Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

httpblogcademeulivro.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Distrito 13, subterrâneo. 
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Annie e Finnick.
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Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
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Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo III.

Meu padrão mental foi se transformando. Consegui me perdoar, pedi perdão a Deus e não só tenho certeza que Ele me perdoou como também ficou bem feliz por eu ter entendido que não era hora de ter filhos e provavelmente nunca seria a hora. Por muito tempo falei que não queria deixar a Terra sem passar pela experiência de construir um ser humano e sempre achei que estava falando sobre maternidade, mas, nesse período entendi que meu desejo se referia ao ser-psicóloga.

Continuei atendendo minhas queridas crianças e sempre aprendendo que ter um filho é muito mais sério que fazer enxoval em Miami ou fotografar a apresentação de Dia das Mães na igreja. É muito mais difícil que trocar fraldas fedidas de cocô ou escolher a decoração da festa de um ano. Dá mais trabalho que escolher o hospital pra fazer cesariana agendada-depilada-maquiada-deunhafeita-e-semcomernada. Exige mais responsabilidade, exige mais tempo, exige mais energia, exige mais, exige.

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Pensa que é só ficar admirando esse olhar arrebatador? Não, não, não…

Entendi que se você não tem paciência, se você não tem disponibilidade de tempo (veja, eu disse tem-po, não dinheiro), se você não se desdobraria e esforçaria ao máximo pra construir decentemente um ser humano, se você não tem paciência de repetir oito mil quinhentas e trinta e duas vezes exatamente a mesma coisa, se você tem preguiça de acordar no meio da noite pra cuidar de criança doente ou não suporta dormir poucas horas mesmo que por só alguns anos, se você é incapaz de amar sem esperar nada em troca, se você não gosta de ouvir e ouvir e ouvir e ouvir e ouvir crianças falando na sua orelha repetida e infinitamente, se você é perfeccionista, se você é incapaz de deixar o celular de lado pra dar atenção pro seu filho, se você acredita em duendes e que são eles que fazem aquilo que você deveria fazer mas deixa de lado: não pode ter filhos.

E entendi que se você tiver todas essas questões e quiser muito ter filho, vai ter que tratar disso tudo antes. Antes. An-tes. E que se você já tem a criança, se vira pessoa, mas vai ter que fazer seu trabalho e bem feito. Terapia, por exemplo, ajuda, acredite em mim. Ajuda pais e ajuda filhos.

E a única coisa que impede uma pessoa de se tornar alguém melhor é uma mente preguiçosa e/ou fechada e/ou limitada. Então, se não for o caso, não arrume desculpas e vai se tratar. Pelo bem do Universo. E é o que resolvi fazer, porque minha mente é até que razoavelmente ativa, aberta e rica em possibilidades. Tento que ela seja, pelo menos. Eu decidi que quero ter um filho e vou tratar disso, em oração e em terapia.

E se você leu até aqui (tem paciência, pode ter filho!), vai entender o que me fez tomar essa decisão.

* Estrelando na foto deste post, o Álef, um dos bebês mais graciosos que já conheci, filho da Luciana Mendes Kim, uma das idealizadoras do Santa Paciência, e do David Kim, ilustrador da nossa incrível arte que representa o Santa Paciência, que me deram a devida autorização de compartilhar a gostosura que tão criando!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo II.

Em Fevereiro fui lá eu tomar a radiação, chateada. Saindo da clínica, fui correr no Parque Chico Mendes. E enquanto eu corria eu batia um papo com Deus e me dei conta de uma coisa horrível: eu não estava triste porque não poderia ser mãe. Eu estava triste porque o meu planejamento tinha ido por água abaixo. Eu não pensei em nenhum momento num bebê fofinho. Eu só pensava que o que eu construí de ideal durante anos era algo completamente volúvel e fora do meu controle. Na real, descobri que eu não estava no controle.

