O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

. . . . . .

1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A identidade que vale mais do que o RG

identidade

– Quem sou eu? Sussurrei para mim dias atrás.
Como num lampejo divino, depois de certo tempo meditando na vida, na minha própria vida, em resposta veio quem eu não era.

Confesso: eu estava tentando adequar a mim algumas características alheias. E ter esse insight me fez pensar como Deus é paciente, misericordioso e extremamente didático comigo. Sempre… Não tenho dúvidas, que esse insight, só pode ter vindo Dele. Em amor (e por amor) Ele me explicou, pela enésima vez, coisas que eu havia, novamente, esquecido durante o caminhar.

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Em São Paulo (capital), ao nos apresentar à uma pessoa que não conhecemos, costumamos falar o nosso primeiro nome e a seguir, conforme a conversa se desenrola, falamos qual é a nossa profissão, onde trabalhamos e o que fazemos para “ganhar a vida”, no sentido financeiro, é claro.

Já em cidades bem menores, seus habitantes costumam identificar-se pela família a qual pertencem. Logo, se você for de uma família abastada e conhecida, com toda a certeza, será visto com “bons olhos”. Agora, se você “só” for a filha do João e da Maria que moram na Rua X que cruza a Rua Y, será, como dizem, “só mais uma na fila do pão”.

“Minha colega de trabalho e amiga Agnes Heller, com quem compartilho, em grande medida, os apuros da vida, uma vez se queixou de que, sendo mulher, húngara, judia, norte-americana e filósofa, estava sobrecarregada de identidades demais para uma só pessoa. Ora, seria fácil para ela ampliar a lista – mas os arcabouços de referência por ela citados já são suficientemente numerosos para demonstrar a impressionante complexidade da tarefa”

Zygmunt Bauman no livro Identidade

Apesar de haver grandes diferenças nas formas de identificação, ora focamos somente em nossos aspectos profissionais e/ou acadêmicos, ora é a nossa descendência que se encarrega de nos definir ao mundo.

Em meio a tais contrastes, todas essas formas de identificação, e por que não dizer de nos enxergar no mundo, na verdade, podem significar a mesma coisa, ou tomamos a responsabilidade por nos identificar ou escolhemos fragmentos de nós para definir quem somos.

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No final de 2014, decidi fazer a mudança mais radical e, aparentemente, mais “sem noção” de toda a minha vida. Finalmente eu havia percebido que, durante muito tempo, eu me definia apenas pelo fazer; criar e executar. Um prato cheio para me contentar em ter minha identidade primária firmada, e totalmente enraizada, na profissão que eu exercia.

Hoje, ao estar em contato com estrangeiros que estão em solo brasileiro, não por escolha, mas por refúgio – pois, foram obrigados a deixar seus lares devido a uma guerra, e com isso, talvez nunca mais retornem a seus lares de origem – começo também a observar, como tantas outras identidades, são transitórias; passageiras. E outras tantas podem ser acrescentadas a contragosto.

E em meio a renúncias optativas e identidades atribuídas, penso o quão mais simples nossa identidade, de fato, é. Esse é o convite de Jesus: “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.30).

“Sempre que os estereótipos ofuscam nossa percepção espiritual, corremos o risco de resistir ao que o Espírito Santo está tentando dizer-nos. Se permitimos que o mundo determine nossa identidade, estaremos nos perdendo no mundo, não nos achando em Cristo”

Karj Torjesen Malcolm no livro A Identidade
Feminina Segundo Jesus

 

“A velha vida de vocês está morta. A nova vida é a vida real – ainda que invisível aos espectadores – com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também. Enquanto isso, estejam contentes com a obscuridade, como Cristo”

Colossenses 3.2-4 – A Mensagem

A minha verdadeira identidade só pode ser achada em Cristo, e através de Cristo. O meu verdadeiro eu está escondido Nele. Portanto, estar Nele é me perceber “nova criatura”, repleta de novas possibilidades: “eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5.17), e é fascinante!

Já não busco mais assumir a responsabilidade para me auto definir: “Pouco importa o que vocês pensem ou digam a meu respeito. Eu não me avalio. Nesse caso, os rótulos são irrelevantes. (…) O Senhor é quem faz este julgamento” (1 Coríntios 4.3–4 – A Mensagem). Pois, sou convidada apenas a ser, e a ser uma com Ele. Nessa comunhão, por vezes, vivo como alguém em constante amnésia buscando a autonomia que tanto me adoece e me leva para longe de Deus, porém, meu consolo é que num futuro breve serei plenamente eu e totalmente restaurada Nele.

