Um texto confessional

liberdade

Comecei e recomecei esse texto tantas vezes, que não consigo pensar numa introdução decente, então vou deixá-lo apenas fluir.

Ele é confessional porque trata de um assunto que, embora resolvido dentro do meu coração há tempos, precisava ser expulso do resto de mim, de dentro do meu corpo todo, como se fosse o último suspiro pra minha tão desejada liberdade de espírito.

Tenho rascunhado esse expurgo na minha cabeça ao longo de quase nove anos, o mesmo tempo que tenho de casada, que é uma data que marca, em mim, um recomeço, um novo eu, o início da minha desconstrução e ressignificação do ser.

Na verdade, ainda não o havia escrito de vez, tampouco publicado, porque ele também fala de pessoas a quem amo e prezo, e que podem se sentir expostas. Não é minha intenção expor nenhuma delas, nem pro mal nem pro bem, nem pra julgamento algum. Nem ofender, nem desrespeitar. De antemão já me desculpo se isso acontecer, mas é realmente importante que isso tudo me deixe em paz também em matéria, não só no meu cérebro ou no meu coração. Aliás, é bem disso que se trata tudo: desculpas. Desculpar-me. Tirar de mim culpas que cresci recebendo e acolhendo, mas que nem eram minhas, na realidade. Já adianto: eu vou falar sobre abuso. Abusos. Os que sofri. Tenho batalhado pra que mulheres possam se recuperar de abusos sofridos e que não permitam mais nenhum, principalmente de parceiros, mas, existem vários tipos de abuso e eles não vêm só de parceiros, mas também de pais, mães, irmãos, amigos, chefes, sogras, homens e mulheres, vem de todo lado. Sofri todos esses. Deles que estou me libertando e é dessas pessoas que vou falar no texto e que não é minha intenção expor, porque amo e respeito e permanecem na minha vida, mas, que muito tempo já se passou, o perdão já aconteceu, eu já amadureci, a vida já seguiu e não sinto mais que preciso me preocupar em proteger ou defender certas coisas.

Agora eu tomei a decisão de enterrar tudo isso de vez por um motivo muito simples: estou pra parir (literalmente, estou com 40 semanas e 1 dia de gestação) um menino, o Dominic, que está chegando num momento de vida de renovo e esperança. Esses últimos dias são bastante reflexivos e fiquei pensando: “eu sei que o Dom vai ter sua própria impressão de mim, como ser humano e mãe dele, mas, que ideia eu gostaria de passar pra ele?”. E eu cheguei à conclusão que eu quero passar a ideia de uma pessoa curada. Esse termo, curada, veio pra mim em diversas formas: livre, autêntica, sem amarras, perdoada, restaurada… Mas, resumi tudo nele: curada. A publicação desse texto será a minha alta desses quase nove anos internada pra me recuperar e transformar. E preciso dizer que, embora eu estivesse com bastante receio da possível exposição que citei acima, estou me sentindo feliz e aliviada em compartilhar.

Aproveito pra dizer que, sendo um assunto resolvido, o texto não se trata de algo explicativo, e sim expositivo. Minha intenção é curtir minha alta e também ser útil pra qualquer outra pessoa que se identificar com o conteúdo, mas, não é um assunto aberto a diálogo, justamente porque tudo que precisava ser dito e ouvido já foi dito e ouvido e como eu disse, é confessional e é também liberativo, então, quando eu der o ok pra postar, eu não quero nunca mais tratar de nada disso, porque não há mais nada a lidar, agora é só seguir em frente, em paz. Se você sentir vontade de deixar um comentário, faça isso, mas compreenda que não haverá resposta. Se você sentir vontade de falar comigo a respeito do que ler, você é livre pra falar e eu sou livre pra ficar em silêncio.

Quando a gente pensa em abuso, o mais comum é associar a algum tipo de violência física, principalmente sexual. Não foi o meu caso. Os abusos que sofri foram psicológicos. E veja que interessante, eu tenho certeza absoluta que muitas pessoas não chamariam minhas experiências de abuso! Elas dirão que sou exagerada, revoltada, ingrata, que estou aumentando, que estou fazendo tempestade em copo d’água, que sou má, que não perdoei de verdade, que sou injusta… A famosa culpabilização da vítima, sabe?

E por que tenho essa certeza? Porque muitas pessoas pra quem contei algumas coisas ao longo desses anos me fizeram exatamente essas afirmações. E aí, em vez de encontrar acolhimento e apoio, eu recebia mais uma pá de culpa em cima da cabeça. Graças a Deus eu sou persistente e não parei meu processo de ressignificação até sentir que estava tudo acabado. Não é fácil, não vai ser fácil nunca, mas, a sensação de alívio é sensacional e não permito que ninguém tire ela de mim, mesmo que o preço a pagar seja altíssimo.

O interessante do abuso é que ele vem camuflado de muitas formas e começa muito cedo, geralmente dentro de casa e principalmente (mas, não somente) contra meninas. O abuso é sempre um tipo de desrespeito. Então, a verdade é que todos nós, em algum momento da vida, abusamos de alguém. Horrível, né? É.

Minha primeira lembrança de desrespeito é a de ser tolida. Eu sou uma pessoa naturalmente questionadora e subversiva e fui, literalmente, domesticada. Primeiro, pelos meus pais. Depois, isso foi se afirmando com amigos e amigas, chefes, pastores, até mesmo minha sogra.

