Mulheres Inspiradoras: Ethel Waters – Out/2018

Foi uma importante cantora de blues, jazz e atriz nos Estados Unidos. Foi também uma cantora ativa durante as cruzadas de Billy Graham.

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Ethel Waters nasceu dia 31 de outubro de 18961, em Chester, cidade localizada na Pensilvânia, Estados Unidos. Sua mãe, Louise Anderson, a teve com apenas 13 anos2 de idade, pois engravidou de Ethel sendo vítima de um estupro3. Sim, você leu certo: sua mãe foi vítima de um estupro e engravidou de Ethel neste contexto.

Após seu nascimento, sua mãe casou-se com Norman Howard, um trabalhador da estrada de ferro e Ethel usou seu sobrenome quando criança, mas já adulta adotou o nome de seu pai biológico.

Eu nunca fui uma criança

Ethel sempre se referiu a sua avó, Sarah, que morreu em 1914, como “Sally”. Durante a maior parte de sua infância, Ethel foi criada por Sally na Filadélfia: “Minha avó, sempre que podia, cuidava de mim porque minha mãe casou-se com o pai da minha irmã e minha avó, Sally Anderson, agarrou-se a mim. Ela trabalhou duro a vida toda. Ela trabalhava no serviço e tinha três meninas e um menino, e eles eram todos jovens e selvagens, e não havia ninguém para cuidar deles”.3

Ethel nasceu em um contexto de extrema pobreza e vulnerabilidade. Em sua autobiografia His Eye Is On The Sparrow: An Autobiography revela que raramente era mostrada a ela amor e afeição. Foi criada em um ambiente vicioso, e se descreve como uma verdadeira criança sem saída e líder de gangue. Para ganhar dinheiro quando criança, ela levava recados para cafetões e prostitutas – muitos dos pedidos eram para drogas. Ela também ganhou um dinheiro extra para vigiar a polícia.4

Seu pai, John Waters, nasceu em 1878, o que sugere que ele tinha mais ou menos a mesma idade que sua mãe, Louise, quando Ethel foi concebida. Ethel descreve-o como um playboy que trabalhou como pianista e foi assassinado (envenenado) em 1901 por uma amante ciumenta. Mas, uma de suas filhas deu uma versão diferente, para Deborah Montgomerie: “Ela diz que John foi assassinado, mas foi um erro trágico. John tocava piano em uma festa, em um bar ou clube, e alguém colocou uma bebida que continha veneno no piano para outra pessoa, mas John bebeu e morreu”.5

Aos 13 anos de idade, Ethel se casou com um homem abusivo e se divorciou dele no ano seguinte. Em seguida começou a trabalhar como camareira e a cantar em corais de igrejas e show de talentos, ganhando seu primeiro prêmio aos 15 anos de idade. Ela foi descoberta por dois produtores, em 1917, em um destes concursos. Passado dois anos, ela se tornou uma das primeiras cantoras afro-americanas a gravar no selo Black Swan Records. As gravações foram bem-sucedidas o que aumentou sua popularidade e fama.

Waters cantava em um estilo que a diferenciava de outros mestres do blues, como Bessie Smith e Ma Rainey. Sua abordagem era mais suave, sofisticada e lírica e, quando aplicava uma variedade de gêneros, do blues de Tin Pan Alley, envolvia um amplo espectro de públicos e aumentava sua popularidade. Ela antecipou certas técnicas de jazz, como “scat singing”, que se tornaria associada a mestres como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, e ela também influenciou cantoras como Billie Holiday, Sarah Vaughan e Sophie Tucker. Ela nunca aprendeu a ler uma partitura, mas lembrava-se de uma música depois de uma ou duas audiências; e sempre trouxe uma nova abordagem para cada performance.6

Até a década de 1930, Ethel gravou mais de 50 canções de sucesso e foi acompanhada por instrumentistas de jazz como Fletcher Henderson, Benny Carter e Coleman Hawkins. Gravando também com Jack Teagarden, Benny Goodman e Tommy Dorsey.

Essa mesma habilidade interpretativa permitiu que Waters mudasse de carreira, da música para o teatro musical. Apareceu em diversos musicais durante a década de 1920 e na década seguinte, principalmente no gênero ‘black music’. Waters tinha mais originalidade do que as características estereotipadas de canto e dança permitidos na época. E ela usaria sua fama e popularidade (tendo se tornado uma das artistas mais bem pagas nos EUA) para romper as restrições da forma musical e as presunções sobre os artistas afro-americanos.7

Em 1929, Ethel ganhava US $ 1.250 dólares por semana cantando e atuando no filme ‘On With the Show!’, da Warner Bros. Este sucesso de bilheteria foi filmado em cores e foi um dos primeiros ‘filmes falados’ – arrecadando US $ 2 milhões ao redor do mundo.8 Mais tarde, Ethel se tornou a segunda mulher negra indicada ao Oscar e a primeira atriz negra indicada ao Emmy.

Sua vida pessoal foi um grande emaranhado de relacionamentos. Foi casada por 3 vezes e se divorciou dos 3 casamentos. E sua falta de saúde trouxe a ela a aposentadoria profissional na década de 1960.

Em 1955, Ethel estava completamente endividada com impostos atrasados ​​e aproveitando somente dos royalties de seu trabalho. E um ponto de virada aconteceu quando ela participou de uma das cruzadas de Billy Graham, no Madison Square Garden, em Nova York, em 1957. Anos depois, ela deu este testemunho sobre aquela noite:

Em 1957, eu, Ethel Waters, era uma velha senhora decrépita de 380 libras e dediquei minha vida a Jesus Cristo. Eu te digo porque Ele vive; e porque meu precioso filho, Billy, me deu a oportunidade de ficar ali, posso agradecer a Deus pela chance de dizer a você que o olho dEle está em todos nós pardais* (referência ao nome da canção cantada por ela durante as cruzadas: His Eye Is On The Sparrow).9

Ela continuou em turnê com o evangelista Billy Graham até 1975 e veio a falecer na Califórnia em 1977, aos 81 anos de idade.

Quando eu estava na busca pelas mulheres para o calendário deste ano, 2018, o mês de outubro foi o último a ser preenchido. Foi difícil encontrar uma mulher nascida este mês – segundo o critério de nascimento que eu mesma havia colocado. Mas eu orava para que Deus me ajudasse a encontrar uma mulher para ser lembrada e homenageada por este projeto. E ao me deparar com a história de Ethel, não tive dúvidas: o calendário só estava me aguardando encontra-la.

Nestes dias escuros e tão complexos, no qual tentamos discutir e ‘estabelecer’ quando é que se inicia uma vida humana e qual delas ‘vale mais’, ao me deparar com a vida de Ethel me senti profundamente sensibilizada. Sua mãe foi uma vítima e uma sobrevivente dando à luz a uma menina em um contexto completamente vulnerável e aparentemente sem esperança. E conhecer sua história aumentou minha fé. Por mais que eu me esforce eu nunca saberei o quão difícil e dolorido foi para ela e sua mãe, assim como para tantas outras pessoas que nascem sob esta cruel, sofrida e estigmatizada circunstância. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Todos nós somos desejados e amados por Deus de um jeito maravilhosamente e assombrosamente inexplicável.

Tu criaste o íntimo do meu ser
e me teceste no ventre de minha mãe.
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.
Tuas obras são maravilhosas!
Digo isso com convicção.
Meus ossos não estavam escondidos de ti
quando em secreto fui formado
e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu embrião;
todos os dias determinados para mim
foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Como são preciosos para mim os teus pensamentos, ó Deus!
Como é grande a soma deles!

Salmo 139:13–17 [Versão NVI]

 

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NOTAS:
1Algumas fontes declaram que seu nascimento tenha sido em 1900, e não em 1896.

2Algumas fontes declaram que sua mãe seria um pouco mais velha do que 13 anos.

3Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 2 – tradução livre

4Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 3 – tradução livre

5Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 2 – tradução livre

6Trecho retirado do site Black History Now – Black History Biographies from the Black Heritage Commemorative Society. Disponível em: <http://blackhistorynow.com/ethel-waters>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

7Trecho retirado do site Black History Now – Black History Biographies from the Black Heritage Commemorative Society. Disponível em: <http://blackhistorynow.com/ethel-waters>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

8Trecho retirado do site Christian Index – Ethel Waters: The Sparrow that Soared, escrito por Ron F. Hale. Disponível em: <https://christianindex.org/ethel-waters-sparrow-soared/#>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

9Trecho retirado do site Christian Index – Ethel Waters: The Sparrow that Soared, escrito por Ron F. Hale. Disponível em: <https://christianindex.org/ethel-waters-sparrow-soared/#>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Eunice Souza Gabbi Weave – Set/2018

Foi uma importante ativista pelo combate da hanseníase no Brasil.

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Eunice Souza Gabbi Weave nasceu em 19 de setembro de 1902, na pequena cidade de São Manuel, no interior de São Paulo. Sua família era uma família de fazendeiros de café. Seu pai, Henrique Gabbi, era carpinteiro e natural da Itália, já sua mãe, Leopoldina Gabbi, era natural da cidade de Piracicaba e de origem suíça.

Aos 3 anos de idade, Eunice e sua família, mudaram-se para Uruguaiana, no estado do Rio Grande do Sul, e lá ela completou seus estudos primários. Mas foi em São Paulo que Eunice formou-se em Educação Sanitária.

Além de sua mãe ser portadora da hanseníase outro importante acontecimento contribuiu para que Eunice posteriormente se engajasse por completo nesta causa:

Durante seus estudos, quando foi passar férias em casa, ocorreu um fato que mudou sua vida para sempre. Eunice presenciou um bando de esfarrapados, mendigos e doentes, que pegavam agasalhos e alimentos deixados à porta da fazenda. As crianças da Casa Grande foram levadas para dentro, às pressas; as cortinas e as portas fechadas. Então, uma mulher abandonou o grupo e se aproximou. Nela havia um ar aristocrático e restos de nobreza. O rosto estava escondido por um chapéu de palha, e ela falou com voz serena:

– Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei. Casei-me com aquele homem. Nessa vida de cigano é melhor ser um só.

Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos e cobiçada donzela que todos encantava, mas havia desaparecido. A moça tinha contraído lepra nos tempos do colégio. Nunca mais Eunice esqueceria os ‘olhos de Rosa’ e, a partir deste episódio, começava seu trabalho em benefício dos leprosos.1

Em 1927, Eunice reencontrou-se com Charles Anderson Weaver, ele havia sido seu professor de latim e, na época, era o diretor do colégio onde ela havia estudado. Neste reencontro Eunice ficou fascinada por sua cultura, inteligência, bondade e brilhantismo de ideias.2 Posteriormente casaram-se e foram morar em Juiz de Fora.

Depois de 1 ano de casados, seu esposo foi convidado pela Universidade de Nova Iorque a dirigir a Universidade Flutuante da América do Norte – que era um transatlântico, que faria uma viagem ao redor do mundo, para melhor formação de seus alunos.3

Eunice aproveitou sua estadia na universidade móvel para estudar Jornalismo, Sociologia, Serviço Social e Filosofia Oriental. Ao todo, ela visitou 42 países, e por todo lugar que passava buscava informações sobre o problema da hanseníase. Ela também aproveitou para estagiar em diversos lugares ao redor do mundo que acolhiam e tratavam pessoas diagnosticadas com hanseníase.

Já de volta ao Brasil, em 1934, seu esposo foi nomeado pastor da Igreja Metodista de São João, em Juiz de Fora e Eunice começou a fazer campanhas de assistência as pessoas com hanseníase. Até que, em 1935, Eunice tornou-se presidente da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros, fundada em 1932 por Alice Tibiriçá. 4

Em Minas Gerais, nessa época, o problema da lepra era terrível: o trem passava de madrugada com o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel. Eunice levava à estação roupas, cobertores e refeições .5

O próximo, e inevitável passo, foi o da conscientização da população para a prevenção da doença. Mais tarde, estes locais vieram a se tornar lugares que contribuíam para a inclusão de crianças, filhas e filhos de portadores da hanseníase, na sociedade. Fazendo-as participar e usufruir da vida em sociedade.

Em 1935, Eunice convenceu o então presidente da república, Getúlio Vargas, a contribuir oficialmente com a causa. Ele prometeu dar o dobro de dinheiro que ela conseguisse arrecadar junto a sociedade civil. Infelizmente, [a] classe política se esquivava do assunto, pois acreditavam que a assistência aos leprosos não daria frutos políticos.6 Ao todo, Eunice percorreu 146 cidades no Brasil divulgando e arrecadando fundos para a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa Contra a Lepra.

Seu trabalho foi amplo e diversificado pela causa. Participou diretamente da construção de educandários7 e suas implantações, bem como na elaboração de campanhas para conscientização da população da doença e representando o país em congressos internacionais para falar sobre o combate à doença no Brasil. Além de contribuir com os países Paraguai, Cuba, México, Guatemala, Costa Rica e Venezuela em ações de combate a doença.

Eunice não teve filhos biológicos, mas amou e cuidou dos filhos de seu esposo Charles, com o mesmo coração e temor. Além de dedicar seu amor e cuidado à cada pessoa excluída e marginalizada pela hanseníase em sua época.

Depois de muito tempo atuando contra a hanseníase e com a idade mais avançada, Eunice recebeu uma carta de um portador da doença que perguntava a ela o seguinte:

– Por que a senhora escolheu, na vida, este caminho tão duro, de cuidar dessa raça de gente inválida que todo mundo tem pavor?8

Mas [d]ona Eunice não respondeu. Sorriu. Sorriu recordando as outras cartas de engenheiros, aviadores, advogados, professores, todos filhos de leprosos e por ela encaminhados na vidam, durante esses trinta anos, narrando suas vitórias, as suas conquistas, os seus trabalhos, que deram às suas vidas as alegrias sadias dos que são construídos com AMOR.9

Eunice faleceu, aos 67 anos, em 9 de dezembro de 1969 em pleno exercício de seu chamado. Ela estava no Rio Grande do Sul, quando faleceu. Seu corpo foi transladado para o Rio de Janeiro, velado em uma igreja metodista e enterrado ao lado de seu esposo no Cemitério dos Ingleses.

ALGUNS RECONHECIMENTOS

  • O governo do Paraguai lhe concedeu a condecoração de Ordem ao Mérito
  • A Sociedade Internacional de Leprologia lhe conferiu o título de Full Member – que garantia a ela os mesmos direitos dos membros regulares e médicos leprogistas
  • O governo de Cuba a condecorou com a Ordem ao Mérito Carlos Finley
  • Em 1950 foi a primeira mulher no Brasil a receber a Ordem Nacional do Mérito
  • Em 1956 recebeu a Ordem do Mérito da Aeronáutica
  • Em 1960 recebeu o título de Cidadã Carioca – ao completar 25 anos na direção da Federação
  • Em 1965 foi honrada com o título de Cidadã Honorária de Juiz de Fora
  • É cidadã bemérita do Rio de Janeiro, Bahia e do Pará
  • Recebeu o diploma da Inconfidência pelo estado de Minas Gerais
  • Em 1967 foi para a ONU como delegada brasileira no 12º Congresso Mundial
  • Em 1973 foi emitido um selo pelos Correios com a imagem de Eunice Weaver, em uma campanha contra o mal de hanseníase

Ao conhecer a história de Eunice, inevitavelmente, me lembrei de tantas e tantas histórias narradas nos Evangelhos, sobre o contato direto de Jesus com os leprosos de sua época, fazendo exatamente o contrário da sociedade, que excluía, condenando-os à uma vida miserável e solitária.

Jesus tocou e curou essas pessoas. Mostrando que o ordinário, que a vida comum também importa. Curando essas pessoas, Ele permitiu que elas pudessem partilhar o pão novamente em comunhão com a comunidade.

Um leproso aproximou-se dele e suplicou-lhe de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me!” Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado!” Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi purificado.
[ Marcos 1:40–42 – NVI ]

Conhecer a trajetória e o trabalho de Eunice, me lembrou que, mesmo imperfeitos e pecadores, somos convocados a levar vida, pão e comunhão àqueles que estão a margem. Que Deus nos ajude a não reter o que Ele nos dá em abundância para que seja compartilhado e, assim, multiplicado.

“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, ele se assentará em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. ‘

[ Mateus 25:3140 – NVI ]

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VOCÊ SABIA QUE, DESDE 2016, EXISTE A CAMPANHA JANEIRO ROXO, NO BRASIL?

Pois é, a hanseníase coloca o Brasil em segundo lugar em número de casos, atrás apenas da Índia!10

Infelizmente, ainda precisamos combater seriamente a doença no Brasil, e ao contrário que muitos pensam, a doença não é hereditária e possui cura. Quanto mais cedo o paciente é diagnosticado e inicia o tratamento, menores são as agressões aos nervos e é possível evitar complicações. Além de não transmitir a doença a seus familiares, amigos, colegas de trabalho ou escola.

 

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NOTAS:

1Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

2Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

3Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

4Alice Tibiriçá fundou em São Paulo a Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra, tendo Eunice como sua vice-presidente. Em 1935, Eunice assumiu a presidência dessa entidade, que exerceu durante 30 anos. Dicionário Mulheres do Brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, p 301

5Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

6Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

7Educandários eram os espaços de acolhimento e educação, oferecidos pela fundação, para as crianças filhas dos portadores da doença

8 / 9 Trecho de Eunice Weaver: Uma vida para o bem, escrito por Vera Brant. Disponível em: <http://verabrant.com.br/1/cronicas/EUNICE%20WEAVER-artigo.htm>. Acessado em 21/08/2018

10Dado coletado em Sociedade Brasileira de Hansenologia. Disponível em: <http://www.sbhansenologia.org.br/campanha/janeiro-roxo>. Acessado em 21/08/2018

 

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Mulheres Inspiradoras: Katherine Coleman Goble Johnson – Ago/2018

Katherine teve um desempenho escolar acima da média. Concluiu o Ensino Médio antes da idade prevista e finalizou o Bacharelado em Matemática e Francês aos 18 anos. Foi uma das primeiras mulheres negras a se matricular em Matemática nos Estados Unidos. Aos 35 anos começou a trabalhar na NASA e contribui para missões espaciais históricas, como levar o primeiro norte americano à Lua!


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Katherine Coleman Goble Johnson nasceu em 26 de agosto de 1918, em White Sulphur Springs, West Virginia, Estados Unidos. Seu pai, Joshua, era fazendeiro e sua mãe, Joyllete, era professora. Ao todo, o casal teve 5 filhos, sendo Katherine a filha mais nova.

Desde muito cedo, Katherine tinha aptidão para a matemática e adorava cálculos:

Eu contava tudo. Contava os passos na rua, os passos até a igreja, o número de pratos e talheres que eu tinha lavado… qualquer coisa que pudesse ser contada1

Mesmo sem idade para frequentar a escola, tramou um jeito de começar a seguir seu irmão, quando ele ia para a escola. Um dia, ao se deparar com seu professor, foi convidada para assistir a aula. Impressionado ele permitiu que Katherine frequentasse as aulas naquele verão, pois ela já sabia ler e escrever.

Foi matriculada oficialmente com quase 6 anos de idade, porém foi colocada diretamente no 2o ano por seu desenvolvimento além do previsto para a sua faixa etária. Um pouco mais tarde, prestes a entrar na 5a série, avançou novamente mais um ano.

Aos 10 anos de idade ela já estava apta a iniciar o ensino médio, mas infelizmente a única escola de sua cidade, que permitia negros estudarem, não possuía o ensino médio disponível. Com isto, sua família precisou se mudar para Kanawha, para que Katherine e seus irmãos continuassem estudando.

