Sobre a sensibilidade do ser-pai numa sociedade machista

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Ilustração: Betusha Rapatusha

No domingo de Dia das Mães desse ano, a psicóloga Isabelle Ludovico esteve no Projeto 242, comunidade em que David e eu somos membros, falando sobre a data comemorativa.

Foi muito diferente de todas as mensagens e comemorações de Dia das Mães em igreja que já tinha visto, ao longo dos meus quase 30 anos dentro de igrejas.

Ela falou coisas que me marcaram, sobre ser-mulher, ser-mãe, feminilidade, feminismo, machismo e sobre o quanto o sufocamento das características femininas no mundo, por meio do machismo e do desrespeito às mulheres, prejudicam o Universo como um todo. O quanto anima e animus estão em desequilíbrio e esse desequilíbrio é fatal. O quanto é importante que homens desenvolvam, apreciem e usem sua feminilidade. Inclusive, – e que foi o ponto chave pra mim – como Deus mostra sua sensibilidade, força e beleza através das mulheres e como Ele é, além de nosso Pai, nossa Mãe.

Saindo de lá, perguntei pro David o que ele tinha achado e senti um amargo de angústia quando ele respondeu: sabe aquele filme que a gente assistiu, da menina da Somália que virou modelo, depois embaixadora da ONU, acho que é Flor do Deserto, o nome? Então, é lógico que aquilo que fazem com aquelas meninas não pode ter comparação, mas, é como eu me sinto, mutilado.

Se você ainda não assistiu esse filme, assista. É avassalador.

O David continuou, dizendo que tinha gostado muito do que a Isabelle disse, que concordava, que era aquilo mesmo que ele acreditava e que foi um alívio, porque como homem, ele se sentia mutilado, arrasado pelo machismo.

Assim como eu, David cresceu numa família machista. Não por crueldade, mas, porque era assim a geração dos nossos pais. Só que ele não é machista, nunca foi. Desde nosso namoro, até antes, o começo da nossa amizade, que já tem mais de dezessete anos, percebo que ele é um cara diferente. E é uma pena dizer que ele é diferente, aqui, porque é no sentido de exceção. E eu realmente gostaria que houvesse mais Davids por aí.

Aquela sensibilidade que a Isabelle citou na sua mensagem, o David tem e faz uso dela. E por isso não compreende o machismo, porque essa prática não mutila só as mulheres, mas os homens, também. Porque no filme pode ser muito bonito o príncipe resgatando a princesa do castelo, mas, na vida real, isso é impor comportamentos, é gerar padrões impróprios e esteriotipar os gêneros.

Na vida real, por causa do massacre do machismo, da reprodução alienada de um comportamento que julga que mulheres são inferiores aos homens, que julga que sensibilidade é fraqueza e invulnerabilidade é poder, que descarta as mulheres e supervaloriza homens, que ensina que meninos são heróis e meninas são mocinhas indefesas, esses “meninos heróis” crescem com o peso de uma responsabilidade que não lhes pertence e não é possível carregar, e, as “mocinhas indefesas” crescem acreditando que não são livres, capazes e donas de suas próprias vidas.

Na vida real, eu vi meu marido sofrer de um início de depressão por causa de uma crise profissional que o impediu de ser o macho alfa dominante provedor da casa. E ele é o fraco por “não ter dado conta”? Não. Fraca é essa sociedade. Fraca e doente. Por  Graça, isso não durou muito tempo e rompemos mais um tabu sem significado algum.

Na nossa vida real, a gente luta contra a impropriedade, contra a propagação de uma cultura falha, deturpada, inautêntica, imprópria, que mutila meninas e meninos. Na nossa vida real, quebramos paradigmas e fazemos nosso possível pra existir com autenticidade, mesmo que isso signifique receber julgamentos, olhares tortos e o título de fracos fracassados. Porque, se ser fraco é viver em horizontalidade, homem e mulher juntos, esposo e esposa companheiros lado a lado, os dois em harmonia rumo ao mesmo objetivo, caindo e levantando juntos, sofrendo juntos e vivendo alegrias juntos, ah, nós somos terrivelmente fracos, com prazer.

E nessa fraqueza, Cristo se mostra nossa Força e Fortaleza. Cristo conduz nossa família, não os tradicionalismos de uma sociedade seriamente doente.

