Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2

Hoje, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante, a história que vamos contar é daquela que veio a torna-se conhecida por ter se casado com o ícone da Reforma, Martinho Lutero.

Mas a vida de Katharina von Bora é recheada de inspiração, liberdade, coragem e garra. Certamente que seu casamento com Lutero a transformou – dando a ela a oportunidade de estar diariamente ao lado daquele que veio a contribuir também para a mudança na vida de tantas outras pessoas ao redor do mundo. Mas sua determinação e coragem são marcas inegáveis que, já eram traços antes mesmo de seu casamento com Lutero e que a impulsionaram a dar um passo tão ousado: o de abandonar o mosteiro em que vivia e sua posição de freira.

Boa leitura e inspire-se!

 

KATHARINA VON BORA

Katharina foi uma mulher corajosa, ousou mudar completamente sua vida, ao fugir de um mosteiro e se lançar à uma vida ‘comum’. Tornou-se conhecida por ser a esposa de Lutero, a quem amava como esposo, companheiro e alguém que contribuiu para seu futuro de liberdade em Cristo e por Ele. Soube desempenhar seu papel de mãe juntamente com seu dom da hospitalidade, acolhendo a tantos! Mas também foi uma ótima empreendedora e administradora

Katharina nasceu em janeiro de 1499, na Alemanha – quanto ao local exato, há diferentes opiniões entre os historiadores, mas um dos possíveis locais de seu nascimento é Zülsdorf, próximo a Lippendorf. Seus pais eram nobres empobrecidos e que após seu nascimento precisaram vender sua propriedade.

Sabe-se que sua mãe morreu quando Katharina ainda era bem nova e com apenas 5 anos de idade foi levada por seu pai para o convento beneditino em Brehna. E depois de alguns anos, como sua família não conseguia prover o pagamento anual necessário, transferem-na para o mosteiro das monjas “Sistersinianas Trono de Maria”, em Nimbschen. Não só pelo motivo financeiro – pois, diferente do mosteiro anterior a contribuição nesta era espontânea – mas outros fatores também influenciaram tal decisão: a recém-eleita madre superiora do mosteiro era uma parenta de sua mãe e sua tia Magdalena von Bora morava há muitos anos neste mosteiro.

Vários nobres empobrecidos nesta época colocavam suas filhas em mosteiros pois além do estudo que forneceriam a suas filhas, a um preço acessível, achavam também que suas filhas não conseguiriam se casar, devido sua baixa condição financeira. Então se deixasse-as no mosteiro, garantiria a elas uma vida de estudo e cuidado pelo resto de suas vidas.

Em 1514, Katharina torna-se noviça e em 1515 é ordenada freira, ainda no mosteiro de Nimbschen.

Em 1517, Katharina tinha 18 anos e, apesar de viver atrás dos muros do convento, privada dos acontecimentos do mundo, era uma jovem autossuficiente e com sede de liberdade. Assim como outras freiras deste convento, que no fundo, desejavam uma outra vida, uma vida que extrapolasse os muros do convento, Katharina ficou entusiasmada com os escritos de Lutero.8

Especula-se que as freiras de Nimbschen tenham tomado conhecimento dos escritos de Lutero através de parentas do prior9 do mosteiro dos agostinianos (ordem religiosa de Lutero e que ficava na cidade de Grimmma, próximo a Nimbschen), neste mosteiro os escritos de Lutero tinham livre acesso e tais parentas tinham irmãs no mosteiro em que Katharina se encontrava. Outra hipótese também é que o comerciante Leonardo Koppe, que era amigo de Lutero, semanalmente ia ao mosteiro de Nimbschen e através desse contato as freiras obtiveram acesso aos escritos de Lutero.

Depois de ler o texto Da liberdade cristã de Lutero, Katharina e as demais freiras experimentaram uma libertação: a vida acética que levavam no convento já não fazia mais sentido. Chegaram a escrever para suas famílias manifestando a vontade de sair do mosteiro. No entanto, sair do mosteiro era um passo totalmente incomum para a época, por isso foram reprimidas por suas famílias em sua decisão. Lutero sentiu-se responsável por elas, pois, afinal de contas, foram os seus escritos e a sua teologia que fizeram com que tomassem tal decisão. Lutero lembrou-se de seu amigo comerciante, Leonardo Koppe, para bolar um plano de fuga para as freiras. Então, na Páscoa de 1523, Koppe retirou doze freiras entre barris de sardinha.10

Ao total 12 freiras fugiriam do convento e foram acolhidas por Lutero. Este conseguiu que 3 das 12 freiras fossem acolhidas por famílias em Torgau e para as demais continuou procurando um lar e empenhando-se em achar um esposo para cada uma delas.

