para Deus trabalhar em mim a aceitação da passagem dos anos e da juventude, mas que Ele faça isso à maneira Dele, à medida em que vai me mostrando o Ser fascinante que é. Que nesse caminho para o envelhecimento, Deus me dê a mão Dele e, gentil como só Ele sabe ser, vá me conduzindo com Seu carinho e tranquilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Os meus cabelos brancos e a vulnerabilidade

Encontrei uma amiga numa conferência no último sábado e, depois de contar para ela algumas questões particulares que ando tendo com a escrita e a publicação dos meus textos aqui no blog, ela me perguntou: mas e os cabelos brancos você tingiu? (como estávamos num lugar escuro, não dava para enxergar direito o meu cabelo).

Pois é, faz tempo que não venho aqui falar dos meus cabelos brancos. Mas já adianto que eles continuam aqui e estão cada vez mais brancos. Confesso, porém, que tenho me sentido mais e mais tentada a tingi-los. Não só porque eles estão aparecendo muito, mas também porque sempre amei brincar com o meu cabelo, encontrando para ele cortes e cores diferentes. Por enquanto, porém, sigo firme no propósito de assumi-lo como ele está.

 

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Como ele está

Mas o que os meus cabelos brancos têm me feito pensar é sobre vulnerabilidade, assunto de grande interesse da pesquisadora norte-americana Brené Brown (a Carol já escreveu um post ótimo sobre o assunto, citando a Brené Brown, inclusive). Basicamente, a teoria dela considera a vulnerabilidade como uma força disponível aos seres humanos, para construir entre eles uma conexão verdadeira. Ou seja, quanto mais suas vulnerabilidades (aqui você pode substituir o termo por fraquezas) se tornam acessíveis, mais as pessoas irão se identificar com você e mais irão querer se aproximar de você, porque se sentirão acolhidas, uma vez que elas têm as mesmas vulnerabilidades ou vulnerabilidades semelhantes às suas. Como consequência, essa ligação entre as pessoas se torna um canal de cura.

Confesso que gosto muito dessa ideia, mesmo porque sinto falta de conexões verdadeiras com as pessoas. Me farto de fórmulas prontas, de máscaras, de pessoas lindas e cheirosas, que não têm defeito algum ou que estão sempre na fase “pós-defeito”, ou seja, aquilo que elas tinham de vulnerável já foi superado sempre quando você conversa com elas.

Ao mesmo tempo, fico me perguntando se entregar o ouro assim, a qualquer pessoa, de fato me fará livre. Meu medo se justifica justamente por minha vulnerabilidade mais superficial e visível: o branco dos meus cabelos. Outro dia eu estava comemorando o aniversário do meu filho com algumas pessoas e ouvi uma delas se referindo a uma outra, que nem estava lá, como “coitada”, justamente porque a pessoa estava começando a ter cabelos brancos. Fiquei espantada com o comentário e me indaguei se elas ignoravam por completo a minha presença ali – eu com os meus cabelos brancos – ou se falaram aquilo para que eu me tocasse e quem sabe resolvesse tingir os meus cabelos, me tornando, assim, menos coitada.

De uma forma ou de outra, concluí que as pessoas não estão assim tão prontas para acolher as vulnerabilidades umas das outras.  Ao assumir a vulnerabilidade da minha finitude por meio dos meus cabelos, eu automaticamente assinei a declaração de que sou uma perdedora para essas pessoas. Estou admitindo, para quem assim acredita, que me entreguei ao tempo, que estou me deixando envelhecer e ser ultrapassada por pessoas mais novas do que eu. Os cabelos brancos se tornam, portanto, uma bandeira pregada no alto da minha cabeça, anunciando para quem quiser a vulnerabilidade de todos nós, a fraqueza que ninguém quer assumir, o tabu dos tabus: eu estou mais perto da morte do que muitos outros.

Só por esse meu simples caso dos cabelos brancos, já dá para perceber a intolerância das pessoas frente às vulnerabilidades umas das outras. Mas e quando a vulnerabilidade de alguém não é tão simples assim? Como acolhê-la? É aí que eu acho que a teoria da Brené Brown pode ser insuficiente. Se não estivermos cercados de pessoas realmente interessadas em nosso bem, que se preocupem com o destino de nossas almas, que nos amem profundamente, abrir nossos quartos escuros pode ser o nosso fim, infelizmente. Expor para quem quiser ouvir que, muitas vezes, somos manipuladoras, que agimos de forma discriminatória com pessoas com determinadas características, que somos emocionalmente infiéis aos nossos cônjuges ou que somos viciadas em mentiras, aí o papo é outro. O público geral irá receber essas vulnerabilidades de braços abertos, sim, mas não para as acolher, mas para julgá-las, condená-las ou passá-las adiante em forma de gordas fofocas.