Nessa fraqueza, estamos esperando nosso filho, Zigo, que tem a bênção de nascer numa casa em que será respeitado enquanto ser humano, independente do seu gênero. Que será ensinado a respeitar todas as pessoas independente de quem sejam.

Nessa fraqueza, David tem sensibilidade, luz, criatividade, afeto, carinho e tantas qualidades, que, embora não tenha útero, tem feminilidade. Embora não esteja gestando Zigo, o está gerando no coração, cheio de amor. Tanto amor, tanto afeto, tanto carinho, que acordei numa madrugada dessa semana pra fazer xixi e encontrei David no computador, escrevendo uma carta pro Zigo, demonstrando que homens equilibrados, verdadeiramente fortes e emocionalmente saudáveis são aqueles que entendem que machismo mutila, e não se permitem viver nele.

Graças a Deus, aqui em casa, estamos libertos disso. Agora, temos a responsabilidade de transmitir isso pro Zigo. Mas, ao ler essa carta, creio que não vai ser tão difícil!

“Outubro, 2016.

E aí Zigo, tudo bem?

Sim, por incrível que pareça é seu pai escrevendo. Não se acostume com isso, porque quem gosta e sabe escrever é sua mãe, não eu.

Faz um tempo que já sabemos sobre você. Ainda não sabemos se você é homem ou mulher, mas não importa, estamos preparando tudo para sua chegada (quando digo tudo, digo que estamos arrumando um pouquinho da bagunça que é nossa casa, para ficar habitável, rs). Você vai gostar muito de como é nossa casa, nada convencional, tudo colorido (seu quarto está com a porta laranja, eu que pintei :D, e acredite, eu chorei pintando e imaginando você dormindo lá. Logo vai saber que sou chorão), muita almofada, colchão no chão, do jeito que eu e a Talita gostamos, espero que goste também.

Quando descobri que a Talita estava grávida de você, fiquei um pouco perdido, não entendi direito e até hoje estou um pouco assim, acho que só vai cair a ficha quando você nascer. Por enquanto vou cuidando da Talita, ela enjoa o dia inteiro, não importa o que façamos. Mas, está bem divertido, você já está com 15 semanas e tem um cabeção! Sua mãe não gosta, mas se você puxar à mim, esse cabeção vai continuar, rs.

Fomos visitar uma casa de parto essa semana, provavelmente você nascerá lá. É muito bacana, os funcionários são atenciosos e bem preparados, o quarto é confortável, e se tudo der certo, seu parto será natural e no dia que você escolher. É isso mesmo, você nem fala ainda e já respeitamos suas escolhas. Uma das coisas que eu e a Talita temos é respeito um pelo outro e agora respeito por você, Zigo, você não virá com plateia e hora marcada. Preciso te contar um segredo: na volta de nossa visita, depois de ver todas as coisas sobre o parto, a Talita chorou hahaha, não sou só eu o chorão da casa, viu? Depois a gente tira um sarro da cara dela juntos.

Ainda não faço ideia de como serei como pai, provavelmente serei um pouco parecido com o meu. Infelizmente você não vai conhecer seu avô Antônio, ele já está com Deus e sinto falta dele. Às vezes era bem bravo, gritava, era mandão, rs, mas tinha um coração enorme, era responsável, pontual, honesto, foi caminhoneiro e também tinha uma Kombi, onde a gente trabalhou bastante tempo juntos, muito legal. Depois te conto mais sobre ele, você vai gostar.

Eu sou apaixonado por atividade física, Zigo, e vou te ensinar muitas coisas legais, principalmente o Muaythai e você vai ver como é sensacional lutar. Tudo bem que até agora eu perdi 2 lutas e ganhei só 1, mas dia 19/11 vou lutar de novo, estou me preparando muito, treinando bastante, vou ter muita história para te contar. Meus amigos de treino também estão ansiosos pela sua chegada, e, já vou te avisando, eles vão te zuar um pouco, porque eu brinco demais com eles, se prepare.

Gosto de cozinhar também. Tudo que você aprender na cozinha, provavelmente, será comigo, porque se depender da Talita, nós 3 passaremos fome, rs. Brincadeira, ela consegue se virar, mas, quem manda na cozinha sou eu.

