Um texto confessional

liberdade

Comecei e recomecei esse texto tantas vezes, que não consigo pensar numa introdução decente, então vou deixá-lo apenas fluir.

Ele é confessional porque trata de um assunto que, embora resolvido dentro do meu coração há tempos, precisava ser expulso do resto de mim, de dentro do meu corpo todo, como se fosse o último suspiro pra minha tão desejada liberdade de espírito.

Tenho rascunhado esse expurgo na minha cabeça ao longo de quase nove anos, o mesmo tempo que tenho de casada, que é uma data que marca, em mim, um recomeço, um novo eu, o início da minha desconstrução e ressignificação do ser.

Na verdade, ainda não o havia escrito de vez, tampouco publicado, porque ele também fala de pessoas a quem amo e prezo, e que podem se sentir expostas. Não é minha intenção expor nenhuma delas, nem pro mal nem pro bem, nem pra julgamento algum. Nem ofender, nem desrespeitar. De antemão já me desculpo se isso acontecer, mas é realmente importante que isso tudo me deixe em paz também em matéria, não só no meu cérebro ou no meu coração. Aliás, é bem disso que se trata tudo: desculpas. Desculpar-me. Tirar de mim culpas que cresci recebendo e acolhendo, mas que nem eram minhas, na realidade. Já adianto: eu vou falar sobre abuso. Abusos. Os que sofri. Tenho batalhado pra que mulheres possam se recuperar de abusos sofridos e que não permitam mais nenhum, principalmente de parceiros, mas, existem vários tipos de abuso e eles não vêm só de parceiros, mas também de pais, mães, irmãos, amigos, chefes, sogras, homens e mulheres, vem de todo lado. Sofri todos esses. Deles que estou me libertando e é dessas pessoas que vou falar no texto e que não é minha intenção expor, porque amo e respeito e permanecem na minha vida, mas, que muito tempo já se passou, o perdão já aconteceu, eu já amadureci, a vida já seguiu e não sinto mais que preciso me preocupar em proteger ou defender certas coisas.

Agora eu tomei a decisão de enterrar tudo isso de vez por um motivo muito simples: estou pra parir (literalmente, estou com 40 semanas e 1 dia de gestação) um menino, o Dominic, que está chegando num momento de vida de renovo e esperança. Esses últimos dias são bastante reflexivos e fiquei pensando: “eu sei que o Dom vai ter sua própria impressão de mim, como ser humano e mãe dele, mas, que ideia eu gostaria de passar pra ele?”. E eu cheguei à conclusão que eu quero passar a ideia de uma pessoa curada. Esse termo, curada, veio pra mim em diversas formas: livre, autêntica, sem amarras, perdoada, restaurada… Mas, resumi tudo nele: curada. A publicação desse texto será a minha alta desses quase nove anos internada pra me recuperar e transformar. E preciso dizer que, embora eu estivesse com bastante receio da possível exposição que citei acima, estou me sentindo feliz e aliviada em compartilhar.

Aproveito pra dizer que, sendo um assunto resolvido, o texto não se trata de algo explicativo, e sim expositivo. Minha intenção é curtir minha alta e também ser útil pra qualquer outra pessoa que se identificar com o conteúdo, mas, não é um assunto aberto a diálogo, justamente porque tudo que precisava ser dito e ouvido já foi dito e ouvido e como eu disse, é confessional e é também liberativo, então, quando eu der o ok pra postar, eu não quero nunca mais tratar de nada disso, porque não há mais nada a lidar, agora é só seguir em frente, em paz. Se você sentir vontade de deixar um comentário, faça isso, mas compreenda que não haverá resposta. Se você sentir vontade de falar comigo a respeito do que ler, você é livre pra falar e eu sou livre pra ficar em silêncio.

Quando a gente pensa em abuso, o mais comum é associar a algum tipo de violência física, principalmente sexual. Não foi o meu caso. Os abusos que sofri foram psicológicos. E veja que interessante, eu tenho certeza absoluta que muitas pessoas não chamariam minhas experiências de abuso! Elas dirão que sou exagerada, revoltada, ingrata, que estou aumentando, que estou fazendo tempestade em copo d’água, que sou má, que não perdoei de verdade, que sou injusta… A famosa culpabilização da vítima, sabe?

