Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Estou de mudança, de novo

Remedios Varo (1908-1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana - Tela: Tránsito en Espiral (1962)
Remedios Varo (1908 – 1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana — Tela: Tránsito en Espiral (1962), essa imagem foi a capa da edição brasileira (2014) do livro de Santa Teresa d’Ávila “As Moradas do Castelo Interior”

Estou de mudança, de novo.
Mudando de apartamento para casa, da zona norte para o centro de São Paulo. De vizinhos e companheiras de viagem. De renúncias para novas oportunidades. De ares e paisagens.

Estou de mudança, de novo.
– E quem é que permanece sempre igual e no mesmo lugar? Faço a pergunta a mim mesma quase em voz alta.
– Talvez mudar (geograficamente falando) possa ser uma espécie de experiência-metáfora do que acontece dentro da gente e que Deus permite e nos chama a viver. Penso, mas desta vez, sinto um nó na garganta e envolta a algumas incertezas a Voz interna, paradoxalmente, me acalma e me envolve em uma extrema alegria, não há como negar, é Ele, dentro de mim, mudando as coisas de lugar*.

Estou de mudança, de novo.
Mas desta vez, também, caminhando para novas moradas, dessas que não estão localizadas em bairros, ruas ou avenidas, tampouco são feitas de tijolos e cimento. Estou caminhando para as moradas que se encontram nesse enorme Castelo Forte**, que é Deus.

Aprendendo a desapegar, a cada mudança, do supérfluo.
Deixando, quer dizer, tentando deixar a bagagem mais leve. Assim, fica mais fácil de respirar…
Já posso até ver e sentir o peso desse fardo menor, mesmo em meio a alguns apegos, que ainda teimam, em mim, ficar.

Sei, que estou longe, bem longe de onde Ele gostaria que eu estivesse, ainda me faltam muitas e muitas milhas – talvez, eu ainda caminhe por passagens bem estreitas, desérticas e hostis. Talvez ainda, durante o meu longo (ou curto, quem sabe?!) percurso de uma vida toda, eu tenha que enfrentar muitos, ou poucos, obstáculos. Não sei. Mas o que importa, o que realmente importa, é que tenho a certeza que sempre haverá um oásis para matar minha sede e restaurar as energias gastas durante a viagem.

Minha alegria é saber que Ele me aguarda (e guarda) mesmo em meio a tanta incerteza minha. E lança fora todo o meu medo e me ajuda – diariamente – a não desistir, a persistir e olhar só para Ele, que é o mais puro, sincero e verdadeiro Amor.

“No Amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor”

1 João 4:18

“…sabemos que temos almas; mas que bens possa haver nesta alma, ou quem está dentro dela, ou seu grande valor, isso poucas vezes levamos em consideração, e assim nos preocupamos tão pouco em conservar sua beleza com todo o cuidado. Tudo se limita para nós ao grosseiro engaste ou muralha deste castelo, que são nossos corpos. Pois consideremos que este castelo tem, como eu disse, muitas moradas, umas no alto, outras embaixo, outras nos lados, e no centro, no meio de todas estas está a principal, que é onde ocorrem as coisas mais secretas entre Deus e a alma”.

Santa Teresa d’Ávila
As Moradas do Castelo Interior,
Primeiras Moradas: Capítulo 1

Santa Teresa d’Ávila (1515 – 1582) em seu livro As Moradas do Castelo Interior nos ajuda a usar a força da imaginação para fazer compreender quem é o ser humano e quem é Deus. A imagem do castelo não é estática, mas dinâmica. É uma viagem ao interior, na qual superamos os obstáculos exteriores que nos impedem de entrar no castelo e cujo caminho prosseguimos sem parar, até chegar a “morada central, onde habita o Rei, sua Majestade” – trecho retirado do Prefácio à edição brasileira feita pelo Frei Patrício Sciadini, o.c.d. do livro.

 

 

*trecho da música Casa de Palavrantiga
**menção ao hino Castelo Forte escrito por Martinho Lutero em 1529

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Ao Personagem que nem a J.K. Rowling conseguiria criar

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“A palavra cria mundos”, dizia uma ilustre professora da faculdade. Para mim, que cursei Letras por amor à escrita, uma declaração dessas me levava ao êxtase. E ela, para exemplificar e dar base à sua afirmação, citava o mito* bíblico da Criação, em que a ação criativa de Deus é toda materializada a partir de palavras imperativas (“Haja luz”, “Façamos o homem à nossa imagem”, entre outras diversas ordens divinas narradas em Gênesis 1). Assim fez também o homem na literatura e de palavras arquitetonicamente combinadas surgem universos inteiros, como o do Senhor dos Anéis, de Tolkien e Ulisses, de James Joyce.