Katherine se formou aos 14 anos no ensino médio e aos 15 anos iniciou seus estudos na universidade (naquela época, ela tinha sido uma das primeiras pessoas negras a se matricular em um curso de matemática nos Estados Unidos). Enquanto estava na universidade, diversos professores e tutores a guiaram e acompanharam suas escolhas com matérias, contribuindo para o direcionamento de seu curso. Aos 18 anos conseguiu concluir seu Bacharelado em Francês e Matemática na Universidade West Virginia State.

Depois de formada, seu primeiro trabalho foi em uma escola primária rural ensinando francês e matemática. Katherine acabou deixando o trabalho em 1939 para se casar com James Francis Noble. Em 1940, a Universidade West Virginia State a convidou para se matricular em uma pós-graduação em Matemática, o que faria dela uma das primeiras pessoas negras a cursarem um curso de pós-graduação em matemática nos Estados Unidos, porém seu esposo James ficou doente e ela foi forçada a abandonar os estudos para sustentar sua família.

Em 1952, Katherine descobriu que o Centro de Pesquisas de Langley – NACA2 estava recrutando mulheres negras com aptidão em matemática. E um ano depois ela estava empregada no centro de pesquisas, inicialmente em um grupo apenas com mulheres.

Duas semanas depois, ela foi convidada a se juntar a um grupo de engenheiros de vôo – no qual, todos eram somente do sexo masculino – para uma vaga temporária como assistente de dados. Seu grande conhecimento em geometria analítica a fez conquistar a vaga por definitivo. Obviamente que, além do forte machismo em meio a um ambiente dominado por homens, Katherine precisou também enfrentar, com grande coragem, um racismo vergonhoso.

Em 1956, seu esposo James faleceu, devido a um tumor inoperável no cérebro, e juntos eles tiveram 3 filhas; Constance, Joylette e Katherine.

Em 1959, o programa espacial avançou muito! Os Estados Unidos e a Rússia competiam entre si para marcarem história, levando o primeiro homem à Lua. Nesta época, a contribuição de Katherine esteve relacionada aos cálculos das trajetórias para um tempo preciso dos lançamentos espaciais. Neste mesmo ano, Katherine se casou com o tenente-coronel James A. Johnson.

Katherine realizou cálculos referentes ao tempo do lançamento da missão Mercury de Alan Shepard, em 1961 – primeiro norte americano no espaço. Fez cálculos altamente complexos para impulsionar as cápsulas espaciais em órbita ao redor da Lua. Traçou as cartas de navegação, guiando navios pelas estrelas em caso de falha eletrônica e, em 1962, verificou os primeiros cálculos computacionais da órbita de John Glenn ao redor da Terra. Ela também participou da autoria do primeiro livro didático sobre o espaço, após completar o trabalho em dinâmica de vôo em um programa secreto.

Em 1969, ela calculou a trajetória do vôo Apollo 11 até à Lua e seu trabalho posterior incluiu o programa Space Shuttle e planos para uma missão à Marte.

Eu encontrei o que eu estava procurando em Langley. Isso era o que uma matemática de pesquisa fazia. Eu fui trabalhar todos os dias, por 33 anos, feliz. Nunca me levantei e disse: “Eu não quero ir trabalhar”.3

Até 2008 ela ainda estava lecionando matemática para jovens. Em novembro de 2015, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, incluiu Katherine na lista dos 17 americanos a receberem a Medalha Presidencial da Liberdade e seu nome foi citado como exemplo pioneiro de mulheres negras na ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Em 2016, a nova Instalação Katherine G. Johnson de Pesquisa em Computação foi formalmente dedicada pela agência no Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia, no aniversário de 55 anos do vôo histórico de Alan Shepard em seu foguete, que Katherine contribuiu para que fosse possível.

Katherine foi membro da Igreja Presbiteriana Memorial Carver, em Newport News, por mais de cinquenta anos. Além de cantar no coral e servir em diversos cargos de liderança, contribuiu também com a organização e prestação de contas das finanças da igreja. Também foi membro da Alpha Kappa Alpha Sorority (organização criada em 1908 para promover a equidade dos negros através dos estudos, sobretudo das mulheres negras nos Estados Unidos).

RESUMO DE SEUS TRABALHOS

  • 1936 – 1952 – Professora rural na Virgínia e em West Virginia, nos ensinos infantil e médio
  • 1952 – 1953 – Professora substituta de matemática em escolas públicas em Newport News, Virgínia
  • 1953 – 1986 – NASA, Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia
  • 1953 – 1958 – Matemática Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia, com a NACA
  • 1958 – 1986 – Técnica aeroespacial, NASA

EDUCAÇÃO

  • 1932 – West Virginia State High School, ensino médio
  • 1937 – West Virginia University, graduação em Matemática e Francês
  • 1940 – West Virginia University, graduação no programa de Matemática

PRÊMIOS E HONRARIAS

  • 2015 – Medalha Presidencial da Liberdade
  • 2010 – Doutorado honorário em ciência pela Old Dominion University, Norfolk, Virginia
  • 2006 – Doutorado honorário em ciência pelo Capitol College, Laurel, Maryland
  • 1999 – West Virginia State College – aluno excelente do ano
  • 1998 – Doutorado honorário em direito do SUNY Farmingdale
  • 1986 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1985 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1984 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1980 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1971 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Center Special Achievement award
  • 1967 – Prêmio do Grupo Apollo, que inclui as 300 bandeiras que voaram junto da Apollo 11
  • 1967 – NASA – Prêmio em Equipe do Lunar Orbiter Spacecraft and Operations – por trabalho pioneiro na resolução de problemas de navegação de cinco espaçonaves que circundaram e mapearam a Lua na preparação para o Programa Apollo

Conheci Katherine através do filme Estrelas Além do Tempo (título original, em inglês, Hidden Figures), juntamente com as outras duas mulheres incríveis, que lutaram bravamente e intelectualmente para vencerem e transpor as diversas barreiras de preconceitos. Eu realmente acredito que trazer à tona história de mulheres reais que fizeram diferença no mundo tem grande poder! Saber que existiram, e existem, mulheres tão inspiradoras que mudaram o mundo, nos inspira também a mudar o mundo, nosso país, nossa cidade, nosso bairro, nossa casa.

Este ano Katherine completará 100 anos. Celebro e agradeço a Deus por sua vida e peço à Ele que ela tenha em seu coração a paz, que excede todo e qualquer entendimento e a satisfação por ter vivido uma boa, agradável e perfeita vida de acordo com os desígnios de Deus em Cristo Jesus.

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NOTAS:
1Frase traduzida livremente do site The Heroine Collective referente a sua biografia: Biography: Katherine Johnson, Space Scientist

2NACA – National Advisory Committee for Aeronautics. A NACA foi o comitê anterior a NASA – National Aeronautics and Space Administration

3Frase traduzida livremente do site The Heroine Collective referente a sua biografia: Biography: Katherine Johnson, Space Scientist

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Archimínia de Meirelles Barreto – Jul/2018

A filha de padre Archiminia Barreto (1845-1930): convertida ao evangelho de Cristo, defendeu sua fé e escreveu contra a idolatria [1]

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Por todos os títulos a memória desta distinta irmã merece ser perpetuada entre nós. A sua rara fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo desde a sua conversão, já há muitos anos, diante dos constantes esforços do clero romano para induzi-la a voltar à fé abjurada, como também os seus relevantes serviços prestados à Causa, com sua pena burilada, jamais devem ser esquecidos pelos batistas brasileiros. [2]

Introdução
Archimínia de Meirelles Barreto nasceu em 12 de julho de 1845, em Inhambupe, Bahia. Era filha do padre Fernandes Pinto Meirelles Barreto e D. Leopoldina Theodolina de Castro. Ela recebeu esmerada educação de seu pai. Dominava o latim e falava bem o francês. Com trinta anos obteve nomeação para o exercício do magistério público. Foi a primeira professora pública na Bahia de 1875, ainda sob o Império.

Digno de destaque é o fato de que sua filiação nunca foi ocultada, seu pai padre teve seis filhos, por ele legitimados.

Archimínia casou-se com Joaquim Euthychio de Oliveira e teve duas filhas. Ela professou a fé em Cristo em 05 de fevereiro de 1893, juntamente com sua irmã Jacquelina, na Primeira Igreja Batista da Bahia e, no mesmo dia foram batizadas pelo missionário Zacarias Clay Taylor. [3]

Archimínia: mulher destemida e apologista intrépida
Após sua conversão, e por causa dela, foi abandonada pelo marido e por outros parentes. Foi morar, então, com sua irmã viúva Jacquelina, juntamente com suas duas filhas: Eunice e Evangelina.

Sofreu perseguição por se tornar protestante, sendo transferida diversas vezes sob a acusação de que “tinha parte com o diabo”. Os pais de seus alunos, ao saberem de sua fé, os retiravam da escola e um inspetor aconselhou-a a abdicar de sua fé. Mas, ela respondeu tão energicamente, repreendendo-o por invadir a seara de sua consciência, que ele se tornou seu melhor defensor.

Archimínia afirmou que: “Quem quer que se dê ao trabalho de estudar o que tem sido a religião de Jesus Cristo desde os seus primeiros tempos verá que toda a sua pureza vai desaparecendo à proporção que a Roma dos papas vai lhe adicionando inovações”. [4]

Bastante preocupada com essa impureza no cristianismo de sua época, Archimínia dedicou-se a escrever artigos nos quais refutava a idolatria, afirmando que: “O vosso culto sublime e santificador, a adoração da vossa boa e terna Mãe de Deus, é tanto idolatria como o era a adoração das deusas do paganismo: e os protestantes tão perversos e ímpios como o foram os cristãos, que nunca se prostraram diante de suas imagens tão prezadas. [5]

A escritora escrevia em periódicos e jornais seculares e, em todas as suas crônicas, não dava tréguas aos padres que tentavam de todos os meios impedir que os jornais da cidade publicassem seus escritos. [6]

Sua contribuição à literatura evangélica não se limitou, porém aos artigos polêmicos, pois escreveu também folhetos de edificação e evangelização. Ela também foi responsável pela Seção Feminina do Jornal Batista por mais de uma década, onde escreveu artigos endereçados às mulheres, destacando sua missão como mãe, esposa, filha e mestra.