E por que tenho essa certeza? Porque muitas pessoas pra quem contei algumas coisas ao longo desses anos me fizeram exatamente essas afirmações. E aí, em vez de encontrar acolhimento e apoio, eu recebia mais uma pá de culpa em cima da cabeça. Graças a Deus eu sou persistente e não parei meu processo de ressignificação até sentir que estava tudo acabado. Não é fácil, não vai ser fácil nunca, mas, a sensação de alívio é sensacional e não permito que ninguém tire ela de mim, mesmo que o preço a pagar seja altíssimo.

O interessante do abuso é que ele vem camuflado de muitas formas e começa muito cedo, geralmente dentro de casa e principalmente (mas, não somente) contra meninas. O abuso é sempre um tipo de desrespeito. Então, a verdade é que todos nós, em algum momento da vida, abusamos de alguém. Horrível, né? É.

Minha primeira lembrança de desrespeito é a de ser tolida. Eu sou uma pessoa naturalmente questionadora e subversiva e fui, literalmente, domesticada. Primeiro, pelos meus pais. Depois, isso foi se afirmando com amigos e amigas, chefes, pastores, até mesmo minha sogra.

Tive uma criação extremamente possessiva e controladora e isso feriu gravemente minha autoconfiança. Mas, como as pessoas chamavam isso? Excesso de amor, proteção e cuidado, então, meus pais estavam absolvidos e mais uma vez eu me sentia culpada, porque, além de achar aquilo tudo horroroso, ainda estava sendo ingrata por não saber receber amor. Nunca me senti rejeitada, é um fato, mas eu não tinha liberdade de existir. De coisas “simples”, como não ter trinco na porta do quarto (minha mãe tirou, pra que ela e meu pai pudessem entrar e sair quando quisessem) a mais complexas, como ser seguida pelos meus pais e observada enquanto tomava um açaí com uma amiga da faculdade (isso mesmo, faculdade, eu já tinha dezenove anos de idade nessa ocasião específica) achando, inocentemente, que finalmente meus pais confiaram em mim pra passar algumas horas sem a supervisão deles. Você pode dizer que essa atitude é natural, mas não é. Não podemos romantizar o abuso. Excesso de controle e possessividade não são provas de amor, são abusos.

Outra forma comum de abuso é ser, persuasivamente, silenciada. Quando eu tinha seis anos, entrei no pré escolar. Um certo dia, meus pais foram me buscar na escola e calmamente me explicaram, no carro, que naquela escolinha também estudava a minha irmã mais nova. Mas, que aquilo era um segredo de família. Eu podia até conversar com ela, mas ninguém podia saber que ela era minha irmãzinha. Eu tinha seis anos de idade e fui convencida de que era normal meu pai ter uma filha que não era filha da minha mãe, que a gente podia estudar juntas, que tudo estava bem, que nossa família era maravilhosa, mas que eu tinha que tomar o cuidado de não contar pra ninguém que ela era minha irmã. Ficou bagunçado isso, né? Imagine na minha cabeça de criança. Depois, ao longo dos anos eu vi meu pai dar socos, puxões de cabelo, empurrões e tapas na minha mãe, mas, no fim da noite ela mandava a gente ir falar “te amo e dorme com Deus”, porque tudo estava bem e não tinha nada a dizer ou resolver ou explicar. Claro, sempre lembrando de não contar pra ninguém. Na verdade, nem era preciso dizer pra não contar pra ninguém. Sabe aqueles “assuntos ocultos”? A coisa tá lá, mas se você não mencionar a coisa, a coisa não existe. Porque, se depois daquelas cenas eu via minha mãe colocar a comida no prato e servir meu pai no jantar e no fim da noite minha mãe mandava ir falar “te amo e dorme com Deus”, como se nada tivesse acontecido, é porque nada aconteceu, não é? É.

Tudo era bizarro demais, mas eu estava tão envolvida no abuso (sem entender, obviamente, que era um abuso), silenciada desde tão pequena, que parecia óbvio não contar pra ninguém. Até que uma vez eu contei. Não adiantou nada, porque não acreditaram que aquilo era possível. Simples assim. Não acreditaram, então não aconteceu. Não acreditaram porque fora de casa, na igreja, o porta retrato era de família unida e feliz, com pais superprotetores e filhos limpinhos e grudados nos pais. Com dezessete anos eu vi meu pai quase bater na minha mãe de novo e foi a primeira e última vez que falei com ela sobre o assunto. Eu disse: se eu vir ele encostar em você, eu vou chamar a polícia. Lembro até hoje a cara que ela fez, de espanto e indignação. Como resposta eu ouvi que ela estava decepcionada comigo, que nunca imaginou que uma filha pudesse fazer isso com o próprio pai, que eu era uma ingrata por sequer pensar naquilo e que meu pai era um marido ótimo pra ela, um pai maravilhoso pros filhos e que fazia tudo por nós. Eu senti revolta, amargura, espanto, tristeza, confusão, tudo ao mesmo tempo. Eu lembrava, mesmo, de tantas coisas boas que ele fazia, mas, então, aquelas coisas boas davam liberdade pras coisas ruins, que hoje eu chamo de abuso? E se estava tudo tão bem, por que passava pela minha cabeça que se aquilo era um casamento maravilhoso, eu desejava morrer solteira? Bagunça. Culpa. Tava tudo errado, mas eu era uma ingrata. Culpada. Meu Deus, como eu pude? Eu ia mesmo chamar a polícia contra meu pai? Má.