É incrível pensar que nós herdamos uma faísca de milésimo do potencial criativo de Deus e, à nossa maneira e do jeito que bem entendemos, conseguimos reproduzir realidades ficcionais que envolvem tudo o que a nossa imaginação alcançar: homens remendados que voltam à vida, outros que chupam sangue alheio, outros ainda que se mantêm jovens enquanto seu retrato pintado é que envelhece e outros que se transformam em baratas (óbvio que a literatura não conta apenas histórias envolvendo seres humanos; eu é que não consegui pensar em mais possibilidades de mundos criados pelos escritores. Puro bloqueio meu).

Como alguém que sonha em escrever livros um dia, eu adoro reparar no estilo do escritor enquanto leio. Fico babando na profundidade que Dostoiévski coloca nos seus personagens mais simplórios ou no modo afiado com que Kafka mostra, pela ficção, as armadilhas que construímos para nós mesmos. E os livros do Salman Rushdie, então? Eles têm cor, cheiro e gosto! E se tudo isso nos emociona e nos proporciona viagens a lugares onde aviões não chegam, o que diríamos se uma palavra viesse à existência, como algo mais real do que tudo o que já experimentamos? Já imaginou o Tolkien criando o Gandalf e ele cruzando o seu caminho como atendente do banco do seu bairro? Ou então a Emília e o Visconde de Sabugosa na fila do pão? Ou Sr. Tumnus, o fauno das Crônicas de Nárnia, te dando uma multa por estacionar na ciclovia? Iria ser, no mínimo, incrível.

E o que era incrível, de fato, aconteceu. Uma palavra, ou melhor, a palavra mais importante e cheia de significado que poderia existir em qualquer idioma ou dialeto do mundo se materializou. E não, não era um holograma. Era um ser de osso, carne e pele. É o que nos conta João**:

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. […] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Mais uma vez, a Fonte de todo poder criativo interferindo na nossa história, mas agora, não para criar um ser além de si mesmo como aconteceu na criação do mundo, mas Ele próprio, ao preencher um corpo, veio para conversar com as pessoas, abraçar e ser abraçado por elas, jantar na casa delas, chorar com elas e oferecer a elas sua mais sincera amizade, com um amor sem limites. O Personagem-eternamente-existente, que desde a origem de tudo era, ainda é e que para sempre será, entrou na dimensão finita do tempo para nos encontrar e nos dizer que não se esqueceu de nós. E a história dele não acaba depois de 100 ou 200 páginas (ou mais de mil, pensando na extensão das Escrituras). A história dele perdura nesta vida e na vida que nos aguarda para além desta, quando faremos uma festa com todas aquelas criaturas absolutamente impensáveis (a ponto de deixarem qualquer magizoologista*** da J.K. Rowling estupefato), que compõem a comunidade celeste.

A esse Personagem todo o meu respeito, meu reconhecimento e minha devoção no dia em que comemoramos o seu nascimento e em todos os outros dias da minha vida.


*mito – utilizado aqui não no sentido de lenda ou mentira, mas de uma narrativa antiga, que faz uso de simbologia para explicar fenômenos diversos.

**João – discípulo de Jesus, autor do último dos quatro Evangelhos, que recebe seu nome. Os trechos citados são de João 1.1 e João 1.14.

***magizoologista – estudioso das criaturas mágicas dentro da série Harry Potter. O mais famoso deles é Newt Scamander, autor do livro Animais fantásticos e onde habitam, ensinado em Hogwarts.

A imagem usada neste post foi retirada daqui.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O que você quer?

Escrever sobre o livro O que você quer?, da escritora norte-americana Jen Pollock Michel, lançamento da Ultimato aqui no Brasil, significou um mundo de coisas para mim. Primeiro, porque esta é a primeira resenha que escrevo aqui no blog; segundo, porque sou apaixonada por livros; e último, mas não menos importante, porque eu mesma quero me tornar uma escritora um dia. Assim, se apenas por comentar sobre a obra de outra pessoa já me dá um frio gostoso na barriga, imagina só a insônia que eu não vou sofrer quando eu escrever o meu próprio livro e ele for comentado por alguém. Vai ser incrível!