Archimínia foi atuante também em sua igreja, sendo professora da Escola Dominical, evangelista, e tendo sido escolhida por algum tempo como diretora dos cultos da Igreja de Villa Nova, na ausência do pastor. Archiminia também pregava e “foi ela, pela sua pregação, que levou a Cristo o jovem Francisco José da Silva, a quem Taylor denominava ‘o apóstolo do Estado do Espírito Santo’”. [7]

Archimínia e seu livro “Mitologia Dupla”
Foi aconselhado à Archimínia pelo pastor Zacharias Taylor, pioneiro dos batistas na Bahia, que escrevesse uma obra sobre a idolatria. Como estrangeiro, o pastor tomava bastante cuidado para não ofender os brasileiros falando sobre o assunto. Com temor, ela aceitou o desafio, movida pela vontade de apresentar aos seus contemporâneos a mensagem do evangelho, tal como se encontrava na Bíblia:

Eu, porém, que suportei diretamente, por muitos anos, esta cegueira espiritual, desejei ardentemente iluminar a minha pátria, tão digna de melhor sorte, a fim de elevarmos o nosso espírito para o infinito, desprendendo-nos de objetos materiais. Bem sabia eu que uma idéia desconhecida é sempre mal recebida; mas, que importa? A verdade, cedo ou tarde, triunfará!

No desejo de fazer triunfar a verdade evangélica, a senhora baiana dedicou-se a escrever seu livro, com humildade e modéstia, afirmando uma nulidade literária, que não conduzia com sua capacidade bem demonstrada no texto que entregou ao público brasileiro.

Como filha de padre, Archimínia bem conhecia o catolicismo e na introdução de seu livro informou que: “filhos de católicos romanos, temos a desdita de receber em criança, sem prévio exame, esse presente de gregos à guisa de religião, e inconscientemente levamos esse cavalo de Tróia para o capitólio da nossa alma!”. [8]

Por esse trecho de seu livro percebe-se a intelectualidade de Archimínia. Ela comparou o presente dos gregos, o cavalo de Tróia, onde se abrigavam soldados inimigos, com as inovações abrigadas pela religiosidade brasileira, cheia de lendas, de cerimônias e de festas iguais às da antiga mitologia. Por isso intitulou sua obra de “Mitologia Dupla” e nela demonstrou as semelhanças da idolatria da religiosidade brasileira com a mitologia pagã.

Como exemplo do conteúdo do livro, segue-se uma comparação feita pela autora das divindades antigas e modernas:

TEXTO DA ÉPOCA:

[9] [10]

De comparação em comparação segue o livro de Archimínia, dividido em cinco partes: na primeira, ela comparou as divindades de Roma antiga e moderna; na segunda, discorreu sobre as invocações e cerimônias; na terceira, escreveu sobre as festas; na quarta tratou das superstições e na última parte apresentou Maria versus Maozim. [11]

Na conclusão de seu livro, a autora afirmou que:

De Jerusalém saiu o evangelho, e de Roma, a idolatria. Jesus é um rei eterno, e o Papa um homem negociante de almas. Sirvamos ao nosso Rei, a despeito dos mercadores de Roma. A Ele, o Deus de toda a Glória, Pai, Filho, e Espírito Santo, sejam todas as glórias para todo o sempre. Amém. [12]

Herança de Archimínia: intrepidez e ousadia
Archimínia foi a apologista da época, corajosa, intrépida e que não temia as perseguições. Com destemor escreveu seus artigos nos jornais, enfrentou as hostilidades de parentes e amigos e criou, sozinha, suas filhas. O seu objetivo com o estudo e apresentação do sincretismo, mistura de santos com deuses pagãos, era de que essa idolatria fosse enxergada e abolida da crença brasileira.

Muitos anos depois, alguns seguidores do candomblé baiano, herdeiros da religiosidade africana, perceberam e rejeitaram seu próprio sincretismo, que era a mistura dos santos com seus orixás.

Em uma reportagem da Revista Veja, de 01 de março de 2000, com o título de: “Abaixo os santos: expoentes do candomblé baiano não querem mais saber de sincretismo com os católicos”, o autor do artigo fez também uma comparação, parecida com a pioneira apologista batista, como pode ser verificado a seguir:

Na realidade, a mitologia não é somente dupla como escreveu Archimínia, mas é tripla ou até mais multifacetada, conforme as misturas que vão se incorporando, pouco a pouco, ao cristianismo brasileiro, que de tão descaracterizado nem devia mais receber essa denominação.

Ebenezer Cavalcanti, o escritor do esboço biográfico de Archimínia, reconhecendo seu valor, destacou que: “Sua obra completa deve ser reunida e publicada. Bem que seu nome merece ser perpetuado por algum setor pertinente da obra feminina batista no Brasil. Foi pioneira e heroína”. [13]

Após longa enfermidade, Archimínia morreu, aos oitenta e sete anos, em 20 de janeiro de 1930.  A Primeira Igreja Batista da Bahia registrou em ata alguns trabalhos de sua vida cristã, onde foi destacada como um modelo de mulher a ser seguido pela comunidade.

O Jornal Batista, em seu editorial de 20 de março de 1930, lamentou o seu falecimento e elogiou seu trabalho de “escriptora fecunda que, pelo seu zelo, energia e competência, escreveu em jornais e pamphletos”. Nesse necrológio, o redator não encontrando adjetivo apropriado para as qualificações de Archiminia, declarou que: “a veneranda irmã D. Archyminia Barreto, professora aposentada do estado tinha um caracter másculo e cristão”. [14]

Esse comentário refletiu bem a mentalidade de que a firmeza de caráter e a fidelidade em defender doutrinas só podiam ser privilégios da personalidade masculina. Mas, sabemos que todas nós, verdadeiras cristãs, somos capazes de defender a nossa fé e não nos deixarmos influenciar pela filosofia pós-moderna que tem causado tantos danos aos valores morais e espirituais.

Portanto, minhas queridas, inspiradas por Archimínia, preguemos o evangelho e, com ousadia confrontemos a filosofia da sociedade atual que prega o relativismo, a ausência de paradigmas e a permissividade. Amemos mais as pessoas, mais do que as respeitamos, pois, se ficarmos só no respeito ao que creem, não lhes apresentaremos Cristo, como verdadeiro caminho, verdade e vida.

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NOTAS:

[1] Resumo biográfico extraído das seguintes fontes:
BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 7; 9-11; 13-15;
CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 1/2/8.
CRABTREE, A. R. História dos Baptistas do Brasil até o anno de 1906. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Baptista, 1937, p. 159.
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de doutorado apresentado ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1998, p. 338-343.

[2] W. E. Entzminger na apresentação da 2ª edição do livro Mitologia dupla, em 01 de outubro de 1925.

[3] Curiosidade: na ata da igreja constam seus nomes antecedidos por S.S. D.D. (senhoras donas).

[4] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 13.

[5] BARRETO, Archiminia. “Cobrir os céos com os dedos ou a immaculada conceição de Maria”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1905, p. 3.

[6] MESQUITA, Antonio Neves de. História dos Batistas do Brasil. Vol. IIde 1907 até 1935. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1940, p. 68.

[7] PEREIRA, José dos Reis. História dos Batistas no Brasil: 1882-1982, p. 70.

[8] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 13-14.

[9] Caduceu: bastão com duas serpentes enroladas.

[10] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 29-30.

[11] Maozim: ídolo que Antíoco Epifânio, perseguidor dos judeus, quis que fosse cultuado nos anos de 164 a 174 a. C. Maozim era um novo deus introduzido no templo que desviava a adoração devida somente ao verdadeiro Deus de Israel. Archiminia alertava que a veneração à Maria desviava as almas da verdadeira rocha viva: Jesus, o Filho do Deus vivo.

[12] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 253. Obs: grifo da autora.

[13] CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 8.

[14] “Professora Archyminia Barreto”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 20 de março de 1930, p. 3, citado por SILVA, Elizete da. “Cidadãos de Outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia”, p. 342.

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Rute Salviano Almeida, pernambucana que sempre viveu em São Paulo. Apaixonada pelo ensino, foi professora por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas. É licenciada em Estudos Sociais, bacharel e Mestre em Teologia e pós graduada em História do Cristianismo. Escreve sobre a participação feminina na Igreja. Seus livros são : Uma voz feminina na Reforma, Uma voz feminina calada pela Inquisição, Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro e Vozes femininas no início do cristianismo. Todos publicados pela Editora Hagnos.

Mulheres Inspiradoras: Anne Morrow Lindbergh – Jun/2018

Foi a primeira mulher a tirar o brevê de piloto planador de primeira classe nos Estados Unidos.

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Anne Morrow Lindbergh nasceu em 22 de junho de 1906 (já falamos dela neste post aqui), em Englewood, Nova Jersey, Estados Unidos. Seu pai, Dwight Morrow, foi um empresário, diplomata e político nos Estados Unidos. Sua mãe, Elizabeth Cutter Morrow, foi uma poeta e professora ativa na educação para mulheres.

Por ser um lar que promovia a leitura, escrita e atividades públicas entre os filhos (Anne era a segunda filha de um total de 4 filhos), tal influência contribuiu, e muito, para que Anne pudesse desenvolver sua aptidão à escrita.

Ela graduou-se em língua inglesa no Smith College. Conheceu seu marido, Charles Lindbergh, na cidade do México e casaram-se em uma cerimônia privada em 1929. No ano seguinte, 1930, Anne se tornou a primeira mulher a obter o brevê de piloto planador de primeira classe, nos Estados Unidos. E assim, o casal iniciou a aventura de traçar novas rotas e explorar continentes juntos.