Até o momento, não tenho me importado de ser rotulada como coitada por ostentar uma cabeleira reluzente, mas não sei até quando. Também já fui mais fundo, deixando que quartos escuros em mim fossem escancarados ao público, o que me custou parte da minha saúde – por esses caminhos de superexposição não trilho mais. Onde encontrar, portanto, um refúgio para a nossa alma, onde ela descanse verdadeiramente, sem os sustos e a canseira de manter as aparências? Falo a partir da minha experiência: o meu descanso tem vindo do Senhor. Conto para Ele quais são as minhas vulnerabilidades mais recônditas e como não dou conta delas e, então, leio: Ele [o Senhor] te cobre com as suas penas e debaixo das suas asas encontras refúgio (Salmo 91.4). Ele me perdoa e me oferece a força Dele. Sigo em frente, pronta para encarar – e entregar a Ele – a próxima vulnerabilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

Tudo começa na raiz

Eu: Vou parar de tingir o cabelo e assumir os meus cabelos brancos. Quero liberdade.
Minha mãe:  E eu quero a liberdade de continuar tingindo os meus.

A resposta brilhante da minha mãe era o desabafo de alguém que teve sua aparência controlada durante anos por terceiros, que baseavam seus argumentos em costumes religiosos. Curiosamente, a minha sentença também tinha a ver com o controle de terceiros, que apenas substituíram o argumento – a questão deixou de ser a aceitação de Deus para ser a aceitação dos outros, cuja mensagem implícita era: cabelo branco é sinal de velhice e mulher velha não é desejável. E, no momento dessa conversa com a minha mãe, eu já estava cansada de me submeter a essa ideia. Para mim, o preço (literal e figurado) de tingir o meu cabelo estava ficando alto demais. O cheiro das químicas, que pareciam derreter o meu couro cabeludo, os tufos de fios que se iam pelo ralo ao final do enxague e que depois ficavam visivelmente ausentes na minha cabeça… e eu, que sempre amei o meu cabelo e o modo como ele combina comigo, comecei a vê-lo minguado, em nome de uma juventude esticada.

Porém não foi a partir dessa conversa que, de fato, parei de tingir o meu cabelo. Na verdade, esse dia foi o marco do início de um processo de muitas etapas. Eu primeiro teria que compreender profundamente de que liberdade eu estava falando. Do que eu me veria livre? Apenas da tinta que esconde os meus brancos? Que outros benefícios eu colheria de uma atitude que, a princípio, parece tão banal, mas que poderia refletir diretamente no modo como as pessoas me tratam e me veem? Descobri, então, algumas liberdades que essa decisão pode trazer consigo:

1. Liberdade da necessidade de aprovação

A primeira verdade sobre a qual eu precisaria ponderar é que, ao parar de tingir o cabelo, eu estaria à mercê da reprovação (ou, no mais brando dos casos, da curiosidade) de outros – de quaisquer outros, desde a balconista da padaria até pessoas que importam para mim, como o meu pai, por exemplo. Aliás, muito da minha necessidade de aprovação vem da relação que eu tive com ele na infância e na adolescência, em que sempre tentei provar que eu era digna de seu amor. Assumir os brancos seria provocar nessas pessoas todas uma quebra de harmonia no que estavam acostumadas a ver. Se quisessem andar mais milhas comigo, teriam que cavar motivos além dos meus cabelos reluzentes ou, então, mudar sua própria relação com o branco e vê-lo com a mesma tranquilidade que eu começaria a vê-lo.

2. Liberdade para assumir quem eu sou

O que eu precisaria também para, de fato, assumir meus cabelos brancos era descobrir minha identidade. Tenho 35 anos, ou seja, sou alguém não tão velha, mas também não tão jovem. Teoricamente, tenho o tanto de futuro pela frente quanto tenho de passado, talvez um pouco mais. Assim, os meus cabelos brancos denotam que já passei pela angústia de romper um casamento e assumir as consequências, de quase perder um irmão por tentativa de suicídio, de ver todas as minhas economias indo pelo ralo ao investir em um negócio que faliu, de ter que recomeçar a vida profissional do zero diversas vezes.

Ao mesmo tempo, os meus fios brancos contam também que me casei de novo há alguns anos, que tenho um filho lindo de quase três anos, que possuo duas graduações e um mestrado e que tenho um avô de quase 100 anos.