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Nosso exemplar :)

A empatia que senti pela Jen, a escritora, desde o início, não diz respeito apenas à nossa paixão comum, a escrita. Logo nas primeiras páginas de seu livro, já percebi que tínhamos, pelo menos, mais duas afinidades: a tendência de escrever de maneira informal, como no blog, e a predileção pelas confissões. É reconfortante ler que outra pessoa também passa por perrengues emocionais e espirituais, bem semelhantes, aliás, aos meus. Dá uma sensação de irmandade, como se a autora fosse uma grande amiga minha e escrevesse para me mostrar que eu não estou sozinha.

Outro ponto empático entre nós duas aconteceu quando entendi qual seria o tema do livro: o desejo. Está aí um tema comum à raça humana inteirinha, mas que pouco é discutido nas igrejas. Segundo a autora, o desejo, no contexto eclesiástico, geralmente é visto como essencialmente mau, logo, deve ser suprimido do vocabulário e do imaginário dos membros como peste em plantação. O problema é que não adianta fingirmos que o desejo não existe, porque somos feitos dele. Desde bebês, somos guiados pelo que sentimos vontade e esse impulso tão primário tem muito a dizer sobre quem somos e quem nos tornamos. Se não o encaramos de forma honesta é porque o tememos. O grande desafio para nós todos – e que Jen enfrenta com profundidade – é encontrar o lugar do desejo dentro da proposta de Deus para a humanidade.

O que você quer? é um livro belamente tecido de forma a nos convencer de que o querer, em si, não é um problema, mas algo natural e bom: embora facilmente corrupto, o desejo é bom, correto e necessário. É uma força motora na nossa vida, um meio de transporte (p. 200).  E não só isso – a autora defende também que temos total liberdade de dizer a Deus o que queremos. A oração é o ato corajoso de colocar nossos desejos autênticos diante de Deus (p.116).

Mas se engana quem pensa que esse livro é uma apologia ao desejo desenfreado e inconsequente:  é-nos concedida a coragem de querer, mas também nos é concedido o entendimento de que obter o desejo do nosso coração, quando esse coração é idólatra, pode ser a nossa maior tragédia (p.200).

E é nesse equilíbrio entre as visões sobre o desejo, juntamente com um embasamento bíblico incrível, que Jen Pollock Michel fala diretamente ao nosso coração, nos confortando com a esperança de que não somos ETs dentro do Corpo de Cristo por assumir o que queremos, mas sim seres feitos por Deus para desejar.


*O básico do livro:
O que você quer?  – Desejo, ambição e fé cristã
Título original em inglês: Teach Us To Want
Autora: Jen Pollock Michel
Editora Ultimato
224 páginas

** As ilustrações deste post foram retiradas da página da Editora Ultimato no Facebook.
*** Agradecemos à Editora Ultimato pelo presente.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulherões da literatura

C.E.Chambers
Ilustração de C.E. Chambers, 1900

 

Tenho pensado bastante sobre a relevância das mulheres no campo das artes e do pensamento. O motivo das minhas reflexões é o paradigma (para não dizer preconceito) de que elas não se interessariam por assuntos muito profundos. Infelizmente, uma grande parte delas, de fato, não toma a iniciativa de procurar seu espaço ao sol entre os produtores e difusores de conhecimento e cultura, o que só acaba reforçando a fofoquinha de que somos meras manequins de vitrine. A boa notícia, porém, é que não precisamos abdicar de nossas características femininas mais intrínsecas (ai, se uma feminista queer me ouve!!) para produzir coisa boa. Se você não acredita no meu argumento, sugiro que leia com atenção a seleção que fiz de cinco mulherões que arrasaram na literatura, enriquecendo o mundo com suas ideias e críticas e escrevendo com o que todas nós temos em comum: muita beleza.

  1. Doris Lessing

Filha de britânicos, Doris Lessing nasceu no Irã e cresceu no Zimbábue. Seu livro mais famoso,  O carnê dourado, se tornou leitura obrigatória e referência para as feministas. Eu li outro clássico dela, O sonho mais doce, e o que me chamou a atenção foram as suas personagens femininas, sempre progressistas, social e politicamente engajadas e de personalidade forte. Nas histórias das mulheres criadas por Lessing, não há espaço para perfumaria.

