O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

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1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um texto confessional

liberdade

Comecei e recomecei esse texto tantas vezes, que não consigo pensar numa introdução decente, então vou deixá-lo apenas fluir.

Ele é confessional porque trata de um assunto que, embora resolvido dentro do meu coração há tempos, precisava ser expulso do resto de mim, de dentro do meu corpo todo, como se fosse o último suspiro pra minha tão desejada liberdade de espírito.

Tenho rascunhado esse expurgo na minha cabeça ao longo de quase nove anos, o mesmo tempo que tenho de casada, que é uma data que marca, em mim, um recomeço, um novo eu, o início da minha desconstrução e ressignificação do ser.

Na verdade, ainda não o havia escrito de vez, tampouco publicado, porque ele também fala de pessoas a quem amo e prezo, e que podem se sentir expostas. Não é minha intenção expor nenhuma delas, nem pro mal nem pro bem, nem pra julgamento algum. Nem ofender, nem desrespeitar. De antemão já me desculpo se isso acontecer, mas é realmente importante que isso tudo me deixe em paz também em matéria, não só no meu cérebro ou no meu coração. Aliás, é bem disso que se trata tudo: desculpas. Desculpar-me. Tirar de mim culpas que cresci recebendo e acolhendo, mas que nem eram minhas, na realidade. Já adianto: eu vou falar sobre abuso. Abusos. Os que sofri. Tenho batalhado pra que mulheres possam se recuperar de abusos sofridos e que não permitam mais nenhum, principalmente de parceiros, mas, existem vários tipos de abuso e eles não vêm só de parceiros, mas também de pais, mães, irmãos, amigos, chefes, sogras, homens e mulheres, vem de todo lado. Sofri todos esses. Deles que estou me libertando e é dessas pessoas que vou falar no texto e que não é minha intenção expor, porque amo e respeito e permanecem na minha vida, mas, que muito tempo já se passou, o perdão já aconteceu, eu já amadureci, a vida já seguiu e não sinto mais que preciso me preocupar em proteger ou defender certas coisas.

Agora eu tomei a decisão de enterrar tudo isso de vez por um motivo muito simples: estou pra parir (literalmente, estou com 40 semanas e 1 dia de gestação) um menino, o Dominic, que está chegando num momento de vida de renovo e esperança. Esses últimos dias são bastante reflexivos e fiquei pensando: “eu sei que o Dom vai ter sua própria impressão de mim, como ser humano e mãe dele, mas, que ideia eu gostaria de passar pra ele?”. E eu cheguei à conclusão que eu quero passar a ideia de uma pessoa curada. Esse termo, curada, veio pra mim em diversas formas: livre, autêntica, sem amarras, perdoada, restaurada… Mas, resumi tudo nele: curada. A publicação desse texto será a minha alta desses quase nove anos internada pra me recuperar e transformar. E preciso dizer que, embora eu estivesse com bastante receio da possível exposição que citei acima, estou me sentindo feliz e aliviada em compartilhar.

Aproveito pra dizer que, sendo um assunto resolvido, o texto não se trata de algo explicativo, e sim expositivo. Minha intenção é curtir minha alta e também ser útil pra qualquer outra pessoa que se identificar com o conteúdo, mas, não é um assunto aberto a diálogo, justamente porque tudo que precisava ser dito e ouvido já foi dito e ouvido e como eu disse, é confessional e é também liberativo, então, quando eu der o ok pra postar, eu não quero nunca mais tratar de nada disso, porque não há mais nada a lidar, agora é só seguir em frente, em paz. Se você sentir vontade de deixar um comentário, faça isso, mas compreenda que não haverá resposta. Se você sentir vontade de falar comigo a respeito do que ler, você é livre pra falar e eu sou livre pra ficar em silêncio.

Quando a gente pensa em abuso, o mais comum é associar a algum tipo de violência física, principalmente sexual. Não foi o meu caso. Os abusos que sofri foram psicológicos. E veja que interessante, eu tenho certeza absoluta que muitas pessoas não chamariam minhas experiências de abuso! Elas dirão que sou exagerada, revoltada, ingrata, que estou aumentando, que estou fazendo tempestade em copo d’água, que sou má, que não perdoei de verdade, que sou injusta… A famosa culpabilização da vítima, sabe?