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Pra manter ou mudar

Móveis Coloniais de Acaju

Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém

Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu

Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém

Nada do que eu sou me diz o que sei
Nada do que eu sei de fato é meu

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem

Sempre a explicação me diz o que sei?
Sempre que eu sei, alguém me ensinou?

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio,
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente

Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém

Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minha falta de personalidade

mini-q
Ilustração de Mini.Q

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

 

Lindo o poema de Leminski e lindos esses textos todos que louvam a autenticidade, que enaltecem esses que assumem a sua identidade, os que não deixam que outros lhes digam o que fazer ou como ser. Mas me angustio: não tenho a esperteza dessas pessoas. Confesso: eu não sei ser quem sou, porque eu não sei quem sou.

Penso que sou uma amálgama de expectativa alheia com experiências passadas, amores não materializados com amores de sangue. Sou a maquiagem com que me mascaro todos os dias. Se lavo o rosto, me reconheço pouco. Sou virtude e sou pecado. Uma parte de mim é feita de traumas de família e a outra parte, de esperança. Às vezes sei colocar a minha opinião, às vezes, não. Choro sem razão. Danço e pago mico. Sou o vinho sagrado de Joni Mitchell: doce e amargo.  Sou os dois extremos e todos os seus intervalos. Acordo bem, durmo mal.  Sou carente e introspectiva. Sou concha, desconfiada.

Tudo isso pra dizer que não sei ser eu mesma – aliás, o que é ser si mesmo? Porque escolher um traço meu é esconder todos os outros – “toda eu é que não podia”, já dizia a minha Clarice. Se me mostro inteira, não caibo, sobro. Há de se fazer ajustes. Só existe espaço para paradoxos, nunca para oxímoros. Mas sou uma oxímora, fazer o quê? E, se alguém diagnosticar minhas inconclusões como falta de personalidade, já não irei discutir – pedirei à pessoa que leia este texto.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência

 

Feliz Luta Internacional da Mulher

mulher e o lobo 2
Imagem daqui.

Hoje é dia Internacional da mulher e, entre tantas mensagens nas redes sociais, notícias e falatórios, lojas oferecendo rosas às mulheres nas ruas, empresas fingindo que valorizam suas funcionárias e presenteando com “coisas de mulherzinha”, me pergunto se as pessoas realmente sabem o motivo dessa data ter sido instituída e a importância que essa luta (sim, luta, não é comemoração) tem pra toda a sociedade. Se você não sabe o motivo do dia 08 de Março ser estipulado como Dia Internacional da Mulher, vá atrás de saber. Não, eu não vou dar o caminho das pedras, vá ao Google, vá pesquisar. Se você que está lendo isso é uma mulher, digo isso porque faz parte do empoderamento feminino ir atrás daquilo que se quer, tornar-se protagonista das próprias decisões e escolhas, estudar, pesquisar, ir além. Se você que está lendo isso é um homem, faz parte da sua humanidade entender porque é que o dia 08 de Março é um dia de luta e não de entregar flores ou bombons às mulheres.

Pensar no Dia Internacional da Mulher, é, pra mim, angustiante, porque ser-mulher é uma das coisas mais difíceis que existem.

Eu não quero, no dia de hoje, receber flores, mensagens fofas ou declarações de quanto as mulheres são lindas ou poderosas porque “fazem tudo que o homem faz, de salto alto”. Não quero brindes comerciais que só servem pra fomentar a produção capitalista massificante ou enobrecer empregadores que no resto do ano não fazem porcaria nenhuma por suas funcionárias e/ou clientes mulheres. Não quero um jantar chique num restaurante, não quero que seja o dia de “folga dos afazeres domésticos”, o dia que os papais “ajudam” as mamães olhando as crianças pra elas irem tomar um café com as amigas. Não quero ser ressaltada e elogiada por minha fragilidade (hein?), minha capacidade de cuidar de marido e filho (oi?), minha competência de fazer jornada dupla – trabalho e casa (hahaha).

O que eu quero é que meu direito de ir e vir, garantido por Lei, seja respeitado. Eu, como muitas mulheres, sinto medo de ir ao mercadinho perto de casa a pé, porque no meio do caminho tem uma praça que está sempre cheia de homens desocupados que me tratam como objeto e ficam fazendo caras e bocas que me dão vontade de vomitar e de esfaquear cada um deles, fazendo-os sentir muita dor. Eles dizem coisas que tenho vergonha de reproduzir em voz alta. Eles torcem os pescoços pra ver minhas pernas, minha bunda e meus peitos e eu queria que os pescoços torcessem de vez e quebrassem ali mesmo, no meio da praça.

mulher e o lobo
Re-significando a natureza selvagem da mulher. Foto daqui.