  1. Flannery O’Connor

Uma das mais importantes contistas norte-americanas do século 20, Flannery O’Connor imprimiu em seus contos muitos dos seus valores cristãos. Temáticas como culpa e redenção são retratadas de forma profundamente reflexiva e autêntica. Também abordou temas sociais, como o racismo. Sua escrita é bem descritiva e, por isso mesmo, perfeita para ser degustada sem pressa, numa construção detalhada de cada uma das ricas imagens. Duas características fundamentalmente femininas que você certamente encontrará impressas na obra de O’Connor: sensibilidade e sagacidade. Alguma identificação?

Dica de conto: Tudo o que sobe deve convergir (tem o conto com esse nome e tem uma coletânea de contos que leva esse nome também. Indico tudo.)

  1. Ingrid Jonker

Ingrid Jonker foi uma poetisa sul-africana e é justamente a poesia que a torna tão feminina. Seus poemas lhe renderam pouco reconhecimento em vida e muitos amantes, dos quais dois eram importantes escritores de seu país. Foi quando Nelson Mandela leu seu poema A criança (morta a tiros por soldados em Nyanga) no dia de sua posse, em 1994, é que Jonker finalmente recebeu o reconhecimento merecido. O que mais me toca nela é a sua capacidade de transformar a crítica social e racial em versos sublimes e perturbadores. O filme Borboletas Negras conta uma parte de sua história.

  1. Virginia Woolf

Não poderia deixar de citar aqui a mais melancólica de nossas autoras, a inglesa Virginia Woolf. O que marca em suas obras é o fluxo de consciência – técnica literária de transcrição dos pensamentos de um personagem em toda sua complexidade e não-linearidade. Para quem gosta de dar mergulhos profundos na existência e não tem medo das angústias que inevitavelmente vai encontrar por lá, os contos e romances de Virginia Woolf são ideais. Sua obra mais conhecida e minha recomendação para você começar a gostar da escritora é Mrs. Dalloway.

  1. Clarice Lispector

Sou suspeitíssima para falar da Clarice. Se combinarmos aqui entre nós de deixarmos todas as máscaras de lado, prometo que não terei vergonha de dizer que ela foi tudo o que eu queria ser na vida: linda, inteligente, talentosa, mãe de dois (até hoje só tive coragem de me tornar mãe de um), enigmática e por aí vai. Como comentei uma vez com um amigo, sua escrita não é um dom, é um milagre. E, ao contrário do que muita gente afirma, sua linguagem não é assim tão difícil. A questão – e é aqui que entra a sua característica mais feminina – é que Clarice verbaliza o que se passa na alma e não no intelecto. Logo, alcançar o íntimo de suas obras exige boa dose de entrega. Você tem que se abandonar (e desistir de ficar interpretando tudo ao pé da letra) e deixar-se ser preenchida por toda a beleza e profundidade de seus textos. Como fã incurável de Clarice, eu garanto: a viagem vale muito a pena!

Dicas de contos para começar: Tentação e Felicidade Clandestina.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Espelho, espelho meu

“… o ego quase sempre dói. Isso acontece porque há algo muito errado com ele. Algo inacreditavelmente errado. O ego vive chamando a atenção pra si mesmo – e isso todos os dias. O tempo inteiro, o ego exige que avaliemos nossa aparência e a maneira em que somos tratados.” 1

No livro Ego Transformado, Tim Keller discorre sabiamente sobre a deplorável condição do nosso ego. A meu ver, uma das sacadas geniais foi ele ter trazido o significado da palavra utilizada por Paulo, em 1Coríntios 4.6, que no português foi traduzida por orgulho, mas que no grego physioo tem o sentido literal de superinflado, inchado, distendido além do tamanho normal 2. Ou seja, ele faz a metáfora do ego como um órgão humano distendido após receber uma enorme quantidade de ar 3 e que foi-lhe bombeado tanto ar, que o órgão está superinflado e prestes a explodir. Está inchado, inflamado e expandido além de seu tamanho normal 4.

Foi exatamente aí que essa comparação me surpreendeu e me ajudou a enxergar melhor como lutamos diariamente para que esse “órgão” não inflame e que pare de receber tanto ar que não possa mais suportar, nos causando então grande dor posteriormente.

Claro que Keller vai muito além… Aprofunda, traz outras referências, conceitos e reflexões. Mas se eu pudesse reduzir a um parágrafo o “segredo” para uma visão menos embaçada, mais clara e honesta sobre o assunto, eu me arriscaria a dizer que o ideal é ter um conceito correto e equilibrado sobre nós mesmos.

