Casa nova e alma nova

Acabo de me mudar de casa. Esta é a primeira das três mudanças previstas para nós em 2018 (um dia explico melhor essa história). Numa conversa que tive com a Carol Selles sobre isso, ela desabafou: detesto me mudar. Tive que concordar com ela, também detesto, mas talvez a gente não goste de se mudar porque acumulamos coisas demais, que depois nos dão um trabalhão para serem empacotadas e transportadas para o novo lugar. Se tudo o que temos coubesse numa modesta malinha, nosso desânimo para mudanças talvez não fosse tão grande.

No nosso caso, o meu desânimo não vem apenas da ideia de transferir um monte de coisas de um endereço para outro. Tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo e que não serve mais não vai simplesmente para o lixo e pronto. Separamos entre aquilo que iremos doar e aquilo que iremos vender daquilo que iremos descartar. No descarte, separamos entre o que é reciclável e o que não é. Também tem os eletrônicos: aparelhos velhos de celular, baterias que não funcionam mais, carregadores antigos. Tudo isso precisa encontrar um destino certo, que, definitivamente, não é uma lata de lixo comum. E os remédios vencidos então? Seguem todos para uma sacola específica, que será encaminhada para uma drogaria em São Paulo, que os recolhe e os descarta da forma correta. Sem falar das lâmpadas queimadas… também precisam encontrar seu destino certo, porque as fluorescentes, por exemplo, possuem mercúrio dentro, ultra tóxico e, portanto, não podem ser jogadas em qualquer lugar. Assim, mudar de casa se torna algo bem mais complexo do que “só” empacotar tudo e partir. É um ato de responsabilidade como administradores daquilo que acumulamos com o passar do tempo (aliás, aqui neste site, você encontra para onde encaminhar tudo quanto é coisa).

Da mesma maneira que mudar de casa, mudar por dentro, como pessoas, também pode nos dar uma preguiça enorme. Às vezes, é o excesso de opiniões formadas sobre as coisas que nos impede de mudar. Outras vezes, são os ressentimentos, as preocupações com o futuro e, definitivamente, os preconceitos. O orgulho, então! Esse não deixa a gente nem cogitar qualquer transformação.

Esse acúmulo de sentimentos pesados vai nos inchando, a ponto de não conseguirmos nos mover em nenhuma direção. Ficamos inflados de nós mesmos e nos acomodamos, esperando que o mundo gire em torno de nós.

Paulo, apóstolo de Jesus, nos orienta a não nos acomodarmos com essa forma de ver as coisas, mas sugere que renovemos a nossa mentalidade, a fim de experimentarmos o ponto de vista de Deus. Como resultado, esse novo olhar vai transformando a nossa vida (essas referências você pode encontrar na Bíblia, no livro de Romanos, capítulo 12, verso 2). Ou seja, para que novos ares possam entrar nos pulmões da nossa alma, precisamos deixar de acumular os sentimentos prejudiciais ao nosso crescimento, abrindo mão deles e adquirindo uma perspectiva que supere o que é finito, transitório e superficial.

Paul Tournier, médico e psicólogo suíço que se dedicou ao cuidado integral de seus pacientes, escreveu em seu livro Culpa e Graça:

Na verdade, ninguém pode se despojar do espírito de julgamento por meio de um esforço voluntário. Enquanto eu fico obcecado pelo erro descoberto em um amigo, que me chocou e que eu reprovo, posso repetir infinitas vezes: “eu não quero julgá-lo” – mas o julgo mesmo assim. Ao passo que o espírito de julgamento desaparece sozinho no momento em que tomo consciência dos meus próprios erros e falo deles com franqueza ao meu amigo, enquanto ele me fala das faltas que reprova em si mesmo. (p. 101)

O julgamento citado por Tournier é apenas um dos itens, que podem fazer parte da nossa pesada bagagem emocional e que nos impedem de mudar por dentro. Existem muitos outros, que nos sobrecarregam e nos deixam cansadas e indispostas. Pense na inveja, por exemplo. Minha amiga Dalila Parente disse uma vez, num encontro de mulheres, que a comparação que a inveja provoca não funciona de nenhum dos lados: se me sinto superior à pessoa com quem me comparo, isso é ruim e, se me sinto inferior, isso também é ruim. A conclusão a que chegamos aquele dia foi que a via mais saudável de todas é resistir a qualquer tentação de nos compararmos com outras pessoas. Desafiador, não?

Mas para onde encaminhar os sentimentos ruins, mas inevitáveis muitas vezes, que nutrimos e que nos impedem de mudar?