O que eu quero é meu direito de existir sozinha. Alguns anos atrás eu saí do meu antigo consultório, às 22h30m, sozinha, depois de trabalhar muito o dia todo. Era semi final da Libertadores e o Corinthians estava num momento histórico. Meu marido foi assistir ao jogo com amigos e eu preferi ir pra casa, mas, antes resolvi passar no mercado e comprar o jantar. No estacionamento, quando terminei de colocar a última sacola no porta malas, um homem e uma mulher (sim, existem mulheres ladras e más) me abordaram, avisando que aquilo era um assalto e me fizeram ir dirigindo até a agência bancária mais próxima. Limparam minha conta, apontaram uma arma pra mim, riram de mim, me humilharam, me xingaram, depois me fizeram dirigir até um beco, vazio e desconhecido por mim, saíram do carro levando a chave e me ameaçaram ao dizer que eu não devia procurar ajuda pra sair dali. Sabem o que eu ouvi da minha mãe, da minha sogra, de muitas amigas? “Nossa Talita, mas por que é que você foi ao mercado essa hora da noite sozinha?!” Também ouvi: você devia ter ido assistir ao jogo com seu marido, se estivesse ao lado dele, nada teria acontecido com você. E também ouvi: a culpa é do seu marido, se ele não tivesse deixado (isso mesmo, deixado, como se ele mandasse em mim) você ir ao mercado sozinha, isso não teria te acontecido; você devia ter ido com ele, outro dia, não nesse (sim, porque o marido deixar de assistir o futebol pra ir ao mercado não pode, entendeu?). Eu tinha sofrido um sequestro relâmpago, mas a culpa não era da violência, a culpa não era dos assaltantes, a culpa era minha por ser mulher e ter ido ao mercado sozinha.

O que eu quero é poder realizar as minhas atividades diárias e até passar por imprevistos na rua, sem medo de ser estuprada. Meu carro está com problemas no reservatório de água. Como eu trabalho demais e uso o carro pra trabalhar, ainda não tive tempo de deixá-lo no conserto. Ontem à noite (pois é, eu não aprendo sociedade, eu continuo indo trabalhar a noite, sozinha) estava indo pro trabalho e já tinha vazado, ao longo do dia, toda a água. Não tinha posto de gasolina no caminho (e mesmo que tivesse, eu não pararia, porque uma mulher sozinha não pode ir em paz ao posto de gasolina, os frentistas acham que podem ficar mexendo com a gente no ambiente deles, “masculino”) e então, fui com o carro fervendo até um dos Shoppings onde atendo, e, só lá, no estacionamento, peguei a garrafa de água que já deixei no carro e enchi o reservatório. E ainda tive que me preocupar em estacionar numa vaga próximo à porta de entrada, onde tem guarda e mais movimento. Sim, isso tudo porque sou mulher. Não é o máximo? E aí, no dia 08 de Março vêm me entregar flores? Ah vá.

O que eu quero é que ao invés de brindes como creme hidratante, batom, perfume, rosas, cartinhas coloridas, as mulheres ganhem no dia 08 de Março, de seus empregadores e outras empresas, DVD’s de filmes de grandes cineastas mulheres, como a Sofia Coppola, ou livros de grandes autoras, como a Clarice Lispector ou a Doris Lessing. Por que sempre tem que ser presentinho fofinho que incentiva a beleza física da mulher, e não sua inteligência, sua intelectualidade, seu brilho interno? Por que sempre os produtos de beleza são mais valorizados ou vêm em primeiro lugar, antes de algo que valorize a sabedoria feminina? E aqui eu indico a leitura desse texto, bacanérrimo, que a Ana Lucie – querida leitora do Santa Paciência – me enviou hoje, sobre a Jenny Beavan, ganhadora do Oscar 2016 de Melhor Figurino por Mad Max: Fury Road (história de uma outra super mulher!). Jenny já foi indicada ao Oscar DEZ vezes na categoria Melhor Figurino, já levou a estatueta em duas premiações (por Mad Max, já citado, e por A Room With a View), e recebeu olhares julgadores e tortuosos pura e simplesmente por ter escolhido ir vestida confortavelmente à entrega do prêmio, muito diferente das mulheres exageradamente arrumadas no tapete vermelho mais famoso do mundo. Sério, eu quero muito mais Jennys no mundo!

Beaven
Jenny Beavan, winner for Best Costume Design for “Mad Max: Fury Road”, poses during the 88th Academy Awards in Hollywood, California February 28, 2016. REUTERS/Mike Blake – RTS8H6D

O que eu quero é que os produtores de cerveja parem de usar a mulher como objeto sexual pra atrair mais consumidores homens e se lembrem que as mulheres também são suas clientes, também bebem cerveja.