Ao total, Anne e Charles tiveram seis filhos – sendo que o primogênito, com apenas 20 meses, foi sequestrado e morto meses depois do sequestro. Posterior ao ocorrido, mudaram-se para Inglaterra e ao longo dos 45 anos de casamento, a família Lindbergh viveu em diversos lugares: Nova Jersey, Nova York, Inglaterra, França, Maine, Michigan, Connecticut, Suíça e Havaí.

Anne recebeu diversas premiações ao longo de sua vida em reconhecimento de sua contribuição para com a literatura e a aviação:

  • 1933: recebeu a cruz de honra da U.S. Flag Association por ter participado do levantamento de rotas aéreas transatlânticas
  • 1934: foi premiada com a Hubbard Medal pela National Geographic Society por ter completado 40.000 milhas (64.000km) de voos exploratórios com seu marido, levando-os aos 5 continentes
  • 1935: seu primeiro livro, North to Orient, ganhou o National Book Awards
  • 1938: seu segundo livro, Listen! The Wind, ganhou o National Book Awards
  • 1938: recebeu o Christopher Award por War Within and Without e partes de seus Diários Publicados

  • 1939: recebeu o Honoris Causa de Amherst College
  • 1939: recebeu o Honoris Causa de University of Rochester
  • 1976: recebeu o Honoris Causa de Middlebury College
  • 1979: entrou no National Aviation Hall of Fame
  • 1985: recebeu o Honoris Causa de Gustavus Adolphus College
  • 1993: em reconhecimento de suas conquistas e contribuições para o campo aeroespacial, recebeu de Women in Aerospace o Aerospace Explorer Award
  • 1996: entrou no National Women’s Hall of Fame
  • 1999: entrou no Aviation Hall of Fame of New Jersey
  • 1999: entrou no International Women in Aviation Pioneer Hall of Fame

Depois da morte de Charles, em 1974 na ilha Maui, no Havaí, Anne voltou para Connecticut. E em 1999 foi morar perto da filha Reeve, em Vermont, onde veio a falecer em 07 de fevereiro de 2001, aos 94 anos.

A trajetória de Anne na aviação, desbravando rotas, conhecendo novos lugares, se expondo ao novo – continuamente, não poderia ser celebrada em melhor mês. Estou com malas semi-prontas, com passagem marcada, parto daqui 1 mês e alguns dias.

Estarei indo para a Inglaterra, país que eu sempre sonhei visitar, mas que por decisões diversas eu não havia conseguido planar. Tal viagem veio como um presente: privilégio de celebrar o casório de amigos e que, graciosamente, se estendeu a diversas outras oportunidades de vivência para mim.

Agora que a viagem se aproxima, e que distrações foram dissipadas, começo a sentir aquele frio na barriga que vem em decorrência de toda, e qualquer, mudança.

O medo destrói a “vida de altos voos”. Mas como exorciza-lo? O medo só pode ser exorcizado pelo seu oposto – o amor. Não há lugar para o medo, para a dúvida, para a hesitação num coração cheio de amor.1

No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.2

Enquanto estou desenvolvendo este texto, pego o livro Presente do Mar, o folheio e releio alguns de seus capítulos. Me lembro da sensação que ele provocou em mim, quando o li pela primeira vez. Fico feliz por celebrar a vida de Anne no mês que eu também celebro a mudança que o Eterno tem me permitido viver…

Não importa em que página se abra Presente do Mar, as palavras da autora oferecem uma oportunidade de respirar, de viver com mais calma. O livro torna possível desacelerar e descansar no presente, sejam quais forem as circunstâncias. Lê-lo – um trecho ou todo o livro – é existir por um momento num tempo diferente e mais sereno.

Até mesmo a cadência e a fluidez da linguagem me parecem fazer referência aos movimentos suaves, inevitáveis do mar. Não sei se minha mãe usou esse estilo intencionalmente ou se foi o resultado natural de estar vivendo à beira da praia, dia após dia, enquanto escrevia o livro. Seja qual for a razão, após algumas poucas páginas eu sempre começo a relaxar de acordo com aquele movimento e a me sentir como algo que pertence à maré – apenas mais um pedaço dos destroços de um naufrágio, flutuando nos maravilhosos ritmos oceânicos do Universo. Isso, em si, é profundamente reconfortante.

No entanto, este livro proporciona mais do que paz, mais do que o vaivém ondulante apaziguador de uma vida tranquila e de palavras suaves. Nas entrelinhas de tudo isso há uma força imensa de sustentação. Sempre me surpreendo toda vez que me deparo com essa força a todo vapor em Presente do Mar.3

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NOTAS:
1Trecho retirado de Presente do Mar, escrito por Anne Morrow Lindbergh, p 90

21 João 4.18 – Nova Versão Internacional

3Trecho retirado de Presente do Mar, escrito na Introdução por Reeve Lindbergh (filha de Anne), em 2005, para a comemoração do 50o aniversário da publicação do livro, p 08-09

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Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Noêmia Falcão Campêlo – Mai/2018

Foi a primeira missionária entre os indígenas brasileiros.

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Noêmia Stella Falcão Campêlo nasceu em uma família cristã, em 10 de maio de 1906, em Recife, Pernambuco. Desde pequena, recebeu estímulo para os estudos, mas infelizmente não os concluiu, por recomendação médica, devido à sua fragilidade física.

Aos 15 anos fez sua pública profissão de fé e batismo. Aos 19 conheceu Zacarias Campêlo que foi pregar em sua igreja quando ainda era seminarista. Ambos foram marcados por uma saúde frágil, porém compartilharam de um coração devoto a Deus e um genuíno desejo em anunciar o Evangelho a povos não alcançados, mais especificamente, aos índios crâos.

A palavra kraô é composta de icrá (filho) e hô (folha), ou seja, filho das folhas ou das selvas. Crêem que foram feitos das folhas pelo deus Put (Sol). Daí a razão por que adoram o Sol, e não há força humana que os afaste da prática desse culto. 1

Os pais de Noêmia, a princípio, não ficaram muito confortáveis com essa ideia que foi anunciada quando eles noivaram:

– Minha filha – dizia-lhe o pai. Aqui também se pode pregar o evangelho. Aconselha o teu noivo a não ir para tão longe.

– Meu querido pai, se Zacharias não mais quisesse ir aos índios, eu perderia todo o interesse em unir a minha vida à sua.

– Mas, não sabes, Noêmia, que és a alegria de nossa velhice? Que há de ser de nós sem ti!

– Ah, papai, isto é o que me dói na alma, deixa-los assim. Mas a chamada de Deus é tão forte, que eu seria a criatura mais infeliz, se a ela não desse ouvidos.

– Pois que Deus te abençoe, minha filha, em tua resolução.

E grossas lágrimas corriam pelas faces do amoroso pai, as quais eram logo enxutas por Noêmia que, encostando o seu rosto ao dele, e com os braços ao redor do seu pescoço, chorava também e dizia-lhe:

– O mesmo Deus que me protege, há de protege-los também, queridos pais.2

1926 foi o ano que toda a jornada do casal começou:

  • Eles foram nomeados missionários pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira.
  • Casaram-se dia 8 de maio.
  • Dias depois do casamento Zacarias foi consagrado ao ministério pastoral.
  • Partiram para o campo missionário quase no final do mesmo mês, dia 21 de maio.

A forte convicção do casal em sua vocação missionária é inspiradora. Não houve saúde, distância ou, qualquer outra coisa, que os impediram de seguir aquilo que Deus havia colocado em seus corações. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13) vem ao meu coração quando penso em sua história. E Deus seguiu fortalecendo Noêmia…

Ao que conta Rute Salviano Almeida, em seu livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro3 o início de seu trabalho no campo não foi nada fácil! Afinal, o casal também estava aprendendo e se adaptando com toda a diferença e experiência transcultural.

Quem deu nome ao vilareijo, Craonópolis, foi Zacarias: “[o] missionário afirmou que os índios a pronunciavam como duas palavras, crâo e nópolis, e, quando se encontravam com os sertanejos diziam: Nossa aldêi tem nome boa, qui nosso indireitor botou. Por modéstia eles só davam a última parte. – É nópolis, chama nossa aldêi. Tem mais, mas num posso dizer, purque é nosso nome”.4

Quando as forças de Noêmia acabavam-se, sua saúde piorava5… E foi o que aconteceu durante suas gestações. Por estar enfraquecida, Noêmia foi para Carolina (MA), porque lá dispunha da ajuda da família de Zacarias. Em fevereiro de 1927, nasceu seu 1o filho, Saulo. Posterior a seu nascimento ela retornou à aldeia, dando continuidade a seu relacionamento com os índios crâos, principalmente com as mulheres.

Prestes a dar à luz a sua segunda filha, Noêmia partiu novamente para Carolina. Lá, no dia 1o de abril de 1928, nasceu Esmeralda, mas em decorrência de uma infecção puerperal, Noêmia infelizmente veio a falecer, aos 22 anos de idade.

Noêmia, durante doze dias, pertencera ao Clube dos Ex-Mortos ou dos redivivos. Teve síncope prolongada, e os presentes a tiveram por morta. Quando voltou à vida, contou que estivera no céu e que vira a Jesus. Uma coisa ficou provada: ela nunca mais chorou nem se queixou da ausência dos seus queridos, como ocorria antes. Pedia que se lhe mostrassem os filhos. Pediu à cunhada que ficasse com o menino, mandasse a menina à avó e deixasse livre o viuvinho. Tudo isso num espírito de bom humor, e de quem está de posse de algo mais importante. Dizia mesmo que suas lágrimas já se tinham esgotado. Sentia o gozo do céu, pelo que não mais se entristeceria. Foi o mais belo testemunho que já presenciei em toda a minha vida. Falar do invisível com segurança de quem já o provou. De quem já está na posse do futuro.6

Escreveu Zacarias Campêlo, esposo de Noêmia, em seu livro Minha vida e minha obra

Uma palavra que me veio à mente, ao pesquisar a vida de Noêmia, foi a palavra legado.

