Anteontem, ontem, hoje e um dia – uma declaração sobre música e reencontro

Anteontem

Recebi da minha irmã o link para uma versão acústica da música Stay On These Roads, dos noruegueses do A-ha, quem se lembra deles? Conheço essa música desde que foi lançada, no auge dos meus 7 anos, mas eu nunca tinha realmente prestado atenção na letra dela e anteontem eu prestei. E chorei. Aquela música que tanto ouvi, de repente, assumiu um significado totalmente novo para mim. No meio de uma letra toda enigmática, o eu lírico – se é que posso falar assim quando se trata de música – se dirige para a pessoa que ele ama e diz para ela permanecer naqueles mesmos caminhos, porque assim, um dia, ele e ela se encontrariam de novo. O que me tocou tanto nessa ideia foi justamente o que ela tem a ver com o Cristianismo: a esperança do reencontro com quem amamos. E se esses a quem amamos seguem pela mesma estrada que você – Jesus, o nosso Norte – então o reencontro é garantido.

 Ontem

Era a “hora silenciosa da tarde” (Clarice), quando ouvi mensagem chegando pelo Whatsapp: minha mãe avisava que minha tia tinha acabado de morrer. Essa tia morou a vida inteira no interior do Paraná, por isso pouco contato eu tive com ela. Porém, as poucas vezes que convivemos, ela me marcou com o seu amor. Foi uma das pessoas mais lindas, amorosas e queridas que já cruzaram o meu caminho, e eu me lembro de suas cartinhas e de nossas conversas ao telefone, em que eu ouvia ela me chamando carinhosamente de “Lulu”, com todo o seu jeitinho gaúcho e engraçadinho de se expressar. Dois meses atrás, mandei uma carta para ela, pelo correio mesmo. Fiquei sabendo agora que ela escreveu um cartão de resposta para mim antes de fazer a cirurgia de retirada do câncer. Meu primo, filho dela, já me disse que logo, logo, vai enviar esse cartão para mim. Aguardo, ansiosa, por essa lembrança.

Hoje

Este, na verdade, é um texto que não tem a pretensão de ser um texto. Porque o que sinto com a música, misturada com a morte da minha tia, não é traduzível em palavras. Perdoem-me. Só o que consigo agora é imaginar – no sentido de fantasiar mesmo – a minha tia cantando a música do A-ha para mim lá do Céu:

Stay on these roads
We shall meet, I know

Stay on, my love
We will meet, I know, I know

(Permaneça nesses caminhos
Nós iremos nos encontrar, eu sei
Permaneça, meu amor
Nós iremos nos encontrar, eu sei, eu sei)

Eu irei permanecer nesses caminhos, tia. E nós iremos nos reencontrar um dia. Eu também sei.


 

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A identidade que vale mais do que o RG

identidade

– Quem sou eu? Sussurrei para mim dias atrás.
Como num lampejo divino, depois de certo tempo meditando na vida, na minha própria vida, em resposta veio quem eu não era.

Confesso: eu estava tentando adequar a mim algumas características alheias. E ter esse insight me fez pensar como Deus é paciente, misericordioso e extremamente didático comigo. Sempre… Não tenho dúvidas, que esse insight, só pode ter vindo Dele. Em amor (e por amor) Ele me explicou, pela enésima vez, coisas que eu havia, novamente, esquecido durante o caminhar.

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Em São Paulo (capital), ao nos apresentar à uma pessoa que não conhecemos, costumamos falar o nosso primeiro nome e a seguir, conforme a conversa se desenrola, falamos qual é a nossa profissão, onde trabalhamos e o que fazemos para “ganhar a vida”, no sentido financeiro, é claro.

Já em cidades bem menores, seus habitantes costumam identificar-se pela família a qual pertencem. Logo, se você for de uma família abastada e conhecida, com toda a certeza, será visto com “bons olhos”. Agora, se você “só” for a filha do João e da Maria que moram na Rua X que cruza a Rua Y, será, como dizem, “só mais uma na fila do pão”.

