Um desabafo e um apelo às feministas cristãs

Esta semana chegaram em minha timeline dois ou três artigos falando sobre o crescente número de evangélicas que têm aderido ao feminismo. Se por um lado essa notícia é de animar, uma vez que esse tabu finalmente tem sido quebrado no meio cristão (demorou, não?), por outro, existe um discurso rançoso e insistente nas entrelinhas de algumas entrevistas que tratam desse assunto, que é o seguinte: a Bíblia é ultrapassada e não pode ser levada a sério. Tudo ali deve ser relativizado. Agora me respondam vocês, companheiras na causa e na fé: por que precisamos colocar em xeque o caráter sagrado das Escrituras para validar o nosso discurso? Por quê???? (perdoem-me pelo excesso de interrogações, mas preciso deixar bem expresso aqui o grau da minha indignação).

A não ser que eu seja muito ignorante mesmo, essa necessidade de estabelecer uma dicotomia entre a Bíblia como verdade e o feminismo, a fim de justificar a aderência das cristãs ao movimento, não entra na minha cabeça de forma alguma. Eis algumas considerações e textos retirados da Bíblia, que explicam o tamanho do meu espanto:

  • Pelo que eu entendo do feminismo, trata-se, essencialmente, de um movimento que luta por respeito e direitos iguais entre os gêneros. Sei que existe uma vertente mais radical, que preconiza a superioridade do gênero feminino sobre o masculino, mas imagino (e me corrijam se eu estiver errada), que não é isso que o feminismo como um movimento mais abrangente defende, uma vez que o que o move é o ideal de justiça. E olha só o que diz a Bíblia: Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gálatas 3.28, negrito meu).
  • Só o texto bíblico acima já daria conta de justificar a causa feminista mais abrangente. Mas aí virão algumas dizer sobre o versículo famoso de Paulo sobre o casamento, que propõe a submissão da mulher em relação ao marido (Efésios 5.22). Vou repetir o que muitos já disseram: continue lendo que você verá que o marido, em troca, deve amar tanto a mulher, que deve estar disposto a dar a própria vida por ela (são vááários versículos sucessivos que reforçam isso, a partir do 5.25). É como minha amiga Fernanda Pinilha falou: relação de submissão é diferente de relação de opressão. Uma relação movida por um amor puro como o descrito nesse texto do apóstolo Paulo certamente cria um ambiente propício para ambos encontrarem seu espaço. Submissão, neste texto, definitivamente significa respeito (só ver o resumo de tudo no verso 33) e respeito é a cola básica de qualquer união.
  • Podíamos passar parágrafos e mais parágrafos citando exemplos do protagonismo de certas mulheres em diversas narrativas bíblicas (as próprias reportagens sobre o feminismo entre as evangélicas já citam alguns exemplos, como as mulheres que divulgaram a ressurreição de Jesus), mas é fato que o machismo é presente na maioria das histórias que compõem as Escrituras, principalmente o Antigo Testamento. Mas companheiras queridas, vamos ser bastante lógicas neste momento: estamos falando de sociedades ancestrais, cujas organização familiar e mentalidade não podem, de maneira alguma, ser analisadas tendo como referência, base, teoria ou o que quer que seja a mentalidade da cultura ocidental atual. Isso seria como querer tratar uma doença típica daquela época, como a hanseníase (vulgo lepra), com uma medicação desenvolvida nos dias de hoje – ou seja, impossível! Simplesmente a igualdade entre os gêneros não existia como possibilidade de problematização para as pessoas daquela época. Cada sociedade tratava a mulher da forma como entendia ser o certo e ninguém questionava isso, fazer o quê? Isso não quer dizer que a Bíblia endosse esse comportamento específico. Ela apenas o retrata, com as virtudes e as mazelas típicas da história de qualquer povo.
  • Agora que já passamos pela questão da Bíblia e vimos que – ufa! – ela não está dissociada da causa feminista abrangente, vamos à questão que, aí sim, é de um machismo evidente: a participação das mulheres na igreja. Aí o nosso olhar não está mais sobre o que Deus acha disso, mas como as pessoas dentro de uma igreja lidam com isso. Como não sou homem, não sei explicar tamanha resistência em abrir espaço para as mulheres ocuparem (a não ser no ministério infantil, claro): seria medo de elas falarem besteira? De se destacarem? Ou então falarem demais? Sensualizarem enquanto lideram? Não serem suficientemente inteligentes? Algumas amigas e eu já especulamos um pouco o assunto e chegamos a pensar que todo esse medo denota uma insegurança do homem frente a uma mulher, em termos de sexualidade mesmo. Bom, como eu falei, são só especulações e não afirmações. Apenas os homens podem analisar suas motivações para barrarem tanto a contribuição feminina em postos de destaque na igreja. Só espero que eles não continuem recorrendo à Bíblia para justificar um preconceito ou uma dificuldade que está dentro deles próprios e não em outro lugar.