Katharina von Bora, a princípio, foi acolhida pela família Reichenbach e foi nesta casa que provavelmente aprendeu a administrar um lar, nessa época as responsabilidades de uma dona de casa extrapolavam o zelo pela casa em si, mas também se referia a administração das terras, agricultura, criação de animais, a comercialização dos produtos cultivados além da coordenação de todos os empregados da casa.

Posteriormente, Katharina foi viver com a família de Lucas e Bárbara Cranach. Lucas era um grande pintor renascentista que trabalhou durante muitos anos para a corte dos Eleitores da Saxônica e é bem conhecido por ter pintado retratos tanto de príncipes como de líderes da Reforma – a imagem de Katharina, que ilustra esse post, é de sua autoria assim como uma das imagens mais conhecidas de Lutero e Melanchthon também são de sua autoria. E é neste lar que Katharina vive até seu casamento com Lutero.

Antes de se casar com Lutero, Katharina viveu algumas desventuras e tentativas frustradas da própria parte de Lutero em arranjar um par para ela – uma vez que ele achava que jamais viria a se casar indo contra à sua própria opinião que pastores e líderes deveriam unir-se em matrimônio.

Mas em 1525, em 13 de junho, Lutero chama um pequeno círculo de amigos e celebra seu casamento com Katharina von Bora – ele com 42 anos e ela com 26 anos de idade. E deste pequeno círculo de amigos, seu grande amigo Filipe Melanchthon não esteve presente pois não concordava com esta decisão. E após 14 dias dessa celebração a cerimônia aberta do casamento dos dois foi realizada, com amigos e parentes presentes.

A casa de Lutero e Katharina era o prédio onde anos atrás os monges agostinianos viviam (Schwarzer Kloster) e que a princípio havia sido liberado para que eles morassem pela Universidade de Wittenberg mas um tempo depois foi doado definitivamente pelo príncipe.

Em seu lar, não vivia apenas a família Luther. Muitos hóspedes passavam por lá, além de estudantes, freiras foragidas, crianças órfãs. Não é à toa que, apesar do bom ordenado de Lutero, somado à excelente administração dos bens e ao trabalho dedicado de Katharina, a família sempre tinha que lutar para que o orçamento não fosse extrapolado.11

Katharina reformou o mosteiro e o administrou com uma rotina bastante atarefada, além de sempre receberem alunos e hóspedes em sua casa ainda tinham uma horta, um orquidário, confeccionavam material para pescaria, e posteriormente adquiririam uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira.

Tiveram 6 filhos (3 filhas e 3 filhos), porém só 4 deles vieram a completar a idade adulta: um tornou-se advogado, outro médico, outro teólogo e a única mulher casou-se com um rico prussiano. Mas além de seus próprios filhos, cuidaram e criaram sobrinhos tanto da parte de Lutero como de Katharina, além também de outras crianças que eram órfãs.

Entre 1527 e 1535 a peste tomou Wittenberg e grande parte da população saiu da cidade. Katharina e Lutero, no entanto ficaram e hospedaram e cuidaram de doentes em sua casa. Nessa época era comum que mulheres, mesmo as de origem nobre, tivessem conhecimentos da medicina caseira. O que aparentemente Katharina veio a aprender com sua tia Magdalene von Bora enquanto esteve com ela no mosteiro de Nimbschen.

Lutero sempre temia por sua vida, achando que fosse morrer a qualquer momento vítima das perseguições que sofria. Então em 1542, faz um testamento indicando Katharina como sua herdeira universal – o que não era possível por lei na época já que sempre deveria haver um homem responsável pela viúva, pelos filhos e pelos bens. Mas ele recusa-se a nomear um homem como tutor de Katharina alegando que ninguém melhor do que ela mesma para cuidar de tudo, uma vez que fazia isso durante muitos anos. Só que ele não registrou em cartório o testamento dificultando ainda mais sua vida após sua morte. Mas depois de grande empenho de amigos e do príncipe João, conseguiram reconhecer o testamento, porém tiveram que nomear um tutor pelo cuidado dos filhos e depois de algumas brigas conseguiu ter o direito do próprio cuidado de seus filhos.