Tive uma criação extremamente possessiva e controladora e isso feriu gravemente minha autoconfiança. Mas, como as pessoas chamavam isso? Excesso de amor, proteção e cuidado, então, meus pais estavam absolvidos e mais uma vez eu me sentia culpada, porque, além de achar aquilo tudo horroroso, ainda estava sendo ingrata por não saber receber amor. Nunca me senti rejeitada, é um fato, mas eu não tinha liberdade de existir. De coisas “simples”, como não ter trinco na porta do quarto (minha mãe tirou, pra que ela e meu pai pudessem entrar e sair quando quisessem) a mais complexas, como ser seguida pelos meus pais e observada enquanto tomava um açaí com uma amiga da faculdade (isso mesmo, faculdade, eu já tinha dezenove anos de idade nessa ocasião específica) achando, inocentemente, que finalmente meus pais confiaram em mim pra passar algumas horas sem a supervisão deles. Você pode dizer que essa atitude é natural, mas não é. Não podemos romantizar o abuso. Excesso de controle e possessividade não são provas de amor, são abusos.

Outra forma comum de abuso é ser, persuasivamente, silenciada. Quando eu tinha seis anos, entrei no pré escolar. Um certo dia, meus pais foram me buscar na escola e calmamente me explicaram, no carro, que naquela escolinha também estudava a minha irmã mais nova. Mas, que aquilo era um segredo de família. Eu podia até conversar com ela, mas ninguém podia saber que ela era minha irmãzinha. Eu tinha seis anos de idade e fui convencida de que era normal meu pai ter uma filha que não era filha da minha mãe, que a gente podia estudar juntas, que tudo estava bem, que nossa família era maravilhosa, mas que eu tinha que tomar o cuidado de não contar pra ninguém que ela era minha irmã. Ficou bagunçado isso, né? Imagine na minha cabeça de criança. Depois, ao longo dos anos eu vi meu pai dar socos, puxões de cabelo, empurrões e tapas na minha mãe, mas, no fim da noite ela mandava a gente ir falar “te amo e dorme com Deus”, porque tudo estava bem e não tinha nada a dizer ou resolver ou explicar. Claro, sempre lembrando de não contar pra ninguém. Na verdade, nem era preciso dizer pra não contar pra ninguém. Sabe aqueles “assuntos ocultos”? A coisa tá lá, mas se você não mencionar a coisa, a coisa não existe. Porque, se depois daquelas cenas eu via minha mãe colocar a comida no prato e servir meu pai no jantar e no fim da noite minha mãe mandava ir falar “te amo e dorme com Deus”, como se nada tivesse acontecido, é porque nada aconteceu, não é? É.

Tudo era bizarro demais, mas eu estava tão envolvida no abuso (sem entender, obviamente, que era um abuso), silenciada desde tão pequena, que parecia óbvio não contar pra ninguém. Até que uma vez eu contei. Não adiantou nada, porque não acreditaram que aquilo era possível. Simples assim. Não acreditaram, então não aconteceu. Não acreditaram porque fora de casa, na igreja, o porta retrato era de família unida e feliz, com pais superprotetores e filhos limpinhos e grudados nos pais. Com dezessete anos eu vi meu pai quase bater na minha mãe de novo e foi a primeira e última vez que falei com ela sobre o assunto. Eu disse: se eu vir ele encostar em você, eu vou chamar a polícia. Lembro até hoje a cara que ela fez, de espanto e indignação. Como resposta eu ouvi que ela estava decepcionada comigo, que nunca imaginou que uma filha pudesse fazer isso com o próprio pai, que eu era uma ingrata por sequer pensar naquilo e que meu pai era um marido ótimo pra ela, um pai maravilhoso pros filhos e que fazia tudo por nós. Eu senti revolta, amargura, espanto, tristeza, confusão, tudo ao mesmo tempo. Eu lembrava, mesmo, de tantas coisas boas que ele fazia, mas, então, aquelas coisas boas davam liberdade pras coisas ruins, que hoje eu chamo de abuso? E se estava tudo tão bem, por que passava pela minha cabeça que se aquilo era um casamento maravilhoso, eu desejava morrer solteira? Bagunça. Culpa. Tava tudo errado, mas eu era uma ingrata. Culpada. Meu Deus, como eu pude? Eu ia mesmo chamar a polícia contra meu pai? Má.

Entrei na dança de culpar a vítima, porque minha mãe mentia e escondia coisas, como o valor do troco ou o fato de que tinha de novo, fumado escondida. Então se ela falava pro meu pai que gastou R$9,90 quando, na verdade, tinha gasto R$10, era normal ele ficar bravo, não era? E quando ela jurava por Deus que não tinha fumado escondido, mesmo cheirando a cigarro e com o maço de cigarro achado na bolsa e ele ficava com raiva e tinha um acesso de fúria, ele estava na razão dele, não estava? Eu aprendi na igreja que eu tinha que perdoar, então por que mexer naquilo? Era só perdoar e esperar o próximo dia chegar. Tava tudo bem. Te amo e dorme com Deus.