E por que tenho essa certeza? Porque muitas pessoas pra quem contei algumas coisas ao longo desses anos me fizeram exatamente essas afirmações. E aí, em vez de encontrar acolhimento e apoio, eu recebia mais uma pá de culpa em cima da cabeça. Graças a Deus eu sou persistente e não parei meu processo de ressignificação até sentir que estava tudo acabado. Não é fácil, não vai ser fácil nunca, mas, a sensação de alívio é sensacional e não permito que ninguém tire ela de mim, mesmo que o preço a pagar seja altíssimo.

O interessante do abuso é que ele vem camuflado de muitas formas e começa muito cedo, geralmente dentro de casa e principalmente (mas, não somente) contra meninas. O abuso é sempre um tipo de desrespeito. Então, a verdade é que todos nós, em algum momento da vida, abusamos de alguém. Horrível, né? É.

Minha primeira lembrança de desrespeito é a de ser tolida. Eu sou uma pessoa naturalmente questionadora e subversiva e fui, literalmente, domesticada. Primeiro, pelos meus pais. Depois, isso foi se afirmando com amigos e amigas, chefes, pastores, até mesmo minha sogra.

Tive uma criação extremamente possessiva e controladora e isso feriu gravemente minha autoconfiança. Mas, como as pessoas chamavam isso? Excesso de amor, proteção e cuidado, então, meus pais estavam absolvidos e mais uma vez eu me sentia culpada, porque, além de achar aquilo tudo horroroso, ainda estava sendo ingrata por não saber receber amor. Nunca me senti rejeitada, é um fato, mas eu não tinha liberdade de existir. De coisas “simples”, como não ter trinco na porta do quarto (minha mãe tirou, pra que ela e meu pai pudessem entrar e sair quando quisessem) a mais complexas, como ser seguida pelos meus pais e observada enquanto tomava um açaí com uma amiga da faculdade (isso mesmo, faculdade, eu já tinha dezenove anos de idade nessa ocasião específica) achando, inocentemente, que finalmente meus pais confiaram em mim pra passar algumas horas sem a supervisão deles. Você pode dizer que essa atitude é natural, mas não é. Não podemos romantizar o abuso. Excesso de controle e possessividade não são provas de amor, são abusos.

Outra forma comum de abuso é ser, persuasivamente, silenciada. Quando eu tinha seis anos, entrei no pré escolar. Um certo dia, meus pais foram me buscar na escola e calmamente me explicaram, no carro, que naquela escolinha também estudava a minha irmã mais nova. Mas, que aquilo era um segredo de família. Eu podia até conversar com ela, mas ninguém podia saber que ela era minha irmãzinha. Eu tinha seis anos de idade e fui convencida de que era normal meu pai ter uma filha que não era filha da minha mãe, que a gente podia estudar juntas, que tudo estava bem, que nossa família era maravilhosa, mas que eu tinha que tomar o cuidado de não contar pra ninguém que ela era minha irmã. Ficou bagunçado isso, né? Imagine na minha cabeça de criança. Depois, ao longo dos anos eu vi meu pai dar socos, puxões de cabelo, empurrões e tapas na minha mãe, mas, no fim da noite ela mandava a gente ir falar “te amo e dorme com Deus”, porque tudo estava bem e não tinha nada a dizer ou resolver ou explicar. Claro, sempre lembrando de não contar pra ninguém. Na verdade, nem era preciso dizer pra não contar pra ninguém. Sabe aqueles “assuntos ocultos”? A coisa tá lá, mas se você não mencionar a coisa, a coisa não existe. Porque, se depois daquelas cenas eu via minha mãe colocar a comida no prato e servir meu pai no jantar e no fim da noite minha mãe mandava ir falar “te amo e dorme com Deus”, como se nada tivesse acontecido, é porque nada aconteceu, não é? É.