“Minha colega de trabalho e amiga Agnes Heller, com quem compartilho, em grande medida, os apuros da vida, uma vez se queixou de que, sendo mulher, húngara, judia, norte-americana e filósofa, estava sobrecarregada de identidades demais para uma só pessoa. Ora, seria fácil para ela ampliar a lista – mas os arcabouços de referência por ela citados já são suficientemente numerosos para demonstrar a impressionante complexidade da tarefa”

Zygmunt Bauman no livro Identidade

Apesar de haver grandes diferenças nas formas de identificação, ora focamos somente em nossos aspectos profissionais e/ou acadêmicos, ora é a nossa descendência que se encarrega de nos definir ao mundo.

Em meio a tais contrastes, todas essas formas de identificação, e por que não dizer de nos enxergar no mundo, na verdade, podem significar a mesma coisa, ou tomamos a responsabilidade por nos identificar ou escolhemos fragmentos de nós para definir quem somos.

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No final de 2014, decidi fazer a mudança mais radical e, aparentemente, mais “sem noção” de toda a minha vida. Finalmente eu havia percebido que, durante muito tempo, eu me definia apenas pelo fazer; criar e executar. Um prato cheio para me contentar em ter minha identidade primária firmada, e totalmente enraizada, na profissão que eu exercia.

Hoje, ao estar em contato com estrangeiros que estão em solo brasileiro, não por escolha, mas por refúgio – pois, foram obrigados a deixar seus lares devido a uma guerra, e com isso, talvez nunca mais retornem a seus lares de origem – começo também a observar, como tantas outras identidades, são transitórias; passageiras. E outras tantas podem ser acrescentadas a contragosto.

E em meio a renúncias optativas e identidades atribuídas, penso o quão mais simples nossa identidade, de fato, é. Esse é o convite de Jesus: “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.30).

“Sempre que os estereótipos ofuscam nossa percepção espiritual, corremos o risco de resistir ao que o Espírito Santo está tentando dizer-nos. Se permitimos que o mundo determine nossa identidade, estaremos nos perdendo no mundo, não nos achando em Cristo”

Karj Torjesen Malcolm no livro A Identidade
Feminina Segundo Jesus

 

“A velha vida de vocês está morta. A nova vida é a vida real – ainda que invisível aos espectadores – com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também. Enquanto isso, estejam contentes com a obscuridade, como Cristo”

Colossenses 3.2-4 – A Mensagem

A minha verdadeira identidade só pode ser achada em Cristo, e através de Cristo. O meu verdadeiro eu está escondido Nele. Portanto, estar Nele é me perceber “nova criatura”, repleta de novas possibilidades: “eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5.17), e é fascinante!

Já não busco mais assumir a responsabilidade para me auto definir: “Pouco importa o que vocês pensem ou digam a meu respeito. Eu não me avalio. Nesse caso, os rótulos são irrelevantes. (…) O Senhor é quem faz este julgamento” (1 Coríntios 4.3–4 – A Mensagem). Pois, sou convidada apenas a ser, e a ser uma com Ele. Nessa comunhão, por vezes, vivo como alguém em constante amnésia buscando a autonomia que tanto me adoece e me leva para longe de Deus, porém, meu consolo é que num futuro breve serei plenamente eu e totalmente restaurada Nele.

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Pra manter ou mudar

Móveis Coloniais de Acaju

Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém

Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu

Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém

Nada do que eu sou me diz o que sei
Nada do que eu sei de fato é meu

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem

Sempre a explicação me diz o que sei?
Sempre que eu sei, alguém me ensinou?

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio,
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente

Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém

Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minha casa é simples, mas é minha toda vida – Baleia

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Baixe o wallpaper desse mês!
Escolha sua resolução e saia cantarolando a música Casa, da banda Baleia que inspirou nossa arte:
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Casa
Baleia

Minha casa é simples,
mas é forte todavia.
Chove todo dia
uma calma solidão.