Tudo isso pode parecer muito simples e sem grande significado, principalmente porque é verdade que nunca passei fome, sempre tive casa, ganhei muitos presentes e comi muito chocolate. Mas, a verdade é que cresci com autoestima baixa, acreditando que homens tinham poder sobre mim, que tudo bem esconder coisas de um marido, que tudo bem um marido me bater ao descobrir algo que escondi, que era normal as pessoas me tratarem mal e que eu não devia falar dos meus incômodos com ninguém porque na verdade era tudo coisa da minha cabeça e eu seria ingrata e injusta com os envolvidos, caso falasse. Aprendi que a igreja pode fechar os olhos pra coisas feias só pra não manchar a imagem de boazinha. Eu cresci acreditando que era errada, culpada e egoísta por ser diferente da maioria das pessoas, por não gostar do que todo mundo gostava e por ser indignada. Não tinha segurança em mim mesmo, acreditava que qualquer pessoa tinha mais valor que eu. Acreditei que era chata, porque pensava muito diferente da maioria e que pensar diferente era errado, o certo era seguir o rebanho. Aprendi que devia dizer sim pra todo mundo, porque isso era ser legal e boa. Acreditava que devia ser capacho, porque Jesus mandou dar a outra face e que as pessoas podiam fazer o que quisessem comigo, mesmo que me magoassem, porque Jesus mandou perdoar setenta vezes sete e tudo bem as pessoas errarem comigo um milhão de vezes sem se preocupar em tentar acertar, porque isso não importava, o que importava é que eu devia perdoar. Aprendi que era normal um namorado sentir ciúmes e mandar em mim, porque isso era prova de amor e cuidado. Aprendi a não falar sobre abuso, porque poderia expor as pessoas e quebrar a boa imagem delas. Aprendi que uma pessoa poderia me deixar profundamente triste com alguma atitude, mas, que se ela chorasse na frente dos outros, coitada, ela tava arrependida e eu era muito má por achar aquilo uma grande falsidade.

E aí, o resultado foi:
* Que eu emprestava sapato pra amiga e ela devolvia pisado em cocô, mas se eu reclamava era chamada de chata e me sentia culpada: abuso.
* Minha irmã jogava lixo onde eu tinha acabado de fazer faxina e eu ajoelhava pra limpar de novo, quieta, ouvindo ela dizer que meu lugar ela ali, no chão, e eu acreditava porque era minha irmã mais velha dizendo: abuso.
* Minha chefe me humilhava na frente de todos os outros funcionários e ao invés de responder eu ia pro banheiro chorar, porque devia respeito aos superiores: abuso.
* Minha sogra telefona comigo recém operada, dizendo que não era pra eu pedir pro meu marido fazer nada por mim naquela situação, porque ela não queria que o filho dela tivesse trabalho comigo: abuso.
* Minha amiga se auto convida pra uma festa de colegas meus, com a desculpa de que eu sou tímida e preciso da ajuda dela, mas, quando ela é convidada pra uma festa ela não me chama dando a mesma desculpa de que é porque eu sou tímida: abuso.
* Sou coagida pelo meu pai quando começo a namorar, com ele dizendo que se eu aparecer em casa grávida ele sai da igreja por minha causa: abuso.
* Escuto da esposa de um pastor que quando o marido quer a esposa tem mesmo que “dar”, não importa se está com vontade ou não, é melhor “dar” pra evitar problema: abuso.
* Escuto da minha sogra, durante o namoro, que ela quer combinar um dia pra ir em casa me ver fazendo uma faxina, pra ver se eu vou limpar direito a casa do filho dela: abuso.
* Sou criticada por ter um pensamento analítico, crítico e muitas vezes ácido, quando o esperado é que eu seja fofinha e sou cobrada a ser fofinha: abuso.
* Ser chamada de chata por dar a minha opinião contrária a alguma coisa que a maioria é a favor: abuso.
* Meu pai me diz que vai ser difícil pra uma criança ser meu filho, porque eu sou brava, chata e ruim: abuso.
* Eu sou acusada de ser egoísta e arrogante por não seguir padrões de comportamento: abuso.
* Minha mãe diz que não importa que eu não goste de chupetas, na casa dela meu filho vai chupar chupeta de qualquer jeito, porque ela gosta e vai dar: abuso.
* Eu escuto de outras mulheres que minha sogra tem razão em me tratar do jeito que bem entender, afinal ela deu à luz o amor da minha vida: abuso.
* Recebi trilhões de vezes, goela abaixo, à força, comentários inconvenientes e ofensivos e intromissões não solicitadas: abuso.
* Escuto julgamentos e recebo dedos apontados na cara e olhares tortos por (agora) ser decidida, bem resolvida, autêntica e livre: abuso.
* Eu escuto de várias pessoas que ninguém vai gostar de mim porque eu tenho um “jeitinho diferente”, de questionar, brigar e “ser do contra”, quando eu deveria ser mais dócil: abuso.
* Se eu sou gorda tô errada, se eu sou magra tô errada, se eu concordo eu tô errada, se eu discordo eu tô errada, se eu abro a boca eu tô errada, se eu tô certa eu tô errada: abuso.

E eu poderia escrever mais dez páginas sobre tantos tipos de abusos que sofri, por crescer aprendendo com meus familiares, com a igreja e com a sociedade em geral que eu devo desculpas pra tudo e pra todos, que eu não tenho direito sobre meu corpo, que eu devo aceitar ser silenciada, que se alguém me fez mal a culpa é minha, que eu devo esconder assuntos indigestos… Que eu estou errada por ser quem sou. Que eu deveria ser diferente, porque muitos não gostam de como sou.

Mas a questão é que hoje eu tenho trinta anos, tô pra parir, sou graduada e pós graduada, casada, adulta… Ou seja, não importa mais o que fizeram comigo ou por mim, agora o negócio é comigo. Agora eu sou responsável pela minha vida, por fazer minhas próprias escolhas e tomar minhas próprias decisões. A fase de menina se foi, e por mais machucada que eu possa ter sido, agora é minha responsabilidade me curar. Não tem mais a ver com meus pais, com amigos abusivos, com chefes pilantras, com sogra controladora, com imposições da sociedade, com gente amarga e infeliz que se aproveita dos outros pra se auto afirmar e se sentir melhor. Agora eu decido o que permito ou não, como vivo minhas experiências, o peso que dou pro que já vivi. Agora eu quem defino o meu caminho. Não tenho raiva de nenhuma dessas pessoas, nem mágoa, rancor, ou sei lá mais o que poderia sentir de desgostoso.

