Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2

Hoje, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante, a história que vamos contar é daquela que veio a torna-se conhecida por ter se casado com o ícone da Reforma, Martinho Lutero.

Mas a vida de Katharina von Bora é recheada de inspiração, liberdade, coragem e garra. Certamente que seu casamento com Lutero a transformou – dando a ela a oportunidade de estar diariamente ao lado daquele que veio a contribuir também para a mudança na vida de tantas outras pessoas ao redor do mundo. Mas sua determinação e coragem são marcas inegáveis que, já eram traços antes mesmo de seu casamento com Lutero e que a impulsionaram a dar um passo tão ousado: o de abandonar o mosteiro em que vivia e sua posição de freira.

Boa leitura e inspire-se!

 

KATHARINA VON BORA

Katharina foi uma mulher corajosa, ousou mudar completamente sua vida, ao fugir de um mosteiro e se lançar à uma vida ‘comum’. Tornou-se conhecida por ser a esposa de Lutero, a quem amava como esposo, companheiro e alguém que contribuiu para seu futuro de liberdade em Cristo e por Ele. Soube desempenhar seu papel de mãe juntamente com seu dom da hospitalidade, acolhendo a tantos! Mas também foi uma ótima empreendedora e administradora

Katharina nasceu em janeiro de 1499, na Alemanha – quanto ao local exato, há diferentes opiniões entre os historiadores, mas um dos possíveis locais de seu nascimento é Zülsdorf, próximo a Lippendorf. Seus pais eram nobres empobrecidos e que após seu nascimento precisaram vender sua propriedade.

Sabe-se que sua mãe morreu quando Katharina ainda era bem nova e com apenas 5 anos de idade foi levada por seu pai para o convento beneditino em Brehna. E depois de alguns anos, como sua família não conseguia prover o pagamento anual necessário, transferem-na para o mosteiro das monjas “Sistersinianas Trono de Maria”, em Nimbschen. Não só pelo motivo financeiro – pois, diferente do mosteiro anterior a contribuição nesta era espontânea – mas outros fatores também influenciaram tal decisão: a recém-eleita madre superiora do mosteiro era uma parenta de sua mãe e sua tia Magdalena von Bora morava há muitos anos neste mosteiro.

Vários nobres empobrecidos nesta época colocavam suas filhas em mosteiros pois além do estudo que forneceriam a suas filhas, a um preço acessível, achavam também que suas filhas não conseguiriam se casar, devido sua baixa condição financeira. Então se deixasse-as no mosteiro, garantiria a elas uma vida de estudo e cuidado pelo resto de suas vidas.

Em 1514, Katharina torna-se noviça e em 1515 é ordenada freira, ainda no mosteiro de Nimbschen.

Em 1517, Katharina tinha 18 anos e, apesar de viver atrás dos muros do convento, privada dos acontecimentos do mundo, era uma jovem autossuficiente e com sede de liberdade. Assim como outras freiras deste convento, que no fundo, desejavam uma outra vida, uma vida que extrapolasse os muros do convento, Katharina ficou entusiasmada com os escritos de Lutero.8

Especula-se que as freiras de Nimbschen tenham tomado conhecimento dos escritos de Lutero através de parentas do prior9 do mosteiro dos agostinianos (ordem religiosa de Lutero e que ficava na cidade de Grimmma, próximo a Nimbschen), neste mosteiro os escritos de Lutero tinham livre acesso e tais parentas tinham irmãs no mosteiro em que Katharina se encontrava. Outra hipótese também é que o comerciante Leonardo Koppe, que era amigo de Lutero, semanalmente ia ao mosteiro de Nimbschen e através desse contato as freiras obtiveram acesso aos escritos de Lutero.

Depois de ler o texto Da liberdade cristã de Lutero, Katharina e as demais freiras experimentaram uma libertação: a vida acética que levavam no convento já não fazia mais sentido. Chegaram a escrever para suas famílias manifestando a vontade de sair do mosteiro. No entanto, sair do mosteiro era um passo totalmente incomum para a época, por isso foram reprimidas por suas famílias em sua decisão. Lutero sentiu-se responsável por elas, pois, afinal de contas, foram os seus escritos e a sua teologia que fizeram com que tomassem tal decisão. Lutero lembrou-se de seu amigo comerciante, Leonardo Koppe, para bolar um plano de fuga para as freiras. Então, na Páscoa de 1523, Koppe retirou doze freiras entre barris de sardinha.10

Ao total 12 freiras fugiriam do convento e foram acolhidas por Lutero. Este conseguiu que 3 das 12 freiras fossem acolhidas por famílias em Torgau e para as demais continuou procurando um lar e empenhando-se em achar um esposo para cada uma delas.

Katharina von Bora, a princípio, foi acolhida pela família Reichenbach e foi nesta casa que provavelmente aprendeu a administrar um lar, nessa época as responsabilidades de uma dona de casa extrapolavam o zelo pela casa em si, mas também se referia a administração das terras, agricultura, criação de animais, a comercialização dos produtos cultivados além da coordenação de todos os empregados da casa.

Posteriormente, Katharina foi viver com a família de Lucas e Bárbara Cranach. Lucas era um grande pintor renascentista que trabalhou durante muitos anos para a corte dos Eleitores da Saxônica e é bem conhecido por ter pintado retratos tanto de príncipes como de líderes da Reforma – a imagem de Katharina, que ilustra esse post, é de sua autoria assim como uma das imagens mais conhecidas de Lutero e Melanchthon também são de sua autoria. E é neste lar que Katharina vive até seu casamento com Lutero.

Antes de se casar com Lutero, Katharina viveu algumas desventuras e tentativas frustradas da própria parte de Lutero em arranjar um par para ela – uma vez que ele achava que jamais viria a se casar indo contra à sua própria opinião que pastores e líderes deveriam unir-se em matrimônio.

Mas em 1525, em 13 de junho, Lutero chama um pequeno círculo de amigos e celebra seu casamento com Katharina von Bora – ele com 42 anos e ela com 26 anos de idade. E deste pequeno círculo de amigos, seu grande amigo Filipe Melanchthon não esteve presente pois não concordava com esta decisão. E após 14 dias dessa celebração a cerimônia aberta do casamento dos dois foi realizada, com amigos e parentes presentes.

A casa de Lutero e Katharina era o prédio onde anos atrás os monges agostinianos viviam (Schwarzer Kloster) e que a princípio havia sido liberado para que eles morassem pela Universidade de Wittenberg mas um tempo depois foi doado definitivamente pelo príncipe.

Em seu lar, não vivia apenas a família Luther. Muitos hóspedes passavam por lá, além de estudantes, freiras foragidas, crianças órfãs. Não é à toa que, apesar do bom ordenado de Lutero, somado à excelente administração dos bens e ao trabalho dedicado de Katharina, a família sempre tinha que lutar para que o orçamento não fosse extrapolado.11

Katharina reformou o mosteiro e o administrou com uma rotina bastante atarefada, além de sempre receberem alunos e hóspedes em sua casa ainda tinham uma horta, um orquidário, confeccionavam material para pescaria, e posteriormente adquiririam uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira.

Tiveram 6 filhos (3 filhas e 3 filhos), porém só 4 deles vieram a completar a idade adulta: um tornou-se advogado, outro médico, outro teólogo e a única mulher casou-se com um rico prussiano. Mas além de seus próprios filhos, cuidaram e criaram sobrinhos tanto da parte de Lutero como de Katharina, além também de outras crianças que eram órfãs.

Entre 1527 e 1535 a peste tomou Wittenberg e grande parte da população saiu da cidade. Katharina e Lutero, no entanto ficaram e hospedaram e cuidaram de doentes em sua casa. Nessa época era comum que mulheres, mesmo as de origem nobre, tivessem conhecimentos da medicina caseira. O que aparentemente Katharina veio a aprender com sua tia Magdalene von Bora enquanto esteve com ela no mosteiro de Nimbschen.

