Quando elas escrevem, eles não leem

Quando meu marido sugeriu o tema para este post, minha primeira reação foi perguntar a mim mesma: como eu não pensei nisso antes?? A ideia dele veio de duas novelas (romances curtos) lidas na última semana, ambas escritas por mulheres sob pseudônimos masculinos: A festa de Babette, de Karen Blixen, que publicava suas obras como Isak Dinesen, e O moinho à beira do Floss, de George Eliot, que era, na verdade, a inteligentíssima Mary Ann Ewans (essa mulher escreveu, sob seu pseudônimo masculino, uma das obras mais importantes da língua inglesa, Middlemarch: um estudo da vida provinciana). A partir disso, imaginamos que seria uma boa eu puxar o assunto dessa história de uma escritora ter que se disfarçar de homem para ter algum crédito na praça.

Pesquisei um pouco a respeito e entendi que isso foi algo relativamente comum no século 19 e início do 20, por dois motivos associados: 1) os assuntos sobre os quais essas autoras queriam escrever rompiam com o estereótipo da escrita considerada “de mulheres”, que não era levada a sério. Exemplos do que as autoras com pseudônimos masculinos queriam escrever: contos de suspense, ficção científica, ficção com temáticas políticas e sociais, críticas de literatura e arte; 2) quando usavam um nome de homem, essas autoras conseguiam ser mais lidas… especialmente, por homens. As irmãs Brontë e o “escritor” George Sand (na verdade, Amantine Lucile Aurore Dupin), que se vestia de homem e fumava em público – nunca a uma mulher isso seria permitido em sua época –, são os exemplos mais clássicos.

Mas quem pensa que essa prática ficou restrita ao passado, esquece-se do caso atual mais famoso de uma escritora que teve que se disfarçar para alcançar sucesso: J.K. Rowling. A criadora de Harry Potter se chama Joanne Rowling (o K da abreviação é inventado) e o motivo que a levou a abreviar o seu nome é o mesmo do das escritoras e seus pseudônimos dos séculos passados: pouca gente daria crédito para uma história de fantasia escrita por uma mulher. A não ser, claro, se ela escrevesse contos de fadas (os quais, aliás, foram escritos majoritariamente por homens, com exceção da autora de A Bela e a Fera e de Madame d’Aulnoy, baronesa escritora de contos desse gênero, que cunhou o termo). Harper Lee, autora do tocante O sol é para todos, também escondeu seu nome, Nelle, para que o gênero soasse ambíguo.

Achei toda essa história muito interessante e fiquei pensando se os homens, de forma geral, leem obras escritas por mulheres. Já prevendo o resultado (quanta pretensão), resolvi lançar a pergunta no meu Facebook:


Pesquisa para os homens: 

Vocês leem livros escritos por mulheres?
– Se sim, de quais autoras?
– Se não, por que não? (caso se sintam confortáveis para responder esta, rs)

O resultado foi muito diferente do que eu julgava. Dos 274 amigos homens que tenho em meu perfil, apenas doze responderam (todos afirmativamente), três deles citando autoras que eu nem sequer imaginava que existiam! Hannah Arendt foi a mais mencionada, mas nomes como Flannery O’Connor, Simone de Beauvoir e Virginia Woolf também apareceram. Um desses amigos lê mangás escritos por mulheres, quatro leem escritoras brasileiras, um não liga para o gênero quando escolhe o que vai ler, enquanto ainda outro amigo lê desde autoras indianas até chilenas.

Levando em consideração que, dos 274 amigos homens do total, muitos não leem meus posts, outros não leem livros, outros tantos não leem livros escritos por mulheres e não quiseram se expor, mais outros muitos não entendem português e mais um tanto lê meus posts, lê livros escritos por mulheres, entende português, mas não quis responder a minha pesquisa, até que doze respostas formam um resultado razoavelmente animador. Sem contar as curtidas (alguns curtiram, mas não comentaram). Assim, se os meus amigos de Facebook representassem uma amostra do tipo de público leitor que encontramos por aí no mundo, nossas queridas autoras poderiam todas sair do armário de sua identidade tranquilamente. Uma pena que a realidade abrangente não é assim.