Lutero falece dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade onde nasceu, Eisleben, e foram os amigos mais íntimos de Lutero, Filipe Melanchthon e João Bugenhagen, que tiveram que dar essa difícil notícia a Katharina. Seu corpo foi enviado a Wittenberg e por onde passava os sinos soavam. Seu funeral foi realizado por Bugenhagen e Melanchthon fez a locução memorial em latim. Foi enterrado aos pés do púlpito da igreja de Wittenberg.

A morte de Lutero foi um baque para Katharina pois além de não estar presente quando ele se foi, sentiu a perda de seu esposo e companheiro, mas também de alguém que a influenciou e contribuiu para o real entendimento do Evangelho ajudando-a a tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar de ser freira e viver uma vida comum para a honra e glória de Cristo.

Simpática e querida irmã!

Que a senhora sofre comigo e com meus filhos, eu acredito de coração. Pois quem não estaria aflita e desconsolada por um homem tão caro, como o meu querido senhor o foi? Pois ele serviu não somente a uma cidade ou um país, mas a todo o mundo. Por isso, verdadeiramente, estou tão aflita que não consigo descrever para ninguém a dor que sinto em meu coração. E eu nem sei como estou mantendo meu juízo e ânimo. Não consigo comer nem beber, muito menos dormir. E se eu tivesse tido um principado e um reinado, não teria sido tão cruel se os tivesse perdido, como agora que o bondoso Senhor Deus tirou de mim, e não somente de mim, mas de todo o mundo, esse querido e caro homem. Quando penso nisso, não consigo, de tanto sofrimento e choro (o que Deus certamente sabe) nem falar nem mandar escrever.

Mas o que diz respeito a seu filho, meu querido sobrinho, eu vou gostar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mesmo se tudo tiver que ser investido nele, pois como eu entendo, ele vai continuar os estudos com muita dedicação e não irá desperdiçar sua nobre juventude. Mas, quando ele avançar um pouco mais em seus estudos e necessitar de outros e mais livros, pois ele irá estudar Direito, você mesma querida irmã, pode imaginar que eu não terei condições de comprá-los. Ele necessitará de alguma ajuda a mais para que venha a ter todo o material necessário. Para isso seria necessário que, assim como a senhora escreve para mim, conseguir um dinheiro anual como bolsa de estudos para seu filho, meu sobrinho. Pois assim ele poderia continuar seus estudos e cumprir suas obrigações com mais facilidade. Mas, sobretudo, o que eu puder fazer por ele, eu mandarei notícias com meu irmão Hans von Bora, assim que ele vier para cá.

Assim, fiquem com Deus. Wittenberg, 2 de abril de 1546.
Katharina, a viúva do Dr. Martinus Luther

Com a morte de Lutero também veio a luta pela sobrevivência, e Katharina continuou morando em sua casa, a Schwarzer Kloster, e a princípio continuou com o pensionato para estudantes e outros hóspedes. Mas não foi nada fácil pois não era comum um pensionato dirigido por uma viúva e os estudantes preferiam hospedar-se em casa de professores, e com a ausência de Lutero, sua casa não era mais uma prioridade de estadia. E por falta de dinheiro teve que escrever cartas para conhecidos, pedindo ajuda. E aconteceu que ela foi acusada de não saber se conformar com sua nova situação, de ser orgulhosa, briguenta e ‘cheia de razão’12.

Passou pela guerra de Esmalcada e teve que fugir de Wittenberg em 1546. Retornou no mesmo ano, mas em seguida precisou fugir novamente. Obteve ajuda financeira do rei da Dinamarca, Cristiano II, e decidiu retornar para casa já que o príncipe da Saxônia havia vencido. Mais tarde teve que fugir novamente e tinha a esperança de buscar abrigo na Dinamarca mas conseguiu ir somente até Gifhorn – teve que retornar devido ao perigo nas estradas. Eles estavam tão empobrecidos que conta-se que Katharina teve que rasgar as vestes do falecido Lutero para costurar roupas para seus filhos menores, pois os mais velhos haviam saído de casa para estudar.