Mesmo que ela tenha falecido prematuramente, ficando tão pouco no campo missionário, com certeza deixou frutos que ainda colhemos e colheremos na Eternidade. Seja para com o povo que ela tanto amou, e dedicou seus últimos anos de vida, os índios crâos. Ou nós, cristãos brasileiros, que tivemos o caminho aberto à um campo fértil para a proclamação das boas-novas.

Mas, certamente, sua família pode se inspirar e beber diretamente da fonte, florescendo e frutificando através das gerações. Esmeralda Campêlo Vilela (sua filha) tornou-se pastora, fundou uma editora, uma comunidade evangélica e uma organização sem fins lucrativos. E para a minha surpresa, enquanto eu pesquisava, descobri que Guilherme de Carvalho, pastor, escritor, diretor do projeto Cristãos na Ciência e obreiro do L’Abri Brasil (ministério que eu tanto admiro e que ele toca junto com a Alessandra, sua esposa) é neto de Esmeralda, sendo bisneto de Noêmia. Pois é… acho que não poderia vir à minha mente palavra melhor. O legado de Noêmia continua reverberando através dos anos e de sua descendência. E que venham mais anos, mais histórias e mais inspirações! :)

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NOTAS:
1Trecho de O índio é assim, escrito por Zacarias Campêlo, p 17

2Trecho de A heroína de Craonópolis, escrito por Stela Câmara, p 48

3O livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino, de Rute Salviano Almeida é o livro precioso em que eu descobri Noêmia (todas as citações utilizadas aqui foram retiradas dele). Eu também descobri Henriqueta Rosa Fernandes Braga – que foi a nossa Mulher Inspiradora do Mês de Março. E para o semestre que vem, teremos mais mulheres garimpadas do livro! Obrigada, Rute, pelo incrível trabalho em dar voz a tantas mulheres caminhando por nossa história <3

4 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 395

5 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 396

6Trecho de Minha vida e minha obra, escrito por Zacarias Campêlo, p 165

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


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Mulheres Inspiradoras: Corrie Ten Boom – Abr/2018

Foi a primeira mulher licenciada ao ofício da relojoaria na Holanda e ficou conhecida por abrigar em seu lar diversos refugiados judeus além de membros da resistência nazista.

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Nascida em 15 de abril de 1892, na Holanda, Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom, mais conhecida como Corrie Ten Boom, cresceu em um lar cristão.

Seus pais, Casper Ten Boom e Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom-Luitingh, tiveram 4 filhos. Seu irmão Willem foi um teólogo, sua irmã caçula, Nollie, casou-se, enquanto Corrie e sua irmã mais velha, Elisabeth mais conhecida como Betsie, viveram juntas a missão de abrigar refugiados em seu lar, juntamente com seu pai, durante o Holocausto.

Corrie aprendeu o mesmo ofício de seu pai, o da relojoaria, estudando-o no período de 1920 a 1922 e ao formar-se, tornou-se a primeira mulher relojoeira licenciada em toda a Holanda.

Porém, sua grande e arriscada contribuição foi através do O Refúgio Secreto, nome dado ao seu lar, pelo acolhimento que exerceu à pessoas refugiadas durante o Holocausto. O lar dos Ten Boom foi um local que recebeu diversas pessoas e teve seu “pontapé oficial” em 1942, com a chegada de uma mulher muito bem vestida, portando apenas uma pasta à mão e pedindo asilo, pois ela tinha ouvido falar que eles já haviam abrigado alguns conhecidos judeus.

A família abrigou, socorreu e arriscou a própria vida por diversas pessoas até fevereiro de 1944, quando um informante holandês delatou toda a família as autoridades nazistas que levaram presos. Casper Ten Boom não resistiu e morreu 10 dias depois de sua prisão. Enquanto ela e sua irmã, Betsie, foram encaminhadas para o campo de concentração feminino em Ravensbrück, na Alemanha. Lá é Betsie que veio a falecer e, antes de ir a óbito, disse à Corrie a seguinte frase: “não há abismo tão profundo que o amor de Deus não seja ainda mais profundo”.

Corrie foi solta um dia após o Natal de 1944. Posteriormente, ela soube que sua soltura se deu por um erro burocrático porque uma semana depois de sua libertação todas as meninas de sua idade haviam sido assassinadas.

Com o fim da guerra, ela retornou à Holanda, posteriormente à Alemanha e depois viveu muitos anos ensinado e palestrando itinerante pelo mundo.

Em 1967 Corrie foi honrada pelo Estado de Israel com o Prêmio Justos entre as Nações1. Em 1971 ela escreveu seu mais famoso livro O Refúgio Secreto onde ela narra toda a saga de sua família – em 1975 o livro foi adaptado para o cinema. E também foi homenageada pela rainha da Holanda, em reconhecimento de seu trabalho, ganhando um museu na cidade de Haarleem.

Em 1977 ela mudou-se para Califórnia, nos Estados Unidos da América. E sua saúde, dia a dia, foi se deteriorando até que perdeu por completo sua comunicação e veio a falecer no dia de seu 91° aniversário, em 15 de abril de 1983.

Com Corrie eu aprendi a ter coragem. Coragem para fazer o que é certo, independente das circunstâncias, mesmo que custe a própria vida. Com ela, eu também aprendi que não existe nenhuma situação que não venha a ser de Ação de Graças à Deus. Em todo o momento Ele é bom! Mesmo nas circunstâncias mais adversas e difíceis que enfrentamos. Um exemplo é o que Catherine Marshall narra em seu livro Uma Fé Mais Profunda2, quando descreve uma situação que a própria Corrie contou a ela quando esteve hospedada em sua casa (e também está relatada em seu livro O Refúgio Secreto):

[Ela] continua a ser uma das hóspedes mais agradáveis que já honraram a nossa casa e regala-nos amiúde com anedotas da sua vida na prisão. Uma das minhas favoritas é a história das pulgas…

Em certo período da sua detenção, Corrie e Betsie foram transferidas de celas apinhadas (onde haviam vivido meses a fio separadas uma da outra) para as Barracas n° 28. Em menos de uma hora descobriram que os seus malcheirosos colchões de palha fervilhavam de pulgas.

– Como poderemos viver num lugar como este? – gemeu Corrie mansamente.

Sem responder, Betsie pôs-se incontinente a rezar.

– Mostre-nos, Senhor, mostre-nos como. – E, logo, em tom excitado: – Corrie, Ele nos deu a resposta! Eu a li na Bíblia hoje cedo. Aqui… leia de novo essa parte.

O trecho pertencia a I Tessalonicenses e dizia: “Regozijai-vos sempre, orai sem cessar, em tudo dai graças, porque está é a vontade de Deus em Cristo Jesus…”

– É isso mesmo, Corrie! Devemos agradecer a Ele por todas as coisas que digam respeito às novas barracas.

– Tais como?… – Corrie estava tentando olhar com olhos novos para o recinto escuro e fedido.

– Tais como estarmos aqui.

– Oh, sim.

– E termos conseguido até agora conservar a Bíblia.

– Sim… oh, sim. Obrigada, Senhor, por isso.

– E as pulgas.

– Betsie, não vejo maneira de poder agradecer a Deus pelas pulgas.

– Mas as pulgas fazem parte deste lugar, onde Deus nos colocou. “Em tudo dai graças”, diz a Bíblia. E não apenas nas circunstâncias agradáveis.

E as duas mulheres deram graças a Deus pelas pulgas.

A medida que os dias passavam, as prisioneiras das Barracas n° 28 acabaram descobrindo que havia nelas uma espantosa falta de supervisão ou interferência. Corrie e Betsie aproveitavam a liberdade sem precedentes para conversar com outras prisioneiras, ler-lhes a Bíblia e acudir-lhes de muitíssimas maneiras.

Depois, um dia, ficaram sabendo pela boca de uma supervisora a razão de tanta liberdade. Algumas mulheres a haviam chamado através da porta gradeada para vir decidir uma disputa surgida entre elas. A supervisora recusou-se e o mesmo fizeram os guardas.

– Este lugar está infestado de pulgas, – disse a supervisora. – Eu não passaria pela porta por nada neste mundo.

A mente de Corrie voltou, num relance, à primeira hora que haviam passada das barracas e à sua lamentável ação de graças pelas pulgas. Quando ela ergueu a cabeça, Betsie, com os olhos brilhantes, tentava reprimir o riso.

– Agora sabemos por que se espera que O louvemos até pelas pulgas. Até as pulgas tiveram de ser o Seu instrumento para o nosso bem.

Trecho do livro Uma Fé Mais Profunda, páginas 31 e 32, de Catherine Marshall

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NOTAS:
1Prêmio Justos entre as Nações é um prêmio instituído pelo Memorial do Holocausto como reconhecimento a todos os não judeus que durante a II Guerra Mundial salvaram vidas de judeus perseguidos pelo regime nazista.

2Uma Fé Mais Profunda, de 1974 (título original Something More).

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Henriqueta Rosa Fernandes Braga – Mar/2018

Formada em piano, composição e regência pelo Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, Henriqueta obteve os títulos de professora, maestrina e doutora em música, tendo sido a primeira pessoa a receber um diploma universitário de Música conferido no Brasil. 1

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Nascida em 12 de março de 1909, na cidade do Rio de Janeiro, Henriqueta Rosa de Fernandes Braga é uma daquelas mulheres que eu gostaria de ter conhecido pessoalmente. Como será que suas ideias floresciam? Como conseguia dar conta de tanta criatividade que pulsava dentro de si? Obviamente a música foi a maneira como Deus concedeu a ela vasão para essa criatividade contagiante, mas fico pensando que além de seu legado musical sua vida deve ter sido repleta de nuances e, usando de licença poética, fico imaginando como sua vida deve ter sido usada por Deus de maneira ímpar nas sutilezas da existência, nas conversas de corredor, nas orações partilhadas ou na mesa compartilhada.

Sua família era extremamente ativa na Igreja Evangélica Fluminense – igreja que foi fundada pelo médico missionário Robert Reid Kalley e sua esposa musicista missionária Sarah Poulton Kalley sendo a primeira congregação protestante no Brasil a cultuar os cultos em português.