Lutero sempre temia por sua vida, achando que fosse morrer a qualquer momento vítima das perseguições que sofria. Então em 1542, faz um testamento indicando Katharina como sua herdeira universal – o que não era possível por lei na época já que sempre deveria haver um homem responsável pela viúva, pelos filhos e pelos bens. Mas ele recusa-se a nomear um homem como tutor de Katharina alegando que ninguém melhor do que ela mesma para cuidar de tudo, uma vez que fazia isso durante muitos anos. Só que ele não registrou em cartório o testamento dificultando ainda mais sua vida após sua morte. Mas depois de grande empenho de amigos e do príncipe João, conseguiram reconhecer o testamento, porém tiveram que nomear um tutor pelo cuidado dos filhos e depois de algumas brigas conseguiu ter o direito do próprio cuidado de seus filhos.

Lutero falece dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade onde nasceu, Eisleben, e foram os amigos mais íntimos de Lutero, Filipe Melanchthon e João Bugenhagen, que tiveram que dar essa difícil notícia a Katharina. Seu corpo foi enviado a Wittenberg e por onde passava os sinos soavam. Seu funeral foi realizado por Bugenhagen e Melanchthon fez a locução memorial em latim. Foi enterrado aos pés do púlpito da igreja de Wittenberg.

A morte de Lutero foi um baque para Katharina pois além de não estar presente quando ele se foi, sentiu a perda de seu esposo e companheiro, mas também de alguém que a influenciou e contribuiu para o real entendimento do Evangelho ajudando-a a tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar de ser freira e viver uma vida comum para a honra e glória de Cristo.

Simpática e querida irmã!

Que a senhora sofre comigo e com meus filhos, eu acredito de coração. Pois quem não estaria aflita e desconsolada por um homem tão caro, como o meu querido senhor o foi? Pois ele serviu não somente a uma cidade ou um país, mas a todo o mundo. Por isso, verdadeiramente, estou tão aflita que não consigo descrever para ninguém a dor que sinto em meu coração. E eu nem sei como estou mantendo meu juízo e ânimo. Não consigo comer nem beber, muito menos dormir. E se eu tivesse tido um principado e um reinado, não teria sido tão cruel se os tivesse perdido, como agora que o bondoso Senhor Deus tirou de mim, e não somente de mim, mas de todo o mundo, esse querido e caro homem. Quando penso nisso, não consigo, de tanto sofrimento e choro (o que Deus certamente sabe) nem falar nem mandar escrever.

Mas o que diz respeito a seu filho, meu querido sobrinho, eu vou gostar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mesmo se tudo tiver que ser investido nele, pois como eu entendo, ele vai continuar os estudos com muita dedicação e não irá desperdiçar sua nobre juventude. Mas, quando ele avançar um pouco mais em seus estudos e necessitar de outros e mais livros, pois ele irá estudar Direito, você mesma querida irmã, pode imaginar que eu não terei condições de comprá-los. Ele necessitará de alguma ajuda a mais para que venha a ter todo o material necessário. Para isso seria necessário que, assim como a senhora escreve para mim, conseguir um dinheiro anual como bolsa de estudos para seu filho, meu sobrinho. Pois assim ele poderia continuar seus estudos e cumprir suas obrigações com mais facilidade. Mas, sobretudo, o que eu puder fazer por ele, eu mandarei notícias com meu irmão Hans von Bora, assim que ele vier para cá.

Assim, fiquem com Deus. Wittenberg, 2 de abril de 1546.
Katharina, a viúva do Dr. Martinus Luther

Com a morte de Lutero também veio a luta pela sobrevivência, e Katharina continuou morando em sua casa, a Schwarzer Kloster, e a princípio continuou com o pensionato para estudantes e outros hóspedes. Mas não foi nada fácil pois não era comum um pensionato dirigido por uma viúva e os estudantes preferiam hospedar-se em casa de professores, e com a ausência de Lutero, sua casa não era mais uma prioridade de estadia. E por falta de dinheiro teve que escrever cartas para conhecidos, pedindo ajuda. E aconteceu que ela foi acusada de não saber se conformar com sua nova situação, de ser orgulhosa, briguenta e ‘cheia de razão’12.

Passou pela guerra de Esmalcada e teve que fugir de Wittenberg em 1546. Retornou no mesmo ano, mas em seguida precisou fugir novamente. Obteve ajuda financeira do rei da Dinamarca, Cristiano II, e decidiu retornar para casa já que o príncipe da Saxônia havia vencido. Mais tarde teve que fugir novamente e tinha a esperança de buscar abrigo na Dinamarca mas conseguiu ir somente até Gifhorn – teve que retornar devido ao perigo nas estradas. Eles estavam tão empobrecidos que conta-se que Katharina teve que rasgar as vestes do falecido Lutero para costurar roupas para seus filhos menores, pois os mais velhos haviam saído de casa para estudar.

E em 1552, a peste retorna em Wittenberg e Katharina resolve fugir para Torgau, em setembro deste ano. No caminho os cavalos tiveram um contratempo e ela teve que pular da carroça. Se machucou muito e chegou doente ficando acamada em Torgau. Foi cuidada pela filha e por amigos, mas seu estado piorava e quando percebeu que seu fim estava próximo pediu pela Santa Ceia. Katharina faleceu em 20 de dezembro de 1552, aos 53 anos de idade. Foi sepultada na igreja de St. Marien e a alocução foi feita por Filipe Melanchthon. Seus filhos mandaram gravar em sua sepultura: Ano 1552, dia 20 de dezembro, bem-aventuradamente adormeceu aqui em Torgau a deixada viúva do Dr. Martin Luther.

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8Trecho citado no livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

9Prior era o superior de um convento em algumas ordens religiosas

10Trecho do livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

11Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

12Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1

Para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante, resolvemos trazer a história de algumas mulheres que, assim como tantos homens, também contribuíram para o desenrolar da Reforma. Foram mulheres ativas, politicamente relevantes, de posicionamento forte e crítico. Muitas agiram nos bastidores, outras conseguiram expor seus manifestos e insatisfações publicamente.

É claro que não temos a pretensão em revelar todos os nomes de mulheres envolvidas em tal movimento, pois certamente há uma grande nuvem de testemunhas que sequer tiveram suas histórias ou contribuições divulgadas. Mas nossa intenção aqui é trazer inspiração. Contribuir para que você, assim como eu, ao ler essas histórias – em que muitas não tiveram um final feliz – possa sentir-se tocada e inspirada a fazer mais por seu bairro, país, escola, casa, trabalho, família, igreja. E quem sabe, contribuir para uma reforma necessária onde você estiver…

Boa leitura e inspire-se!

 

ARGULA VON GRUMBACH

Argula foi a primeira mulher que pronunciou-se publicamente a favor de questões referentes à teologia luterana e entra na história como a primeira escritora protestante

Argula nasceu no ano de 1492 em Beratzhausen, perto da cidade de Ingolstadt, na Baviera, Alemanha. Era filha do barão Bernhard von Stauff e de Katharina von Toerring zu Seefeld – ambos de descedência nobre, porém empobrecidos.

Quando tinha dez anos recebeu de seu pai uma Bíblia1 para que a estudasse com dedicação, isso mostra que seus pais valorizavam a educação de crianças e cuidaram para que também suas filhas mulheres tivessem uma boa formação crítica e intelectual.

Tornou-se dama de honra, por volta de 1508, da duquesa Kunigunde, que era irmã do imperador Maximiliano e esposa do duque Alberto IV. Convivendo com as três filhas do casal recebeu uma formação que somente filhos e filhas de famílias nobres e com boas condições financeiras poderiam ter.

Conhece seu futuro marido, Friedrich von Grumbach, na casa do duque Alberto IV e casam-se por volta de 1516. Esse já era um período histórico com muitos rumores e inquietações e mesmo casada não deixou de ler a Bíblia e se informar sobre os acontecimentos que agitavam a Europa.

Seu esposo, que havia recebido o cargo de administrador da cidade de Dietfurt, não era alguém com quem Argula poderia discutir questões teológicas, pois para ele a igreja como estava bastava, com isso, manteve contato com teólogos da Reforma. Trocou correspondência com Jorge Espalatino, que, na época era secretário e conselheiro do príncipe-eleitor de Saxônia e conde da Turíngia, amigo de Lutero e do príncipe João Frederico. E provavelmente através do contato com Espalatino, obteve a lista das obras de Lutero publicadas em língua alemã. Simpatizou-se com a teologia de Lutero, pois, sua argumentação teológica baseava-se no texto bíblico e torna-se leitora assídua de suas obras.