Nesses anos eu passei por um processo de restauração. Muita terapia, muita oração, muita conversa com gente mais madura e que me respeitou a ponto de me ajudar a encontrar minha liberdade, minha autenticidade, minha propriedade. E a sensação de não dever nada pra ninguém é incrível. A sensação de não ter mágoa de ninguém é mais incrível ainda. Deus é muito louco e o perdão é algo sensacional. Cada abuso que sofri, de todo tipo, doeu muito. Ouvir coisas que ouvi marcaram minha alma. Passar por coisas que passei arrebentaram comigo de várias formas. Mas, quando eu me disponibilizei pra ser curada, Deus agiu. Quando fui atrás de me amar e me respeitar e dei minha cara à tapa pra crescer e amadurecer, meus olhos se abriram. Quando me despojei da necessidade de aceitação e parei de acreditar em qualquer pessoa e coisa, percebi que a opinião dos outros sobre mim não importa, mesmo que esses outros sejam aqueles que me deram vida, ou meus irmãos, ou amigos com quem cresci ou os familiares do meu marido. 30 anos, quase parindo, tenho mais paciência não.

E então eu me senti livre. Livre pra ser chamada de chata sem sentir dor, livre pra não aceitar quando tentarem despejar lixo emocional em mim, livre pra quando tentarem me desrespeitar saber qual é o meu valor. Autoestima é uma delícia. Como eu disse, não é fácil e nunca vai ser. Muita gente não entende a liberdade do outro. Muita gente não percebe que está desrespeitando o outro e muita gente percebe, mas não está nem ligando pra isso.

O que eu quero é viver leve. Decido não acumular mais abusos e desrespeito. Essa decisão vai fazer com que eu não seja convidada pra festas e eventos sociais? Beleza. Vai fazer com que pessoas se afastem de mim por eu não fazer todas as suas vontades? Maravilha. Vai fazer com que me achem chata? Sou. Vai fazer meu círculo de amigos ser minúsculo? Perfeito. Vai fazer apontarem o dedo, julgarem e criticarem? Tá tudo bem. O preço é alto, mas eu assumo bancar, porque ser livre dessas amarras existenciais é saboroso demais. Sabe a frase da Frida, “onde não puderes amar, não te demores”? Eu ouso adaptar pra “onde eu não sou respeitada, não me demoro”. E tudo bem mesmo, porque ninguém é obrigado a gostar de mim. Não forcemos a barra, não torturemos uns aos outros. O mundo é tão grande, tem tanta coisa pra se fazer nessa vida que acaba tão rápido. Não sejamos otários.

Não seja um babaca com o outro só porque ele deve ser tolerante com você. Não erre com o outro só porque ele deve te perdoar. Não espere por mais amor, tenha mais bom senso. Não espere mais do outro, faça mais, você.

Não seja um abusador, ou uma abusadora.
Se você sofreu algum tipo de abuso, siga em frente, se cure disso, se trate, resolva, supere, banque o custo, se livre dessa amarra. Peça ajuda, vá pra terapia, tome um passe, sei lá, mas não permita mais. Não aceite mais, não se cale, não tenha medo. Deixa chamar de louca, de exagerada, de ingrata, do raio que for, mas viva leve. Respire leve. Tenha alta da internação.

Assunto encerrado.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Anteontem, ontem, hoje e um dia – uma declaração sobre música e reencontro

Anteontem

Recebi da minha irmã o link para uma versão acústica da música Stay On These Roads, dos noruegueses do A-ha, quem se lembra deles? Conheço essa música desde que foi lançada, no auge dos meus 7 anos, mas eu nunca tinha realmente prestado atenção na letra dela e anteontem eu prestei. E chorei. Aquela música que tanto ouvi, de repente, assumiu um significado totalmente novo para mim. No meio de uma letra toda enigmática, o eu lírico – se é que posso falar assim quando se trata de música – se dirige para a pessoa que ele ama e diz para ela permanecer naqueles mesmos caminhos, porque assim, um dia, ele e ela se encontrariam de novo. O que me tocou tanto nessa ideia foi justamente o que ela tem a ver com o Cristianismo: a esperança do reencontro com quem amamos. E se esses a quem amamos seguem pela mesma estrada que você – Jesus, o nosso Norte – então o reencontro é garantido.

 Ontem

Era a “hora silenciosa da tarde” (Clarice), quando ouvi mensagem chegando pelo Whatsapp: minha mãe avisava que minha tia tinha acabado de morrer. Essa tia morou a vida inteira no interior do Paraná, por isso pouco contato eu tive com ela. Porém, as poucas vezes que convivemos, ela me marcou com o seu amor. Foi uma das pessoas mais lindas, amorosas e queridas que já cruzaram o meu caminho, e eu me lembro de suas cartinhas e de nossas conversas ao telefone, em que eu ouvia ela me chamando carinhosamente de “Lulu”, com todo o seu jeitinho gaúcho e engraçadinho de se expressar. Dois meses atrás, mandei uma carta para ela, pelo correio mesmo. Fiquei sabendo agora que ela escreveu um cartão de resposta para mim antes de fazer a cirurgia de retirada do câncer. Meu primo, filho dela, já me disse que logo, logo, vai enviar esse cartão para mim. Aguardo, ansiosa, por essa lembrança.

