Esperar é uma dor ou um presente?

 

PieroFornassetti
Ilustração de Piero Fornasetti

Faz algum tempo que os meus dias têm sido marcados pelo longo caminho da espera. Desde o ano passado, David e eu temos buscado uma direção específica de Deus, que irá implicar numa mudança radical em nossa vida, em termos de tudo, desde localização geográfica até trabalho, amigos e igreja. Entretanto, enquanto essa direção não se confirma, os acontecimentos para nós estão meio que congelados, enquanto que, para o restante das pessoas, eles seguem o seu curso normal. Falar de planos para o ano que vem, por exemplo. Não podemos. Não sabemos quais serão nossas entradas, se estaremos em apartamento ou casa, se no calor ou no frio, se com ou sem escola para o nosso filho de três anos, se perto ou longe da nossa família e da nossa igreja. O máximo que conseguimos fazer é contar com possiblidades e traçar apenas um esboço, que pode mudar a qualquer momento.

Confesso que esperar tem sido um processo desafiador para mim. Como é para qualquer pessoa que espera, imagino. E esperamos o tempo todo, não é mesmo? Pelo pão na fila da padaria, pela chuva passar, pela mensagem da melhor amiga, pelo fim de semana, pelo ônibus. Grande parte do nosso tempo é preenchido com a espera. Para quem é cristão, a espera faz parte do nosso estar-no-mundo:

Os cristãos são pessoas que esperam. Vivemos num tempo liminar, entre o agora e o ainda não. Cristo já veio e virá de novo. E nós habitamos nesse meio tempo. Nós aguardamos.
(Tish Harrison Warren no livro Liturgy of the Ordinary, p. 104, traduzido livremente)

Esperar nos obriga a encarar verdades que geralmente tentamos evitar. Uma delas é de que o tempo não está submisso à nossa vontade nem ao nosso controle. Vivemos na ilusão de que conseguimos domar o tempo, de que ele está a nosso serviço e de que conseguimos fazer caber dentro dele o máximo de compromissos e situações que conseguimos criar. Com essa rotina frenética, poucos se preparam para o mergulho na amplidão vazia do tempo, contido na espera.

Outra verdade que enxergamos melhor quando esperamos é que tememos o futuro. Nossa limitação humana nos condiciona a conhecer apenas as coisas como são agora. Nossas escolhas – materializadas no futuro do minuto seguinte ou do ano seguinte – são um salto no escuro, uma aposta, um desejo gritante de que tudo dê certo, porém sem garantias.

Esperar é ansiar, é ter saudades de um tempo que não chega, é ver nossas capacidades restringidas a uma realidade que nos ultrapassa em poder.

Esperar é uma dor.

 

Lendo sobre a espera, porém, fui convidada a refletir sobre um elemento determinante para a qualidade da espera que enfrentamos: a paciência. Ela é o termômetro indicador do grau de sofrimento que permitiremos experimentar enquanto esperamos. Ela também nos leva a entender que a espera não precisa – e nem deve – ser passiva:

[Esperar com paciência] é uma espera ativa, na qual vivenciamos o momento presente ao seu máximo, a fim de encontrar no presente sinais Daquele por quem estamos esperando.
(Henri Nouwen, tradução livre)

Enquanto esperamos, podemos cuidar do nosso corpo, cuidar daqueles que nos cercam, concluir com comprometimento as responsabilidades assumidas no passado e que ainda estão em aberto, preparar nosso espírito e nossa mente para as possíveis mudanças que nos aguardam, orar, buscar conselhos, ler livros que nos edificam, e o que mais aparecer pelo caminho enquanto aguardamos. Lembro-me sempre do que a minha mãe dizia quando eu era criança e ficava esperando ansiosa por algo: filha, o melhor da festa é esperar por ela. Eu mudaria essa frase para: esperar pela festa é se preparar pra ela. Conforme Tish H. Warren escreve em seu livro Liturgy of the Ordinary, esperar pacientemente é acreditar que o tempo de Deus é perfeito e que, de maneira misteriosa, há muito mais acontecendo enquanto esperamos do que apenas a espera em si (p. 110).