Com isso, gostaria de esclarecer que não quero em hipótese alguma dizer que sua obra não deva ser lida, muito pelo contrário! Pois, além de ser um livro de linguagem simples e rápido de ler, ao meu ver deveria ser leitura obrigatória para todo e qualquer cristão.

Ok, mas o que é ter um conceito correto e equilibrado sobre nós mesmos?

Primeiramente, é reconhecer que somos t-o-t-a-l-m-e-n-t-e dependentes de Cristo, em tudo. Sem Ele somos miseráveis, dignos de compaixão, pobres, cegos e estamos nus (Apocalipse 3:17). É simples: sem Sua maravilhosa graça, seríamos e estaríamos inflando nossos egos a todo vapor. Aliás, faço um adendo aqui: não é porque sou cristã, que eu não tenha que lidar com meu ego superinflado ou que não tenha que lutar com a síndrome das aprovações alheias. É o Narciso nosso de cada dia! Mas a diferença é que, como cristã, eu devo buscar essa saciedade em Cristo.

Depois, é reconhecer que a humildade verdadeira que brota do evangelho significa ter o ego satisfeito, não inflado. Trata-se de algo absolutamente singular. Estamos falando de autoestima elevada? Não. De baixa autoestima? De jeito nenhum 5. Ou seja, esse equilíbrio sobre quem eu sou, eu só posso e só consigo encontrar nEle.

“(…) Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu” (Romanos 12.3).

Então, estamos falando que não temos que ligar para o que os outros pensam sobre nós? De certa forma, sim. Mas a diferença é que eu também não devo ligar para o que eu mesma penso sobre mim. Esse é o ponto. E é aí que Keller mais uma vez me surpreende e traz algo que eu não tinha elaborado muito bem. Pois, o único que pode me julgar é Cristo (1Coríntios 4:3-4), é Ele quem me sonda e me diz quem sou. É Ele o único capaz de mostrar minhas virtudes e vaidades. E mais: Ele é o único que pode me justificar.

“Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da Lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3.21-24).

 

Notas – informações retiradas do livro Ego Transformado – A humildade que brota do evangelho e traz a verdadeira alegria:
1 citação retirada da página 18
2 citação retirada da página 16
3 citação retirada da página 16
4 citação retirada da página 16
5 citação retirada da página 35
Imagem retirada do facebook, link aqui

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Uma voz feminina calada na Inquisição

beguinas

“A história não nos interessa simplesmente por causa da curiosidade pela antiguidade. A história nos interessa porque, mesmo quando nos esquecemos, ela continua vivendo em nós. […] E quanto mais sabemos de nossa história, melhor compreendemos a própria vida”.

frase acima de Justo L. González, retirada do Prefácio do livro Uma voz feminina calada na Inquisição

Ao ler essa frase, compreendi (ainda mais) que dar a voz e ser também a voz em nossa época é de extrema importância. O que sou hoje, além das escolhas que fiz, é também fruto do trabalho de pessoas que vieram antes de mim, que lutaram por direitos que hoje tenho como básicos, que levantaram bandeiras por igualdade social, de gênero ou raça, ou que morreram defendendo e compartilhando a sua fé.

No livro Uma voz feminina calada pela Inquisição, Rute Salviano Almeida relata a vida da primeira mulher levada à fogueira pela Inquisição na França, Margarida Porete.

Margarida nasceu por volta de 1250 e pertenceu ao movimento das beguinas – católicas praticantes do asceticismo e da caridade, que não precisavam viver enclausuradas ou sob os votos de castidade e de pobreza. Com pouca informação sobre sua vida, especula-se que tenha sido uma beguina solitária, além de ter sido uma mulher culta, de nascimento nobre e com elevada educação1.

Em 1296, Margarida escreveu um livro chamado O espelho das almas simples e, com grande audácia, viajou pregando e disseminando seu conteúdo. Também o enviou a autoridades da Igreja, sendo aprovado por alguns como foi o caso do frei João Quaregon, que chegou a afirmar que sua obra tinha sido inspirada pelo Espírio Santo, mas, que temia que poucos pudessem exergar isso, porque “todos os clérigos do mundo” não poderiam entendê-la, a não ser que tivessem um grande discernimento espiritual2. Mas foi acusada de promover a heresia do espírito livre, ficando presa durante 18 meses até o dia de sua condenação em 1310 – queimada viva em praça pública em Paris.