Argula foi uma grande admiradora de Lutero e trocou vasta correspondência com ele. No ano de 1522 Lutero publica um livro de orações e o dedica “à nobre mulher Argula von Stauffen zu Grumbach”. E em 1524 ele escreve para Johannes Briessmann mencionando sua admiração por ela:

A nobre mulher Argula von Stauffen trava uma árdua luta neste Estado, com um grande Espírito e cheio de palavras e entendimentos sobre Cristo. Ela merece que nós oremos por ela, para que Cristo venha a triunfar através dela. Ela atacou a Universidade de Ingolstadt com escritos, porque eles obrigaram o jovem chamado Arsácio a uma vergonhosa retratação.

Esse episódio com a Universidade de Ingolstadt se deu porque um jovem professor-adjunto chamado Arsácio Seehofer havia iniciado seus estudos nesta universidade, porém transferiu-se por um ou dois semestres para Wittenberg estudando com Melanchthon. Precisou retornar à Ingolstadt, por obediência a seus pais, e se graduou como mestre em teologia. Mas por ter estudado com Melanchthon, Arsácio se convence da doutrina sobre a justificação por graça e fé e com isto suas preleções e alguns artigos que escreveu não condiziam com a teologia de Ingolstadt que era completamente contrária a teologia reformada.

Sofre perseguição, é interrogado, tem sua casa vasculhada, é preso e a universidade abre um processo por heresia no qual seria julgado pelo tribunal dos bispos. Seu pai intervém e Arsácio é julgado internamente pelo reitor da universidade. E em 7 de setembro de 1523 sob ameaça de tortura, com a Bíblia em mãos e chorando de vergonha jura retificando todas as heresias que havia afirmado e agradecendo a enorme benevolência da universidade em minimizar sua pena. Sua condenação foi viver o resto de sua vida no mosteiro de Ettal. Mas pouco tempo depois conseguiu sair do mosteiro e se torna pregador luterano na Igreja Territorial de Wüttemberg.

Argula não se conformou com tudo o que aconteceu com Arsácio e escreve diversos textos que para sua própria surpresa têm enorme repercussão. Sua intenção inicial não era de publicá-los, mas de iniciar um diálogo com a reitoria da Universidade de Ingolstadt o qual se nega em responde-la.

Ao todo, Argula escreveu oito cartas que viraram Cartas Panfletárias2 sobre o caso de Arsácio e defendendo a teologia da Reforma, o que por si só na época já era extremamente polêmico pois os escritos de Lutero estavam proibidos em toda a Baviera e por ser mulher, agravou ainda mais o conflito, uma vez que não cabia as mulheres opinar sobre questões teológicas ou religiosas. E depois da publicação de suas cartas panfletárias não publica mais nenhum texto, porém mantém uma vasta correspondência.

Em 1529, seu esposo falece e ao que parece ele permaneceu fiel a Igreja Católica até a sua morte. Cerca de três anos depois casou-se novamente com o conde Burian von Schick zu Passau, que pertencia a uma família nobre e também era protestante, mas dois anos mais tarde fica viúva de novo.

Seus últimos anos de vida foram muito sofridos por causa da pobreza e dos lutos de seus filhos e outros membros de sua família. Não se sabe exatamente a data de sua morte, mas ao que parece faleceu em 1554 com 62 anos de idade.

Geralmente me chamam de luterana, mas eu não o sou. Eu sou batizada no nome de Cristo, a quem eu confesso, e não confesso Lutero. Mas eu confesso que ele, Martinus, também se confessa um fiel cristão. Que Deus ajude, para que nunca mais neguemos isso, nem por vergonha, desonra, cárcere ou torturas.

Argula em carta ao seu primo Adam von Törring, em 1523

 

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1Aproximadamente 20 anos antes de Lutero traduzir a Bíblia para a língua alemã já havia outras traduções: as mais conhecidas eram a Mentelin Bibel, de 1466, de Estrasburgo, e a Koberger Bibel, de 1483, de Nuremberg.

2O termo original alemão é Flugschrift. Foi uma forma de comunicação de massa que surgiu no século 15 e era uma forma de tornar público informações atuais, numa espécie de “jornal do dia”. Propaganda política, controvérsias religiosas e outras polêmicas eram publicadas e assim espalhadas para influenciar a opinião pública. Tais cartas foram fundamentais para espalhar as ideias da Reforma.

 

MARGARIDA DE NAVARRA

Margarida foi rainha, poeta e contista e de um jeito criativo e perspicaz anunciava valores cristãos e delatava padrões imorais de clérigos e da corte através de seus contos

Margarida nasceu em 1492 em Angoulême na França. Filha de Carlos d’Angoulême e Luisa de Savóia. Seu pai Carlos teve a educação assistida por Leão XI, que era rei da França e seu primo, porque seu pai havia morrido quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Sua mãe Luísa, quando se casou, tinha cerca de 12 anos de idade. Tal casamento foi arranjado e Carlos só permaneceu fiel a este arranjo pois com 18 anos de diferença de sua noiva pode levar sua amante para viver em sua corte juntamente com Luísa.

Casou-se em 1509, aos 17 anos, com o duque Carlos IV d’Alençon. Não foi consultada sobre o assunto e tudo foi arranjado por sua mãe, pelo rei Luiz XII e pela rainha Ana. O noivo era descrito como uma pessoa simples, insignificante na aparência, sem capacidade ou cultura e sem qualquer gosto para a intelectualidade. Era invejoso, tímido e antissocial. Porém, sua ambição o fazia aspirar a cargos para os quais era incompetente. E mesmo não o amando, Margarida foi uma esposa fiel. E exatamente no dia que completava 33 anos ficou viúva.

Casa-se novamente, em 1527, com Henrique d’Albert, um jovem príncipe que foi aprisionado na batalha de Pávia mas que fugiu do seu cativeiro. Foram viver em Navarra, um reino estranho e empobrecido cuja língua Margarida não conseguia entender. O lugar foi melhorando cada vez mais, com a administração sábia de Henrique e a ajuda de Margarida que fundou hospitais, orfanatos e bibliotecas. Foi no castelo de Nérac que Margarida acolheu vários eruditos e reformadores. Ela fez de sua corte um lugar de sábios, poetas e pensadores que fugiram da estaca de um mosteiro sombrio para desfrutar a proteção de uma mulher encantadora, boa, alegre e cortês e de um livre pensador como o rei3.

Ela exaltou o Senhor como o único e suficiente Salvador e intercessor. Ela comparou, como Lutero fez, a lei que busca, tenta e pune com o evangelho que perdoa ao pecador por causa de Cristo e da obra que ele completou na cruz. Ela olha para frente ávida e esperançosa por um mundo redimido e regenerado pelo evangelho de Jesus Cristo. Ela insiste na justificação pela fé, na impossibilidade de salvação pelas obras, na predestinação, no sentido de dependência absoluta de Deus como único recurso. Obras são obras, mas ninguém é salvo pelas obras, salvação vem pela graça e “é o Dom do Deus Altíssimo”. Ela chama a Virgem a mais abençoada entre as mulheres porque ela tinha sido escolhida para ser a mãe do Salvador Soberano, mas recusou para ela um alto lugar, e nas suas devocionais ela introduziu uma invocação ao Nosso Senhor, em vez de “Salve Rainha”.

T.M. Lindsay citada no livro Uma voz feminina na Reforma de Rute Salviano

Teve professores que a ajudaram crescer intelectual e espiritualmente. E por meio de algumas damas de sua corte, soube o que os reformadores estavam pregando. Ela foi influenciada tanto por Lutero quanto por Calvino.

Talvez ninguém represente melhor os sentimentos que inspiraram o começo do movimento da Reforma na França como Margarida, porque, além de afetuosa, era cheia de coragem e entusiasmo. Ela ouvia avidamente a pregação de Lefèvre e Roussel e desejava aprender o caminho da salvação e cooperar na divulgação das ideias da Reforma4.

Em Nérac, seu capelão Roussel pregava na língua do povo e não havia elevação da hóstia ou adoração das espécies e não era permitido adorar a virgem Maria e os santos. O sacerdote oficial não era obrigado ao celibato e podia usar vestes comuns, pegar um pão comum, comê-lo e em seguida dá-lo à congregação e finalizavam cantavam um salmo.