Mulheres cristãs feministas, que bom que vocês existem! E que papel importante estão desempenhando dentro de uma realidade que deveria ser, por essência, igualitária, justa e graciosa! Não deixem a causa. Nem a fé. Porque a causa sem a fé pode gerar extremismos e distorções e a fé sem a causa deixa tudo como está dentro das igrejas: um monte de mentes femininas brilhantes e cheias do Espírito sendo desperdiçadas por preconceito injustificável.

Que a fé no Autor das Escrituras nos leve à oração e à união para que continuemos a influenciar nosso contexto.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

 

Fui machucada pela Igreja… mas a história não acaba aí

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja. No meu caso, a igreja que eu frequentava era a minha segunda casa, para a qual eu segui, voluntária e feliz, todos os fins de semana, durante 20 anos. Ali eu fiz melhores amigas, aprendi a cantar em coral, a amar os idosos, a ajudar quem carecia de recursos, a respeitar pessoas diferentes de mim, a guardar segredos, a desenvolver minha concentração por longo tempo. E foi dentro das salas dessa mesma igreja que as raízes do Cristianismo se fincaram no solo fofo e fértil da minha alma.

Um dia, essa mesma igreja me golpeou duramente. Eu havia confessado a uma pessoa um pecado bastante grave, que a envolvia diretamente, e ela, desnorteada pela minha confissão e precisando de ajuda, contou ao pastor e a outras pessoas da igreja. Logo, a notícia se espalhou como piolho em cabeça de criança e eu comecei a receber e-mails e telefonemas em casa. Alguns, mais sensíveis, me perguntavam como poderiam me ajudar, enquanto outros foram duros e me ofenderam de formas diversas (houve até quem quisesse me bater). Perdi cabelo, passei a pesar 47 quilos e entrei em depressão. Minha situação se tornou assunto de assembleia (reuniões que todos os membros da igreja fazem, de tempos em tempos, para tomar decisões sobre questões que envolvem a igreja) e depois algumas amigas me contaram como foi pesado… alguns choraram por mim, outros quiseram apagar o meu nome da lista de membros. Por fim, o pastor sugeriu que meu nome permanecesse e assim foi por alguns meses. Em um contexto desconfortável assim, era natural que eu deixasse de frequentar aquela igreja.

Nunca me isentei da responsabilidade pelo pecado que cometi. Ao mesmo tempo, por anos seguidos, fiquei sentindo a ferida da humilhação sofrida naquela igreja sangrar em mim. Mas uma coisa que sempre esteve clara é que a atitude de muitos ali nada tinha a ver com o perdão e a graça de Jesus Cristo. É óbvio e esperado associar os cristãos a Cristo. Mas seria muito ingênuo achar que os cristãos possam ser menos falhos do que os demais seres humanos. Vivo na pele o fato de que nós, cristãos, temos dúvidas e, por uma ansiedade indescritível de amar e seguir a Jesus, nos confundimos ao tentar praticar seus ensinamentos. Alguns se apegam às leis como cachorro em osso, porque sabem que são as leis que vão mantê-los seguros dos desejos egoístas de seu coração. Outros acham que o sacrifício e a graça de Cristo valem o mesmo que banana na feira e saem por aí pecando como se não houvesse amanhã. E tem também aqueles maduros na fé (cujos sermões a gente ouve várias vezes e fica maravilhada com tanta coisa linda e profunda), que conseguem colocar Graça e Lei na mesma balança, de forma a equilibrar as duas e balizar sua vida nesse equilíbrio.