Hoje

Este, na verdade, é um texto que não tem a pretensão de ser um texto. Porque o que sinto com a música, misturada com a morte da minha tia, não é traduzível em palavras. Perdoem-me. Só o que consigo agora é imaginar – no sentido de fantasiar mesmo – a minha tia cantando a música do A-ha para mim lá do Céu:

Stay on these roads
We shall meet, I know

Stay on, my love
We will meet, I know, I know

(Permaneça nesses caminhos
Nós iremos nos encontrar, eu sei
Permaneça, meu amor
Nós iremos nos encontrar, eu sei, eu sei)

Eu irei permanecer nesses caminhos, tia. E nós iremos nos reencontrar um dia. Eu também sei.


 

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quando ser antissocial depende do ponto de vista

 

Pascal Campion
Ilustração de Pascal Campion

 

Considero-me introspectiva. Reservada. Antissocial. De fato, acho um sacrifício ter de comparecer a eventos em que a gente vai, sorri, acena, tira selfies e volta pra casa. E para intensificar ainda mais o meu lado introspectivo, faz quase três anos que moro no interior. Ou seja, já me tornei a personificação do termo bicho do mato. Pago para não sair do meu chalé aos fins de semana e depois do trabalho.

Entretanto, por baixo dessa superfície durona, está a verdade: amo me relacionar. Neste exato momento em que escrevo, por exemplo, sinto meu coração se apertar de saudades da minha família, que hoje está reunida num churrasco para comemorar o aniversário da minha mãe (e eu aqui no mato, por circunstâncias além do meu controle). Sinto falta de conversar com os meus amigos da igreja até o pastor insistir para irmos embora, porque ele precisa trancar o portão; sinto falta das tardes inteiras no Sesc Belenzinho, colocando os assuntos em dia com as meninas do blog; sinto falta dos filmes do Wim Wenders assistidos com a Maria Clara e de comer mais vezes o brownie imbatível feito pela Dalila. Acho que não devo ser, exatamente, uma perfeita antissocial.

O problema está no que eu tomo como referência quanto ao sentido de socialização e ao que eu acho que os outros esperam de mim. E talvez eles esperem mesmo. E talvez eu perca muito toda vez que recuso um convite para uma festinha de aniversário de criança, em que não conheço muita gente. Isso me faz lembrar de um conto da minha Clarice Lispector, que começa assim: Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos (do conto A repartição dos pães). O ponto alto do conto, porém, é quando a pessoa que narra se surpreende com o que é oferecido como refeição nesse evento de sábado e aquilo se torna uma redenção da alma. Ou seja, supera em muito essa expectativa murcha apresentada no início. De repente, ao insistir tanto em estar apenas “com quem me interessa”, como canta o Lenine, eu esteja perdendo a chance de me surpreender (já me surpreendi muito nessas festinhas infantis, aliás). Mas confesso: na fase em que me encontro agora, não tenho energia nenhuma para oferecer. Careço profundamente de momentos plenos. Quero me afundar numa almofada de sofá e ficar lá mergulhada num papo gostoso com alguém que nem se lembre de boas maneiras, vocabulário apropriado, termos politicamente corretos e outras censuras do tipo. Quero só ser eu. Ouvir e ser ouvida com a leveza e a cumplicidade que existem apenas entre velhos conhecidos. Ninguém para julgar, ninguém para quem eu tenha que provar alguma coisa, ninguém para agradar ou a quem eu precise dar um sorriso amarelo.

Perdoem-me os que me acham uma perfeita antissocial.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

No limbo eu sofri, mas dele tirei muitas lições

Ontem eu estava mexendo em um pendrive antigo, o primeiro pendrive que tive, aliás, quando encontrei entre as músicas gravadas lá dentro uma da Alanis Morissette, chamada Limbo No More. Ao colocá-la para tocar, me senti viajando no tempo, de volta ao ano de 2008, época em que essa música foi lançada e que, coincidentemente, minha vida se tornou um caos, para em seguida ser levada ao limbo, à suspensão total de tudo como até então eu conhecia.

Eu havia acabado de sair de um casamento, tinha perdido amigos, mudara de casa, tinha deixado a igreja da qual fiz parte desde criança e, um mês depois disso tudo, ainda perdi o emprego. Não restou quase nada a que me apegar. Senti o fundo úmido do poço contra o meu rosto. Eu não via nada à frente. Tudo ficou escuro e frio.

Minha casa, meu papel
Meus amigos, meu homem
Minha devoção a Deus
Tudo amorfo
Indefinido

Nada mais está claro
Nada mais se encaixa
Nada mais parece verdade
E eu nunca me entreguei por completo

Nada tem durado 
Nada mais é afirmativo
Nenhum lugar é lar 
E eu estou pronta para não mais ser limbo

Meu gosto, meus pares
Minha identidade, minha afiliação
Tudo amorfo
Indefinido*

(…)

Uma vez ouvi que a crise guarda em si um grande potencial para que algo novo surja, como uma semente. Lembro de minha psicoterapeuta dizendo algo parecido: Lu, a angústia é boa e saudável quando aponta para uma saída. E se naquele ano tudo tinha vindo abaixo, se nada do que havia sido um dia existia mais, então aquele era um momento crucial na minha vida. Porque era a partir daquele nada que tudo haveria de ser reconstruído. E de uma forma dolorosa e estranhamente prazerosa ao mesmo tempo, todas as escolhas se puseram à minha frente de novo, aguardando por mim. Eu estava pronta para me refazer.