Seu reino, no sul da França, sempre foi hostil ao poder de Roma e havia milhares de protestantes em refúgio, pobres e oprimidos. E quando esse refúgio não era mais seguro, tratava de enviar seus hóspedes a lugares mais seguros. Foi o que aconteceu com João Calvino, que esteve em sua corte, em Nérac, e depois foi enviado à Genebra. Este geralmente se correspondia com ela e sua filha Jeanne d’Albret.

Um de seus poemas mais famosos o Espelho da Alma Pecadora lançado em 1531 na França (e que possuiu tradução para o inglês em 1548 pela futura rainha Elisabeth) foi incluído ao Index de obras proibidas à leitura5. Tal poema foi considerado pela Faculdade de Teologia de Paris (Sorbonne) herético porque não mencionava santos, purgatório, oração a Virgem Maria e a Salve-Rainha era parafraseada em honra a Jesus Cristo. Mas seu irmão, rei da França, Francisco I ordena que deixem sua irmã em paz e assim o reitor altera a condenação informando que seu poema foi colocado na lista por ter sido publicado sem a aprovação da Faculdade de Teologia de Paris, como era requerido pela lei.

Entre 1544 a 1548, Margarida escreve o Heptameron mas sua publicação só acontece 10 anos após sua morte. O valor real do Heptameron está na descrição da vida e dos costumes das cidades naquele período. Pela obra consegue-se formar uma boa ideia da posição das classes, da riqueza e do conforto, da quantidade de tempo dedicada à ociosidade e aos prazeres e outras incongruências que a França apresentava na época6. Ela o escreveu inspirada no Decameron de Bocaccio7 que era moda em sua corte e que endossava e estimulava um estilo de vida devasso e completamente entregue aos prazeres humanos. E em seus contos, no Heptameron, Margarida denuncia comportamentos imorais e expõe valores cristãos de maneira criativa e conforme as pessoas estavam acostumadas a consumir em sua época: através de contos.

Sua vida foi marcada por grande influência na política, por sua intelectualidade e por acreditar em seus ideais e lutar por eles. Mas como esposa e mãe foi omissa permitindo que seu irmão, o rei Francisco I que era emocionalmente instável, ditasse as regras. Assim, sua filha Jeanne d’Albret é separada de sua mãe com apenas 2 anos de idade indo morar em um castelo longe dela e com 12 anos é dada em casamento à um aliado do rei e com o consentimento de Margarida, mas contra a vontade de sua filha e de seu esposo.

Apesar dessa mancha no comportamento como esposa, sobretudo como mãe, sua filha Jeanne d’Albret (1528 – 1572), assim como Margarida, tornou-se grande defensora na luta a favor da Reforma e contra os excessos que a Igreja Católica exercia.

Margarida morre em 21 de dezembro de 1549, aos 57 anos. É enterrada na Catedral de Lescar e em seu funeral teve a presença de pobres de todos os estados de Béarn.

 

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3Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

4Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

5Index era uma relação de obras consideradas heréticas e que eram proibidas aos fiéis da Igreja

6Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

7Bocaccio foi um escritor italiano (1313 – 1375), considerado uma das maiores figuras do Renascentismo. Sua principal obra foi o Decameron, uma coleção de 100 contos que exaltam a beleza e o amor terrenos.

  

KATHARINA SCHÜTZ ZELL

Katharina foi escritora, diaconisa e a primeira pregadora protestante

Katharina nasceu no ano de 1497, em Estrasburgo. Filha de Elisabeth Gerster e Jakob Schütz, era de uma família bem situada e reconhecida em Estrasburgo. Sabe-se que recebeum uma boa formação e sabia ler e escrever muito bem em língua alemã. Interessava-se por literatura, pela Bíblia e artigos teológicos. Desde menina era engajada na igreja e quando as ideias da Reforma chegaram em Estrasburgo seu interesse foi grande.

Casou-se com o pastor Matthäus Zell em 3 de dezembro de 1523 e teve seu matrimônio celebrado por Martin Bucer, reformador também conhecido em Estrasburgo.

A prioridade do casal Zell era o desenvolvimento da igreja na teologia reformada, mas também na prática cotidiana. E o engajamento de Katharina foi de zelar pelos doentes, vulneráveis e fugitivos. Como Estrasburgo era uma cidade livre, em um conflito por questões teológicas na cidade de Kenzingen, cerca de 120 homens acompanharam o pastor local deposto e grande parte deles buscaram refúgio na casa de Matthäus e Katharina. E além de abriga-los, cuidando de sua acomodação e alimentação, Katharina também se preocupou com as mulheres desses refugiados, que agora precisavam organizar suas vidas sem a ajuda de seus maridos, e escreve a elas em forma de um tratado que demonstrava seu grande conhecimento teológico.

Katharina e Matthäus tiveram dois filhos, porém ambos faleceram ainda quando eram bebês. E apesar de ter sofrido muito com tais perdas, canalizou e buscou ocupar seu tempo exercendo atividades diaconais importantes além de buscar na escrita seu posicionamento teológico e intelectual.

Matthäus Zell falece em 1548 quando Katharina tinha 51 anos de idade. Martin Bucer é quem faz o pronunciamento no enterro de Matthäus e ao final Katharina pede a palavra e fala publicamente para toda a comunidade reunida. Tempos depois, publica um escrito de sua reflexão com alguns detalhes sobre os últimos momentos de vida de seu esposo.

Antes de falar, porém, peço que não me levem a mal nem que se aborreçam comigo, como se eu fosse querer me colocar agora no lugar do ministério do pregador e apóstolo; não, de forma alguma, porém somente como o amor agiu, sem preconceitos, nos pensamentos de Maria Madalena […] assim também agora eu.

Comentário de Katharina à comunidade sobre sua publicação posterior ao falecimento de seu esposo

Autora de 3 cartas panfletárias, de 6 livros e também de vários outros escritos, Katharina não só ficou conhecida escritora, mas também como pregadora. Pregando e celebrando também outros sepultamentos além de seu esposo, Matthäus – principalmente quando pastores se recusavam a fazê-lo.

E apesar de sua dor, lutos e incertezas seguiu sua luta pelo movimento da Reforma até o fim de seus dias, falecendo no dia 5 de setembro de 1562, aos 65 anos de idade. 

 

MARIE DENTIÈRE

Marie foi teóloga e uma ativa reformadora. Inspirava mulheres a estudarem e a interpretarem as Escrituras

Marie Dentière nasceu em 1495 em Tournai, na Bélgica. Passou boa parte de sua vida em um convento tornando-se abadessa no Convento Agostiniano da Abadia de Saint-Nicolas-des-près. Ainda no convento, por ter livre acesso a biblioteca, tem acesso aos escritos de Lutero e converte-se a reforma luterana em 1524.

Abandona o convento e foge para Estrasburgo. Marie acompanhava seu compatriota, Guilherme Farel, em diversas campanhas evangelizadoras e em 1528 casa-se com o ex-padre Simon Robert, que era famoso estudioso da língua grega e com quem teve duas filhas. Foram para Bex, e em seguida para Aigle onde Simon Robert foi pastor até o ano de sua morte, em 1532.

Marie casa-se novamente, com o pregador Antoniere Froment, e por volta de 1535 mudam-se para Genebra. Torna-se a primeira mulher teóloga da Reforma e ali sofre perseguição principalmente por parte das autoridades católicas – que impediam qualquer publicação escrita por uma mulher.

Mas Dentière sempre declarou seu desejo de encorajar as mulheres. Para ela a Bíblia era o único fundamento da verdade e encorajava, as pessoas, principalmente as mulheres a terem um espírito de ousadia e destemor.

Ao visitar o convento de Jussy, como parte de suas campanhas evangelísticas, declara aquela que seria uma de suas frases mais conhecidas: Passei muito tempo na escuridão da hipocrisia. Mas somente Deus foi capaz de fazer-me enxergar minha condição e conduzir-me à luz verdadeira.

Em 1536, publica “Guerra e Libertação de Genebra”, o que mostra sua sólida instrução teológica, intelectual e domínio da Bíblia.