É isso Zigo, estou escrevendo para que você saiba que será bem recepcionado por mim, sua mãe e também por nossos familiares e amigos. Desde já oramos muito pela sua vida, pedimos para Deus pelo seu futuro, porque viver nesse mundo não é nem um pouco fácil, mas, como Ele cuida de nós, vai ser uma vida plena e feliz. Claro que terão momentos de tristeza, dor, angústia, mas, até você saber se cuidar sozinho, nós vamos cuidar de você da nossa melhor maneira.

Estou ansioso pra te ver logo, não vejo a hora.

Com amor,

David, seu pai e palhaço.”

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Os pais geram no coração

* Ilustração retirada da internet, autor desconhecido.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Não nos deem os parabéns

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‘Mirror’, por Tigran Tsitoghdzyan, óleo sobre tela

 

Não gosto de receber ‘parabéns’ pelo dia das mulheres, nem flores, menos ainda um poema breguinha. E explico por quê:  minha indisposição para sorrisinhos e congratulações não se devem à data em si, que é, na verdade, um marco na história feminina e deve sim continuar no calendário como um memorial de que, um dia, mulheres se recusaram a ser exploradas no trabalho e lutaram por seus direitos como… seres humanos que são. Entretanto, com o passar do tempo, a força dessa data começou a ser diluída e, no lugar, passamos a receber gracejos e elogios por nossa fragilidade (!!), quase como uma declaração do tipo: “sinto por você ter nascido mais fraca, mas veja pelo lado bom, você é bonita!”. Aff!

Quando leio Provérbios 31.10 em diante, respiro aliviada: Salomão entendeu do que somos feitas e, acima de tudo, fez uso da palavra que resume todas as coisas, que atinge o cerne da questão feminina e que responde a pergunta sobre o que eu quero receber no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano e da vida: DIGNIDADE (verso 25).

Pronto! Se fosse dignidade o que regesse nossas relações todos os dias do ano, a mulher não serviria de objeto sexual, não veria seu direito à educação negada em países regidos pelo Talibã, não teria medo de ser estuprada na rua quando seu carro quebrasse no meio da noite (pois é, isso aconteceu ontem mesmo), não seria alvo de piadas, nem de agressão física, nem de preconceitos de diversas naturezas.

A passagem da mulher virtuosa de Provérbios não é apenas uma homenagem (aí sim, genuína e linda e recebo-a no dia de hoje com o coração aberto e feliz) para as mulheres, mas sim uma lição para a humanidade sobre dignidade, respeito e justiça. Se fossem esses os princípios que regessem as nossas relações de fato, os poemas, os ‘parabéns’ ou qualquer outro gesto atencioso não teria esse gosto de coisa forçada, artificial, hipócrita, do tipo você-finge-que-me-respeita-e-eu-finjo-que-acredito. Se aprendêssemos com Provérbios 31, este momento seria mais um dia de celebração natural do amor e da graça de Deus, espelhados através de todos nós sobre todos nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a tal mulher virtuosa

A Bíblia, ao contrário do que muitos pensam, não é um livro (ou um conjunto de livros) retrógrado, desatualizado e completamente fora de contexto. Creio realmente que até aqueles que não acreditam em sua veracidade, e como nós, a têm como Palavra de Deus, poderiam se beneficiar (e muito!) de seus conselhos. Porque se tem uma coisa que o homem está fadado é repetir, e repetir, e repetir os mesmos erros. Indiferente de época, civilização ou cultura. É isso: somos previsíveis!

Linda ilustração de Lady Desidia (ladydesidiashop.bigcartel.com)

Mas, hoje, meu intuito não é esse, aproveitando a data comemorativa, o Dia Internacional das Mulheres, gostaria de discorrer um pouquinho sobre a tal mulher virtuosa que Salomão fala em Provérbios 31 e que também tece tão belos elogios.

O que me chama a atenção logo no início do texto é a cumplicidade que esse casal tem. Ele fala que Seu marido tem plena confiança nela 11 e ao meu ver, confiança, é um dos itens de necessidade básica para qualquer relacionamento, quem dirá em um casamento! Como ser-casal sem ter confiança? Como ser-casal sem ser unidade? Como se relacionar sem confiar? Então, item básico exposto, prossigamos a análise…