Apesar de hoje entendermos que o desenvolvimento de seu raciocínio sobre a salvação foi equivocado, como se houvesse dois tipos de salvação: “almas que alcançavam a salvação pela graça de Cristo, mas permaneciam escravas da prática das boas obras (virtudes) e do exemplo de Cristo em seus sofrimentos corporais (penitência, flagelos), as quais seriam salvas, mas nunca alcançariam a plenitude espiritual, ou a posição espiritual mais elevada reservada àquelas que abandonavam a vontade e atingiam a aniquilação.”3 ou “em louvor à alma aniquilada, chegou a afirmar que, em completa aniquilação e em união perfeita com seu Criador e Senhor, tal alma recebe mais saber do que o contido nas Escrituras, mais compreensão do que a que está ao alcance da capacidade ou do trabalho humano de alguma criatura.”4, sua obra trouxe reflexões muito interessantes sobre a importância de se realizar a vontade de Deus, em vez de seu próprio desejo, além de alertar as pessoas sobre a inutilidade de sacramentos, obras e intermediários na comunhão com Deus.5

Acredito que a caminhada com Deus deve se dar conforme a jornada que Margarida Porete trilhou, e não estou colocando aqui alguns de seus pontos teológicos – os quais, ao meu ver e devido a todo o contexto histórico/cultural em que surgiu, é compreensível –, mas a tenho como referência por sua extrema vontade em anular seus próprios desejos para que a vontade de Deus pudesse imperar em sua vida.

Rute Salviano Almeida, autora do livro que conta a vida de Margarida, essa voz feminina calada na Inquisição, gentilmente respondeu algumas perguntas para nós e, abaixo, você pode conferir todo o bate-papo. Espero que, este livro bem como todo o trabalho que a Rute vem desenvolvendo, possa inspirá-las(os).

1) Como foi a ideia em dar voz às mulheres que também contribuíram e fizeram grande diferença em períodos tão marcantes do Cristianismo – mas que infelizmente em tais épocas e movimentos somente homens e seus feitos são lembrados?

Eu lecionei por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas e, quando dava aulas de História do Cristianismo, achava falta das personagens femininas. Como tinha certeza de que as mulheres, a exemplo das citadas no Novo Testamento, sempre participaram da história cristã, resolvi pesquisar a respeito. Minha ideia era escrever sobre a participação feminina na história do Cristianismo de uma forma diferente, com mais imagens, sempre trazendo o contexto da época, destacando detalhes tais como moda, sentimentos femininos, mulher no lar, espiritualidade etc. O ponto de partida foi a minha dissertação de mestrado, onde escrevi sobre a mulher na Reforma e dela surgiu meu primeiro livro “Uma voz feminina na Reforma”.

2) Neste livro você aborda muito bem o último período da Idade Média – que compreendia os séculos XII, XIII e XIV – nos ajudando a entender o contexto, no qual Margarida Porete cresceu e desenvolveu sua missão. Você poderia sintetizar essa época, ajudando quem nos lê a compreender um pouco o panorama, no qual nossa personagem viveu?

Foi um período de decadência do feudalismo, porque muitos nobres morreram ou voltaram empobrecidos das Cruzadas; de crescimento da autoridade dos reis; de embates entre papas e soberanos; de bulas que declaravam que fora da Igreja não havia salvação, para confirmar a superioridade pontifícia sobre a temporal. Enfim, uma época de ganância dos poderosos e de credulidade do povo simples. O povo europeu cria em Deus, sem dúvida alguma; mas era um Deus de quem se tinha medo, era o causador das epidemias, inundações, pestes etc. O Deus de amor, o Deus que enviou Jesus para salvação pela fé não era conhecido. O fiel era analfabeto e só sabia sobre Deus e religião o que via nas imagens das catedrais. A missa era celebrada em latim, uma língua desconhecida, portanto, era grande a superstição e a falta de fé verdadeira.

3) Gilberto Tournai, frade franciscano da época, falou sobre as beguinas: “Existem, entre nós, mulheres que não sabemos como chamá-las, mulheres comuns ou freiras, porque elas não vivem no mundo nem fora dele” (trecho extraído do livro Uma Voz Feminina Calada na Insquisição, página 131), achei muito bela essa definição, pois ao meu ver, caracterizava liberdade e aceitação entre elas por seus estilos de vida, além também da busca delas em viver pelas “coisas do alto”, vivendo ainda neste mundo. E para você, Rute, qual foi a maior contribuição que as beguinas trouxeram para nós mulheres cristãs de hoje?