Entrei na dança de culpar a vítima, porque minha mãe mentia e escondia coisas, como o valor do troco ou o fato de que tinha de novo, fumado escondida. Então se ela falava pro meu pai que gastou R$9,90 quando, na verdade, tinha gasto R$10, era normal ele ficar bravo, não era? E quando ela jurava por Deus que não tinha fumado escondido, mesmo cheirando a cigarro e com o maço de cigarro achado na bolsa e ele ficava com raiva e tinha um acesso de fúria, ele estava na razão dele, não estava? Eu aprendi na igreja que eu tinha que perdoar, então por que mexer naquilo? Era só perdoar e esperar o próximo dia chegar. Tava tudo bem. Te amo e dorme com Deus.

Tudo isso pode parecer muito simples e sem grande significado, principalmente porque é verdade que nunca passei fome, sempre tive casa, ganhei muitos presentes e comi muito chocolate. Mas, a verdade é que cresci com autoestima baixa, acreditando que homens tinham poder sobre mim, que tudo bem esconder coisas de um marido, que tudo bem um marido me bater ao descobrir algo que escondi, que era normal as pessoas me tratarem mal e que eu não devia falar dos meus incômodos com ninguém porque na verdade era tudo coisa da minha cabeça e eu seria ingrata e injusta com os envolvidos, caso falasse. Aprendi que a igreja pode fechar os olhos pra coisas feias só pra não manchar a imagem de boazinha. Eu cresci acreditando que era errada, culpada e egoísta por ser diferente da maioria das pessoas, por não gostar do que todo mundo gostava e por ser indignada. Não tinha segurança em mim mesmo, acreditava que qualquer pessoa tinha mais valor que eu. Acreditei que era chata, porque pensava muito diferente da maioria e que pensar diferente era errado, o certo era seguir o rebanho. Aprendi que devia dizer sim pra todo mundo, porque isso era ser legal e boa. Acreditava que devia ser capacho, porque Jesus mandou dar a outra face e que as pessoas podiam fazer o que quisessem comigo, mesmo que me magoassem, porque Jesus mandou perdoar setenta vezes sete e tudo bem as pessoas errarem comigo um milhão de vezes sem se preocupar em tentar acertar, porque isso não importava, o que importava é que eu devia perdoar. Aprendi que era normal um namorado sentir ciúmes e mandar em mim, porque isso era prova de amor e cuidado. Aprendi a não falar sobre abuso, porque poderia expor as pessoas e quebrar a boa imagem delas. Aprendi que uma pessoa poderia me deixar profundamente triste com alguma atitude, mas, que se ela chorasse na frente dos outros, coitada, ela tava arrependida e eu era muito má por achar aquilo uma grande falsidade.