Posteriormente, Salomão fala sobre várias atividades domésticas, de administração de negócios (eu disse negócios!), de virtudes altruístas, de habilidades manuais, de não ter medo (e muito menos preguiça!) de trabalhar, de ser acolhedora, do dom da educação, enfim, quando leio dos versículos 12 ao 28, na verdade, eu penso em muitas mulheres! E, com isso, eu não creio que ele esteja falando que uma única mulher, para ser virtuosa, tenha que saber, e fazer, item por item tudo aquilo que ele descreveu, como numa espécie de check-list. Por quê? Porque, para mim, é simples: primeiro que um único dia não seria suficiente para fazer tudo isso, a não ser que essa mulher não dormisse, porém, muito mais do que isso, penso que somos únicas, criadas com tanta criatividade e exclusividade que seria muito chato se fossemos todas idênticas umas às outras tentando ser aquilo que não somos e tentando calçar os sapatos que não são nossos (como já disse a Fernanda em um post tempos atrás).

Por isso, penso que Salomão foi extremamente sábio (e quando criança eu desejei tanto a sabedoria dele!) em discorrer em poucos versículos, as várias mulheres que existem, tomando o cuidado para não excluir a diferença. E, é exatamente aí, que eu vejo a graça desse epílogo: ele fala de mim, mas, fala de você também! Ele não exclui a diferença, mas exalta as qualidades que todas nós temos. Por isso, esse texto é tão belo, porque se há apenas algum item do qual devemos ser idênticas, é o que ele expõe no versículo 30, que devemos temer ao Senhor. Pois, temendo a Deus, acima de todas as coisas, seremos verdadeiramente recompensadas.

Um Feliz Dia das Mulheres para mim e para você!

Gif de Monica Crema: www.monicacrema.com.br
Gif de Monica Crema: http://www.monicacrema.com.br

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Nasci Menina, me pari mulher

O Santa Paciência chegou à minha vida em um momento de re-significações. E aí eu me propus a escrever um texto sobre feminilidade, mas, entendi que, então, eu preciso escrever sobre a mulher que eu quero ser. Como eu vou escrever sobre feminilidade, se eu não entendo bem a minha feminilidade? E esse texto será, na verdade, um parto daquilo que vem sendo gerado há exatos 29 anos na Terra, já que hoje completo minha vigésima nona volta ao redor do sol e entro no meu ano trinta, mais os 9 meses no ventre da dona Nena.

Fiquei pensando nessa mulher que quero ser e aí, me auto boicotei usando uma ferramenta conhecida: racionalizei. Eu racionalizo tudo, tenho resposta pra tudo e dessa vez a resposta foi: Talita, sua tola, você é existencialista, é ser-de-infinitas-possibilidades, nunca deverá se fechar num tipo só, você é o que quiser ser, não fique pensando nisso. Pois bem, de fato eu existo no mundo de formas diversas, mas, eu sinto a necessidade de me apropriar de mim mesmo, ser autêntica, e isso inclui pensar na minha feminilidade.

“Então chegou o dia em que o risco necessário de permanecer apertada em um botão era mais doloroso que o risco necessário para florir”.
(Anaïs Nin)

Sempre tive interesse no tema, provavelmente pelo fato de ter ouvido incontáveis vezes, desde pequena, que eu deveria ser mais feminina. Aliás, creio que escutei demais que eu deveria muitas coisas. Talvez, por isso, cresci me cobrando a perfeição e sendo tão intolerante às minhas falhas humanas e tendo contratura muscular durante a meditação no yoga. Meu Deus, quem é que tem contratura muscular em plena meditação?! Eu tenho. Eu tinha. Eu tive, não quero ter mais.

Nunca tive o perfil de mocinha. Eu gostava de brinquedos, brincadeiras, roupas e várias outras coisas consideradas de menina, mas, eu também gostava disso tudo quando era considerado de menino e eu era, já na infância, segundo meus pais, afiada nas respostas, teimosa, brava, arisca. Não combinava com a delicadeza que era esperada por parte das garotas. Contrariava, impunha minha opinião e não baixava a cabeça pros meninos. Incomum. Meio estranha. Dizem por aí que é porque sou de Peixes, mas eu não entendo muito bem de signos.