Acredito que nos inspiram por sua união, comunhão uma com as outras, ajuda mútua, desejo de entender mais a fé cristã e, principalmente, compaixão. Elas viviam para ajudar o próximo, foram pioneiras em sua época na ação social, socorrendo enfermos, cuidando de leprosos, aconselhando e abrigando prostitutas e até mesmo chegaram a construir escolas para meninas, em uma clara demonstração de valorização da educação.

4) Além de Margarida Porete ser mulher, escritora e pregar em público e na língua do povo, o que você acha que mais incomodou seus inquisidores em seu livro O espelho das almas simples?

Acredito que foi sua crítica à igreja instituída, a qual chamava de Santa Igreja Pequena e afirmava que era subordinada à razão. Ela escreveu que a real Igreja Santa era constituída de almas livres e simples que julgariam a pequena Igreja. Para ela, Deus iria castigar toda a hierarquia eclesiástica que havia falhado.

5) Vendo essas e outras mulheres em contextos tão opressores, mas que buscavam formas de servir e contribuir utilizando seus dons e talentos para uma sociedade mais justa, em sua opinião, quais seriam os pontos ou contribuições que quase não avançamos desde então, e que ainda precisamos refletir e ter coragem e ousadia para mudar?

As mulheres, na atualidade, são eleitas para todos os cargos públicos, trabalham em quase todas as profissões e têm ocupado espaços antes inatingíveis. Em minha opinião, não têm se preocupado (a maioria delas) em exercer seus dons espirituais em suas igrejas locais, independentemente das funções para isso exigidas. Estão acomodadas e exercendo o que para elas é suficiente: ensino para crianças, trabalho com mulheres, ação social etc. Mas, se Deus as capacitar com dons mais específicos como liderança ou pregação, não os exercem porque lhes falta liberdade em suas igrejas ou porque elas próprias acreditam que não são dignas de tais tarefas.

6) E há previsão de alguma nova publicação? Pode nos contar um pouquinho sobre? E muito obrigada por seu extenso trabalho de pesquisa e divulgação de todas essas vozes femininas, Rute. Seu trabalho me cativou profundamente e fico muito feliz em tomar conhecimento de iniciativas como a sua. Nós, mulheres, agradecemos, além de nos tornarmos mais fortes no caminhar conhecendo tantas outras mulheres inspiradoras.

Em primeiro lugar, sou eu que agradeço o interesse pelo meu trabalho. Fico muito feliz e honrada em saber que, aos poucos, vou conquistando leitoras que se interessam na divulgação dessas histórias edificantes de cristãs comprometidas com o Reino de Deus. Deus a abençoe e a todas que lerem essa entrevista.

O meu 4º livro, Vozes femininas no início do Cristianismo, será publicado no próximo ano. Ele apresentará a Roma dos primeiros séculos, a igreja primitiva, as mártires, diaconisas, monjas e mulheres relacionadas aos Pais da Igreja. No momento, pesquiso sobre os movimentos de avivamentos dos séculos XVIII e XIX e pretendo escrever Vozes femininas nos movimentos de avivamentos, encerrando então a série de Vozes femininas na história do Cristianismo.

Em uma ordem cronológica, segue a série, com 5 livros:
– Vozes femininas no início do Cristianismo: sobre a igreja primitiva (Idade Antiga) – será publicado em 2016;
– Uma voz feminina calada pela Inquisição (Idade Média), publicado em 2012;
– Uma voz feminina na Reforma (Idade Moderna), publicado em 2010;
– Vozes femininas nos movimentos de avivamento (Inglaterra e Estados Unidos – séculos XVIII e XIX – Idade contemporânea): ainda em fase de pesquisa e escrita.
– Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro (Brasil – séculos XIX/XX), publicado em 2014;

Espero em Deus a capacitação para conclusão dessa série e agradeço a Editora Hagnos pela confiança em mim depositada para publicação dos meus livros.

Notas – informações retiradas do livro Uma voz feminina calada na Inquisição:
Iinformações extraídas da página 152
Citação extraída da página 153
Citação extraída das páginas 168 e169
Citação extraída da página 171
Informações extraídas da página 170

Imagem de Fernando Moleres e foi retirada desse site

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.