O que eu quero é que parem de usar mulheres quase nuas como ring girls em eventos de lutas, como o UFC, só pra atrair Ibope pros canais televisivos e pro “show” em si. E quero que mais mulheres lutadoras tenham espaço no esporte de lutas e artes marciais. Quero que homens pensem quinze vezes antes de dizer que alguém mais fraco ou menos habilidoso “luta igual uma menininha”. Quero que entendam que mulher também gosta de esportes, inclusive de MMA, porque esporte é esporte e ponto, não existe esporte de homem ou esporte de mulher.

O que eu quero é que as mulheres tenham direito à educação, direito à voz. Eu já escutei uma moça dizendo que se ela tivesse oportunidade de colocar só um dos filhos em escola particular, seria o menino, porque ele se tornaria o líder da família quando adulto, o provedor, então precisaria ter melhor educação. A filha não, tudo bem estudar na escola pública, mesmo. Não te dá vontade de chorar de tristeza? A mim, dá.

O que eu quero é que meninas em idade escolar não se sintam mal por não serem as populares, as preferidas pelos garotos por alcançarem um padrão ridículo de beleza. Quero que meninas parem de sentir que precisam ser as preferidas dos garotos pra se perceberem como seres humanos importantes. Quero que meninas tenham a oportunidade de crescerem seguras, aceitas, queridas, antes de tudo, por si mesmas.

O que eu quero é que deixe de existir esse acúmulo terrível de notícias sobre feminicídio, sobre homens e mulheres que matam suas parceiras por ciúme e possessividade, que espancam suas esposas porque se sentem poderosos e superiores, que violentam física e emocionalmente meninas, tirando delas a liberdade de crescer em uma vida em paz.

O que eu quero é valorização no trabalho. Não é mais destaque, não é mais firula, é reconhecimento daquilo que as mulheres já fazem o tempo todo. Quero que as mulheres não sejam mais assediadas sexual ou moralmente por seus chefes (homens ou mulheres). Quero que tenham salários baseados em suas competências, não no que tem (ou não tem) no meio das pernas. Quero que mulheres não sejam fantoches de homens.

O que eu quero é respeito, entendeu? Quero que as mulheres sejam tratadas com dignidade. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres com educação e gentileza, com presteza, com afeto. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres como seres humanos que são, co-existentes no mundo. De forma justa. Quero mais mulheres empoderadas, quero menos homens babacas.

Quero mais mulheres como a descrita em Provérbios 31. Essa mulher hardcore, como eu disse aqui uns dias atrás.

Se você pegar a Bíblia e ler decentemente o que está escrito em Provérbios capítulo 31, do versículo 10 até o 31, vai entender que a mulher que Salomão (um homem, sim, um homem, um rei, descrevendo características de uma mulher “de valor”; baixa a guarda e presta atenção) descreveu como virtuosa não é uma cafona, bobalhona, amélia, domesticada (no sentido ínfimo de cada palavra). Ele já começa dizendo que a bendita é difícil de achar. Ou seja, se é difícil de achar, também é difícil ser, certo? Certo. Depois ele fala que essa mulher vale mais que diamantes. Que ela é confiável, tem temperamento equilibrado, é inteligente, não é do tipo que é passada pra trás, é esperta. É analítica, de mente organizada, planeja, não tem medo de trabalhar pesado e sente alegria e prazer no trabalho. Não tem pressa de dar o dia por encerrado e compreende o valor do que faz, compreende o valor que tem. Ela se cuida, se preocupa com si mesmo e também não demora em ajudar quem precisa dela, sendo que sempre tem o que oferecer, porque é prevenida e habilidosa. Faz as coisas com zelo, é criativa, intuitiva e sabe bem o que faz e o que diz. É atenta, sabe dar orientações eficazes e conselhos sábios. Torna quem está ao seu redor produtivo e sempre encara o dia de amanhã com um sorriso. É humilde e vive no temor do Eterno, seu Deus.

lucia e aslan
Aaah, Aslan! (Cena do filme As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian)

Percebe que essa descrição bíblica combina com o conceito de uma mulher forte e de atitude? Pois é, combina. Percebe que é o conceito de mulher que não é obrigada a casar e ser mãe pra ser feliz, que trabalha e garante seu sustento, que vai atrás do que quer, que não fica à sombra dos homens? Percebe que é uma mulher que brilha? Isso é o que eu quero pra mim e pra você, querida mulher, hoje e todos os dias.

Feliz Luta Internacional da Mulher.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.