Tudo era bizarro demais, mas eu estava tão envolvida no abuso (sem entender, obviamente, que era um abuso), silenciada desde tão pequena, que parecia óbvio não contar pra ninguém. Até que uma vez eu contei. Não adiantou nada, porque não acreditaram que aquilo era possível. Simples assim. Não acreditaram, então não aconteceu. Não acreditaram porque fora de casa, na igreja, o porta retrato era de família unida e feliz, com pais superprotetores e filhos limpinhos e grudados nos pais. Com dezessete anos eu vi meu pai quase bater na minha mãe de novo e foi a primeira e última vez que falei com ela sobre o assunto. Eu disse: se eu vir ele encostar em você, eu vou chamar a polícia. Lembro até hoje a cara que ela fez, de espanto e indignação. Como resposta eu ouvi que ela estava decepcionada comigo, que nunca imaginou que uma filha pudesse fazer isso com o próprio pai, que eu era uma ingrata por sequer pensar naquilo e que meu pai era um marido ótimo pra ela, um pai maravilhoso pros filhos e que fazia tudo por nós. Eu senti revolta, amargura, espanto, tristeza, confusão, tudo ao mesmo tempo. Eu lembrava, mesmo, de tantas coisas boas que ele fazia, mas, então, aquelas coisas boas davam liberdade pras coisas ruins, que hoje eu chamo de abuso? E se estava tudo tão bem, por que passava pela minha cabeça que se aquilo era um casamento maravilhoso, eu desejava morrer solteira? Bagunça. Culpa. Tava tudo errado, mas eu era uma ingrata. Culpada. Meu Deus, como eu pude? Eu ia mesmo chamar a polícia contra meu pai? Má.

Entrei na dança de culpar a vítima, porque minha mãe mentia e escondia coisas, como o valor do troco ou o fato de que tinha de novo, fumado escondida. Então se ela falava pro meu pai que gastou R$9,90 quando, na verdade, tinha gasto R$10, era normal ele ficar bravo, não era? E quando ela jurava por Deus que não tinha fumado escondido, mesmo cheirando a cigarro e com o maço de cigarro achado na bolsa e ele ficava com raiva e tinha um acesso de fúria, ele estava na razão dele, não estava? Eu aprendi na igreja que eu tinha que perdoar, então por que mexer naquilo? Era só perdoar e esperar o próximo dia chegar. Tava tudo bem. Te amo e dorme com Deus.

Tudo isso pode parecer muito simples e sem grande significado, principalmente porque é verdade que nunca passei fome, sempre tive casa, ganhei muitos presentes e comi muito chocolate. Mas, a verdade é que cresci com autoestima baixa, acreditando que homens tinham poder sobre mim, que tudo bem esconder coisas de um marido, que tudo bem um marido me bater ao descobrir algo que escondi, que era normal as pessoas me tratarem mal e que eu não devia falar dos meus incômodos com ninguém porque na verdade era tudo coisa da minha cabeça e eu seria ingrata e injusta com os envolvidos, caso falasse. Aprendi que a igreja pode fechar os olhos pra coisas feias só pra não manchar a imagem de boazinha. Eu cresci acreditando que era errada, culpada e egoísta por ser diferente da maioria das pessoas, por não gostar do que todo mundo gostava e por ser indignada. Não tinha segurança em mim mesmo, acreditava que qualquer pessoa tinha mais valor que eu. Acreditei que era chata, porque pensava muito diferente da maioria e que pensar diferente era errado, o certo era seguir o rebanho. Aprendi que devia dizer sim pra todo mundo, porque isso era ser legal e boa. Acreditava que devia ser capacho, porque Jesus mandou dar a outra face e que as pessoas podiam fazer o que quisessem comigo, mesmo que me magoassem, porque Jesus mandou perdoar setenta vezes sete e tudo bem as pessoas errarem comigo um milhão de vezes sem se preocupar em tentar acertar, porque isso não importava, o que importava é que eu devia perdoar. Aprendi que era normal um namorado sentir ciúmes e mandar em mim, porque isso era prova de amor e cuidado. Aprendi a não falar sobre abuso, porque poderia expor as pessoas e quebrar a boa imagem delas. Aprendi que uma pessoa poderia me deixar profundamente triste com alguma atitude, mas, que se ela chorasse na frente dos outros, coitada, ela tava arrependida e eu era muito má por achar aquilo uma grande falsidade.