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Crédito na imagem

Sei que a cada dia que passa me descubro, me revelo e me desvelo, na tentativa de encontrar meu caminho próprio. Sim, o meu caminho, onde só se encaixam os meus pés, o meu corpo e o meu ritmo. Onde sou apropriada de mim. E ser menininha parece que nunca me foi próprio, embora traga isso em meu nome, nome próprio. Não é engraçado, aquilo que chamamos de próprio não foi escolhido por nós? Nosso nome.  Meu nome é Talita (sem h, pelo amor de Jesus Cristo nosso Senhor amém), uma palavra aramaica, cuja tradução em português é nada menos que menina. Sou-Menina. Nasci Menina. E embora cor de rosa, ballet e frufrus não combinem comigo, tem uma história sobre meu nome próprio que eu adoro, está registrada na Bíblia, em Marcos, capítulo 5. Tá, a história não é sobre meu nome, vai, mas nessa história Jesus falou meu nome num contexto que eu interpreto como fazendo parte de quem eu sou e do que eu tenho entendido como sendo próprio de mim.

Jesus estava passando por vários lugares, curando pessoas, fazendo milagres e mostrando sinais. Então, à beira mar, um cara chamado Jairo, que era um dos líderes da igreja dali da região, implorou que Jesus fosse ver sua filha, que estava morrendo. Jesus foi. No meio do caminho, algumas pessoas cruzaram com eles, vindas da casa do Jairo e falaram pra ele parar de incomodar Jesus, porque a filha dele já tinha morrido. Pessoas agradabilíssimas deviam ser. Jesus virou pro Jairo e disse: não liga pra eles, simplesmente confie em mim (olha, eu já perdi as contas de quantas vezes Jesus me disse isso também). Quando chegaram à casa do Jairo, um bando de gente inconveniente e intrometida ficou no meio do caminho. Jesus deu um fora neles (Ele devia ter umas tiradas sensacionais) e falou pra pararem com o falatório, porque a menina estava apenas dormindo. Aí Ele entrou no quarto da menina, segurou a mão dela e disse: “Talita cumi!”, que traduzindo do aramaico significa: menina, levante!

E é aqui que tudo começa a fazer sentido pra mim e que eu entendo como sendo a história da minha construção, da minha feminilidade e da minha forma de existir-no-mundo. Talvez você se familiarize, talvez ache uma completa bobagem ou talvez se identifique. Seja como for, a questão é gerar a reflexão de que nós, mulheres, não temos um padrão exato em que devemos nos encaixar e plastificar (Já assistiram ao filme Mulheres Perfeitas? E o filme Garota Exemplar? Assistam!). Somos um movimento, uma construção.

 “Seu lugar está entre as flores silvestres
Seu lugar está em um barco em alto mar
Seu lugar está com seu amor em seus braços
Seu lugar está em algum lugar onde você se sinta livre”.
(Tom Petty)

E a sociedade, o machismo, a mídia, as igrejas, as religiões, as novelas, os livros, Hollywood, a Disney, o feminismo, nossos pais e mães, nossos companheiros e companheiras, a líder do nosso grupo pequeno ou do ministério de mulheres, nossos professores, nossos terapeutas, nossos filhos, nossos amigos e amigas, não são os designers, arquitetos, engenheiros, mestres de obra e pedreiros do nosso próprio projeto de existência.

Temos um Criador. E quem trabalha junto dEle somos nós, nessa tarefa árdua e sublime de construção do eu. Conexão direta, pá-pum. Essa galera toda pode e vai atuar como colaboradores terceirizados, mas a responsabilidade de ser e existir autenticamente é nossa, doa o quanto doer e custe o quanto custar. E dói. E custa.

Sim, eu sei de tudo isso desde sempre, mas, nesse contexto sexista em que vivo, fui patinho feio em muitas turmas ao me afirmar uma feminina fora do padrão imposto. Principalmente no meio cristão, porque, veja bem, a chamada mulher virtuosa te parece combinar com o conceito de uma mulher independente, forte e de atitude? Eu aprendi que não. Não a mulher virtuosa da Bíblia, mas o conceito torto que fizeram do que aparece na Bíblia. A mulher virtuosa da Bíblia é hardcore, depois falo dela aqui, também!

Muitas vezes precisamos nos desconstruir e reconstruir a partir daquilo que é verdadeiramente nosso, e não dos nossos pais (o que é feito na nossa criação, nosso desenvolvimento), da sociedade e desses outros agentes que já falei aí em cima. E eu acredito que pra mulher esse trabalho pode ser mais puxado, porque a cobrança em cima de nós é devastadora.