E aí, o resultado foi:
* Que eu emprestava sapato pra amiga e ela devolvia pisado em cocô, mas se eu reclamava era chamada de chata e me sentia culpada: abuso.
* Minha irmã jogava lixo onde eu tinha acabado de fazer faxina e eu ajoelhava pra limpar de novo, quieta, ouvindo ela dizer que meu lugar ela ali, no chão, e eu acreditava porque era minha irmã mais velha dizendo: abuso.
* Minha chefe me humilhava na frente de todos os outros funcionários e ao invés de responder eu ia pro banheiro chorar, porque devia respeito aos superiores: abuso.
* Minha sogra telefona comigo recém operada, dizendo que não era pra eu pedir pro meu marido fazer nada por mim naquela situação, porque ela não queria que o filho dela tivesse trabalho comigo: abuso.
* Minha amiga se auto convida pra uma festa de colegas meus, com a desculpa de que eu sou tímida e preciso da ajuda dela, mas, quando ela é convidada pra uma festa ela não me chama dando a mesma desculpa de que é porque eu sou tímida: abuso.
* Sou coagida pelo meu pai quando começo a namorar, com ele dizendo que se eu aparecer em casa grávida ele sai da igreja por minha causa: abuso.
* Escuto da esposa de um pastor que quando o marido quer a esposa tem mesmo que “dar”, não importa se está com vontade ou não, é melhor “dar” pra evitar problema: abuso.
* Escuto da minha sogra, durante o namoro, que ela quer combinar um dia pra ir em casa me ver fazendo uma faxina, pra ver se eu vou limpar direito a casa do filho dela: abuso.
* Sou criticada por ter um pensamento analítico, crítico e muitas vezes ácido, quando o esperado é que eu seja fofinha e sou cobrada a ser fofinha: abuso.
* Ser chamada de chata por dar a minha opinião contrária a alguma coisa que a maioria é a favor: abuso.
* Meu pai me diz que vai ser difícil pra uma criança ser meu filho, porque eu sou brava, chata e ruim: abuso.
* Eu sou acusada de ser egoísta e arrogante por não seguir padrões de comportamento: abuso.
* Minha mãe diz que não importa que eu não goste de chupetas, na casa dela meu filho vai chupar chupeta de qualquer jeito, porque ela gosta e vai dar: abuso.
* Eu escuto de outras mulheres que minha sogra tem razão em me tratar do jeito que bem entender, afinal ela deu à luz o amor da minha vida: abuso.
* Recebi trilhões de vezes, goela abaixo, à força, comentários inconvenientes e ofensivos e intromissões não solicitadas: abuso.
* Escuto julgamentos e recebo dedos apontados na cara e olhares tortos por (agora) ser decidida, bem resolvida, autêntica e livre: abuso.
* Eu escuto de várias pessoas que ninguém vai gostar de mim porque eu tenho um “jeitinho diferente”, de questionar, brigar e “ser do contra”, quando eu deveria ser mais dócil: abuso.
* Se eu sou gorda tô errada, se eu sou magra tô errada, se eu concordo eu tô errada, se eu discordo eu tô errada, se eu abro a boca eu tô errada, se eu tô certa eu tô errada: abuso.

E eu poderia escrever mais dez páginas sobre tantos tipos de abusos que sofri, por crescer aprendendo com meus familiares, com a igreja e com a sociedade em geral que eu devo desculpas pra tudo e pra todos, que eu não tenho direito sobre meu corpo, que eu devo aceitar ser silenciada, que se alguém me fez mal a culpa é minha, que eu devo esconder assuntos indigestos… Que eu estou errada por ser quem sou. Que eu deveria ser diferente, porque muitos não gostam de como sou.

Mas a questão é que hoje eu tenho trinta anos, tô pra parir, sou graduada e pós graduada, casada, adulta… Ou seja, não importa mais o que fizeram comigo ou por mim, agora o negócio é comigo. Agora eu sou responsável pela minha vida, por fazer minhas próprias escolhas e tomar minhas próprias decisões. A fase de menina se foi, e por mais machucada que eu possa ter sido, agora é minha responsabilidade me curar. Não tem mais a ver com meus pais, com amigos abusivos, com chefes pilantras, com sogra controladora, com imposições da sociedade, com gente amarga e infeliz que se aproveita dos outros pra se auto afirmar e se sentir melhor. Agora eu decido o que permito ou não, como vivo minhas experiências, o peso que dou pro que já vivi. Agora eu quem defino o meu caminho. Não tenho raiva de nenhuma dessas pessoas, nem mágoa, rancor, ou sei lá mais o que poderia sentir de desgostoso.

Nesses anos eu passei por um processo de restauração. Muita terapia, muita oração, muita conversa com gente mais madura e que me respeitou a ponto de me ajudar a encontrar minha liberdade, minha autenticidade, minha propriedade. E a sensação de não dever nada pra ninguém é incrível. A sensação de não ter mágoa de ninguém é mais incrível ainda. Deus é muito louco e o perdão é algo sensacional. Cada abuso que sofri, de todo tipo, doeu muito. Ouvir coisas que ouvi marcaram minha alma. Passar por coisas que passei arrebentaram comigo de várias formas. Mas, quando eu me disponibilizei pra ser curada, Deus agiu. Quando fui atrás de me amar e me respeitar e dei minha cara à tapa pra crescer e amadurecer, meus olhos se abriram. Quando me despojei da necessidade de aceitação e parei de acreditar em qualquer pessoa e coisa, percebi que a opinião dos outros sobre mim não importa, mesmo que esses outros sejam aqueles que me deram vida, ou meus irmãos, ou amigos com quem cresci ou os familiares do meu marido. 30 anos, quase parindo, tenho mais paciência não.