Em uma das duas cartas abertas que escreveu à rainha Margarida de Navarra, esta intitulada “Em Defesa das Mulheres”, Marie Dentière faz um apelo à rainha: para que ela intercedesse junto a seu irmão, Francisco I que era o rei da França, para que se eliminasse a divisão entre homens e mulheres, pois elas também recebiam revelações que não podiam ficar escondidas. O que foi um escândalo para o seu tempo defender igual tratamento entre homens e mulheres na habilidade para ler e interpretar as escrituras.

Mesmo que não nos permitam pregar em assembleias ou lugares públicos, não nos proibiram de escrever ou de nos aconselhar mutuamente.

Trecho da carta pública de Marie Dentière para Margarida de Navarra

Em 1540, enquanto Froment era pastor em Massongy, o casal resolveu abrir um colégio interno para meninas em sua casa. Além de suas 3 filhas (duas filhas do 1º casamento de Marie e uma filha de seu casamento com Froment) outras meninas tiveram a oportunidade de uma educação completa além de aulas de grego e hebraico.

Marie Dentière faleceu em 1561, aos 66 anos. Em 2002 tem seu nome gravado no Monumento da Reforma, localizado em Genebra, em reconhecimento de sua vasta contribuição à história e ao movimento da Reforma.

 

__________

MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Estou de mudança, de novo

Remedios Varo (1908-1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana - Tela: Tránsito en Espiral (1962)
Remedios Varo (1908 – 1963): pintora surrealista espanhola e naturalizada mexicana — Tela: Tránsito en Espiral (1962), essa imagem foi a capa da edição brasileira (2014) do livro de Santa Teresa d’Ávila “As Moradas do Castelo Interior”

Estou de mudança, de novo.
Mudando de apartamento para casa, da zona norte para o centro de São Paulo. De vizinhos e companheiras de viagem. De renúncias para novas oportunidades. De ares e paisagens.

Estou de mudança, de novo.
– E quem é que permanece sempre igual e no mesmo lugar? Faço a pergunta a mim mesma quase em voz alta.
– Talvez mudar (geograficamente falando) possa ser uma espécie de experiência-metáfora do que acontece dentro da gente e que Deus permite e nos chama a viver. Penso, mas desta vez, sinto um nó na garganta e envolta a algumas incertezas a Voz interna, paradoxalmente, me acalma e me envolve em uma extrema alegria, não há como negar, é Ele, dentro de mim, mudando as coisas de lugar*.

Estou de mudança, de novo.
Mas desta vez, também, caminhando para novas moradas, dessas que não estão localizadas em bairros, ruas ou avenidas, tampouco são feitas de tijolos e cimento. Estou caminhando para as moradas que se encontram nesse enorme Castelo Forte**, que é Deus.

Aprendendo a desapegar, a cada mudança, do supérfluo.
Deixando, quer dizer, tentando deixar a bagagem mais leve. Assim, fica mais fácil de respirar…
Já posso até ver e sentir o peso desse fardo menor, mesmo em meio a alguns apegos, que ainda teimam, em mim, ficar.

Sei, que estou longe, bem longe de onde Ele gostaria que eu estivesse, ainda me faltam muitas e muitas milhas – talvez, eu ainda caminhe por passagens bem estreitas, desérticas e hostis. Talvez ainda, durante o meu longo (ou curto, quem sabe?!) percurso de uma vida toda, eu tenha que enfrentar muitos, ou poucos, obstáculos. Não sei. Mas o que importa, o que realmente importa, é que tenho a certeza que sempre haverá um oásis para matar minha sede e restaurar as energias gastas durante a viagem.

Minha alegria é saber que Ele me aguarda (e guarda) mesmo em meio a tanta incerteza minha. E lança fora todo o meu medo e me ajuda – diariamente – a não desistir, a persistir e olhar só para Ele, que é o mais puro, sincero e verdadeiro Amor.

“No Amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor”

1 João 4:18

“…sabemos que temos almas; mas que bens possa haver nesta alma, ou quem está dentro dela, ou seu grande valor, isso poucas vezes levamos em consideração, e assim nos preocupamos tão pouco em conservar sua beleza com todo o cuidado. Tudo se limita para nós ao grosseiro engaste ou muralha deste castelo, que são nossos corpos. Pois consideremos que este castelo tem, como eu disse, muitas moradas, umas no alto, outras embaixo, outras nos lados, e no centro, no meio de todas estas está a principal, que é onde ocorrem as coisas mais secretas entre Deus e a alma”.

Santa Teresa d’Ávila
As Moradas do Castelo Interior,
Primeiras Moradas: Capítulo 1

Santa Teresa d’Ávila (1515 – 1582) em seu livro As Moradas do Castelo Interior nos ajuda a usar a força da imaginação para fazer compreender quem é o ser humano e quem é Deus. A imagem do castelo não é estática, mas dinâmica. É uma viagem ao interior, na qual superamos os obstáculos exteriores que nos impedem de entrar no castelo e cujo caminho prosseguimos sem parar, até chegar a “morada central, onde habita o Rei, sua Majestade” – trecho retirado do Prefácio à edição brasileira feita pelo Frei Patrício Sciadini, o.c.d. do livro.

 

 

*trecho da música Casa de Palavrantiga
**menção ao hino Castelo Forte escrito por Martinho Lutero em 1529

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As marés da vida

Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick
Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick

No devocional desta semana, li um texto lindo escrito por Anne Morrow Lindbergh* no qual ela compara os ciclos da vida às marés de uma praia. Ela escreveu este texto quando ficou sozinha em uma ilha, durante um mês inteiro, para descansar de sua rotina (escritora, piloto de avião, casada e com 5 filhos) e buscar a solitude.

Usando metáforas relacionadas à ilha na qual ela estava (o mar, as conchas, as marés, os pássaros…), Anne reflete sobre as diversas etapas da vida e dos relacionamentos; sobre a necessidade de estar sozinho (viver a solitude regularmente) para poder estar junto com os outros, de se fortalecer para só depois se doar, de ser inteiro quando o mundo nos torna fragmentados.

Sua reflexão me fez pensar nos ciclos normais de nossas vidas e de nossos relacionamentos. Os momentos em que estamos totalmente dedicados aos amigos e os momentos em que nos afastamos para estudar para uma prova difícil; os momentos em que nos apaixonamos e os momentos em que estamos sozinhos; os momentos em que vivemos para os filhos e os momentos de dedicação a um trabalho; os momentos em que adoecemos e diminuímos o ritmo e os momentos em que esbanjamos energia e saúde…

Também nos afastamos e aproximamos daqueles que amamos e que caminham mais perto de nós (nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, namorados, maridos e esposas). Os relacionamentos não são estáticos, há encontros e desencontros enquanto caminhamos juntos e nunca estamos sempre próximos ou sempre distantes. Há ciclos, há fases… como as marés.

Há tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar.
(Eclesiastes 3:5)

Às vezes caminhamos muito próximos de alguns amigos, depois nos afastamos, apesar de continuarmos amigos. É interessante também perceber as marés de nosso relacionamento com Deus. Às vezes, temos experiências de sua presença marcante, outras vezes, sentimos seu silêncio.

A vida é dinâmica. Mas tendemos a nos apegar com força para tentar fazer o momento durar para sempre. Schaeffer já dizia que precisamos aprender a estar presentes para o outro e a viver o momento presente. Respeitar estes ciclos de nossos relacionamentos pode resultar em mais gratidão (e alegria) e em menos ansiedade (e medo).

Se você se render completamente aos momentos que passam, viverá de maneira mais rica esses momentos.
(Anne M. Lindbergh)

A seguir, compartilho um trecho desse devocional com vocês.

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O fluxo e o refluxo da vida

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

Como podemos aprender a viver através das marés de nossa vida? Como se pode aprender a viver as marés baixas da vida? Como aprender a aceitar o vácuo entre duas ondas? É fácil entender isso aqui, na praia; onde a maré baixa, em seu silêncio, revela uma outra vida sobre a superfície, o reino secreto do fundo do mar… moluscos, estrelas-do-mar, mariscos coloridos, conchas… É tão linda a hora silenciosa do refluxo do mar, tão linda quanto a hora do retorno, quando as ondas agitadas se quebram na praia.