Não teve pecado e nem fofoca fortes o suficiente, que tenham feito eu desistir da Igreja. Depois que me recuperei da situação em que me envolvi, encontrei uma nova casa espiritual, uma nova igreja, onde fui recebida com carinho. Eu podia e queria começar de novo. Recebi de Deus novos melhores amigos, novas músicas, novos idosos para amar, novos necessitados para ajudar e pessoas ainda mais diferentes para lidar. É ali que meus irmãos na fé e eu insistimos em entender e aceitar a Graça e entender e aceitar a Lei. Entre acertos e erros, cuidamos uns dos outros, amamos uns aos outros. Porque Cristo sabe do que somos feitos e, ainda assim, fez de nós o seu próprio Corpo. A Igreja – distribuída em igrejas – não é um erro de Deus. É a chance que Ele nos dá de não nos conformarmos conosco mesmos – seja na rigidez de nosso julgamento ou na flacidez de nosso caráter. A Igreja é a nossa escola de fé, a nossa família imperfeita e amada, o nosso centro de treinamento da alma e é natural que, de um grupo de seres humanos que tentam acertar, saiam erros. Mas a Igreja é o nosso espelho. Ela e eu somos a mesma coisa. Suas imperfeições são as minhas imperfeições. Seus acertos são os meus acertos. É por ela que Cristo deu a sua vida e é nela que escolho investir os meus dias.

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que já machucou a Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que pode curar e ser curada pela Igreja.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O que você quer?

Escrever sobre o livro O que você quer?, da escritora norte-americana Jen Pollock Michel, lançamento da Ultimato aqui no Brasil, significou um mundo de coisas para mim. Primeiro, porque esta é a primeira resenha que escrevo aqui no blog; segundo, porque sou apaixonada por livros; e último, mas não menos importante, porque eu mesma quero me tornar uma escritora um dia. Assim, se apenas por comentar sobre a obra de outra pessoa já me dá um frio gostoso na barriga, imagina só a insônia que eu não vou sofrer quando eu escrever o meu próprio livro e ele for comentado por alguém. Vai ser incrível!

o-que-voce-quer
Nosso exemplar :)

A empatia que senti pela Jen, a escritora, desde o início, não diz respeito apenas à nossa paixão comum, a escrita. Logo nas primeiras páginas de seu livro, já percebi que tínhamos, pelo menos, mais duas afinidades: a tendência de escrever de maneira informal, como no blog, e a predileção pelas confissões. É reconfortante ler que outra pessoa também passa por perrengues emocionais e espirituais, bem semelhantes, aliás, aos meus. Dá uma sensação de irmandade, como se a autora fosse uma grande amiga minha e escrevesse para me mostrar que eu não estou sozinha.

Outro ponto empático entre nós duas aconteceu quando entendi qual seria o tema do livro: o desejo. Está aí um tema comum à raça humana inteirinha, mas que pouco é discutido nas igrejas. Segundo a autora, o desejo, no contexto eclesiástico, geralmente é visto como essencialmente mau, logo, deve ser suprimido do vocabulário e do imaginário dos membros como peste em plantação. O problema é que não adianta fingirmos que o desejo não existe, porque somos feitos dele. Desde bebês, somos guiados pelo que sentimos vontade e esse impulso tão primário tem muito a dizer sobre quem somos e quem nos tornamos. Se não o encaramos de forma honesta é porque o tememos. O grande desafio para nós todos – e que Jen enfrenta com profundidade – é encontrar o lugar do desejo dentro da proposta de Deus para a humanidade.

O que você quer? é um livro belamente tecido de forma a nos convencer de que o querer, em si, não é um problema, mas algo natural e bom: embora facilmente corrupto, o desejo é bom, correto e necessário. É uma força motora na nossa vida, um meio de transporte (p. 200).  E não só isso – a autora defende também que temos total liberdade de dizer a Deus o que queremos. A oração é o ato corajoso de colocar nossos desejos autênticos diante de Deus (p.116).

Mas se engana quem pensa que esse livro é uma apologia ao desejo desenfreado e inconsequente:  é-nos concedida a coragem de querer, mas também nos é concedido o entendimento de que obter o desejo do nosso coração, quando esse coração é idólatra, pode ser a nossa maior tragédia (p.200).

E é nesse equilíbrio entre as visões sobre o desejo, juntamente com um embasamento bíblico incrível, que Jen Pollock Michel fala diretamente ao nosso coração, nos confortando com a esperança de que não somos ETs dentro do Corpo de Cristo por assumir o que queremos, mas sim seres feitos por Deus para desejar.


*O básico do livro:
O que você quer?  – Desejo, ambição e fé cristã
Título original em inglês: Teach Us To Want
Autora: Jen Pollock Michel
Editora Ultimato
224 páginas

** As ilustrações deste post foram retiradas da página da Editora Ultimato no Facebook.
*** Agradecemos à Editora Ultimato pelo presente.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.