Por último, considerei as autoras cristãs. Uma vez que o forte do nicho cristão é a não-ficção, de novo pensei que mulheres cristãs só escrevessem para mulheres cristãs. Sempre que vou a uma livraria especializada, encontro mulheres escrevendo para mulheres e o Max Lucado escrevendo para mulheres, rs. Na minha cabeça, apenas a Madame Guyon – no século 17! – e meia dúzia de pré-reformadoras e teólogas haviam conseguido a façanha de ter seus livros consolidados entre mulheres e homens. Ledo engano meu. Numa das respostas à pesquisa no Facebook, um homem (se vocês insistirem, eu conto que foi o pastor da minha igreja, rs) citou uma lista enorme de cristãs autoras que ele lê e leu na vida dele. Pesquisei uma por uma, achei algumas incríveis (confiram Mary Eberstadt, por favor!) e respirei aliviada por saber que as mulheres cristãs também querem falar sobre sociedade, ética, política, economia, e não apenas sobre ser uma esposa que edifica o lar (claro que isso é fundamental, mas vamos virar um pouco o disco??).

Ler sobre essas mulheres despertou em mim um orgulho gostoso, não do tipo competitivo – está vendo?? Mulher também sabe escrever coisa que presta! – aff!, mas de satisfação mesmo, de alegria por descobrir tantas mulheres abrindo novas sendas para a humanidade trilhar, mesmo que isso custe a algumas parte de sua identidade. O amor à verdade que escrevem clama mais alto que as condições impostas. Enfrentam. Seguem. Vencem.

Encerro o meu texto com ela, a autora que transcreve não a alma feminina ou a masculina, mas a humana:


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector

 

 

GeorgeSand2
Amantine Lucile Aurore Dupin, escritora francesa, famosa por escrever sob o pseudônimo George Sand e aparecer em público vestida de homem.

 

P.S. Este assunto me deixou tão pilhada, que me pergunto agora qual é a porcentagem de homens que lerá esta postagem. :)


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Melancólica, sim, mas ganhando um novo olhar sobre a vida

Desde que me conheço por gente, sou guiada pela melancolia – a tendência de enxergar a metade vazia do copo, o lado pessimista das coisas e por aí vai. Nunca estou completamente satisfeita com as circunstâncias. Se por um lado a melancolia tem seu lado bom, pois abre portas para uma reflexão detida sobre questões existenciais, por outro, faz de mim uma pessoa difícil de agradar… e de conviver. Me identifico muito mais com a personagem Tristeza – linda e fofa e de óculos (eu também uso óculos) –,  do filme Divertidamente, do que com Alegria (sempre tão positiva sobre tudo o tempo todo, que chega a cansar a gente, rs). A boa notícia, porém, é que esse descontentamento que sempre matizou todos os aspectos da minha vida tem sido cada vez mais raro e devo isso ao processo de transformação espiritual, pelo qual venho passando há pouquíssimo tempo.