E em 1552, a peste retorna em Wittenberg e Katharina resolve fugir para Torgau, em setembro deste ano. No caminho os cavalos tiveram um contratempo e ela teve que pular da carroça. Se machucou muito e chegou doente ficando acamada em Torgau. Foi cuidada pela filha e por amigos, mas seu estado piorava e quando percebeu que seu fim estava próximo pediu pela Santa Ceia. Katharina faleceu em 20 de dezembro de 1552, aos 53 anos de idade. Foi sepultada na igreja de St. Marien e a alocução foi feita por Filipe Melanchthon. Seus filhos mandaram gravar em sua sepultura: Ano 1552, dia 20 de dezembro, bem-aventuradamente adormeceu aqui em Torgau a deixada viúva do Dr. Martin Luther.

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8Trecho citado no livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

9Prior era o superior de um convento em algumas ordens religiosas

10Trecho do livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

11Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

12Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1

Para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante, resolvemos trazer a história de algumas mulheres que, assim como tantos homens, também contribuíram para o desenrolar da Reforma. Foram mulheres ativas, politicamente relevantes, de posicionamento forte e crítico. Muitas agiram nos bastidores, outras conseguiram expor seus manifestos e insatisfações publicamente.

É claro que não temos a pretensão em revelar todos os nomes de mulheres envolvidas em tal movimento, pois certamente há uma grande nuvem de testemunhas que sequer tiveram suas histórias ou contribuições divulgadas. Mas nossa intenção aqui é trazer inspiração. Contribuir para que você, assim como eu, ao ler essas histórias – em que muitas não tiveram um final feliz – possa sentir-se tocada e inspirada a fazer mais por seu bairro, país, escola, casa, trabalho, família, igreja. E quem sabe, contribuir para uma reforma necessária onde você estiver…

Boa leitura e inspire-se!

 

ARGULA VON GRUMBACH

Argula foi a primeira mulher que pronunciou-se publicamente a favor de questões referentes à teologia luterana e entra na história como a primeira escritora protestante

Argula nasceu no ano de 1492 em Beratzhausen, perto da cidade de Ingolstadt, na Baviera, Alemanha. Era filha do barão Bernhard von Stauff e de Katharina von Toerring zu Seefeld – ambos de descedência nobre, porém empobrecidos.

Quando tinha dez anos recebeu de seu pai uma Bíblia1 para que a estudasse com dedicação, isso mostra que seus pais valorizavam a educação de crianças e cuidaram para que também suas filhas mulheres tivessem uma boa formação crítica e intelectual.

Tornou-se dama de honra, por volta de 1508, da duquesa Kunigunde, que era irmã do imperador Maximiliano e esposa do duque Alberto IV. Convivendo com as três filhas do casal recebeu uma formação que somente filhos e filhas de famílias nobres e com boas condições financeiras poderiam ter.

Conhece seu futuro marido, Friedrich von Grumbach, na casa do duque Alberto IV e casam-se por volta de 1516. Esse já era um período histórico com muitos rumores e inquietações e mesmo casada não deixou de ler a Bíblia e se informar sobre os acontecimentos que agitavam a Europa.

Seu esposo, que havia recebido o cargo de administrador da cidade de Dietfurt, não era alguém com quem Argula poderia discutir questões teológicas, pois para ele a igreja como estava bastava, com isso, manteve contato com teólogos da Reforma. Trocou correspondência com Jorge Espalatino, que, na época era secretário e conselheiro do príncipe-eleitor de Saxônia e conde da Turíngia, amigo de Lutero e do príncipe João Frederico. E provavelmente através do contato com Espalatino, obteve a lista das obras de Lutero publicadas em língua alemã. Simpatizou-se com a teologia de Lutero, pois, sua argumentação teológica baseava-se no texto bíblico e torna-se leitora assídua de suas obras.

Argula foi uma grande admiradora de Lutero e trocou vasta correspondência com ele. No ano de 1522 Lutero publica um livro de orações e o dedica “à nobre mulher Argula von Stauffen zu Grumbach”. E em 1524 ele escreve para Johannes Briessmann mencionando sua admiração por ela:

A nobre mulher Argula von Stauffen trava uma árdua luta neste Estado, com um grande Espírito e cheio de palavras e entendimentos sobre Cristo. Ela merece que nós oremos por ela, para que Cristo venha a triunfar através dela. Ela atacou a Universidade de Ingolstadt com escritos, porque eles obrigaram o jovem chamado Arsácio a uma vergonhosa retratação.

