Grata pelo silêncio

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Ilustração de Mi-Kyung Choi, que assina como Ensee.

 

Gosto do silêncio. Não ter uma opinião sobre tudo, não precisar discutir sobre tudo, não polemizar pelo prazer de polemizar é mesmo um presente. Um presente suave, pacificador. E é uma arte também, eu diria. Como é desafiador dominar a língua!  Ou os dedos, no caso de um post ou comentário de rede social. Parece que esses membros do corpo nos têm sob controle, que são eles quem mandam em nós. É a tirania do “se penso e tenho algo a dizer, tenho que dizer, senão essas palavras vão acabar me sufocando”. Mas será que realmente temos algo a dizer? Será que o que temos a oferecer para os outros não são apenas palavras que se organizam em uma ordem linear, de modo a fazer sentido de alguma forma? Porque isso é fácil e… totalmente dispensável.  Será que as pessoas realmente precisam da minha opinião sobre tudo? Porque se o que tenho para oferecer não for algo novo, que acrescente, que construa, que una, que desafie, que seja um convite para transpormos o mesmo de sempre, por que opinar? Proponho um teste: fiquemos offline por alguns dias e depois nós entramos e vemos se alguém sentiu falta dos nossos posts e comentários. Poucos sentiriam. E tudo bem. Porque não saber, não conhecer a fundo certos assuntos, não estar presente em tudo e não ser apto para opinar é saudável, humano e realista. Somos limitados mesmo – não somos Deus para conhecer tudo – e que bom por isso. Já pensou se a nós fosse dada a grande responsabilidade de carregar o mundo nas costas? Ainda bem que podemos nos dar ao luxo de nos silenciar. E esperar. E refletir. E não entender. É um alívio.

Nesses dias, tenho permanecido em grande silêncio. Olho para dentro e pouco encontro o que dizer. Confesso que esse estado não tem sido fruto apenas da reflexão que fiz acima. É um silêncio de falta também, o que pode ser um pouco mais triste. Para mim, que vejo na escrita o meu combustível de vida, ficar em silêncio por puro vazio é bastante estranho. Mas até em horas como essas, aprendo. Aprendo sobre humildade, sobre não ser indispensável, sobre outras formas de significar o mundo (agora mesmo observo um tucano pousado na araucária ao lado de casa), sobre o estar e ser apenas. Suspensa. Dependente e pendente no fio de prata da vida.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Parem o mundo que eu quero descompressurizar

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Criar, educar e amar um filho (não necessariamente nessa  ordem) têm sido uma tarefa tão desafiadora para mim, que me  deixa, por vezes, exausta. Não disponho mais das mesmas horas  de sono, nem do mesmo tempo livre – que, quando existe, é  dedicado a uma brincadeira ou um passeio mais longo com o bebê  –, nem do mesmo pique para frequentar festas ou eventos cheios  de gente. Minha vida nunca foi tão corrida e dependente da minha  atuação como agora.

Mas existe algo que tem o poder de me desgastar ainda mais do que os cuidados inerentes à maternidade: a realidade do mundo. Pessoas impondo sua visão sobre as outras, sob o argumento de que discordar é intolerar ou discriminar, polêmicas estéreis infindas sobre partidos políticos, teologias, o chef de cozinha que falou mal do brigadeiro, o cantor que pediu mais respeito em seus shows. Greves, guerrilhas, tragédias, desemprego, deseducação, carências, melindres, preconceitos sufocados pela ditadura do politicamente correto (e os politicamente corretos jurando que estão vencendo o preconceito, como se ele fosse um problema fácil assim, de superfície, quando o buraco é bem mais embaixo, onde poucos têm acesso).

Obviamente que, globalizados como estamos, esses e outros problemas não são exclusividade do Brasil, mas reverberam em maior ou menor grau por todos os continentes. A questão não é brasileira, mas humana. E é aí que me bate um cansaço, uma preocupação, uma tensão nos ombros: o que será de nós??

O convite de Jesus, então, aparece como um alívio, uma esguichada de água em dia quente, uma coca gelada com limão para acompanhar a feijoada: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28). Sério mesmo, Jesus? Sério que posso chegar até você e ter todo o peso do mundo retirado dos meus ombros: pressão, prazos, polêmicas, mimimis e todo o resto??

E, assim, numa oração, sou descompressurizada.

O convite de Jesus ao descanso é autenticamente democrático. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, pode aceitá-lo e usufruir de seus efeitos. É revigorante e, de quebra, nos torna bem preparados e ativos para retornar ao cenário do caos.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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