E foi aos poucos e sentindo a mão de Deus pegar a minha e me erguer do chão, que fui fazendo novas escolhas. A primeira delas foi me inscrever no programa de mestrado em literatura. Depois, procurei novos amigos, a partir daqueles que haviam restado. Voltei a dar aulas de inglês e, um ano após a minha separação, encontrei uma nova comunidade de fé, à qual pertenço até hoje. Antes de encontrar essa igreja, porém, eu havia frequentado uma outra, formada de jovens universitários. Cheguei a ir a um acampamento com eles e me lembro de uma reunião que fizemos ali, em que eles oraram pela família que um dia formariam. Nem tive coragem de me unir a eles nessa oração. Sentada mais longe, falei para Deus muito rapidinho: Se eu pudesse… um dia… formar uma família…. eu ficaria muito… feliz. Depois de um ano dessa oração, conheci o David – o descendente de coreano, artista e talentoso, cujo trabalho todo mundo admirava -, que veio a se tornar meu querido marido e pai do nosso coreaninho loiro, o Álef.

Faz quase 9 anos que a Alanis Morissette lançou o seu álbum com a música Limbo No More nele. E faz esse mesmo tempo que a minha vida foi varrida pelo terremoto metafórico mais tenebroso que já experimentei. Ainda assim, chegou o dia em que eu pude dizer como ela: estou pronta para não mais ser limbo. Mas foi no limbo que eu aprendi. Foi no limbo que me humanizei, que estourei a bolha em que eu vivia e que, longe de me rebelar contra Deus, me vi mais dependente Dele e de suas segundas e terceiras chances. O limbo me ensinou a fazer escolhas responsáveis e mais do que isso ainda: foi no limbo que enxerguei o valor e os efeitos edificadores do arrependimento e da humildade. Finalmente, foi no limbo que eu aprendi a ter esperança.

Eu sento com quadros preenchidos e
Meus livros e meus cachorros aos meus pés
Meu amigos ao meu lado
Meu passado amontoado numa pilha

Joguei fora a maior parte das minhas coisas
E só mantive o que eu preciso 
Para aperfeiçoar algo consistente e notavelmente eu

Tatuagem na minha pele
Meus professores no coração
Minha casa é um lar
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Um senso de mim mesma
Meu propósito é claro
Minhas raízes no solo
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Algo alinhado
Com o qual finalmente me comprometer
Algum lugar ao qual eu pertenço
Porque estou pronta para não mais ser limbo

Minha sabedoria na prática
Um alicerce firme
Uma promessa a mim mesma
Porque estou pronta para não mais ser limbo*

 

*Tradução livre de Limbo No More, Alanis Morissette. Letra original aqui.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Breve relato de uma romântica curável

Sou uma romântica nata. Dos meus 13 anos em diante, eu assistia a todas aquelas comédias românticas hollywoodianas, em que adultos agiam como adolescentes, e às séries de TV em que adolescentes agiam como adultos (alguém aí se lembra de Dawson’s Creek?). Em todos eles, o casal mais carismático da trama sempre acabava junto. Nos meus devaneios também, e o casal era sempre formado por mim, obviamente, e algum garoto inatingível, por quem eu nutria uma paixão platônica. Naqueles minutos eternos que se seguiam antes do sono, eu conseguia montar um enredo com começo, meio e fim, envolvendo algum encontro fortuito com o crush impossível e ele, de alguma forma “inesperada”, abria o coração para mim e confessava como seus dias eram miseráveis sem a minha presença neles.

Mas o que talvez viesse a ser algo natural da adolescência – e até saudável, se deixado lá – me acompanhou para a vida adulta, a ponto de eu chegar a fazer terapia para me livrar dessa segunda vida. Sem sucesso. A idealização era a minha sombra e, por conhecer a fundo as minhas fragilidades, acabou se tornando a minha maior inimiga. Não havia relacionamento em que eu entrasse, que a romantização não entrasse comigo para colocar tudo a perder. Eu exigia que o real fosse igual ao imaginário e aí então tudo se desfazia. Eu queria estar feliz o tempo todo, apaixonada o tempo todo, sem conflitos o tempo todo. O que eu obtinha disso? Insatisfação o tempo todo, ingratidão o tempo todo, frustração o tempo todo.

Demorou muitos anos, mas muitos anos mesmo, para eu entender o funcionamento da minha mente e onde, nela, teria espaço para o universo paralelo e perfeito, sem que ele prejudicasse as minhas escolhas de carne e osso. Mesmo compreendendo e admitindo a existência desse mundo imaginário, ainda assim minha tendência de ir até lá buscar nomes, rostos e situações perfeitas nos momentos de dor era quase irresistível. Assim, por não abraçar por completo as minhas escolhas reais, com todos os bônus – e ônus – que elas traziam consigo, deixei muitas vezes de falar nelas, escrever sobre elas, postar fotos delas… curti-las mesmo, sabe?, por receio de soar hipócrita para os que me conheciam. Quantas vezes invejei os retratos de casais juntinhos postados nas redes sociais! Não porque eu mesma não fosse feliz, mas porque eu não era perfeitamente feliz.