Esse episódio com a Universidade de Ingolstadt se deu porque um jovem professor-adjunto chamado Arsácio Seehofer havia iniciado seus estudos nesta universidade, porém transferiu-se por um ou dois semestres para Wittenberg estudando com Melanchthon. Precisou retornar à Ingolstadt, por obediência a seus pais, e se graduou como mestre em teologia. Mas por ter estudado com Melanchthon, Arsácio se convence da doutrina sobre a justificação por graça e fé e com isto suas preleções e alguns artigos que escreveu não condiziam com a teologia de Ingolstadt que era completamente contrária a teologia reformada.

Sofre perseguição, é interrogado, tem sua casa vasculhada, é preso e a universidade abre um processo por heresia no qual seria julgado pelo tribunal dos bispos. Seu pai intervém e Arsácio é julgado internamente pelo reitor da universidade. E em 7 de setembro de 1523 sob ameaça de tortura, com a Bíblia em mãos e chorando de vergonha jura retificando todas as heresias que havia afirmado e agradecendo a enorme benevolência da universidade em minimizar sua pena. Sua condenação foi viver o resto de sua vida no mosteiro de Ettal. Mas pouco tempo depois conseguiu sair do mosteiro e se torna pregador luterano na Igreja Territorial de Wüttemberg.

Argula não se conformou com tudo o que aconteceu com Arsácio e escreve diversos textos que para sua própria surpresa têm enorme repercussão. Sua intenção inicial não era de publicá-los, mas de iniciar um diálogo com a reitoria da Universidade de Ingolstadt o qual se nega em responde-la.

Ao todo, Argula escreveu oito cartas que viraram Cartas Panfletárias2 sobre o caso de Arsácio e defendendo a teologia da Reforma, o que por si só na época já era extremamente polêmico pois os escritos de Lutero estavam proibidos em toda a Baviera e por ser mulher, agravou ainda mais o conflito, uma vez que não cabia as mulheres opinar sobre questões teológicas ou religiosas. E depois da publicação de suas cartas panfletárias não publica mais nenhum texto, porém mantém uma vasta correspondência.

Em 1529, seu esposo falece e ao que parece ele permaneceu fiel a Igreja Católica até a sua morte. Cerca de três anos depois casou-se novamente com o conde Burian von Schick zu Passau, que pertencia a uma família nobre e também era protestante, mas dois anos mais tarde fica viúva de novo.

Seus últimos anos de vida foram muito sofridos por causa da pobreza e dos lutos de seus filhos e outros membros de sua família. Não se sabe exatamente a data de sua morte, mas ao que parece faleceu em 1554 com 62 anos de idade.

Geralmente me chamam de luterana, mas eu não o sou. Eu sou batizada no nome de Cristo, a quem eu confesso, e não confesso Lutero. Mas eu confesso que ele, Martinus, também se confessa um fiel cristão. Que Deus ajude, para que nunca mais neguemos isso, nem por vergonha, desonra, cárcere ou torturas.

Argula em carta ao seu primo Adam von Törring, em 1523

 

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1Aproximadamente 20 anos antes de Lutero traduzir a Bíblia para a língua alemã já havia outras traduções: as mais conhecidas eram a Mentelin Bibel, de 1466, de Estrasburgo, e a Koberger Bibel, de 1483, de Nuremberg.

2O termo original alemão é Flugschrift. Foi uma forma de comunicação de massa que surgiu no século 15 e era uma forma de tornar público informações atuais, numa espécie de “jornal do dia”. Propaganda política, controvérsias religiosas e outras polêmicas eram publicadas e assim espalhadas para influenciar a opinião pública. Tais cartas foram fundamentais para espalhar as ideias da Reforma.

 

MARGARIDA DE NAVARRA

Margarida foi rainha, poeta e contista e de um jeito criativo e perspicaz anunciava valores cristãos e delatava padrões imorais de clérigos e da corte através de seus contos

Margarida nasceu em 1492 em Angoulême na França. Filha de Carlos d’Angoulême e Luisa de Savóia. Seu pai Carlos teve a educação assistida por Leão XI, que era rei da França e seu primo, porque seu pai havia morrido quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Sua mãe Luísa, quando se casou, tinha cerca de 12 anos de idade. Tal casamento foi arranjado e Carlos só permaneceu fiel a este arranjo pois com 18 anos de diferença de sua noiva pode levar sua amante para viver em sua corte juntamente com Luísa.

