O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a sensibilidade do ser-pai numa sociedade machista

homem-e-sensibilidade
Ilustração: Betusha Rapatusha

No domingo de Dia das Mães desse ano, a psicóloga Isabelle Ludovico esteve no Projeto 242, comunidade em que David e eu somos membros, falando sobre a data comemorativa.

Foi muito diferente de todas as mensagens e comemorações de Dia das Mães em igreja que já tinha visto, ao longo dos meus quase 30 anos dentro de igrejas.

Ela falou coisas que me marcaram, sobre ser-mulher, ser-mãe, feminilidade, feminismo, machismo e sobre o quanto o sufocamento das características femininas no mundo, por meio do machismo e do desrespeito às mulheres, prejudicam o Universo como um todo. O quanto anima e animus estão em desequilíbrio e esse desequilíbrio é fatal. O quanto é importante que homens desenvolvam, apreciem e usem sua feminilidade. Inclusive, – e que foi o ponto chave pra mim – como Deus mostra sua sensibilidade, força e beleza através das mulheres e como Ele é, além de nosso Pai, nossa Mãe.

Saindo de lá, perguntei pro David o que ele tinha achado e senti um amargo de angústia quando ele respondeu: sabe aquele filme que a gente assistiu, da menina da Somália que virou modelo, depois embaixadora da ONU, acho que é Flor do Deserto, o nome? Então, é lógico que aquilo que fazem com aquelas meninas não pode ter comparação, mas, é como eu me sinto, mutilado.

Se você ainda não assistiu esse filme, assista. É avassalador.

O David continuou, dizendo que tinha gostado muito do que a Isabelle disse, que concordava, que era aquilo mesmo que ele acreditava e que foi um alívio, porque como homem, ele se sentia mutilado, arrasado pelo machismo.

Assim como eu, David cresceu numa família machista. Não por crueldade, mas, porque era assim a geração dos nossos pais. Só que ele não é machista, nunca foi. Desde nosso namoro, até antes, o começo da nossa amizade, que já tem mais de dezessete anos, percebo que ele é um cara diferente. E é uma pena dizer que ele é diferente, aqui, porque é no sentido de exceção. E eu realmente gostaria que houvesse mais Davids por aí.

Aquela sensibilidade que a Isabelle citou na sua mensagem, o David tem e faz uso dela. E por isso não compreende o machismo, porque essa prática não mutila só as mulheres, mas os homens, também. Porque no filme pode ser muito bonito o príncipe resgatando a princesa do castelo, mas, na vida real, isso é impor comportamentos, é gerar padrões impróprios e esteriotipar os gêneros.

Na vida real, por causa do massacre do machismo, da reprodução alienada de um comportamento que julga que mulheres são inferiores aos homens, que julga que sensibilidade é fraqueza e invulnerabilidade é poder, que descarta as mulheres e supervaloriza homens, que ensina que meninos são heróis e meninas são mocinhas indefesas, esses “meninos heróis” crescem com o peso de uma responsabilidade que não lhes pertence e não é possível carregar, e, as “mocinhas indefesas” crescem acreditando que não são livres, capazes e donas de suas próprias vidas.

Na vida real, eu vi meu marido sofrer de um início de depressão por causa de uma crise profissional que o impediu de ser o macho alfa dominante provedor da casa. E ele é o fraco por “não ter dado conta”? Não. Fraca é essa sociedade. Fraca e doente. Por  Graça, isso não durou muito tempo e rompemos mais um tabu sem significado algum.

Na nossa vida real, a gente luta contra a impropriedade, contra a propagação de uma cultura falha, deturpada, inautêntica, imprópria, que mutila meninas e meninos. Na nossa vida real, quebramos paradigmas e fazemos nosso possível pra existir com autenticidade, mesmo que isso signifique receber julgamentos, olhares tortos e o título de fracos fracassados. Porque, se ser fraco é viver em horizontalidade, homem e mulher juntos, esposo e esposa companheiros lado a lado, os dois em harmonia rumo ao mesmo objetivo, caindo e levantando juntos, sofrendo juntos e vivendo alegrias juntos, ah, nós somos terrivelmente fracos, com prazer.

E nessa fraqueza, Cristo se mostra nossa Força e Fortaleza. Cristo conduz nossa família, não os tradicionalismos de uma sociedade seriamente doente.

Nessa fraqueza, estamos esperando nosso filho, Zigo, que tem a bênção de nascer numa casa em que será respeitado enquanto ser humano, independente do seu gênero. Que será ensinado a respeitar todas as pessoas independente de quem sejam.