Precisei começar um processo de auto perdão. Me senti um ser humano horroroso por ter criado um plano totalmente auto centrado e até sem sentido, porque a verdade é que eu nem sabia se queria mesmo ter filhos. Vasculhei minha mente e meu coração e notei que quando eu pensava em filhos, eu pensava no tema de aniversário de um ano, no tamanho que minha barriga ia ficar na gravidez, no hidratante que ia usar pra evitar estrias, na cor da parede do quarto do bebê, no berço amarelo… Só. Superficial e com pouquíssimo significado.

E mais, eu amo o silêncio. Eu durmo às 5h e acordo às 12h. Eu me irrito em ter que repetir a mesma coisa 3 vezes pro David, imagine 87952 vezes pra uma criança. Eu costumo chamar fetos de “pequeno Alien” ou “sangue suga”. Eu sou completamente louca pela minha privacidade. Eu não sei cozinhar. Eu não me vejo mãe. Eu nunca senti falta de criança na minha casa. Minha casa já é bagunçada o bastante sem bebê nenhum. Eu morro de nojo de baba. Morro de nojo de baba. No-jo de ba-ba. Eu não gosto de ninguém no meu pé. Eu não devo ser mãe.

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Não é uma delicinha? Mas, não era pra mim. E também não foi porque bebês são umas delicinhas que eu decidi que quero ter um filho :).

O problema é que seis meses após a radiação, minha tireoide estava firme, forte e cheia de nódulos no mesmo lugar de sempre, onde não deveria estar mais. O médico disse que ou eu repetia a radiação numa dose mais alta ou fazia a cirurgia.  Fui pra outro médico. Eu estava cansada, com raiva e sem entender nada. Nesse meio tempo, o David foi desligado do banco onde trabalhou por quase dez anos, a gente ia perder o convênio muito em breve. Muitas mudanças aconteceram, passamos por um vale muito escuro e frio. Eu nunca tinha feito isso, mas antes de chegar no consultório do novo médico eu falei pra Deus: a não ser que o médico diga clara e objetivamente que tenho que fazer a cirurgia, não vou fazer. Se ele não me disser que é a única opção, não vou entender que devo fazer, então, por favor, seja claro, porque eu estou completamente perdida em meio a tantos problemas!

Eu entrei no consultório, falei bom dia, o médico respondeu com outro bom dia, disse pra eu me sentar e pediu os exames. Leu pacientemente os exames e laudos de tudo que eu tinha feito em relação à tireoide nos últimos 4 anos (sim, eu levei tudo). Fechou o último envelope, olhou pra minha cara e disse: cirurgia. Só isso, só essa palavra. Minha fé precária me fez perguntar mil coisas, tirar mil dúvidas, etc. e tal.

Saí da sala do médico com a cirurgia pré agendada e pensando (entre outras muitas coisas): uau! Então é isso, eu não devo ter filhos. Posso ficar em paz, posso aceitar e me tranquilizar. Eu já não queria, eu tinha criado um projeto sem sentido só porque achava que toda mulher devia ser mãe, eu baseei muitas coisas em puro pré conceito e até limitação intelectual, aí eu faço uma porcaria de procedimento que me impede de engravidar (de forma saudável e em paz) por dois anos, isso frustra os meus planos, e então, seis meses depois a cirurgia se torna a minha única opção (o último médico explicou melhor meu caso e disse que a cirurgia não era apenas minha única opção naquele momento, como foi o tempo todo, desde que descobri a doença)?! Deus?! Entendi o recado. Obrigada.

E então, nos últimos três anos eu fui me conformando de que a maternidade não era pra mim e eu estava bem com isso, quando pensava de maneira autêntica. David só me dizia que gostaria de ter um filho, mas comigo e, se eu não queria, ele não fazia questão, não insistiria, não cobraria.

* Estrelando na foto deste post, o Álef, um dos bebês mais graciosos que já conheci, filho da Luciana Mendes Kim, uma das idealizadoras do Santa Paciência, e do David Kim, ilustrador da nossa incrível arte que representa o Santa Paciência, que me deram a devida autorização de compartilhar a gostosura que tão criando!


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.