Vento que arranca
dos varais uma lembrança
tudo que me alcança
Era sonho, agora, não.

Da janela, vejo
luzes da cidade, o peso,
todo o desejo
de um lugar nesse clarão.

Como eles correm
tão certinhos quanto à sorte;
rima com a morte.
Mando um grito, mando um sinal.

Ninguém nunca vê a minha casa.
Ninguém nunca entra.

Minha casa é simples,
mas é minha toda vida.
Chove todo dia – uma brava solidez.

Onda que me lança,
nunca quebra, só avança,
faz da dor bonança.
Soa o sino – agora, sim.

Sei que já é tarde.
Hoje desço pra cidade – algo que se parte.
Dou à sorte o meu amor.

Em cima de um morro nem tão alto, nem tão baixo.
Será que eu encaixo?
Era sonho.
Agora, não.


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Se eu quiser falar com Deus – Gilberto Gil

Sabe quando uma música fala muito com (e por) você que se transforma na sua oração?!

Então… essa música do Gilberto Gil Se eu quiser falar com Deus, me fisgou de uma forma inexplicável ontem à noite, que hoje pela manhã, inspirada por tão belos versos, fiz esse rabisco colorido :)

PS: E aproveitando a inspiração, mensalmente, iremos disponibilizar papéis de parede do Santa Paciência! Assim, aproveitamos o rabisco acima para ilustrar o mês de abril – e você pode baixá-lo aqui ou clicando na imagem abaixo.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mais paciência, por favor

46m

Constantemente, preciso cuidar para que a ansiedade não se instale em meu coração.
Não é fácil: às vezes o processo é um pouco cansativo, e às vezes um pouco dolorido também, mas tal cuidado é necessário.

Vivemos em uma sociedade do tempo real, da conectividade, da facilidade, da praticidade, da globalização. E é claro que essa facilidade toda pode ser boa e, de fato, ela é, na maioria das vezes. Afinal, quem não gosta de se comunicar sem precisar pagar por uma ligação? Ou conseguir comprar um livro sem precisar sair de casa? Mas, em excesso, essa conectividade pode nos levar a comparações desnecessárias e anseios que não devem ser cultivados ou sequer experimentados.

Diariamente, somos bombardeadas pela mídia com instruções como: 10 coisas que você precisa fazer, 7 itens que você precisa ter ou 9 dicas de como você deve ser. E como se não bastasse, a sua timeline também está recheada de pessoas “reais” felizes, realizadas e sem problemas. E então, o que geralmente fazemos? Nós juntamos todos esses ingredientes e acrescentamos a nossa capacidade feminina de fantasiar, acumular emoções e criar enredos ilusórios, e aí sim toda a mistura fica pronta: e tomamos para nós todas essas instruções como “verdades” e esses padrões como referências para as nossas vidas.

Refletindo sobre isso, percebo que o mundo como um todo também clama por mais calma, mais paciência, e também por mais alma. A linda e sempre pedida canção Paciência do Lenine, traduz um pouco desse sentimento que por vezes experimentamos: (…) E o mundo vai girando cada vez mais veloz/ A gente espera do mundo e o mundo espera de nós/ Um pouco mais de paciência/ Será que é tempo que lhe falta pra perceber?/ Será que temos esse tempo pra perder?/ E quem quer saber?/ A vida é tão rara/ Tão rara/ Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/ Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/ Eu sei, a vida não para (…).

Escutando esse clamor e também me questionando e aprendendo a silenciar as várias vozes que teimam em me alienar, percebo que sim: eu tenho a solução para ser preenchida com mais alma. Para ter essa paciência que não provém de mim, mas que pode estar em mim. Então, eu compreendo que preciso fazer algumas coisas para ter essa quietude emocional, para ser preenchida e direcionada.