A música no lar exerceu uma grande influência em sua vida. Era muito comum sentar, com os seus irmãos, ao redor do piano para ouvir a mãe tocar as Sonatas de Mozart, ou mesmo escutar as gravações (inclusive de música sacra) que constituíam, desde cedo, a organizada e escolhida discoteca da família. Seus pais, cultos e estudiosos, acompanhavam sempre, com desvelo, os seus estudos, capacitando-os para uma melhor técnica de aprendizagem e desenvolvimento. À noite, em seu lar, podia-se ver, curvados sobre os livros, pai, mãe e filhos, num admirável exemplo de diligência intelectual. Talvez, mais importante que tudo, fosse o culto doméstico que coroava o dia de trabalho e no qual eram apresentados ao Pai Celeste os agradecimentos pelos benefícios recebidos, e expostas as dificuldades, implorando a sua constante direção para a vida de cada um. E, em paz e tranquilidade, despedia-se a família para o repouso noturno. 2Henriqueta ficou conhecida por seu pioneirismo. Foi precursora na participação musical de programas de rádios evangélicos, na gravação de hinos sacros, na pesquisa da música sacra no Brasil, dentre tantas outras atividades.

Aposentou-se em 1979, mas continuou ativa fazendo palestras e pesquisas sobre música. Faleceu em 21 de junho de 1983, aos 74 anos e deixou 4 obras por acabar: Corais de J. S. Bach, Cancioneiro folclórico infantil brasileiro, História da música e Manual para Salmos e Hinos.

Hoje, comemoramos o Dia Internacional da Mulher e poder escrever sobre mulheres tão inspiradoras me traz renovo, ânimo mas sobretudo alegria. Como houveram mulheres fantásticas! Muitas sequer foram mencionadas nos livros de história.

Porém, reconhecer que há mulheres contemporâneas a mim e a você igualmente inspiradoras é tão fantástico quanto! Que dedicam a vida ao outro – escolhendo a melhor parte. Que se inclinam a Deus com reverência e certas que serão ouvidas e atendidas, não por serem quem são, mas por crerem em um Deus misericordioso e amoroso. Mulheres que levantam de madrugada para trabalhar e que atravessam a cidade para cuidar de um lar que não é o seu, mas o tratam como assim o fossem. Mulheres que são amigas, confidentes leais e que cedem seu ombro para que choremos nossas dores. Mulheres que são mães de primeira viagem e que aprendem as dores e as alegrias que a maternidade traz. Mulheres que são excelentes profissionais e ofertam o melhor de si em prol de um mundo melhor. Mulheres que transitam em nossas vidas com fluidez e leveza e que nos ensinam a enxergar o melhor de nós e a extrair o melhor do outro.

Mulheres mães. Mulheres filhas. Mulheres esposas. Mulheres irmãs. Mulheres amigas. Mulheres sobrinhas. Mulheres cunhadas. Mulheres tias. Mulheres primas. Mulheres… A todas vocês o nosso:

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

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NOTAS:
1Trecho retirado do livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino de Rute Salviano Almeida, página 435

2Trecho retirado do site Hinologia e que se encontra neste link: http://www.hinologia.org/henriqueta-rosa-fernandes-braga/

 

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Mulheres Inspiradoras: Rosa Parks – Fev/2018

Nascida em 04 de fevereiro de 1913 no estado do Alabama, na cidade de Tuskgee. Rosa Louise McCauley, mais conhecida como Rosa Parks entrou para a história por se recusar a ceder seu lugar à um homem branco em um ônibus público. Foi presa e com sua atitude marcou o início da luta antissegregacionista nos Estados Unidos.

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Segundo o calendário da ONU, desde 2007, há um dia especial para a reflexão e fomento da justiça social. Todo dia 20 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial da Justiça Social.

A adoção desta data em um calendário, ao meu ver, é de suma importância pois traz visibilidade a uma questão que está longe de ser erradicada. Sei da complexidade que esse termo traz, é amplo demais e envolve diversas esferas de uma sociedade. Mas quando penso nesse tema sob a ótica cristã – uma vez que não consigo desassociar Cristo como exemplo perfeito a ser seguido por mim em tudo o que faço e penso – na verdade me sinto é encorajada a lutar e buscar soluções para uma questão complexa como esta.

Mas me entenda, eu não estou falando que creio em uma redenção utópica através dos meus braços e serviços, pois sei que Cristo é o único que pode intervir efetivamente em toda a história, incluindo a minha e a sua, mas a Bíblia toda está recheada de versículos e histórias de pessoas comuns que clamaram, mas trabalharam para que o Reino de Deus pudesse começar a ser experimentado no hoje, no aqui e agora, mesmo que em doses aparentemente “homeopáticas”.

E é exatamente assim que eu vejo a vida de Rosa Parks. Uma mulher comum, que tinha a costura como profissão, mas resolveu não se calar enquanto sofria na pele o preconceito escancarado de brancos versus negros em seu país.

Ao anoitecer do dia 1 de dezembro de 1955, Parks entrou em um ônibus na avenida Cleveland, no centro da cidade de Montgomery. Ela pagou a passagem e se sentou na primeira fileira de assentos reservados para negros no veículo.

O motorista, James F. Blake, seguiu viagem em sua rota tradicional. O ônibus ia enchendo até que na terceira parada, em frente ao teatro Empire, vários passageiros entraram. Blake notou que umas duas ou três pessoas brancas estavam em pé. Para resolver o problema ele mudou o sinal de “colored” (“pessoa de cor”, termo usado nos Estados Unidos para se referir a afro-americanos) para atrás da fileira onde Parks estava. Ele exigiu que os passageiros negros sentados levantassem para que os brancos pudessem sentar. Enquanto os outros três negros levantaram, Rosa se recusou.

Anos depois, em uma entrevista, ela recordou: “meu corpo foi tomado por uma determinação, como uma colcha numa noite de frio”.  Parks se moveu, mas para o assento da janela. Blake, o motorista, perguntou para ela: “Por que você não se levanta?” Ela respondeu que “Eu não deveria ter que me levantar”. O homem chamou então a polícia e mandou prender Rosa Parks.

Quando o policial chegou ela perguntou “Por que vocês mexem com a gente assim?” Ele respondeu: “Eu não sei, mas lei é lei e você está presa”.  Parks foi acusada de violar o capítulo 6, seção 11 da lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar dela tecnicamente não ter sentado em um assento reservado para brancos. Edgar Nixon, presidente da sede local do NAACP, e seu amigo Clifford Durr pagaram a fiança de Parks e ela deixou a cadeia no dia seguinte.1

Posterior a prisão de Parks alguns ativistas dos direitos civis convocaram e organizaram o boicote aos ônibus de Montgomery e a luta pelos direitos iguais foi ganhando mais força. Martin Luther King, Jr. mantinha contato com Rosa e estiveram juntos em diversas iniciativas e marchas pela igualdade.

A decisão que ela tomou, em se posicionar a favor da justiça social, custou muito caro a Rosa. Sua vida não foi nada fácil depois disso! Enfrentou dificuldades para conseguir emprego após o ocorrido e precisou se mudar algumas vezes, pois também sofria diversas ameaças de morte por parte de grupos extremistas que defendiam a supremacia branca.

Em 1992 publicou sua autobiografia, Rosa Parks: My Story (infelizmente sem publicação no Brasil)E em 2002 é despejada porque possuía dívidas que não podia honrar. Porém, obtém ajuda de uma igreja batista que, através de uma comoção nacional, contribuiu para que o banco concedesse a ela viver gratuitamente em sua casa.

Rosa Parks faleceu em casa, em Detroit, no dia 24 de outubro de 2005, de causas naturais aos 92 anos. Seu caixão foi velado com honras da Guarda Nacional do estado de Michigan. E autoridades e lideranças dos movimentos civis compareceram ao seu funeral.

Ser cristão é militar todos os dias contra a maldade, disse o deputado estadual e pastor Carlos Bezerra Jr no workshop Política e Direito – no final do ano passado em uma igreja no centro de São Paulo, do qual eu pude participar.

É isso! Somos militantes da causa de Deus que já foi vencida, mas ainda está em curso. E é concedida à nós – no agora – nossa co-participação com Ele na História e consequentemente em nossa própria história. Por isso, ser cristã(o) e militar todos os dias contra a maldade é privilégio para pessoas tão comuns como eu e você.

Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela
Jeremias 29.7

 

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NOTAS:
1Trecho retirado do Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Parks

 

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Mulheres Inspiradoras: Catherine Booth – Jan/2018

Catherine foi uma evangelista dedicada e juntamente com seu marido viveu “o Evangelho todo, para todo homem, para o homem todo”

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Histórias de outras mulheres inspiram a minha caminhada. É como se eu ganhasse novos horizontes e pudesse experimentar o que viveram sem eu realmente ter vivido suas vidas ou seus feitos.

Geralmente, quando conheço uma escritora, musicista, professora, ou qualquer mulher que desperte em mim o desejo de também criar novos rumos, conhecer mais, ou olhar sob novas perspectivas velhas circunstâncias, tenho uma enorme curiosidade por saber mais sobre essa mulher. Quais eram seus hábitos? O que gostava de fazer nas horas vagas? O que a levou a criar tal coisa? O que despertou nela tal inquietação? Onde ela nasceu? Qual era o contexto de sua época?

No ano de 2017, me deparei com mulheres incrivelmente inspiradoras. Fui orientada por elas, tive minha visão ampliada e meu coração se encheu de alegria por conhece-las melhor – mesmo que a maioria delas não esteja mais aqui, no lado de cá da Eternidade. Elas foram verdadeiras amigas, confidentes fiéis e me guiaram ao que minha alma ansiava, apontando para Aquele que é, irresistivelmente, criativo e não se cansa em nos ensinar diretamente, mas também através de pessoas comuns, como eu e você.