Talvez seja esta a coisa mais importante que levo de volta da minha estada à beira mar: simplesmente a lembrança de que cada ciclo da maré é válido; cada ciclo da onda é válido; cada ciclo de um relacionamento é válido.

Quando se aceita o fato de que, mesmo entre os seres humanos mais próximos, continuam a existir distâncias infinitas, pode-se desenvolver uma vida maravilhosa lado a lado. Para isso, os parceiros precisam aprender a amar a distância que os separa, e que possibilita a cada um ver o outro inteiro, como um todo, tendo como fundo a amplidão do céu!
(Rainer Maria Rilke)

Fonte: Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 143–144.

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Anne e Charles Lindbergh
Anne e Charles Lindbergh

*Anne Morrow Lindbergh (1906–2001) e seu marido Charles Lindbergh ficaram conhecidos por realizar viagens de avião transoceânicas (ele era piloto e ela era navegadora e operadora de rádio, mais tarde ela se tornou a primeira mulher americana a obter brevê de piloto de planador). Ela escreveu várias histórias das viagens. Sua fé aparece em seus escritos, principalmente no livro Presente do Mar (que apresenta estes trechos citados acima).

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E ainda pensando nisso. Pensando nas marés da vida e dos relacionamentos, podemos nos sentir inseguros com essa intermitência e ciclos contínuos, com medo de fazer algo errado e perder a relação imediata com a realidade e com aqueles que amamos.

Mas, então, eu me lembrei do que Bonhoeffer (no livro Discipulado) fala sobre a relação imediata ser uma ilusão (por causa da queda, eu não tenho mais uma relação direta com o outro) e Cristo ser o mediador. Não apenas entre mim e Deus, mas entre mim e a realidade, e também entre mim e os outros, Cristo é o único mediador.

Por isso, então, podemos nos sentir seguros em nossos relacionamentos e nas marés da vida. Podemos reconhecer nossas falhas e limitações, assim como as dos outros. Aceitar as ondas de alegria e as ondas de tristeza. Podemos exercer o perdão e a paciência, podemos experimentar a beleza e a esperança ao vivermos o presente.

Porém, não ao olhar para nós ou para os outros, mas apenas ao confiar nAquele que sustenta nossos relacionamentos (que nos aproxima e afasta) e que conduz cada ciclo de nossas vidas em amor.

Entre pai e filho, marido e mulher, entre o indivíduo e o povo, ergue-se Cristo, o Mediador, quer consigam reconhecê-lo, quer não. Não há para nós qualquer caminho ao semelhante que não seja o caminho através de Cristo, da sua Palavra e de nosso discipulado.
(Dietrich Bonhoeffer)


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

A crítica e nossa dependência de enxergar através de lentes negativas

catherine_marshallAcabei de ler um trecho escrito por Catherine Marshall* e fiquei com muita vontade de compartilhá-lo (essa publicação foi postada originalmente aqui). Aparentemente, ela era uma pessoa muito crítica e que não pensava duas vezes em falar sua opinião com julgamentos, censuras e desaprovação para quem estivesse em volta.

Sendo cristã, um belo dia, o Senhor lhe pediu para fazer um jejum de crítica, a seguir, traduzo o trecho no qual ela conta essa história.

“O Senhor continua a lidar comigo em relação ao meu espírito crítico, me convencendo de que tenho estado errada ao julgar qualquer pessoa ou situação:

Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque sereis julgados pelo critério com que julgais e sereis medidos pela medida com que medis’ (Mateus 7:1–2)

Em uma manhã, na última semana, Ele me deu uma tarefa: por um dia eu faria um ‘jejum’ de julgamento crítico. Eu não criticaria ninguém sobre nada.

Minha mente encheu-se das objeções usuais: ‘Mas, então, o que acontece com os juízos de valor? O Senhor mesmo fala de ‘julgamento correto’. Como uma sociedade vai funcionar sem padrões e limites?

Toda resistência foi posta de lado: ‘Somente me obedeça sem questionar, um jejum absoluto de declarações críticas durante um dia.’ Enquanto eu ponderava essa tarefa, eu percebi um pouco de humor nesse tipo de jejum. O que o Senhor queria me mostrar?

Na primeira metade do dia, eu simplesmente senti um vazio, quase como que se eu tivesse sido apagada como pessoa. Isso foi especialmente verdade na hora do almoço com meu marido, Len, minha mãe, meu filho Jeff e minha secretária Jeanne. Muitos assuntos surgiram sobre os quais eu tinha, definitivamente, uma opinião. Eu ouvi a todos e me mantive em silêncio. Comentários farpados ficaram na ponta da minha língua. Em nossa família tagarela, ninguém pareceu notar.

Confusa, eu notei que não sentiram falta de meus comentários. O governo federal, o sistema jurídico e a igreja poderiam, aparentemente, continuar muito bem sem minhas observações penetrantes. Mas, ainda assim, eu não tinha enxergado o que esse jejum de críticas tinha alcançado — até o meio da tarde.

Por muitos anos, eu tenho orado por um jovem muito talentoso cuja vida foi desviada. Talvez, as minhas orações por ele tenham sido muito negativas. Naquela tarde, uma visão específica e positiva sobre a vida dele foi colocada em minha mente com uma inconfundível marca de Deus — alegria.

Ideias começaram a fluir de um jeito que eu não experimentara em anos. Agora era nítido o que o Senhor queria que eu visse. Minha natureza crítica não corrigiu uma única coisa da multidão na qual eu vejo erros. A única coisa que minha crítica tem feito é sufocar a minha criatividade — em oração, nos relacionamentos, talvez até em escrever — ideias que Ele quer me dar.

No último domingo a noite, em um grupo de estudo Bíblico, eu contei sobre a minha experiência de um dia de jejum. A resposta foi surpreendente. Muitos admitiram que a crítica era o principal problema em seus escritórios, em seus casamentos e com os filhos adolescentes.

A minha falha de caráter não será corrigida de um dia para o outro. Mas ao pensar sobre isso nos últimos dias, eu encontrei uma base sólida nas Escrituras para lidar com isso. Ao longo de todo o Sermão do Monte, Jesus se posiciona diretamente contra vermos os outros e as situações da vida através de lentes negativas.

O que Ele me ensinou, até agora, pode ser resumido em:

  1. Um espírito crítico foca apenas em nós mesmos e nos faz infelizes. Perdemos perspectiva e humor.
  2. Um espírito crítico bloqueia os pensamentos criativos positivos que Deus anseia por nos dar.
  3. Um espírito crítico impede bons relacionamento entre indivíduos e, geralmente, produz mais crítica em retaliação.
  4. A crítica bloqueia o trabalho do Espírito de Deus: amor, boa vontade e misericórdia.
  5. Sempre que vemos algo genuinamente errado no comportamento de outra pessoa, ao invés de criticá-la diretamente, ou — ainda pior — reclamar pelas costas, deveríamos pedir ao Espírito de Deus para fazer a correção necessária.

Convencida da destrutividade de uma mente muito crítica, de joelhos, eu repito essa oração: “Senhor, eu me arrependo deste pecado de julgamento. Eu sinto muito por ter sido tão grosseira em ofensas contra Ti e contra mim mesma (sem falar nos demais) tão continuamente. Eu reivindico sua promessa de perdão e busco um novo começo.”

Fonte: Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 57–59.

*Catherine Marshall (1914–1983) ficou conhecida, inicialmente, após a morte de seu primeiro marido, Peter Marshall, famoso ministro presbiteriano, pastor e capelão do Senado dos Estados Unidos. Ela escreveu um livro sobre ele que se tornou um best-seller: A Man called Petter (um homem chamado Pedro). Ela era uma contadora de histórias muito talentosa, com grande capacidade para reflexão espiritual e escreveu vários livros sobre oração e espiritualidade. Casou-se com Leonard LeSourd, continuou escrevendo e se tornou editora.