É uma história bonita demais para ficar escondida debaixo de tantas camadas de tinta.

3. Liberdade para trocar a ordem das prioridades

Eu e os meus 35 anos (36 em outubro, aliás) também estamos revendo nossas prioridades. As palavras de Anne M. Lindbergh, em seu emocionante livro Presente do Mar, parecem compreender perfeitamente o que atualmente busco: certos ambientes, certas regras de conduta e certos estilos de vida contribuem mais para uma harmonia interna e externa que outros. Harmonia interna e externa … é isso! Ser por fora o que tenho me tornado por dentro. E por dentro ando mais serena, menos ansiosa, mais reflexiva, com certa sede por sabedoria. Lembro-me da imagem (estereotipada, sim, mas ainda terna) dos cabelos brancos associados à experiência, à sabedoria, à preocupação com questões mais existenciais e menos superficiais. Quero esses mergulhos.

Sexta-feira passada vi em um restaurante uma menina com seus 20 e poucos anos toda produzida, com roupas que correspondiam exatamente às tendências e ela, caminhando toda consciente de si e de como chamava atenção dos outros (inclusive a minha). Parecia um retrato de mim mesma quando jovem. Eu era tão consciente do trabalho que era me compor antes de sair, que todo o investimento tinha que valer a pena: eu precisava ser notada. Ao olhar para aquela moça tão arrumada, senti um alívio por possuir um novo poder: a tranquilidade de não precisar chamar a atenção o tempo todo (só de vez em quando, rs).

4. Liberdade para deixar o ego de lado

Neste ano, li livros de duas mulheres, cujo testemunho de fé me impactaram muito. Uma delas é a Madame Guyon, francesa mística do século 17, a outra é Basilea Schlink, alemã fundadora da Irmandade de Maria, que viveu no século 20. As histórias de conversão dessas duas são lindas, tocantes e transformadoras de perspectiva, mas uma das coisas que ambas trouxeram e que, num primeiro momento, mais me chocou do que me tocou foi a luta delas contra sua autoestima. É isso mesmo: c o n t r a  a sua autoestima. Fiquei horrorizada! Ainda mais eu, que nunca precisei ir contra a minha autoestima, porque sempre achei que não tivesse muita mesmo, rs. Mas eu estava errada. Descobri, por meio delas, que o meu amor próprio não só existe, como também se sobrepõe a tudo que me cerca. Eu me analisei direitinho e vi que o ego estava lá, todo cheio de mim mesma, flutuando por aí…. bastava olhar para o tamanho do meu egoísmo e do meu orgulho para comprovar as suspeitas. Entendi tudo. E vou contar mais uma coisa para vocês: essas duas mulheres me convidaram a aprofundar o relacionamento com um homem incrível, lindo, perfeito, capaz de satisfazer cada uma das minhas mil carências e por quem eu acabei me apaixonando perdidamente, Jesus. Pois é. Jesus pode deixar você bem satisfeita mesmo. Ele não se atrasa pra te encontrar, porque está sempre perto de você na oração; ele te respeita, te aceita como é e até te dá uma identidade, caso você esteja na dúvida –  a de filha amada de Deus; ele não te troca por outra, porque deu a própria vida por amor a você. Assim, amar a mim mesma acima de tudo é achar que mereço algo, quando tudo já me foi dado de graça, por amor puro e incondicional. É Graça e eu só dou graças, me aceitando como sou, inclusive com cabelos brancos.

Depois de todas essas constatações e questionamentos, finalmente decidi parar de tingir o cabelo. E como essa decisão tem me proporcionado temas dos mais variados para ponderar, achei que poderia ser rico compartilhar esse processo todo com vocês aqui no blog. Daí nasceu a ideia de lançar a série Fio de Prata.

O termo faz referência ao texto bíblico de Eclesiastes 12.6, em que a vida é referida como tal – um fio de prata, frágil –, além da associação mais óbvia que fiz com o processo dos fios da minha cabeça se tornando prateados. Aliás, essa é mais uma contribuição oferecida pelos novos cabelos brancos que terei: a lembrança constante da fragilidade da vida, logo, vivenciar todas as suas fases, inclusive a do amadurecimento e envelhecimento, é uma dádiva.

Não sei por quanto tempo vou postar aqui fotos e textos sobre o que esse novo momento da minha vida trará. Mas não temos pressa mesmo, afinal, cabelos demoram para crescer. Meu desejo é que você se sinta inspirada em nossos encontros por aqui. Comente, discorde, reflita e se abra para uma jornada que certamente convidará você também a se olhar no espelho com mais sinceridade e aceitação.