Por mera curiosidade fui atrás da data de nascimento dessas mulheres e me surpreendi, pois, a maioria das escritoras que eu estava lendo eram contemporâneas entre si. Instantaneamente tive a ideia: -E se eu fizesse um calendário de mulheres inspiradoras, em que cada uma ocuparia um mês do ano, segundo seu mês de nascimento?

O design, rapidamente veio à minha cabeça. Em seguida, listei algumas mulheres que eu havia sido apresentada ao longo do ano, porém, a busca pelas demais continuou, afinal, eu tinha que garimpar, ao todo, 12 mulheres para preencher o ano! Como critério para este 1o calendário, decidi que elas deveriam ser nascidas entre 1830 a 1930. Tentei compor os meses com a maior variedade de profissões ou histórias, além de nacionalidades e contextos. Dei o meu melhor, procurando, selecionando, escolhendo os melhores elementos estéticos que traduzissem um pouquinho de quem eram, ou o legado que deixaram. Tenho certeza que para cada uma delas eu estarei apresentando apenas um fragmento do que realmente foram. Mas eu espero, do fundo do meu coração, que assim como eu, e mesmo com a minha limitada apresentação, ainda assim, vocês se sintam inspiradas(os), como eu fui! :)

. . . . .

Quem foi Catherine Mumford Booth?

A primeira mulher inspiradora do ano, chegou a mim, quando eu estava na Biblioteca de Teologia do Mackenzie, garimpando por mulheres e imersa naquele acervo todo. Aproveito inclusive para agradecer a meu pai, Eliezer, que sendo o bibliotecário de lá, me ajudou a pegar pilhas de livros para consulta e pacientemente descartar aqueles que eu não usaria, e principalmente não se importando com toda a bagunça que eu estava fazendo por lá rs.

Catherine nasceu na cidade de Ashbourne, em Derbyshire na Inglaterra, em 17 de janeiro de 18291. Ao que nos conta o livro: Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, Catherine desde pequena era uma leitora voraz da Bíblia. Por volta dos quatorze anos, devido a uma enfermidade na coluna, que a obrigava ficar recostada grande parte do seu tempo, experimentou sua real conversão. E unindo seu apetite voraz por conhecimento, nos anos seguintes, torna-se grande conhecedora de Teologia além da História da Igreja.

Aos 26 anos, casa-se com Willian Booth – em 16 de junho de 1855, em Londres. William, mesmo depois de casado continua a dedicar-se a campanhas evangelísticas pela igreja Metodista, e em 1858 é oficialmente consagrado como ministro metodista. Já Catherine, que também possuía grande apreço pelo evangelismo, certo dia, enquanto dirigia-se à igreja, em um domingo a noite, pensava como seria interessante fazer visitas domiciliares convidando as pessoas a conhecerem a Deus, e assim, nasce uma das características da organização, que seria a visitação de casa em casa.

A primeira oportunidade que Catherine teve de pregar publicamente, foi quando por motivo de doença, seu esposo não podia pregar, assim por nove semanas seguidas ela prega e dá seu testemunho publicamente, levando jornais da época a divulgarem tal feito, pois não era comum mulheres pregando publicamente.

Nunca se me permitiu ter mais um domingo de sossego enquanto tive bastante saúde para ficar de pé e falar. Tudo quanto fiz foi dar este primeiro passo. Não podia enxergar mais para adiante. Todavia o Senhor, como sempre o faz quando Seu povo é com Ele, honesto e obediente, abriu as janelas do céu e derramou uma benção tal que não havia lugar para contê-la.

relata Catherine sobre essa experiência2

Em 1864, o casal ministrava há um tempo reuniões independentes, pois William havia pedido demissão da denominação metodista durante a conferência anual metodista, celebrada em Liverpool, em 1861.

O foco do trabalho do casal, era levar a mensagem da salvação a mais e mais pessoas, nessa época, auge da Revolução Industrial, [c]onvenceu-se ele que os operários podiam ser mais eficazmente influenciados por homens e mulheres de sua própria classe, que compartilhavam de sua vida e falavam na linguagem de cada dia, antes que pela linguagem adotada pelos pastores no púlpito3 – descreve William. E é nesta mesma época, que Catherine começou também a celebrar cultos independentes de William, pois eles haviam decidido que poderiam ser mais eficazes na pregação da Palavra celebrando cultos distintos, assim poderiam alcançar cada vez mais e mais pessoas.

Em 1865, a Sra Booth foi convidada a dirigir uma breve missão em Rotherhithe, Londres. O que ela viu entre a gente pobre, e especialmente o trabalho feito pelo Movimento noturno para a restauração de mulheres decaídas, tornou-se em um apelo urgente ao seu coração. Julgou logo ser aqui a esfera pela qual orara e desejara desde a conferência de Liverpool que resultou em eles renunciarem seu lugar no Metodismo4.

E em julho de 1865, William é convidado a conduzir alguns serviços em uma tenda num antigo cemitério em Whitechapel e descreve essa experiência, anos depois, da seguinte forma:

Quando vi multidões de gente pobre, tantos deles tão evidentemente sem Deus e sem esperança, e vi que tão prontamente me ouviam, seguindo da reunião ao ar livre à tenda, e aceitando, em muitos casos, meu convite de se ajoelharem aos pés do Salvador ali mesmo, então meu coração inteiro se apegou a eles. Voltei a casa e disse a minha esposa: Oh, Catherine achei meu destino! Estas são as pessoas por cuja Salvação tenho almejado todos estes anos. Quando passava pelas portas do botequim esta noite me parecia ouvir uma voz que dizia: “Onde podes ir e achar tantos pagãos como estes aqui;”. Então ali mesmo ofereci minha alma, tu e as crianças a esta grande obra. Esta gente será nossa gente, e terão o nosso Deus como Deus deles”.5

E Catherine, se recorda deste momento:

Lembro-me (escreveu ela) da emoção que isto produziu na minha alma. O diabo me cochichou que “Isto significa mais uma partida”. A questão do nosso sustento constituiu uma dificuldade séria. Até então pudéramos fazer face as nossas despesas das coletas que recebíamos de assistências mais seletas. Porém era impossível esperar que pudéssemos fazer isto entre os pobres do Este, tínhamos até medo de pedir ofertas em tal localidade. 

Entretanto não respondi com desânimo. Depois duma pausa para meditação e oração, repliquei: “Bem, se pensas que deveremos ficar, fiquemos. Já confiamos em Deus para nosso sustento uma vez e podemos confiar dEle de novo”.6

Nesta noite, descrita por William como “Aquela noite”, depois de anos gestando, nasce o Exército de Salvação.

No ano de 1865 o Exército de Salvação surge na Inglaterra com William e Catherine Booth, em meio à Revolução Industrial, numa sociedade que passava por uma das maiores revoluções da sua história. Logo no início, sua luta era para que os pobres também pudessem frequentar as igrejas e assistir aos cultos como os outros de classes sociais mais favorecidas.

Desde seu início, os salvacionistas têm sido motivados pelo amor de DEUS e à Sua Criação Especial feita à Sua imagem e semelhança: o ser humano. Sua estrutura característica imitando o modelo militar, com hierarquia e uniformes, visa tornar a liderança mais ágil e facilitar a tomada de decisões.

Conscientes de que Deus ama as pessoas de forma singular e de que Ele quer atingir todas as áreas de suas vidas (o espiritual, o emocional, o social, o psicológico, o físico), os primeiros salvacionistas lançaram-se na luta para aliviar a humanidade sofredora, tendo essa visão holística do ser humano como um todo complexo e indivisível.

O slogan: “sopa, sabão, salvação” tornou-se um marco do Exército de Salvação e abalou as estruturas dos métodos das igrejas naquela época. Além disso, o Exército foi o primeiro a valorizar o trabalho feminino na igreja, deixando a mulher ocupar cargos que antes eram exercidos apenas por homens, contrariando, assim, as igrejas da época e dispensando parcerias importantes que se voltavam contra essa atitude.7

Porém, mesmo a organização valorizando e estimulando o trabalho feminino, passa-se um tempo até que mulheres de fato tivessem responsabilidades nos postos da missão, em lugares que poderiam exercer alguma autoridade sobre homens. Até que, em 1875, os fundadores resolvem fazer uma experiência nomeando uma evangelista mulher a frente do comando de Barking. E desde então, nenhuma hesitação séria sentiu-se em confiar as mulheres o comando dos postos, ou em manda-las fundar a obra em lugares onde o Exército ainda era desconhecido.8

Catherine e William tiveram 8 filhos e deixaram um grande legado, tanto para seus filhos, que puderam perpetuar os ensinamentos cristãos dando continuidade ao trabalho iniciado por seus pais, como também, para nós.

Catherine, falece aos 61 anos de idade, em 4 de outubro de 1890. Certamente ela foi uma grande inspiração em sua época, que era repleta de dificuldades assim como nos dias de hoje, mas também é fonte de inspiração em nossos dias. Ela escolheu ser uma mulher temente a Deus, compromissada a ouvi-Lo, obedecê-Lo e sobretudo a amá-Lo – e como consequência desse amor, serviu ao seu próximo da melhor maneira que pode. Que possamos também escutar o nosso chamado e segui-lo, mesmo em meio as dificuldades ou aparentes derrotas. E que possamos fazer o Eterno sorrir (Num 6.25 – A MSG) nessa História que, graças a Ele, somos coadjuvantes, porém, coadjuvantes totalmente ativas(os)! ;-)

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NOTAS:
1Como podem perceber, fiz uma concessão aqui rs, pois eu havia estipulado mulheres nascidas entre 1830 a 1930, mas achei Catherine tão significativa que quebrei a regra: acrescentei ela no calendário mesmo estando, por apenas 1 ano, fora do centenário estipulado.

2Frase de Catherine descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 20.

3Frase de William descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 24.

4Trecho retirado do livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 27.

5Frase de William descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 28.

6Frase de Catherine descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 28.

7Trecho retirado do site: http://www.exercitodesalvacao.org.br/quem-somos/nossa-historia

8Trecho retirado do livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 50.

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.