“Deus pôs em seu íntimo uma feminilidade que é poderosa e terna, impetuosa e fascinante. Não há dúvida de que ela tem sido mal compreendida. Certamente, tem sido agredida. Mas está ali, seu verdadeiro coração, e vale a pena recuperá-lo”.
(Stasi Eldredge no livro Em Busca da Alma Feminina)

Já ouvi absurdos de vários tipos (cito aqui só as coisas mais básicas, ok?), como pessoas dizendo que eu ficaria mais bonita se usasse maquiagem, que salto alto valorizaria minhas pernas, que se eu emagrecesse uns 5 quilinhos ia ficar melhor apresentável, que eu deveria ser mais meiga porque boas moças não são enérgicas, que eu tenho muita atitude e isso assusta, que eu tenho um jeitinho determinado que intimidaria os rapazes, que não posso ser muito independente porque homem gosta de cuidar, que não posso ser forte porque homem gosta de proteger, que não posso ser muito segura porque homem se sente inferiorizado, que meu cabelo enrolado e volumoso chama muita atenção e eu deveria alisá-lo. E talvez eu chame tudo isso de absurdos porque se trata justamente do que eu não quero ser como mulher. Eu não quero ser bonita segundo o padrão das revistas de moda, eu não quero ser maternal com os homens, eu não quero ser dependente do meu marido, eu não quero ser o sexo frágil. Também não quero ser caracterizada como masculina por não ser melindrosa, não ser fofa, não ser delicada, por ter firmeza e atitude. O sexismo me dá preguiça, eu só quero ser eu.

E percebo que pra construir minha identidade, não adianta ficar tentando encontrar uma mulher referência. Minha autenticidade está no construir e re-significar, está na minha relação com o Deus que acredito, está na história da filha do Jairo. Isso é o que eu tenho escutado do meu Criador a respeito do modo como minha feminilidade se mostrará própria. A forma como aos poucos me desconstruirei, me livrarei da domesticação a qual fui submetida e poderei me identificar com a mulher saudável que a Clarissa cita no livro Mulheres que Correm com os Lobos, que eu vivo indicando aqui no Santa Paciência:

“Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas pra ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez”.

E quando eu leio isso, eu percebo o quão feminina eu sou, justamente por estar fora do padrão imposto que dita o que é a feminilidade. E lembro da história da filha de Jairo, quando Jesus diz meu nome e ordena: levante! Meu, essa é a mulher que eu quero ser! Que levanta! Que se movimenta como um lobo saudável. E eu fico ainda mais feliz com meu nome, porque mesmo eu não sendo mais uma menina em idade, Deus me olha como uma menina, assim como um pai sempre vê sua filha como uma garotinha, e Ele me diz: levanta! Ele me move pra cima, pra frente, me tira do tédio e me mostra a natureza selvagem dentro de mim que vem dEle, Ele alimenta minha fé.

Lembro de uma frase da Katniss Everdeen no livro Jogos Vorazes (sim, esse livro de novo!):

“(…) Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis”.

Jesus pega minha mão e diz: Talita, levanta!

Mesmo assim, sei que não serei completa até minha passagem da Terra. E isso é ótimo! Eu quero ser ser-em-movimento o tempo todo. Aprender, mudar, re-significar.

 “Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer”.
(Ana Jacomo)

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

(e)Fême(r)a.

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(e)Fême(r)a

anda além alinhando austera

brisa bailarina britadeira bucólica

cantando colhendo calando corajosa

doutrinas disparos dores diamantes

esgueira esguicha escorre encara

fortalecidas flores fabricadas fugazes

gritos grunhidos gatunos gemidos

humana hosana holística Havana

inunda iguala inspira insulta

Joana Julieta Joquebede Janis

Kuwait Kosovo Kyoto Kabul

lunática linguagens lúcidas lugares

mares mirongas mergulhando milhares

noturna nobre navega navalha

orgulha ouve ofusca os olhares

paixão poder perece promete

quarenta quebranta quente quântica

reluz rasga revela resguarda

sangue suor sorriso selvagem

tateia tolera traduz toca

uiva ultraja urbana une

voz vidente viagem vertigem

Wendy Winona Whitney Winnie

Xavantes xinga xereta Xaxim

Yara Yumi Yonara Yoki

zen

(palavras soltas desenhadas numa mente inquieta que deseja com profundidade que a feminilidade seja autenticamente livre em meio à realidade efêmera).

Imagem furtada daqui.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.