Este ano completo 5 anos de casada e ainda tendo a me entregar a idealizações distantes. Mas cheguei a um ponto de exaustão por essa vida dupla habitando dentro de uma Luciana só. É desgastante, ingrato. Por tempo demais, fiquei guardando o meu melhor amor, o meu melhor sorriso, o meu bom humor, o meu respeito. E tudo para quem? Para alguém que nunca esteve realmente aqui, um ser etéreo, uma imagem, um habitante de um planeta romântico paralelo, para onde eu viajava todas as vezes que as minhas escolhas ficavam reais demais. Cansei e entreguei os pontos… fiz uma oração definitiva, falei tudo para Deus e terminei a oração assim: Pronto, tá aqui. Tudo o que construí na minha mente está neste pacote, que deixo aos seus pés agora. Faça o que quiser com ele, mas por favor, nunca mais me deixe pegá-lo de volta (essa foi uma das orações mais difíceis que já fiz na vida).

E é aqui deste lado do mundo, mais precisamente ao meu lado, que está o homem que comprou a minha briga, que apostou em mim, mesmo depois de conhecer a minha história: meu marido David. Faz 5 anos que ele me escolhe diariamente. Ele é real e me traz junto para viver a realidade com ele. E o mais incrível de tudo é que ele é capaz de reproduzir uma beleza e uma leveza muito parecidas com as que criei nos meus devaneios românticos de menina, sem ele nem ter estado lá! E é no alto dessa beleza e dessa leveza que ele me coloca e me coroa como a rainha do mundo que estamos criando juntos. Eu escrevendo e ele ilustrando.

Semana passada postei uma foto de nós três juntos: ele, nosso filho de 2 anos e eu. E ao contrário do que uma foto linda numa rede social sugere (“olha como sou feliz demais!!”), postei nossa foto juntos porque sonhei com esse dia. Sonhei com o dia em que eu estaria inteira no meu casamento, inteira ao lado do meu marido, nutrindo e lutando pelas minhas escolhas e pelas escolhas que fizemos juntos. Minha foto com eles é minha oferta de gratidão e alegria por estar, finalmente, pisando em terra firme de novo e, mais inédito do que isso ainda, amando a realidade em que me encontro.

 

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Nós.

Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a sensibilidade do ser-pai numa sociedade machista

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Ilustração: Betusha Rapatusha

No domingo de Dia das Mães desse ano, a psicóloga Isabelle Ludovico esteve no Projeto 242, comunidade em que David e eu somos membros, falando sobre a data comemorativa.

Foi muito diferente de todas as mensagens e comemorações de Dia das Mães em igreja que já tinha visto, ao longo dos meus quase 30 anos dentro de igrejas.

Ela falou coisas que me marcaram, sobre ser-mulher, ser-mãe, feminilidade, feminismo, machismo e sobre o quanto o sufocamento das características femininas no mundo, por meio do machismo e do desrespeito às mulheres, prejudicam o Universo como um todo. O quanto anima e animus estão em desequilíbrio e esse desequilíbrio é fatal. O quanto é importante que homens desenvolvam, apreciem e usem sua feminilidade. Inclusive, – e que foi o ponto chave pra mim – como Deus mostra sua sensibilidade, força e beleza através das mulheres e como Ele é, além de nosso Pai, nossa Mãe.

Saindo de lá, perguntei pro David o que ele tinha achado e senti um amargo de angústia quando ele respondeu: sabe aquele filme que a gente assistiu, da menina da Somália que virou modelo, depois embaixadora da ONU, acho que é Flor do Deserto, o nome? Então, é lógico que aquilo que fazem com aquelas meninas não pode ter comparação, mas, é como eu me sinto, mutilado.

Se você ainda não assistiu esse filme, assista. É avassalador.

O David continuou, dizendo que tinha gostado muito do que a Isabelle disse, que concordava, que era aquilo mesmo que ele acreditava e que foi um alívio, porque como homem, ele se sentia mutilado, arrasado pelo machismo.

Assim como eu, David cresceu numa família machista. Não por crueldade, mas, porque era assim a geração dos nossos pais. Só que ele não é machista, nunca foi. Desde nosso namoro, até antes, o começo da nossa amizade, que já tem mais de dezessete anos, percebo que ele é um cara diferente. E é uma pena dizer que ele é diferente, aqui, porque é no sentido de exceção. E eu realmente gostaria que houvesse mais Davids por aí.

Aquela sensibilidade que a Isabelle citou na sua mensagem, o David tem e faz uso dela. E por isso não compreende o machismo, porque essa prática não mutila só as mulheres, mas os homens, também. Porque no filme pode ser muito bonito o príncipe resgatando a princesa do castelo, mas, na vida real, isso é impor comportamentos, é gerar padrões impróprios e esteriotipar os gêneros.

Na vida real, por causa do massacre do machismo, da reprodução alienada de um comportamento que julga que mulheres são inferiores aos homens, que julga que sensibilidade é fraqueza e invulnerabilidade é poder, que descarta as mulheres e supervaloriza homens, que ensina que meninos são heróis e meninas são mocinhas indefesas, esses “meninos heróis” crescem com o peso de uma responsabilidade que não lhes pertence e não é possível carregar, e, as “mocinhas indefesas” crescem acreditando que não são livres, capazes e donas de suas próprias vidas.

Na vida real, eu vi meu marido sofrer de um início de depressão por causa de uma crise profissional que o impediu de ser o macho alfa dominante provedor da casa. E ele é o fraco por “não ter dado conta”? Não. Fraca é essa sociedade. Fraca e doente. Por  Graça, isso não durou muito tempo e rompemos mais um tabu sem significado algum.