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Estou há um mês apenas sem usar tintura, ou seja, os brancos aparecem ainda de leve. Mas aguardem… eles chegarão :)

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Fazendo as pazes com a idade

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Cena do filme ‘Brazil’, de 1985 – uma distopia imaginada por Terry Gilliam

 

Com a proximidade dos meus 35 anos, também vêm chegando mais e mais pensamentos sobre o processo de envelhecimento. Mesmo que eu quisesse ignorar a realidade desse fenômeno, os sinais do meu corpo não me deixariam: já vejo alguns reflexos brancos nos meus cabelos e a minha pele mais marcada. Minha disposição para dançar, por exemplo, coisa que adoro, não é mais a mesma. Só de pensar no tempo que eu ficaria esperando na fila para entrar em alguma balada já me faz dar um suspiro profundo de cansaço. Abomino aglomerações e prezo mais do que nunca o silêncio. Resultado: me contento em dançar em casa mesmo, dentro das condições mais convenientes para mim (pois é, essa é a prova cabal de que estou, de fato, envelhecendo).

Mas o que poderia ser motivo para desespero está sendo trabalhado em minha mente para que se torne um aliado. Assim como quase todo ser humano desta geração, eu também não passei ilesa às influências do manual Disney-Hollywood para a vida: você só existe para o mundo se for jovem. Ou melhor, você pode até não ser jovem, mas sem dúvida alguma você precisa parecer jovem, mesmo que o preço para isso seja a sua identidade e você tenha que se transformar na Maga Patalógica (afinal, ela mesma é uma personagem Disney! Olha que ótima referência!).

Certa vez uma amiga me disse que nunca colocaria Botox ou nada que disfarçasse seu tempo de vida, porque aquelas eram as marcas de que ela tinha vivido. Achei isso tão sábio e… tão óbvio por ser um processo natural, não? De fato, viver deixa marcas, preenche os espaços vazios da nossa bagagem e escreve na pele da gente como hieróglifos de antigos egípcios nas paredes. É o corpo contando a nossa história: tombos levados na infância, artigos lidos com curiosidade de criança sobre rituais de tribos africanas, brincadeiras de professora com uma lousa caindo aos pedaços, a caixa d’água transformada em piscina (!) para duas amiguinhas em dia quente, o quase-afogamento numa piscina de verdade em Cuiabá; a paixão pelo inglês, a descoberta da literatura com Homero e Dostoiévski; os encontros dos adolescentes da igreja, os acampamentos, as experiências com Deus; o primeiro emprego no shopping, a viagem para Londres, os amigos que se foram e os amigos que chegaram; a faculdade de Letras, o mestrado, o casamento que não deu certo, a terapia que deu; a igreja maravilhosa que se tornou segunda família, o segundo casamento, o primeiro filho, o trabalho que finalmente faz sentido. Quanta riqueza!

Quando olho para o Álef, meu filho de 1 ano e 5 meses, penso no quanto a mochilinha de vida dele ainda é vazia. Se por um lado isso é promissor, claro que é, por outro, me causa um pouco de dó. Ele ainda não conhece tanta coisa bonita, profunda e gostosa como eu conheço… mal sabe ele o quanto a vida é incrível com suas dores e delícias. Vive na ignorância pura de uma existência ainda bebê.  Não consegue sentir o prazer de tomar grandes decisões por si mesmo, nem preparar uma comidinha saborosa na hora que quer. Não consegue ler Georges Bernanos, nem flutuar na suavidade da voz norueguesa do Kings of Convenience ou dançar ao som de Beirut (sou eu que proporciono esse prazer para ele, segurando-o no meu colo enquanto danço). Sua capacidade de apreender o mundo ainda é tão limitada! Que bom que nem sempre será assim para ele.

Por que então eu iria querer aparentar ter vivido pouco como o Álef ou como um adolescente? No que isso adiciona? Pelo contrário, subtrai! Recuso-me a ser uma pele repuxada para permanecer parecida com alguém que ainda não provou da vida. Não. O meu rosto é o distintivo da soma de todas as minhas experiências e quero me orgulhar dele, me sentir grata por tudo o que ele representa, por tudo o que de mim ele mostra para os outros. Que venham as rugas, os sulcos, as manchas, os cabelos brancos que um dia eu espero não tingir. Claro que me cuido e quero continuar me cuidando, mas se cuidar é bem diferente de se auto-enganar. Afinal de contas, assumir a vida é não temê-la, é entregar-se a ela toda até que, de tanto ter sido vida – em sua máxima capacidade – ela se esvaia de nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.