Ao Personagem que nem a J.K. Rowling conseguiria criar

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“A palavra cria mundos”, dizia uma ilustre professora da faculdade. Para mim, que cursei Letras por amor à escrita, uma declaração dessas me levava ao êxtase. E ela, para exemplificar e dar base à sua afirmação, citava o mito* bíblico da Criação, em que a ação criativa de Deus é toda materializada a partir de palavras imperativas (“Haja luz”, “Façamos o homem à nossa imagem”, entre outras diversas ordens divinas narradas em Gênesis 1). Assim fez também o homem na literatura e de palavras arquitetonicamente combinadas surgem universos inteiros, como o do Senhor dos Anéis, de Tolkien e Ulisses, de James Joyce.

É incrível pensar que nós herdamos uma faísca de milésimo do potencial criativo de Deus e, à nossa maneira e do jeito que bem entendemos, conseguimos reproduzir realidades ficcionais que envolvem tudo o que a nossa imaginação alcançar: homens remendados que voltam à vida, outros que chupam sangue alheio, outros ainda que se mantêm jovens enquanto seu retrato pintado é que envelhece e outros que se transformam em baratas (óbvio que a literatura não conta apenas histórias envolvendo seres humanos; eu é que não consegui pensar em mais possibilidades de mundos criados pelos escritores. Puro bloqueio meu).

Como alguém que sonha em escrever livros um dia, eu adoro reparar no estilo do escritor enquanto leio. Fico babando na profundidade que Dostoiévski coloca nos seus personagens mais simplórios ou no modo afiado com que Kafka mostra, pela ficção, as armadilhas que construímos para nós mesmos. E os livros do Salman Rushdie, então? Eles têm cor, cheiro e gosto! E se tudo isso nos emociona e nos proporciona viagens a lugares onde aviões não chegam, o que diríamos se uma palavra viesse à existência, como algo mais real do que tudo o que já experimentamos? Já imaginou o Tolkien criando o Gandalf e ele cruzando o seu caminho como atendente do banco do seu bairro? Ou então a Emília e o Visconde de Sabugosa na fila do pão? Ou Sr. Tumnus, o fauno das Crônicas de Nárnia, te dando uma multa por estacionar na ciclovia? Iria ser, no mínimo, incrível.

E o que era incrível, de fato, aconteceu. Uma palavra, ou melhor, a palavra mais importante e cheia de significado que poderia existir em qualquer idioma ou dialeto do mundo se materializou. E não, não era um holograma. Era um ser de osso, carne e pele. É o que nos conta João**:

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. […] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Mais uma vez, a Fonte de todo poder criativo interferindo na nossa história, mas agora, não para criar um ser além de si mesmo como aconteceu na criação do mundo, mas Ele próprio, ao preencher um corpo, veio para conversar com as pessoas, abraçar e ser abraçado por elas, jantar na casa delas, chorar com elas e oferecer a elas sua mais sincera amizade, com um amor sem limites. O Personagem-eternamente-existente, que desde a origem de tudo era, ainda é e que para sempre será, entrou na dimensão finita do tempo para nos encontrar e nos dizer que não se esqueceu de nós. E a história dele não acaba depois de 100 ou 200 páginas (ou mais de mil, pensando na extensão das Escrituras). A história dele perdura nesta vida e na vida que nos aguarda para além desta, quando faremos uma festa com todas aquelas criaturas absolutamente impensáveis (a ponto de deixarem qualquer magizoologista*** da J.K. Rowling estupefato), que compõem a comunidade celeste.

A esse Personagem todo o meu respeito, meu reconhecimento e minha devoção no dia em que comemoramos o seu nascimento e em todos os outros dias da minha vida.


*mito – utilizado aqui não no sentido de lenda ou mentira, mas de uma narrativa antiga, que faz uso de simbologia para explicar fenômenos diversos.

**João – discípulo de Jesus, autor do último dos quatro Evangelhos, que recebe seu nome. Os trechos citados são de João 1.1 e João 1.14.

***magizoologista – estudioso das criaturas mágicas dentro da série Harry Potter. O mais famoso deles é Newt Scamander, autor do livro Animais fantásticos e onde habitam, ensinado em Hogwarts.

A imagem usada neste post foi retirada daqui.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O silêncio de Maria

‘The Virgin Mary Consoles Eve’, por Grace Remington

 

Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. (Lucas 2.19)

 

Muito curiosa essa reação de Maria quanto ao que os pastores vieram contar para ela e para José. Os pastores tinham acabado de ser visitados por um anjo lindo, enorme, que os envolveu de luz, e, de quebra, ainda assistiram a uma miríade de seres do Céu dando glória a Deus. Ou seja, não era à toa que eles estivessem empolgadíssimos e extremamente ansiosos para conhecer Jesus. Quando chegaram ali onde Cristo havia nascido e contaram a experiência deles, todos os outros ficaram impressionados (verso 18), menos Maria. Ela só ouvia, sem emitir grandes reações. Isso, porém, não quer dizer que Maria não havia sido impactada com o relato dos pastores. Como mãe que sou, ouso arriscar o palpite de que, no mínimo, ela se sentiu orgulhosa de seu rebento. Mas mais do que isso ainda:  ela sabia que era privilegiada por ter sido escolhida a dedo por Deus para concebê-lo na sua forma humana.

Coloco-me no lugar de Maria e fico me imaginando lá, toda consciente daquele acontecimento milagroso, olhando para o “meu” bebê-Deus. A consciência de quem aquela criança é, de fato, provocaria em mim uma série de reações: maravilhamento, sim, em um primeiro momento, mas também uma reverência incrível e, acima de tudo, um sentimento de cumplicidade, como se o bebê fosse bebê só por fora, mas por dentro, divino como era, ele pudesse ler os meus pensamentos e, assim, ele e eu compactuássemos com o seu plano de salvar a humanidade, o que era ainda pouco compreensível para os judeus, incluindo aqueles pastores festejantes. Adorá-lo em silêncio e em meditação seria, portanto, a maneira mais natural de consumar a minha fé em seu plano perfeito.

Hoje, 2015 anos após o nascimento de Cristo, me inspiro em Maria e, em silêncio, reflito cuidadosamente sobre o significado e a profundidade desse fato e, como resultado, vou sentindo a minha fé se renovar.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.