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

O resgate da mulher que somos e da criança que fomos

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Ilustração incrível da artista Andrea Hrnjak

Não é novidade, aqui, que sou encantada pelo livro Mulheres que Correm com os Lobos. Aliás, acredito que falei dele em quase todos os meus textos do Santa Paciência! Bom, aqui vai mais uma recomendação sobre ele! É repetitivo, mas, coisa boa a gente não pode deixar passar ;)

Uma querida amiga psicóloga, a Vanessa Maichin, que escreve no blog Sou Existencialista, realiza um trabalho primoroso com mulheres. São vivências terapêuticas, baseadas nesse que é um dos meus livros favoritos. A Van, inclusive, foi quem me introduziu ao cativante mundo da busca pelo resgate da natureza selvagem e pela liberdade da mulher que foi por tanto tempo domesticada.

Participei do último encontro, realizado em Abril, e serei eternamente grata pelo presente da Vanessa, porque a vivência é, na verdade, um despertar. Mulheres que Correm com Lobos… Integrando o Espírito da Criança: O resgate da mulher que somos e da criança que fomos, é uma vivência que nos coloca em conexão com nossa criança. 

“A criança é inocência, é o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação”.

(Nietzsche)

Tudo começa alguns dias antes da vivência. A Van nos dá algumas orientações pra entrarmos no clima do processo todo, com alguns exercícios que já nos incentivam a olhar pra dentro de nós com mais carinho e menos exigências. Chegando ao local do encontro, somos acolhidas e respeitadas dentro de um ambiente harmonioso. Tudo é caprichosamente preparado pra que nos sintamos queridas e bem cuidadas.

Brincamos ao som de cantigas que lembram nossa infância, recordamos momentos marcantes e compartilhamos histórias. Mas não é tão simples assim. Olhar pra nossa criança pode doer. Mas ali está a essência. No cuidado da nossa criança interior, ou do espírito da nossa criança, está o resgate da mulher selvagem que somos.

“No momento que a mulher selvagem se posiciona, ela dá espaço para a mulher que sabe o que quer! Acolhe a criança carente e ensina-lhe a dar os primeiros passos rumo a sua autenticidade! A mulher que sabe o que quer integra em seu ser a mulher forte e guerreira com sua criança leve e espontânea”.

(Vanessa Maichin)

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Brincando de Adoleta!

Ao longo da vivência, somos convidadas a explorar nossa experiência de infância, provocadas pela leitura de alguns contos do livro, e a Vanessa nos conduz nesse processo indicando nosso olhar a perceber novas possibilidades de ser e existir. Podemos acolher nossa criança, ouvi-la, pegá-la no colo e cuidar daqueles machucados que remédio nenhum cura, só um beijo afetuoso pode fazer isso, sabe? E quem dá esse beijo somos nós mesmas. A gente tem a oportunidade de abrir espaço pra começar a compreender a nossa história de vida. A sensação que fica é que um peso foi tirado, uma porta foi aberta e agora é preciso seguir um caminho de re-significações e novos aprendizados.

Minha experiência foi de ser apresentada à minha criança. Eu cresci escutando que nunca fui criança, que sempre fui precoce e já nasci adulta. Parar pra olhar a Talita criança me fez, de fato, enxergá-la. Ela existiu sim, o tempo todo, mas foi muito cobrada a ser tão perfeita que mais parecia uma adulta, séria, rígida, tensa, inflexível e exausta…

Olhei pra “Talitinha” e vi espontaneidade, graciosidade e alegria. Percebi que foram tiradas dela a criatividade, a vitalidade e a energia. E que já não importa mais quem fez isso, nem como ou por qual motivo, importa que agora eu olhe pra ela e resgate sua essência autêntica e livre.

“Resgatar a criança que fomos um dia é acolher sua história de vida. É compreender os significados dessa infância, é deixar doer o que precisa ser doído, é abrir espaço para nossos medos, carências, fragilidades, frustrações, angústias… É costurar, remendar, bordar e tecer nossa própria história. É abrir espaço para novas possibilidades de ser e existir… É abrir espaço para a mulher selvagem que corre com os lobos”. 

(Vanessa Maichin)

Claro que muito mais do encontro mexeu comigo e com as mulheres fortes e corajosas do grupo, mas, quero deixar aqui só um gostinho pra aguçar sua curiosidade e incitar seu desejo de se reconectar com si mesmo e participar da vivência! Foi delicioso despertar pra minha criança e descobrir como integrá-la à mulher que sou. Indico e espero que muito mais mulheres possam viver essa experiência.

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Vanessa (de cachecol laranja) e o grupo de mulheres que acolheu suas crianças!

E o próximo encontro já tem data marcada! Será no dia 25 de junho (sábado), das 10h00 às 14h00.

A Vanessa Maichin é Mestre em Práticas Clínicas pela PUCSP, tem formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial e Daseinsanalyse e atuação como Professora de Pós-Graduação na UNIPAR e UNIP.

Mais informações:
Cel./WhatsApp (11) 995685159
E-mail: vanessamaichin@gmail.com

As inscrições estão abertas e as vagas são limitadas.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

(e)Fême(r)a.

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(e)Fême(r)a

anda além alinhando austera

brisa bailarina britadeira bucólica

cantando colhendo calando corajosa

doutrinas disparos dores diamantes

esgueira esguicha escorre encara

fortalecidas flores fabricadas fugazes

gritos grunhidos gatunos gemidos

humana hosana holística Havana

inunda iguala inspira insulta

Joana Julieta Joquebede Janis

Kuwait Kosovo Kyoto Kabul

lunática linguagens lúcidas lugares

mares mirongas mergulhando milhares

noturna nobre navega navalha

orgulha ouve ofusca os olhares

paixão poder perece promete

quarenta quebranta quente quântica

reluz rasga revela resguarda

sangue suor sorriso selvagem

tateia tolera traduz toca

uiva ultraja urbana une

voz vidente viagem vertigem

Wendy Winona Whitney Winnie

Xavantes xinga xereta Xaxim

Yara Yumi Yonara Yoki

zen

(palavras soltas desenhadas numa mente inquieta que deseja com profundidade que a feminilidade seja autenticamente livre em meio à realidade efêmera).

Imagem furtada daqui.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Uma voz feminina calada na Inquisição

beguinas

“A história não nos interessa simplesmente por causa da curiosidade pela antiguidade. A história nos interessa porque, mesmo quando nos esquecemos, ela continua vivendo em nós. […] E quanto mais sabemos de nossa história, melhor compreendemos a própria vida”.

frase acima de Justo L. González, retirada do Prefácio do livro Uma voz feminina calada na Inquisição

Ao ler essa frase, compreendi (ainda mais) que dar a voz e ser também a voz em nossa época é de extrema importância. O que sou hoje, além das escolhas que fiz, é também fruto do trabalho de pessoas que vieram antes de mim, que lutaram por direitos que hoje tenho como básicos, que levantaram bandeiras por igualdade social, de gênero ou raça, ou que morreram defendendo e compartilhando a sua fé.

No livro Uma voz feminina calada pela Inquisição, Rute Salviano Almeida relata a vida da primeira mulher levada à fogueira pela Inquisição na França, Margarida Porete.

Margarida nasceu por volta de 1250 e pertenceu ao movimento das beguinas – católicas praticantes do asceticismo e da caridade, que não precisavam viver enclausuradas ou sob os votos de castidade e de pobreza. Com pouca informação sobre sua vida, especula-se que tenha sido uma beguina solitária, além de ter sido uma mulher culta, de nascimento nobre e com elevada educação1.

Em 1296, Margarida escreveu um livro chamado O espelho das almas simples e, com grande audácia, viajou pregando e disseminando seu conteúdo. Também o enviou a autoridades da Igreja, sendo aprovado por alguns como foi o caso do frei João Quaregon, que chegou a afirmar que sua obra tinha sido inspirada pelo Espírio Santo, mas, que temia que poucos pudessem exergar isso, porque “todos os clérigos do mundo” não poderiam entendê-la, a não ser que tivessem um grande discernimento espiritual2. Mas foi acusada de promover a heresia do espírito livre, ficando presa durante 18 meses até o dia de sua condenação em 1310 – queimada viva em praça pública em Paris.