Buscar a Deus em primeiro lugar

Buscar a Deus em primeiro lugar é dispor de tempo para me relacionar com Ele.

Não conseguimos criar vínculos sem gastar tempo em relacionamentos, e com Deus não é  diferente. Como poderei criar intimidade com meu Criador, se não dedico parte do meu tempo para conhecê-lo, para entender o que Ele tem a me dizer e ouvir a Sua voz? Então, devo priorizar em minha agenda esse tempo de qualidade com Deus.

Buscar a Deus em primeiro lugar também é amá-lo, e amá-lo de verdade! Com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu entendimento e força1.  Pois, amando-o, eu estarei aberta a entender Suas vontades e desejos.

Assim, buscar a Deus em primeiro lugar também é desejar que Sua vontade se sobreponha à minha vontade, mesmo que isso doa e aparente ser impossível. Mas conforme eu vou criando intimidade com Deus e o amando profundamente, consigo compreender que Seus caminhos são melhores do que o meus, porque são perfeitos. Simples assim! Se Ele me criou e sabe realmente quem sou, é Ele quem tem os melhores planos para mim.

Deus me conhece melhor do que eu mesma

Sim! Essa é a mais pura verdade. Antes de ter sido formada e gerada, Deus sabia da minha existência. Aliás, de forma maravilhosa e misteriosa, Ele acompanhou toda a minha formação, me viu crescer e me acompanha até hoje2.

E por me conhecer tão bem, tão melhor do que eu mesma, é Ele quem sabe o que é melhor para mim. Ele tem planos para mim, planos que sequer posso imaginar, tamanha a minha pequenez e limitação. Porém, se eu pedir orientação e buscar a Sua voz, Ele me apresentará e me deixará conhecer aquilo que Ele deseja que eu faça3.

Ser grata por tudo o que eu tenho (às vezes ser grata por aquilo que eu não tenho também)

Ser grata não é ser feliz o tempo todo. Aliás, essa felicidade de comercial de margarina não existe – isso foi inventado para vender margarinas, e é tudo culpa do marketing! rs

Mas ser agradecida é entender que o que você tem é precioso. E isso não quer dizer que, por vezes, você não se sentirá triste, desiludida ou querendo algo que não tenha. Mas se eu amo a Deus, sei que Ele me conhece melhor do que eu mesma, sei que Ele me ouve4, então, não consigo não ser agradecida pelas coisas que tenho e por Sua presença em minha vida.

Descansar e esperar em Deus

Se eu costumo perder noites de sono pensando em minhas angústias e problemas, o que provavelmente irá acontecer comigo, além de ficar com muito sono no dia seguinte?

Me atrevo a “adivinhar” que o que vai acontecer comigo é que eu ficarei mais ansiosa ainda. Porque com o corpo e mente cansados, eu não resolverei meus anseios e muito menos conseguirei escutar o que Deus tem para me dizer e me ensinar.

Acredito que o fato de descansar nEle é um ato tão amoroso da parte de Deus, algo como: “- Você pode aumentar alguma hora de sua vida se preocupando? Não! Então por que você está se preocupando assim? Por que está perdendo sua noite de sono? Por que está deixando seu corpo padecer com todas essas neuras?5 Deixa, porque sou Eu quem devo me preocupar com isso, sou Eu quem sabe o que é melhor para você! E quanto a você, contente-se em me amar, me buscar e esperar em mim, porque no momento certo Eu a irei  instruir e a ajudarei a fazer aquilo que você tem que fazer6.”

Ok, concordo, não é tão fácil assim. Mas a cada passo dado e caminho trilhado, vamos percebendo que descansar em Deus é a coisa mais sábia a se fazer, é o verdadeiro antídoto anti-stress.

 

Notas – passagens bíblicas:

1Marcos 12:29
2Salmos 139:13–16
3Jeremias 29:11–14
4Filipenses 4:4–8
5Lucas 12:25–29
6Salmos 32:8


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.