Nessa fraqueza, David tem sensibilidade, luz, criatividade, afeto, carinho e tantas qualidades, que, embora não tenha útero, tem feminilidade. Embora não esteja gestando Zigo, o está gerando no coração, cheio de amor. Tanto amor, tanto afeto, tanto carinho, que acordei numa madrugada dessa semana pra fazer xixi e encontrei David no computador, escrevendo uma carta pro Zigo, demonstrando que homens equilibrados, verdadeiramente fortes e emocionalmente saudáveis são aqueles que entendem que machismo mutila, e não se permitem viver nele.

Graças a Deus, aqui em casa, estamos libertos disso. Agora, temos a responsabilidade de transmitir isso pro Zigo. Mas, ao ler essa carta, creio que não vai ser tão difícil!

“Outubro, 2016.

E aí Zigo, tudo bem?

Sim, por incrível que pareça é seu pai escrevendo. Não se acostume com isso, porque quem gosta e sabe escrever é sua mãe, não eu.

Faz um tempo que já sabemos sobre você. Ainda não sabemos se você é homem ou mulher, mas não importa, estamos preparando tudo para sua chegada (quando digo tudo, digo que estamos arrumando um pouquinho da bagunça que é nossa casa, para ficar habitável, rs). Você vai gostar muito de como é nossa casa, nada convencional, tudo colorido (seu quarto está com a porta laranja, eu que pintei :D, e acredite, eu chorei pintando e imaginando você dormindo lá. Logo vai saber que sou chorão), muita almofada, colchão no chão, do jeito que eu e a Talita gostamos, espero que goste também.

Quando descobri que a Talita estava grávida de você, fiquei um pouco perdido, não entendi direito e até hoje estou um pouco assim, acho que só vai cair a ficha quando você nascer. Por enquanto vou cuidando da Talita, ela enjoa o dia inteiro, não importa o que façamos. Mas, está bem divertido, você já está com 15 semanas e tem um cabeção! Sua mãe não gosta, mas se você puxar à mim, esse cabeção vai continuar, rs.

Fomos visitar uma casa de parto essa semana, provavelmente você nascerá lá. É muito bacana, os funcionários são atenciosos e bem preparados, o quarto é confortável, e se tudo der certo, seu parto será natural e no dia que você escolher. É isso mesmo, você nem fala ainda e já respeitamos suas escolhas. Uma das coisas que eu e a Talita temos é respeito um pelo outro e agora respeito por você, Zigo, você não virá com plateia e hora marcada. Preciso te contar um segredo: na volta de nossa visita, depois de ver todas as coisas sobre o parto, a Talita chorou hahaha, não sou só eu o chorão da casa, viu? Depois a gente tira um sarro da cara dela juntos.

Ainda não faço ideia de como serei como pai, provavelmente serei um pouco parecido com o meu. Infelizmente você não vai conhecer seu avô Antônio, ele já está com Deus e sinto falta dele. Às vezes era bem bravo, gritava, era mandão, rs, mas tinha um coração enorme, era responsável, pontual, honesto, foi caminhoneiro e também tinha uma Kombi, onde a gente trabalhou bastante tempo juntos, muito legal. Depois te conto mais sobre ele, você vai gostar.

Eu sou apaixonado por atividade física, Zigo, e vou te ensinar muitas coisas legais, principalmente o Muaythai e você vai ver como é sensacional lutar. Tudo bem que até agora eu perdi 2 lutas e ganhei só 1, mas dia 19/11 vou lutar de novo, estou me preparando muito, treinando bastante, vou ter muita história para te contar. Meus amigos de treino também estão ansiosos pela sua chegada, e, já vou te avisando, eles vão te zuar um pouco, porque eu brinco demais com eles, se prepare.

Gosto de cozinhar também. Tudo que você aprender na cozinha, provavelmente, será comigo, porque se depender da Talita, nós 3 passaremos fome, rs. Brincadeira, ela consegue se virar, mas, quem manda na cozinha sou eu.

É isso Zigo, estou escrevendo para que você saiba que será bem recepcionado por mim, sua mãe e também por nossos familiares e amigos. Desde já oramos muito pela sua vida, pedimos para Deus pelo seu futuro, porque viver nesse mundo não é nem um pouco fácil, mas, como Ele cuida de nós, vai ser uma vida plena e feliz. Claro que terão momentos de tristeza, dor, angústia, mas, até você saber se cuidar sozinho, nós vamos cuidar de você da nossa melhor maneira.

Estou ansioso pra te ver logo, não vejo a hora.

Com amor,

David, seu pai e palhaço.”

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Os pais geram no coração

* Ilustração retirada da internet, autor desconhecido.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.