E então eu me senti livre. Livre pra ser chamada de chata sem sentir dor, livre pra não aceitar quando tentarem despejar lixo emocional em mim, livre pra quando tentarem me desrespeitar saber qual é o meu valor. Autoestima é uma delícia. Como eu disse, não é fácil e nunca vai ser. Muita gente não entende a liberdade do outro. Muita gente não percebe que está desrespeitando o outro e muita gente percebe, mas não está nem ligando pra isso.

O que eu quero é viver leve. Decido não acumular mais abusos e desrespeito. Essa decisão vai fazer com que eu não seja convidada pra festas e eventos sociais? Beleza. Vai fazer com que pessoas se afastem de mim por eu não fazer todas as suas vontades? Maravilha. Vai fazer com que me achem chata? Sou. Vai fazer meu círculo de amigos ser minúsculo? Perfeito. Vai fazer apontarem o dedo, julgarem e criticarem? Tá tudo bem. O preço é alto, mas eu assumo bancar, porque ser livre dessas amarras existenciais é saboroso demais. Sabe a frase da Frida, “onde não puderes amar, não te demores”? Eu ouso adaptar pra “onde eu não sou respeitada, não me demoro”. E tudo bem mesmo, porque ninguém é obrigado a gostar de mim. Não forcemos a barra, não torturemos uns aos outros. O mundo é tão grande, tem tanta coisa pra se fazer nessa vida que acaba tão rápido. Não sejamos otários.

Não seja um babaca com o outro só porque ele deve ser tolerante com você. Não erre com o outro só porque ele deve te perdoar. Não espere por mais amor, tenha mais bom senso. Não espere mais do outro, faça mais, você.

Não seja um abusador, ou uma abusadora.
Se você sofreu algum tipo de abuso, siga em frente, se cure disso, se trate, resolva, supere, banque o custo, se livre dessa amarra. Peça ajuda, vá pra terapia, tome um passe, sei lá, mas não permita mais. Não aceite mais, não se cale, não tenha medo. Deixa chamar de louca, de exagerada, de ingrata, do raio que for, mas viva leve. Respire leve. Tenha alta da internação.

Assunto encerrado.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minha ressaca de Ano Novo

 

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Ilustração de Brian Rea

Ontem, 1 de janeiro, acordei com sintomas de ressaca. “Só você, né querida?” – ouço alguém pensar. Mas me refiro a uma ressaca mais existencial. Explico: depois de tantas comemorações de virada de ano, de desejos de paz, alegria e saúde, depois de termos orado e nos abraçado e comido e quase não termos dormido para que as olheiras do dia seguinte nos juntassem aos demais membros participantes desse rito de passagem que é o réveillon, eu acordei igual. Acordei e encontrei muito mais de mim em mim do que eu desejava. No espelho, a troca de olhares cúmplices me revelou: “ainda é você, né?”. Para o que prometia ser um ano novo, foi uma bela decepção. Encontrei tudo o que eu sempre fui e até as coisas chatas em mim, das quais eu quero tanto me livrar, ainda estavam ali. E com certo pesar, pensei: “Enquanto todo mundo recomeça – ano novo, vida nova -, eu permaneço no mesmo lugar”. Desejei que, da noite de sábado para ontem, uma fada tivesse jogado pó de pirlipimpim nas minhas questões e elas tivessem sido mandadas da Via Láctea para a galáxia mais distante possível. Mas não foi bem assim. A virada não me mudou em nada.

Mas Deus cuida de tudo e cuida de mim. Ainda ontem, Ele me mandou alguns recados e um deles foi Davi quem o escreveu: Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste*. Deus me fez de uma forma linda e não reconhecer e ser grata por isso é viver uma mentira, que só me deforma e me deprime. Ainda melhor do que isso, Deus também me lembrou de algo que com frequência me esqueço: na hora de me criar, Ele se inspirou em Si próprio e aí me fez**. Eu não poderia querer molde mais incrível! E isso significa não apenas que eu tenho qualidades valiosas (o que é verdade), mas que o meu valor está no fato de eu existir como sou, porque sou semelhante ao próprio Deus.