Casou-se em 1509, aos 17 anos, com o duque Carlos IV d’Alençon. Não foi consultada sobre o assunto e tudo foi arranjado por sua mãe, pelo rei Luiz XII e pela rainha Ana. O noivo era descrito como uma pessoa simples, insignificante na aparência, sem capacidade ou cultura e sem qualquer gosto para a intelectualidade. Era invejoso, tímido e antissocial. Porém, sua ambição o fazia aspirar a cargos para os quais era incompetente. E mesmo não o amando, Margarida foi uma esposa fiel. E exatamente no dia que completava 33 anos ficou viúva.

Casa-se novamente, em 1527, com Henrique d’Albert, um jovem príncipe que foi aprisionado na batalha de Pávia mas que fugiu do seu cativeiro. Foram viver em Navarra, um reino estranho e empobrecido cuja língua Margarida não conseguia entender. O lugar foi melhorando cada vez mais, com a administração sábia de Henrique e a ajuda de Margarida que fundou hospitais, orfanatos e bibliotecas. Foi no castelo de Nérac que Margarida acolheu vários eruditos e reformadores. Ela fez de sua corte um lugar de sábios, poetas e pensadores que fugiram da estaca de um mosteiro sombrio para desfrutar a proteção de uma mulher encantadora, boa, alegre e cortês e de um livre pensador como o rei3.

Ela exaltou o Senhor como o único e suficiente Salvador e intercessor. Ela comparou, como Lutero fez, a lei que busca, tenta e pune com o evangelho que perdoa ao pecador por causa de Cristo e da obra que ele completou na cruz. Ela olha para frente ávida e esperançosa por um mundo redimido e regenerado pelo evangelho de Jesus Cristo. Ela insiste na justificação pela fé, na impossibilidade de salvação pelas obras, na predestinação, no sentido de dependência absoluta de Deus como único recurso. Obras são obras, mas ninguém é salvo pelas obras, salvação vem pela graça e “é o Dom do Deus Altíssimo”. Ela chama a Virgem a mais abençoada entre as mulheres porque ela tinha sido escolhida para ser a mãe do Salvador Soberano, mas recusou para ela um alto lugar, e nas suas devocionais ela introduziu uma invocação ao Nosso Senhor, em vez de “Salve Rainha”.

T.M. Lindsay citada no livro Uma voz feminina na Reforma de Rute Salviano

Teve professores que a ajudaram crescer intelectual e espiritualmente. E por meio de algumas damas de sua corte, soube o que os reformadores estavam pregando. Ela foi influenciada tanto por Lutero quanto por Calvino.

Talvez ninguém represente melhor os sentimentos que inspiraram o começo do movimento da Reforma na França como Margarida, porque, além de afetuosa, era cheia de coragem e entusiasmo. Ela ouvia avidamente a pregação de Lefèvre e Roussel e desejava aprender o caminho da salvação e cooperar na divulgação das ideias da Reforma4.

Em Nérac, seu capelão Roussel pregava na língua do povo e não havia elevação da hóstia ou adoração das espécies e não era permitido adorar a virgem Maria e os santos. O sacerdote oficial não era obrigado ao celibato e podia usar vestes comuns, pegar um pão comum, comê-lo e em seguida dá-lo à congregação e finalizavam cantavam um salmo.

Seu reino, no sul da França, sempre foi hostil ao poder de Roma e havia milhares de protestantes em refúgio, pobres e oprimidos. E quando esse refúgio não era mais seguro, tratava de enviar seus hóspedes a lugares mais seguros. Foi o que aconteceu com João Calvino, que esteve em sua corte, em Nérac, e depois foi enviado à Genebra. Este geralmente se correspondia com ela e sua filha Jeanne d’Albret.

Um de seus poemas mais famosos o Espelho da Alma Pecadora lançado em 1531 na França (e que possuiu tradução para o inglês em 1548 pela futura rainha Elisabeth) foi incluído ao Index de obras proibidas à leitura5. Tal poema foi considerado pela Faculdade de Teologia de Paris (Sorbonne) herético porque não mencionava santos, purgatório, oração a Virgem Maria e a Salve-Rainha era parafraseada em honra a Jesus Cristo. Mas seu irmão, rei da França, Francisco I ordena que deixem sua irmã em paz e assim o reitor altera a condenação informando que seu poema foi colocado na lista por ter sido publicado sem a aprovação da Faculdade de Teologia de Paris, como era requerido pela lei.