E aí, o resultado foi:
* Que eu emprestava sapato pra amiga e ela devolvia pisado em cocô, mas se eu reclamava era chamada de chata e me sentia culpada: abuso.
* Minha irmã jogava lixo onde eu tinha acabado de fazer faxina e eu ajoelhava pra limpar de novo, quieta, ouvindo ela dizer que meu lugar ela ali, no chão, e eu acreditava porque era minha irmã mais velha dizendo: abuso.
* Minha chefe me humilhava na frente de todos os outros funcionários e ao invés de responder eu ia pro banheiro chorar, porque devia respeito aos superiores: abuso.
* Minha sogra telefona comigo recém operada, dizendo que não era pra eu pedir pro meu marido fazer nada por mim naquela situação, porque ela não queria que o filho dela tivesse trabalho comigo: abuso.
* Minha amiga se auto convida pra uma festa de colegas meus, com a desculpa de que eu sou tímida e preciso da ajuda dela, mas, quando ela é convidada pra uma festa ela não me chama dando a mesma desculpa de que é porque eu sou tímida: abuso.
* Sou coagida pelo meu pai quando começo a namorar, com ele dizendo que se eu aparecer em casa grávida ele sai da igreja por minha causa: abuso.
* Escuto da esposa de um pastor que quando o marido quer a esposa tem mesmo que “dar”, não importa se está com vontade ou não, é melhor “dar” pra evitar problema: abuso.
* Escuto da minha sogra, durante o namoro, que ela quer combinar um dia pra ir em casa me ver fazendo uma faxina, pra ver se eu vou limpar direito a casa do filho dela: abuso.
* Sou criticada por ter um pensamento analítico, crítico e muitas vezes ácido, quando o esperado é que eu seja fofinha e sou cobrada a ser fofinha: abuso.
* Ser chamada de chata por dar a minha opinião contrária a alguma coisa que a maioria é a favor: abuso.
* Meu pai me diz que vai ser difícil pra uma criança ser meu filho, porque eu sou brava, chata e ruim: abuso.
* Eu sou acusada de ser egoísta e arrogante por não seguir padrões de comportamento: abuso.
* Minha mãe diz que não importa que eu não goste de chupetas, na casa dela meu filho vai chupar chupeta de qualquer jeito, porque ela gosta e vai dar: abuso.
* Eu escuto de outras mulheres que minha sogra tem razão em me tratar do jeito que bem entender, afinal ela deu à luz o amor da minha vida: abuso.
* Recebi trilhões de vezes, goela abaixo, à força, comentários inconvenientes e ofensivos e intromissões não solicitadas: abuso.
* Escuto julgamentos e recebo dedos apontados na cara e olhares tortos por (agora) ser decidida, bem resolvida, autêntica e livre: abuso.
* Eu escuto de várias pessoas que ninguém vai gostar de mim porque eu tenho um “jeitinho diferente”, de questionar, brigar e “ser do contra”, quando eu deveria ser mais dócil: abuso.
* Se eu sou gorda tô errada, se eu sou magra tô errada, se eu concordo eu tô errada, se eu discordo eu tô errada, se eu abro a boca eu tô errada, se eu tô certa eu tô errada: abuso.

E eu poderia escrever mais dez páginas sobre tantos tipos de abusos que sofri, por crescer aprendendo com meus familiares, com a igreja e com a sociedade em geral que eu devo desculpas pra tudo e pra todos, que eu não tenho direito sobre meu corpo, que eu devo aceitar ser silenciada, que se alguém me fez mal a culpa é minha, que eu devo esconder assuntos indigestos… Que eu estou errada por ser quem sou. Que eu deveria ser diferente, porque muitos não gostam de como sou.

Mas a questão é que hoje eu tenho trinta anos, tô pra parir, sou graduada e pós graduada, casada, adulta… Ou seja, não importa mais o que fizeram comigo ou por mim, agora o negócio é comigo. Agora eu sou responsável pela minha vida, por fazer minhas próprias escolhas e tomar minhas próprias decisões. A fase de menina se foi, e por mais machucada que eu possa ter sido, agora é minha responsabilidade me curar. Não tem mais a ver com meus pais, com amigos abusivos, com chefes pilantras, com sogra controladora, com imposições da sociedade, com gente amarga e infeliz que se aproveita dos outros pra se auto afirmar e se sentir melhor. Agora eu decido o que permito ou não, como vivo minhas experiências, o peso que dou pro que já vivi. Agora eu quem defino o meu caminho. Não tenho raiva de nenhuma dessas pessoas, nem mágoa, rancor, ou sei lá mais o que poderia sentir de desgostoso.