Na nossa vida real, a gente luta contra a impropriedade, contra a propagação de uma cultura falha, deturpada, inautêntica, imprópria, que mutila meninas e meninos. Na nossa vida real, quebramos paradigmas e fazemos nosso possível pra existir com autenticidade, mesmo que isso signifique receber julgamentos, olhares tortos e o título de fracos fracassados. Porque, se ser fraco é viver em horizontalidade, homem e mulher juntos, esposo e esposa companheiros lado a lado, os dois em harmonia rumo ao mesmo objetivo, caindo e levantando juntos, sofrendo juntos e vivendo alegrias juntos, ah, nós somos terrivelmente fracos, com prazer.

E nessa fraqueza, Cristo se mostra nossa Força e Fortaleza. Cristo conduz nossa família, não os tradicionalismos de uma sociedade seriamente doente.

Nessa fraqueza, estamos esperando nosso filho, Zigo, que tem a bênção de nascer numa casa em que será respeitado enquanto ser humano, independente do seu gênero. Que será ensinado a respeitar todas as pessoas independente de quem sejam.

Nessa fraqueza, David tem sensibilidade, luz, criatividade, afeto, carinho e tantas qualidades, que, embora não tenha útero, tem feminilidade. Embora não esteja gestando Zigo, o está gerando no coração, cheio de amor. Tanto amor, tanto afeto, tanto carinho, que acordei numa madrugada dessa semana pra fazer xixi e encontrei David no computador, escrevendo uma carta pro Zigo, demonstrando que homens equilibrados, verdadeiramente fortes e emocionalmente saudáveis são aqueles que entendem que machismo mutila, e não se permitem viver nele.

Graças a Deus, aqui em casa, estamos libertos disso. Agora, temos a responsabilidade de transmitir isso pro Zigo. Mas, ao ler essa carta, creio que não vai ser tão difícil!

“Outubro, 2016.

E aí Zigo, tudo bem?

Sim, por incrível que pareça é seu pai escrevendo. Não se acostume com isso, porque quem gosta e sabe escrever é sua mãe, não eu.

Faz um tempo que já sabemos sobre você. Ainda não sabemos se você é homem ou mulher, mas não importa, estamos preparando tudo para sua chegada (quando digo tudo, digo que estamos arrumando um pouquinho da bagunça que é nossa casa, para ficar habitável, rs). Você vai gostar muito de como é nossa casa, nada convencional, tudo colorido (seu quarto está com a porta laranja, eu que pintei :D, e acredite, eu chorei pintando e imaginando você dormindo lá. Logo vai saber que sou chorão), muita almofada, colchão no chão, do jeito que eu e a Talita gostamos, espero que goste também.

Quando descobri que a Talita estava grávida de você, fiquei um pouco perdido, não entendi direito e até hoje estou um pouco assim, acho que só vai cair a ficha quando você nascer. Por enquanto vou cuidando da Talita, ela enjoa o dia inteiro, não importa o que façamos. Mas, está bem divertido, você já está com 15 semanas e tem um cabeção! Sua mãe não gosta, mas se você puxar à mim, esse cabeção vai continuar, rs.

Fomos visitar uma casa de parto essa semana, provavelmente você nascerá lá. É muito bacana, os funcionários são atenciosos e bem preparados, o quarto é confortável, e se tudo der certo, seu parto será natural e no dia que você escolher. É isso mesmo, você nem fala ainda e já respeitamos suas escolhas. Uma das coisas que eu e a Talita temos é respeito um pelo outro e agora respeito por você, Zigo, você não virá com plateia e hora marcada. Preciso te contar um segredo: na volta de nossa visita, depois de ver todas as coisas sobre o parto, a Talita chorou hahaha, não sou só eu o chorão da casa, viu? Depois a gente tira um sarro da cara dela juntos.

Ainda não faço ideia de como serei como pai, provavelmente serei um pouco parecido com o meu. Infelizmente você não vai conhecer seu avô Antônio, ele já está com Deus e sinto falta dele. Às vezes era bem bravo, gritava, era mandão, rs, mas tinha um coração enorme, era responsável, pontual, honesto, foi caminhoneiro e também tinha uma Kombi, onde a gente trabalhou bastante tempo juntos, muito legal. Depois te conto mais sobre ele, você vai gostar.

Eu sou apaixonado por atividade física, Zigo, e vou te ensinar muitas coisas legais, principalmente o Muaythai e você vai ver como é sensacional lutar. Tudo bem que até agora eu perdi 2 lutas e ganhei só 1, mas dia 19/11 vou lutar de novo, estou me preparando muito, treinando bastante, vou ter muita história para te contar. Meus amigos de treino também estão ansiosos pela sua chegada, e, já vou te avisando, eles vão te zuar um pouco, porque eu brinco demais com eles, se prepare.

Gosto de cozinhar também. Tudo que você aprender na cozinha, provavelmente, será comigo, porque se depender da Talita, nós 3 passaremos fome, rs. Brincadeira, ela consegue se virar, mas, quem manda na cozinha sou eu.

É isso Zigo, estou escrevendo para que você saiba que será bem recepcionado por mim, sua mãe e também por nossos familiares e amigos. Desde já oramos muito pela sua vida, pedimos para Deus pelo seu futuro, porque viver nesse mundo não é nem um pouco fácil, mas, como Ele cuida de nós, vai ser uma vida plena e feliz. Claro que terão momentos de tristeza, dor, angústia, mas, até você saber se cuidar sozinho, nós vamos cuidar de você da nossa melhor maneira.

Estou ansioso pra te ver logo, não vejo a hora.

Com amor,

David, seu pai e palhaço.”

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Os pais geram no coração

* Ilustração retirada da internet, autor desconhecido.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.