Entre 1544 a 1548, Margarida escreve o Heptameron mas sua publicação só acontece 10 anos após sua morte. O valor real do Heptameron está na descrição da vida e dos costumes das cidades naquele período. Pela obra consegue-se formar uma boa ideia da posição das classes, da riqueza e do conforto, da quantidade de tempo dedicada à ociosidade e aos prazeres e outras incongruências que a França apresentava na época6. Ela o escreveu inspirada no Decameron de Bocaccio7 que era moda em sua corte e que endossava e estimulava um estilo de vida devasso e completamente entregue aos prazeres humanos. E em seus contos, no Heptameron, Margarida denuncia comportamentos imorais e expõe valores cristãos de maneira criativa e conforme as pessoas estavam acostumadas a consumir em sua época: através de contos.

Sua vida foi marcada por grande influência na política, por sua intelectualidade e por acreditar em seus ideais e lutar por eles. Mas como esposa e mãe foi omissa permitindo que seu irmão, o rei Francisco I que era emocionalmente instável, ditasse as regras. Assim, sua filha Jeanne d’Albret é separada de sua mãe com apenas 2 anos de idade indo morar em um castelo longe dela e com 12 anos é dada em casamento à um aliado do rei e com o consentimento de Margarida, mas contra a vontade de sua filha e de seu esposo.

Apesar dessa mancha no comportamento como esposa, sobretudo como mãe, sua filha Jeanne d’Albret (1528 – 1572), assim como Margarida, tornou-se grande defensora na luta a favor da Reforma e contra os excessos que a Igreja Católica exercia.

Margarida morre em 21 de dezembro de 1549, aos 57 anos. É enterrada na Catedral de Lescar e em seu funeral teve a presença de pobres de todos os estados de Béarn.

 

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3Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

4Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

5Index era uma relação de obras consideradas heréticas e que eram proibidas aos fiéis da Igreja

6Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

7Bocaccio foi um escritor italiano (1313 – 1375), considerado uma das maiores figuras do Renascentismo. Sua principal obra foi o Decameron, uma coleção de 100 contos que exaltam a beleza e o amor terrenos.

  

KATHARINA SCHÜTZ ZELL

Katharina foi escritora, diaconisa e a primeira pregadora protestante

Katharina nasceu no ano de 1497, em Estrasburgo. Filha de Elisabeth Gerster e Jakob Schütz, era de uma família bem situada e reconhecida em Estrasburgo. Sabe-se que recebeum uma boa formação e sabia ler e escrever muito bem em língua alemã. Interessava-se por literatura, pela Bíblia e artigos teológicos. Desde menina era engajada na igreja e quando as ideias da Reforma chegaram em Estrasburgo seu interesse foi grande.

Casou-se com o pastor Matthäus Zell em 3 de dezembro de 1523 e teve seu matrimônio celebrado por Martin Bucer, reformador também conhecido em Estrasburgo.

A prioridade do casal Zell era o desenvolvimento da igreja na teologia reformada, mas também na prática cotidiana. E o engajamento de Katharina foi de zelar pelos doentes, vulneráveis e fugitivos. Como Estrasburgo era uma cidade livre, em um conflito por questões teológicas na cidade de Kenzingen, cerca de 120 homens acompanharam o pastor local deposto e grande parte deles buscaram refúgio na casa de Matthäus e Katharina. E além de abriga-los, cuidando de sua acomodação e alimentação, Katharina também se preocupou com as mulheres desses refugiados, que agora precisavam organizar suas vidas sem a ajuda de seus maridos, e escreve a elas em forma de um tratado que demonstrava seu grande conhecimento teológico.

Katharina e Matthäus tiveram dois filhos, porém ambos faleceram ainda quando eram bebês. E apesar de ter sofrido muito com tais perdas, canalizou e buscou ocupar seu tempo exercendo atividades diaconais importantes além de buscar na escrita seu posicionamento teológico e intelectual.