Nesses anos eu passei por um processo de restauração. Muita terapia, muita oração, muita conversa com gente mais madura e que me respeitou a ponto de me ajudar a encontrar minha liberdade, minha autenticidade, minha propriedade. E a sensação de não dever nada pra ninguém é incrível. A sensação de não ter mágoa de ninguém é mais incrível ainda. Deus é muito louco e o perdão é algo sensacional. Cada abuso que sofri, de todo tipo, doeu muito. Ouvir coisas que ouvi marcaram minha alma. Passar por coisas que passei arrebentaram comigo de várias formas. Mas, quando eu me disponibilizei pra ser curada, Deus agiu. Quando fui atrás de me amar e me respeitar e dei minha cara à tapa pra crescer e amadurecer, meus olhos se abriram. Quando me despojei da necessidade de aceitação e parei de acreditar em qualquer pessoa e coisa, percebi que a opinião dos outros sobre mim não importa, mesmo que esses outros sejam aqueles que me deram vida, ou meus irmãos, ou amigos com quem cresci ou os familiares do meu marido. 30 anos, quase parindo, tenho mais paciência não.

E então eu me senti livre. Livre pra ser chamada de chata sem sentir dor, livre pra não aceitar quando tentarem despejar lixo emocional em mim, livre pra quando tentarem me desrespeitar saber qual é o meu valor. Autoestima é uma delícia. Como eu disse, não é fácil e nunca vai ser. Muita gente não entende a liberdade do outro. Muita gente não percebe que está desrespeitando o outro e muita gente percebe, mas não está nem ligando pra isso.

O que eu quero é viver leve. Decido não acumular mais abusos e desrespeito. Essa decisão vai fazer com que eu não seja convidada pra festas e eventos sociais? Beleza. Vai fazer com que pessoas se afastem de mim por eu não fazer todas as suas vontades? Maravilha. Vai fazer com que me achem chata? Sou. Vai fazer meu círculo de amigos ser minúsculo? Perfeito. Vai fazer apontarem o dedo, julgarem e criticarem? Tá tudo bem. O preço é alto, mas eu assumo bancar, porque ser livre dessas amarras existenciais é saboroso demais. Sabe a frase da Frida, “onde não puderes amar, não te demores”? Eu ouso adaptar pra “onde eu não sou respeitada, não me demoro”. E tudo bem mesmo, porque ninguém é obrigado a gostar de mim. Não forcemos a barra, não torturemos uns aos outros. O mundo é tão grande, tem tanta coisa pra se fazer nessa vida que acaba tão rápido. Não sejamos otários.

Não seja um babaca com o outro só porque ele deve ser tolerante com você. Não erre com o outro só porque ele deve te perdoar. Não espere por mais amor, tenha mais bom senso. Não espere mais do outro, faça mais, você.

Não seja um abusador, ou uma abusadora.
Se você sofreu algum tipo de abuso, siga em frente, se cure disso, se trate, resolva, supere, banque o custo, se livre dessa amarra. Peça ajuda, vá pra terapia, tome um passe, sei lá, mas não permita mais. Não aceite mais, não se cale, não tenha medo. Deixa chamar de louca, de exagerada, de ingrata, do raio que for, mas viva leve. Respire leve. Tenha alta da internação.

Assunto encerrado.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Eu já fui Marta

"Outgrowing the Comfort Zone" [Kathrin Honesta]
“Outgrowing the Comfort Zone” [Kathrin Honesta]
Sim, eu já fui Marta.
Ao nascer, recebi outro nome, o meu verdadeiro nome, mas já adulta fui me transformando.
Sem perceber, fui perdendo minha identidade, me descaracterizando, deixando de ser eu mesma. Buscava reconhecimento na realização de tarefas. Achava que minha identidade seria definida pelo fazer e não em ser. Ser autêntica. Ser eu mesma. Apenas Ser.

Me alienei no trabalho, no tal: ambiente “controlado” e “seguro”. Nada escapava do meu controle. Quando algo, começava a escorrer pelas minhas mãos, eu agarrava bem forte e fazia o impossível para mantê-lo sob a minha atenta e vigilante inspeção.

Eu trabalhava bastante. 44 horas semanais, muitas vezes, eram insuficientes. Afinal, o e-mail do fornecedor na China não podia esperar. Por isso, muitas vezes, depois de uma jornada de quase 10 horas em um escritório, eu chegava em casa e a primeira coisa a fazer era abrir meu e-mail corporativo e garantir que tudo fosse respondido e nada ficasse por fazer. Muitas vezes, era via celular mesmo, no trajeto trabalho-casa. Ficar offline, o que era isso?!