Tudo começou em janeiro deste ano, há um mísero mês somente, quando vi que minha única saída para não estragar meus relacionamentos, minhas escolhas e minha vida de modo geral seria abandonar alguns vícios, que por tempo mais do que suficiente vinham me acompanhando. Eu já havia feito quase tudo: já tinha sido paciente comigo mesma, aguardando aquela mudança lenta do tempo, do amadurecimento; já havia respeitado o meu ritmo; perdoado as muitas recaídas; mudado de casa, de cidade… e nada me curava de vez. Até que eu fiquei conhecendo os escritos de Catherine Marshall, uma escritora cristã que primeiro ficou famosa porque se casou com um pastor americano conhecido, lá atrás, nos anos 40, depois porque seus livros começaram a vender bastante. Numa conversa com a minha mãe, ela me contou que tinha uns livros da Catherine Marshall guardados numa caixa e eu fui correndo lá pescá-los, esbaforida de ansiedade, como alguém que escava exatamente o quadrado onde está escondido o tesouro. Encontrei ali dois livros dela e nem esperei chegar em casa para começar a leitura deles. Um é sobre a oração (por isso que meus posts andam tão “monotópicos” ultimamente, rs) e outro sobre o Espírito Santo. No livro sobre a oração, ela discorre sobre algumas orações que às vezes desejamos fazer, mas que não sabemos como, porque encontramos dificuldade em identificar a nossa real necessidade. Assim, ela vai delineando cada tipo de oração possível e a gente, à medida que avança na leitura, vai identificando qual espécie de oração expressa melhor para Deus aquilo de que tanto necessitamos (sim, Ele sabe tudo de que precisamos, mas a oração é uma prática que exercita nossa confiança em Deus, nossa intimidade com Ele e nosso conhecimento Dele).

Depois que terminei o livro sobre a oração da Catherine Marshall (o outro ainda estou lendo), parti para os escritos de outra mulher, a francesa Jeanne Guyon. Essa aí é uma das pérolas mais raras e incríveis de todas as galáxias juntas de todos os tempos de toda a história de tudo o que existe! Pois é, parece exagero, mas não é. Cristã vivida no século 17, Madame Guyon, como ficou conhecida, desenvolveu um relacionamento com Deus tão, mas tão profundo, que você chega a ficar com brilho nos olhos de pensar que, mesmo habitando um corpo limitado, é possível chegar tão perto assim de Deus e viver feliz da vida com Ele, mesmo passando por um monte de sofrimentos (como foi o caso dela). Li a autobiografia dela e agora estou lendo um guia de oração que ela escreveu, chamado Experiencing the Depths of Jesus Christ (Experimentando as profundezas de Jesus Cristo através da oração). Nesse livro, ela vai mostrando, passo a passo, como podemos encontrar Deus no centro de nosso ser, onde Ele habita.

O que tem me deixado tão maravilhada nessas duas autoras não se deve apenas ao fato de serem mulheres incríveis e espiritualmente fortes, mas principalmente ao fato de apontarem para a Fonte de toda a sua força, alegria e brilhantismo. Os textos delas – sempre apoiados nas Escrituras – deixam a gente com água na boca para chegar rasgando o coração na presença de Deus. Dá muita vontade de viver aquilo tudo e aí você acaba colocando em prática as orientações delas para essa experiência e vê que é tudo verdade! O nível de espiritualidade e intimidade com Deus da Madame Guyon, por exemplo, pode deixar a gente – meras iniciantes no assunto – um pouco desanimadas a princípio, mas resolvi que qualquer passo que eu der em direção a Jesus é lucro, mesmo que sejam passos de bebê. Assim, Madame Guyon se tornou para mim uma referência de onde é possível chegar nesta vida em termos de amizade e paixão por Jesus. Lindo demais!

Mesmo que eu ainda tenha a tendência de ver tudo cinza (afinal, essa sou eu), a experiência da oração tem me levado a conhecer melhor quem é Deus e isso tem sido, definitivamente, revigorante. Um exemplo disso aconteceu ontem mesmo, de madrugada, quando despertei do sono e fiquei rolando de um lado para o outro da cama, pensando em alguns gastos que terei logo mais, sem saber se teremos ou não recursos para isso. Claro que o pensamento vencedor foi: “Não vamos ter dinheiro! Não vamos ter dinheiro!”. Resultado: desatei a chorar. Mais tarde, quando fui falar com Deus sobre isso em oração, Ele me tranquilizou, respondendo que era na calma e na confiança que estariam a minha força e a minha salvação (Isaías 30.15, Bíblia). O fardo foi, então, retirado das minhas costas. Sorri.


Por isso, nunca ficamos desanimados. Mesmo que o nosso corpo vá se degastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia.
(2 Coríntios 4.16 )

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Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.