Matthäus Zell falece em 1548 quando Katharina tinha 51 anos de idade. Martin Bucer é quem faz o pronunciamento no enterro de Matthäus e ao final Katharina pede a palavra e fala publicamente para toda a comunidade reunida. Tempos depois, publica um escrito de sua reflexão com alguns detalhes sobre os últimos momentos de vida de seu esposo.

Antes de falar, porém, peço que não me levem a mal nem que se aborreçam comigo, como se eu fosse querer me colocar agora no lugar do ministério do pregador e apóstolo; não, de forma alguma, porém somente como o amor agiu, sem preconceitos, nos pensamentos de Maria Madalena […] assim também agora eu.

Comentário de Katharina à comunidade sobre sua publicação posterior ao falecimento de seu esposo

Autora de 3 cartas panfletárias, de 6 livros e também de vários outros escritos, Katharina não só ficou conhecida escritora, mas também como pregadora. Pregando e celebrando também outros sepultamentos além de seu esposo, Matthäus – principalmente quando pastores se recusavam a fazê-lo.

E apesar de sua dor, lutos e incertezas seguiu sua luta pelo movimento da Reforma até o fim de seus dias, falecendo no dia 5 de setembro de 1562, aos 65 anos de idade. 

 

MARIE DENTIÈRE

Marie foi teóloga e uma ativa reformadora. Inspirava mulheres a estudarem e a interpretarem as Escrituras

Marie Dentière nasceu em 1495 em Tournai, na Bélgica. Passou boa parte de sua vida em um convento tornando-se abadessa no Convento Agostiniano da Abadia de Saint-Nicolas-des-près. Ainda no convento, por ter livre acesso a biblioteca, tem acesso aos escritos de Lutero e converte-se a reforma luterana em 1524.

Abandona o convento e foge para Estrasburgo. Marie acompanhava seu compatriota, Guilherme Farel, em diversas campanhas evangelizadoras e em 1528 casa-se com o ex-padre Simon Robert, que era famoso estudioso da língua grega e com quem teve duas filhas. Foram para Bex, e em seguida para Aigle onde Simon Robert foi pastor até o ano de sua morte, em 1532.

Marie casa-se novamente, com o pregador Antoniere Froment, e por volta de 1535 mudam-se para Genebra. Torna-se a primeira mulher teóloga da Reforma e ali sofre perseguição principalmente por parte das autoridades católicas – que impediam qualquer publicação escrita por uma mulher.

Mas Dentière sempre declarou seu desejo de encorajar as mulheres. Para ela a Bíblia era o único fundamento da verdade e encorajava, as pessoas, principalmente as mulheres a terem um espírito de ousadia e destemor.

Ao visitar o convento de Jussy, como parte de suas campanhas evangelísticas, declara aquela que seria uma de suas frases mais conhecidas: Passei muito tempo na escuridão da hipocrisia. Mas somente Deus foi capaz de fazer-me enxergar minha condição e conduzir-me à luz verdadeira.

Em 1536, publica “Guerra e Libertação de Genebra”, o que mostra sua sólida instrução teológica, intelectual e domínio da Bíblia.

Em uma das duas cartas abertas que escreveu à rainha Margarida de Navarra, esta intitulada “Em Defesa das Mulheres”, Marie Dentière faz um apelo à rainha: para que ela intercedesse junto a seu irmão, Francisco I que era o rei da França, para que se eliminasse a divisão entre homens e mulheres, pois elas também recebiam revelações que não podiam ficar escondidas. O que foi um escândalo para o seu tempo defender igual tratamento entre homens e mulheres na habilidade para ler e interpretar as escrituras.

Mesmo que não nos permitam pregar em assembleias ou lugares públicos, não nos proibiram de escrever ou de nos aconselhar mutuamente.

Trecho da carta pública de Marie Dentière para Margarida de Navarra

Em 1540, enquanto Froment era pastor em Massongy, o casal resolveu abrir um colégio interno para meninas em sua casa. Além de suas 3 filhas (duas filhas do 1º casamento de Marie e uma filha de seu casamento com Froment) outras meninas tiveram a oportunidade de uma educação completa além de aulas de grego e hebraico.

Marie Dentière faleceu em 1561, aos 66 anos. Em 2002 tem seu nome gravado no Monumento da Reforma, localizado em Genebra, em reconhecimento de sua vasta contribuição à história e ao movimento da Reforma.

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.