Reconheço que todo esse meu “profissionalismo” foi muito mais fuga, somado ao desejo de aceitação, do que qualquer outra coisa. Eu fugia da minha realidade, que não era nada controlável e sequer algum dia seria, para não encarar de frente meus anseios, faltas e expectativas. Eu me enganava e já não sabia ao certo quem eu era e porque fazia o que fazia. Até que compreendi o verdadeiro engano em que me meti.

Hoje, eu já não sou mais Marta.
Apesar de me inspirar em Maria1, sua irmã, já não quero ser ninguém além de mim mesma. Mas, como ela, também quero escolher a “melhor parte”, me deleitar aos pés de Cristo e escutar o que Ele tem a me dizer.

Como é libertador ser eu mesma e tudo bem não saber, tampouco achar que é minha responsabilidade saber, o que é melhor para mim. Na real, é bom viver na própria pele que habita em mim.2

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Referências:
1Lucas 10:38-42
2Referência ao filme de Pedro AlmodóvarA Pele que Habito

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liberdade em amar

Drowning in Thoughts - Kathrin Honesta
Drowning in Thoughts – Kathrin Honesta

Semana passada, em uma quarta-feira a noite, pós-trabalho e num dia de chuva em São Paulo, tive o privilégio de me reunir com pessoas queridas, em um clima extremamente aconchegante, com comidas, risadas e bate-papos sobre a vida. De quebra, ouvimos também algumas canções, somente voz & violão, que comunicavam letras profundas em melodias sensíveis. E, entre uma música e outra, a história da canção nos era contada, revelando contextos, anseios e lutas daquele que se apresentava à uma roda de amigos tão diversificada.

O tempo foi passando e muitos pensamentos borbulhavam dentro de mim. Me senti extremamente grata por estar ali, escutando e refletindo sobre tanta coisa que, há tempos, venho colocando em xeque em minha vida. Dentre tantas reflexões, a que mais me marcou, me deixando pensativa durante o resto da semana, foi sobre a necessidade de ser (e sentir-se) amada. Estevão Queiroga, antes da canção O Preço do Amor, falou sobre essa expectativa, que constantemente nutrimos e geralmente depositamos nossa felicidade. Mas, por mais esforço e empenho que eu exerça, não tenho garantias que o outro irá me amar, não posso controlar tal ação.

 

“Ainda penso que, se nosso amor significa simplesmente um anseio de ser amados nosso estado é bastante lamentável”

Os quatro amores – C. S. Lewis

 

Assim, a inversão dessa lógica pode fazer mais sentido: em vez de buscar ser amada talvez seja melhor amar… É isso! Óbvio! Mas, muitas vezes, é tão negligenciado por mim o fato que sou chamada a amar.

  • Sou chamada a amar porque Ele me amou primeiro. 1 João 4.19
  • Sou chamada a amar porque Seu amor foi tão grande que Ele entregou-Se por mim. João 3.16
  • Sou chamada a amar porque Ele é Amor. 1 João 4.16

Com isso, não acredito, tampouco estou querendo dizer, que devo negar por completo tal desejo – o de ser amada. Mas, creio que, o que o Estevão quis dizer e o que Deus insistentemente nos mostra é que EU JÁ SOU AMADA Mateus 3.17. E amada de um jeito que ninguém, somente Ele, pode me amar. Portanto, não devo entrar numa busca frenética por aceitação. Não posso me contentar com tão pouco, quando Jesus me ensina que Ele tem TUDO para me oferecer, pois Ele É a fonte de vida, a verdadeira água viva que mata minha sede existencial. Também, não estou querendo dizer que, devo me abster e desejar o celibato para o resto da minha vida, não é isso! Mas preciso, constantemente, sondar meu coração para compreender minhas (reais) motivações e intenções em qualquer relacionamento. Pois, enquanto eu estiver buscando felicidade desta maneira, em relacionamentos diversos, conforme a história da mulher samaritana nos mostra, estarei buscando completude em poços que secarão e fatalmente voltarei a sentir sede.

PS: Obrigada Vila, Raquel, Eva & Mathias e Janssem pela hospitalidade e tempo de qualidade <3

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.