Quanto às minhas questões, sim elas existem mesmo e vão existir enquanto eu viver limitada pelo meu corpo, mas isso não quer dizer que elas não possam ser tratadas por Deus. Desta vez, tomo emprestada a oração de Catherine Marshall*** e a torno minha também:

Senhor Jesus, como te agradeço pelo fato de que a liberdade para a qual me chamas não busca modificar-me, forçando-me a fazer aquilo que não quero, mas me transforma interiormente, dando-me novos desejos.      

E finalmente, pelo último recado de Deus no dia da minha ressaca, compreendo que a ação do Espírito sobre as minhas questões não é uma fórmula mágica, mas um processo. E que mais do que o resultado, o que importa é de onde parti e para quem vou chegar:

O caminho muda e muda o caminhante
É um caminho incerto, não o caminho errado
Eu, caminhante, quero o trajeto terminado
Mas no caminho, mais importa o durante
Deixei pegadas lá no vale da morte
Um solo infértil aos meus muitos defeitos
Minha vida alargou-se em caminhos estreitos
E eu vi Você
A Partida
E o Norte****

Consolada, encontro a paz de espírito necessária para refletir sobre o ano de 2017:

 Quais são as características em mim que mais magoam as pessoas que amo e que podem ser trabalhadas?

 Quais são as características em mim que prejudicam a mim mesma e que podem ser trabalhadas?

Como posso transformar o meu trabalho em missão, de forma que ele ganhe ainda mais sentido?

Em que degrau da minha escada de prioridades vou colocar a comunidade de fé onde sirvo? E emendando: sirvo à minha comunidade de fé ou só ela tem me servido?

Quais são os frutos bons em mim que quero manter ou aperfeiçoar?

Não mais espero que um gênio da lâmpada, de uma hora para outra, transforme meus desejos em realidade, meus defeitos em perfeição, mas sigo em frente com um frio gostoso na barriga, de quem se entrega para ser argila nas mãos do Artesão do universo. E Ele não precisa ter pressa, porque é para Ele mesmo que estou sendo transformada.


 

*  Salmo 139.14
** Gênesis 1.26 e 27
*** Do livro O Consolador, de Catherine Marshall
**** 
 Trecho de A Partida e o Norte, música linda de Estêvão Queiroga

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Grata pelo silêncio

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Ilustração de Mi-Kyung Choi, que assina como Ensee.

 

Gosto do silêncio. Não ter uma opinião sobre tudo, não precisar discutir sobre tudo, não polemizar pelo prazer de polemizar é mesmo um presente. Um presente suave, pacificador. E é uma arte também, eu diria. Como é desafiador dominar a língua!  Ou os dedos, no caso de um post ou comentário de rede social. Parece que esses membros do corpo nos têm sob controle, que são eles quem mandam em nós. É a tirania do “se penso e tenho algo a dizer, tenho que dizer, senão essas palavras vão acabar me sufocando”. Mas será que realmente temos algo a dizer? Será que o que temos a oferecer para os outros não são apenas palavras que se organizam em uma ordem linear, de modo a fazer sentido de alguma forma? Porque isso é fácil e… totalmente dispensável.  Será que as pessoas realmente precisam da minha opinião sobre tudo? Porque se o que tenho para oferecer não for algo novo, que acrescente, que construa, que una, que desafie, que seja um convite para transpormos o mesmo de sempre, por que opinar? Proponho um teste: fiquemos offline por alguns dias e depois nós entramos e vemos se alguém sentiu falta dos nossos posts e comentários. Poucos sentiriam. E tudo bem. Porque não saber, não conhecer a fundo certos assuntos, não estar presente em tudo e não ser apto para opinar é saudável, humano e realista. Somos limitados mesmo – não somos Deus para conhecer tudo – e que bom por isso. Já pensou se a nós fosse dada a grande responsabilidade de carregar o mundo nas costas? Ainda bem que podemos nos dar ao luxo de nos silenciar. E esperar. E refletir. E não entender. É um alívio.

Nesses dias, tenho permanecido em grande silêncio. Olho para dentro e pouco encontro o que dizer. Confesso que esse estado não tem sido fruto apenas da reflexão que fiz acima. É um silêncio de falta também, o que pode ser um pouco mais triste. Para mim, que vejo na escrita o meu combustível de vida, ficar em silêncio por puro vazio é bastante estranho. Mas até em horas como essas, aprendo. Aprendo sobre humildade, sobre não ser indispensável, sobre outras formas de significar o mundo (agora mesmo observo um tucano pousado na araucária ao lado de casa), sobre o estar e ser apenas. Suspensa. Dependente e pendente no fio de prata da vida.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.