Assim, quando a esperança é o que guia a nossa espera, a espera está pronta para ser transformada em um caminho pelo qual fortalecemos a nossa fé, a nossa confiança em Deus e a nossa visão de mundo. Trilhando pela espera paciente, podemos adentrar numa realidade que supera o que é imediato e transitório.

Esperar com paciência é um presente.  

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Estou de mudança, de novo

Remedios Varo (1908-1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana - Tela: Tránsito en Espiral (1962)
Remedios Varo (1908 – 1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana — Tela: Tránsito en Espiral (1962), essa imagem foi a capa da edição brasileira (2014) do livro de Santa Teresa d’Ávila “As Moradas do Castelo Interior”

Estou de mudança, de novo.
Mudando de apartamento para casa, da zona norte para o centro de São Paulo. De vizinhos e companheiras de viagem. De renúncias para novas oportunidades. De ares e paisagens.

Estou de mudança, de novo.
– E quem é que permanece sempre igual e no mesmo lugar? Faço a pergunta a mim mesma quase em voz alta.
– Talvez mudar (geograficamente falando) possa ser uma espécie de experiência-metáfora do que acontece dentro da gente e que Deus permite e nos chama a viver. Penso, mas desta vez, sinto um nó na garganta e envolta a algumas incertezas a Voz interna, paradoxalmente, me acalma e me envolve em uma extrema alegria, não há como negar, é Ele, dentro de mim, mudando as coisas de lugar*.

Estou de mudança, de novo.
Mas desta vez, também, caminhando para novas moradas, dessas que não estão localizadas em bairros, ruas ou avenidas, tampouco são feitas de tijolos e cimento. Estou caminhando para as moradas que se encontram nesse enorme Castelo Forte**, que é Deus.

Aprendendo a desapegar, a cada mudança, do supérfluo.
Deixando, quer dizer, tentando deixar a bagagem mais leve. Assim, fica mais fácil de respirar…
Já posso até ver e sentir o peso desse fardo menor, mesmo em meio a alguns apegos, que ainda teimam, em mim, ficar.

Sei, que estou longe, bem longe de onde Ele gostaria que eu estivesse, ainda me faltam muitas e muitas milhas – talvez, eu ainda caminhe por passagens bem estreitas, desérticas e hostis. Talvez ainda, durante o meu longo (ou curto, quem sabe?!) percurso de uma vida toda, eu tenha que enfrentar muitos, ou poucos, obstáculos. Não sei. Mas o que importa, o que realmente importa, é que tenho a certeza que sempre haverá um oásis para matar minha sede e restaurar as energias gastas durante a viagem.

Minha alegria é saber que Ele me aguarda (e guarda) mesmo em meio a tanta incerteza minha. E lança fora todo o meu medo e me ajuda – diariamente – a não desistir, a persistir e olhar só para Ele, que é o mais puro, sincero e verdadeiro Amor.

“No Amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor”

1 João 4:18

“…sabemos que temos almas; mas que bens possa haver nesta alma, ou quem está dentro dela, ou seu grande valor, isso poucas vezes levamos em consideração, e assim nos preocupamos tão pouco em conservar sua beleza com todo o cuidado. Tudo se limita para nós ao grosseiro engaste ou muralha deste castelo, que são nossos corpos. Pois consideremos que este castelo tem, como eu disse, muitas moradas, umas no alto, outras embaixo, outras nos lados, e no centro, no meio de todas estas está a principal, que é onde ocorrem as coisas mais secretas entre Deus e a alma”.

Santa Teresa d’Ávila
As Moradas do Castelo Interior,
Primeiras Moradas: Capítulo 1

Santa Teresa d’Ávila (1515 – 1582) em seu livro As Moradas do Castelo Interior nos ajuda a usar a força da imaginação para fazer compreender quem é o ser humano e quem é Deus. A imagem do castelo não é estática, mas dinâmica. É uma viagem ao interior, na qual superamos os obstáculos exteriores que nos impedem de entrar no castelo e cujo caminho prosseguimos sem parar, até chegar a “morada central, onde habita o Rei, sua Majestade” – trecho retirado do Prefácio à edição brasileira feita pelo Frei Patrício Sciadini, o.c.d. do livro.

 

 

*trecho da música Casa de Palavrantiga
**menção ao hino Castelo Forte escrito por Martinho Lutero em 1529

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.