Apesar de hoje entendermos que o desenvolvimento de seu raciocínio sobre a salvação foi equivocado, como se houvesse dois tipos de salvação: “almas que alcançavam a salvação pela graça de Cristo, mas permaneciam escravas da prática das boas obras (virtudes) e do exemplo de Cristo em seus sofrimentos corporais (penitência, flagelos), as quais seriam salvas, mas nunca alcançariam a plenitude espiritual, ou a posição espiritual mais elevada reservada àquelas que abandonavam a vontade e atingiam a aniquilação.”3 ou “em louvor à alma aniquilada, chegou a afirmar que, em completa aniquilação e em união perfeita com seu Criador e Senhor, tal alma recebe mais saber do que o contido nas Escrituras, mais compreensão do que a que está ao alcance da capacidade ou do trabalho humano de alguma criatura.”4, sua obra trouxe reflexões muito interessantes sobre a importância de se realizar a vontade de Deus, em vez de seu próprio desejo, além de alertar as pessoas sobre a inutilidade de sacramentos, obras e intermediários na comunhão com Deus.5

Acredito que a caminhada com Deus deve se dar conforme a jornada que Margarida Porete trilhou, e não estou colocando aqui alguns de seus pontos teológicos – os quais, ao meu ver e devido a todo o contexto histórico/cultural em que surgiu, é compreensível –, mas a tenho como referência por sua extrema vontade em anular seus próprios desejos para que a vontade de Deus pudesse imperar em sua vida.

Rute Salviano Almeida, autora do livro que conta a vida de Margarida, essa voz feminina calada na Inquisição, gentilmente respondeu algumas perguntas para nós e, abaixo, você pode conferir todo o bate-papo. Espero que, este livro bem como todo o trabalho que a Rute vem desenvolvendo, possa inspirá-las(os).

1) Como foi a ideia em dar voz às mulheres que também contribuíram e fizeram grande diferença em períodos tão marcantes do Cristianismo – mas que infelizmente em tais épocas e movimentos somente homens e seus feitos são lembrados?

Eu lecionei por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas e, quando dava aulas de História do Cristianismo, achava falta das personagens femininas. Como tinha certeza de que as mulheres, a exemplo das citadas no Novo Testamento, sempre participaram da história cristã, resolvi pesquisar a respeito. Minha ideia era escrever sobre a participação feminina na história do Cristianismo de uma forma diferente, com mais imagens, sempre trazendo o contexto da época, destacando detalhes tais como moda, sentimentos femininos, mulher no lar, espiritualidade etc. O ponto de partida foi a minha dissertação de mestrado, onde escrevi sobre a mulher na Reforma e dela surgiu meu primeiro livro “Uma voz feminina na Reforma”.

2) Neste livro você aborda muito bem o último período da Idade Média – que compreendia os séculos XII, XIII e XIV – nos ajudando a entender o contexto, no qual Margarida Porete cresceu e desenvolveu sua missão. Você poderia sintetizar essa época, ajudando quem nos lê a compreender um pouco o panorama, no qual nossa personagem viveu?

Foi um período de decadência do feudalismo, porque muitos nobres morreram ou voltaram empobrecidos das Cruzadas; de crescimento da autoridade dos reis; de embates entre papas e soberanos; de bulas que declaravam que fora da Igreja não havia salvação, para confirmar a superioridade pontifícia sobre a temporal. Enfim, uma época de ganância dos poderosos e de credulidade do povo simples. O povo europeu cria em Deus, sem dúvida alguma; mas era um Deus de quem se tinha medo, era o causador das epidemias, inundações, pestes etc. O Deus de amor, o Deus que enviou Jesus para salvação pela fé não era conhecido. O fiel era analfabeto e só sabia sobre Deus e religião o que via nas imagens das catedrais. A missa era celebrada em latim, uma língua desconhecida, portanto, era grande a superstição e a falta de fé verdadeira.

3) Gilberto Tournai, frade franciscano da época, falou sobre as beguinas: “Existem, entre nós, mulheres que não sabemos como chamá-las, mulheres comuns ou freiras, porque elas não vivem no mundo nem fora dele” (trecho extraído do livro Uma Voz Feminina Calada na Insquisição, página 131), achei muito bela essa definição, pois ao meu ver, caracterizava liberdade e aceitação entre elas por seus estilos de vida, além também da busca delas em viver pelas “coisas do alto”, vivendo ainda neste mundo. E para você, Rute, qual foi a maior contribuição que as beguinas trouxeram para nós mulheres cristãs de hoje?

Acredito que nos inspiram por sua união, comunhão uma com as outras, ajuda mútua, desejo de entender mais a fé cristã e, principalmente, compaixão. Elas viviam para ajudar o próximo, foram pioneiras em sua época na ação social, socorrendo enfermos, cuidando de leprosos, aconselhando e abrigando prostitutas e até mesmo chegaram a construir escolas para meninas, em uma clara demonstração de valorização da educação.

4) Além de Margarida Porete ser mulher, escritora e pregar em público e na língua do povo, o que você acha que mais incomodou seus inquisidores em seu livro O espelho das almas simples?

Acredito que foi sua crítica à igreja instituída, a qual chamava de Santa Igreja Pequena e afirmava que era subordinada à razão. Ela escreveu que a real Igreja Santa era constituída de almas livres e simples que julgariam a pequena Igreja. Para ela, Deus iria castigar toda a hierarquia eclesiástica que havia falhado.

5) Vendo essas e outras mulheres em contextos tão opressores, mas que buscavam formas de servir e contribuir utilizando seus dons e talentos para uma sociedade mais justa, em sua opinião, quais seriam os pontos ou contribuições que quase não avançamos desde então, e que ainda precisamos refletir e ter coragem e ousadia para mudar?

As mulheres, na atualidade, são eleitas para todos os cargos públicos, trabalham em quase todas as profissões e têm ocupado espaços antes inatingíveis. Em minha opinião, não têm se preocupado (a maioria delas) em exercer seus dons espirituais em suas igrejas locais, independentemente das funções para isso exigidas. Estão acomodadas e exercendo o que para elas é suficiente: ensino para crianças, trabalho com mulheres, ação social etc. Mas, se Deus as capacitar com dons mais específicos como liderança ou pregação, não os exercem porque lhes falta liberdade em suas igrejas ou porque elas próprias acreditam que não são dignas de tais tarefas.

6) E há previsão de alguma nova publicação? Pode nos contar um pouquinho sobre? E muito obrigada por seu extenso trabalho de pesquisa e divulgação de todas essas vozes femininas, Rute. Seu trabalho me cativou profundamente e fico muito feliz em tomar conhecimento de iniciativas como a sua. Nós, mulheres, agradecemos, além de nos tornarmos mais fortes no caminhar conhecendo tantas outras mulheres inspiradoras.

Em primeiro lugar, sou eu que agradeço o interesse pelo meu trabalho. Fico muito feliz e honrada em saber que, aos poucos, vou conquistando leitoras que se interessam na divulgação dessas histórias edificantes de cristãs comprometidas com o Reino de Deus. Deus a abençoe e a todas que lerem essa entrevista.

O meu 4º livro, Vozes femininas no início do Cristianismo, será publicado no próximo ano. Ele apresentará a Roma dos primeiros séculos, a igreja primitiva, as mártires, diaconisas, monjas e mulheres relacionadas aos Pais da Igreja. No momento, pesquiso sobre os movimentos de avivamentos dos séculos XVIII e XIX e pretendo escrever Vozes femininas nos movimentos de avivamentos, encerrando então a série de Vozes femininas na história do Cristianismo.

Em uma ordem cronológica, segue a série, com 5 livros:
– Vozes femininas no início do Cristianismo: sobre a igreja primitiva (Idade Antiga) – será publicado em 2016;
– Uma voz feminina calada pela Inquisição (Idade Média), publicado em 2012;
– Uma voz feminina na Reforma (Idade Moderna), publicado em 2010;
– Vozes femininas nos movimentos de avivamento (Inglaterra e Estados Unidos – séculos XVIII e XIX – Idade contemporânea): ainda em fase de pesquisa e escrita.
– Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro (Brasil – séculos XIX/XX), publicado em 2014;

Espero em Deus a capacitação para conclusão dessa série e agradeço a Editora Hagnos pela confiança em mim depositada para publicação dos meus livros.

Notas – informações retiradas do livro Uma voz feminina calada na Inquisição:
Iinformações extraídas da página 152
Citação extraída da página 153
Citação extraída das páginas 168 e169
Citação extraída da página 171
Informações extraídas da página 170

Imagem de Fernando Moleres e foi retirada desse site


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.