Assim como o lixo que acumulamos em nossa casa com o tempo, que pede um encaminhamento adequado na hora da mudança, os sentimentos negativos que emperram nosso crescimento pedem o destino da confissão. Apresentá-los a Deus sem reservas, em uma oração, pode ser o primeiro passo para que eles percam a força de ação em nós. Jesus, por sua vez, não irá julgá-los como juram alguns, mas perdoá-los, ou seja, levá-los para bem longe Dele e de você. É alívio instantâneo.

Em um segundo momento, entra em cena o processo. Assim como a borboleta, que passa pela metamorfose, nós também passamos a viver uma transformação em etapas. Ficamos conscientes dos sentimentos nocivos e, quando eles se apresentam, a gente às vezes consegue detectá-los a tempo de não nos deixar ser dominadas, outras vezes não. Quando não conseguimos, basta nos jogarmos nos braços de Deus de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias.

Para cada um de nós, um insucesso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.
(Paul Tournier em Culpa e Graça, p. 141)

Só olhando para dentro de nós com sinceridade é que descobrimos o que temos acumulado, que tem nos impedido de mudar. Nesse ato de humildade, uma transformação interior não representará mais um ideal inalcançável para nós ou uma expectativa secreta dos que se relacionam com a gente, mas se tornará um processo possível, genuíno e rico de aprendizados.

 

ENSEE
Arte de Ensee

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O desapego mais difícil que existe

Meu notebook pifou. Era dia do vencimento de algumas contas e, como onde moro não existe agência bancária, faço tudo via bankline. Logo, computador pifado = contas atrasadas. Ao tentar ligar o computador e ele nem se mexer, me vi tomada por uma sensação de desespero. Depois de eu ter apertado o on/off vinte e três vezes, o deixado carregando e recarregando e carregando de novo, virado e sacudido, respirei fundo totalmente perdida, sem saber por onde começar a reorganizar a vida. Ainda não sei dizer se tem conserto pra ele, por isso existem grandes chances de eu ter perdido fotos queridas, trabalhos da faculdade e até textos para o blog.

Esse episódio me ensinou sobre a transitoriedade das coisas. Um dia as temos, no outro, elas se vão. E por mais batida que seja essa ideia, ela sempre nos pega desprevenidos. Uma vez, li em algum lugar que não devemos ter algo do qual não conseguiremos nos desapegar. Se isso de fato acontecesse, tudo o que temos caberia numa única mala. Difícil. Ainda assim, sinto profundo alívio quando penso nessa maneira de viver apenas em termos materiais. Afinal, vão-se os aneis, ficam os dedos. O grande desafio, porém, é quando esse chamado pede que nos desapeguemos de pessoas. Aí a dor é outra.

Há situações em que precisamos deixar alguém bem específico: um namorado ciumento, mas por quem se é apaixonada; uma amiga insegura, que precisa aprender a andar com as próprias pernas; uma irmã que mora no interior e com quem nos acostumamos depois de passar as férias inteiras com ela. E há ainda o caso mais radical de todos: quando Deus pede de nós que deixemos todas essas pessoas ao mesmo tempo, porque Ele quer nos levar para um lugar completamente novo, onde cumpriremos um propósito. Quando esse é o caso, um misto de senso de honra por atender um convite de Deus, ao mesmo tempo um frio na espinha pelo desconhecido, misturado ainda com o fato inevitável de que nossos queridos ficarão para trás faz a gente se sentir atordoado. Quantos loopings existenciais um desapego dessa amplitude gera!

Jesus declarou: em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, filhos ou terra por minha causa e por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e, no mundo futuro, a vida eterna.
(Evangelho de Marcos, capítulo 10.29-30)

Mas mais importante do que quebrarmos a cabeça, imaginando se isso um dia irá acontecer com a gente, e mais importante do que sofrer por antecedência, especulando de quem teremos que nos desapegar nesta vida, e mais importante do que qualquer coisa que vá embora de um dia para o outro é a disposição do nosso coração. Porque pode ser que você nunca precise abrir mão do que julga mais precioso e que ótimo pra você se for assim! Mas a questão real é: você tem um coração disposto a deixar tudo?

Meu notebook talvez não tenha mais conserto. Minha fotos e meus textos talvez não tenham volta. Mas isso não importa mais. Respiro fundo de novo e, num ato de fé e de entrega total, eu suspiro para Deus: eis-me aqui*.

 


*Palavras de Isaías, depois de uma visão que ele teve e Deus o chamou para falar ao povo de Israel (Isaías 6.8).

 

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.