Nó na garganta

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Perdão (grafite e digital), por David Kim

 

As devocionais que faço em casa funcionam assim: escolho um livro da Bíblia e começo a leitura, um trecho por dia. Leio aquele trecho quantas vezes forem necessárias para eu entender bem o contexto. Dentro do trecho escolhido, seleciono um versículo ou mais, uma expressão ou até mesmo uma palavra-chave e, a partir disso, construo – por escrito – uma pequena reflexão, que mais tem a ver com o que entendo do texto e com a maneira que posso aplicar aquela ideia à minha vida, do que com conhecimento teológico (isso explica a quantidade de especulações que recheiam as minhas devocionais). Por fim, escrevo uma oração, que expressa como me sinto e o que desejo a partir do que aprendi sobre a vontade de Deus. Na verdade, essa dinâmica devocional não fui eu que inventei, mas adaptei de um livro – que recomendo, aliás – chamado Mentores segundo o coração de Deus, do Wayne Cordeiro.  E, quando percebo que uma devocional se desenvolve de maneira mais interessante, venho aqui postá-la.

De forma geral, esses momentos a sós com Deus me dão forças e me oferecem esperança (mesmo quando a mensagem é mais confrontadora do que consoladora). Desta vez, porém, aconteceu algo raro, com o qual não estou sabendo exatamente como lidar: a devocional estabeleceu um conflito em mim, me perturbou e me colocou em uma posição esquisita, bem longe do ideal. Respiro fundo e tomo coragem para compartilhá-la com vocês:

Se, porém, Cristo está em vós, o corpo está morto, pelo pecado, mas o Espírito é vida, pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós. (Romanos 8.10 e 11)

Interessante o movimento que acontece a partir do momento em que estamos em Cristo: a princípio, nos encontramos mortos pelo pecado e pelos desejos da carne, mas não permanecemos assim. Por meio de Cristo, somos levados de volta à vida e podemos usufruir dela aqui mesmo, neste corpo mortal em que habitamos.

Incrível ler sobre o que o Espírito de Deus faz e, mais ainda, saber que essa realidade não depende do que sinto ou do que acredito para que exista. É verdade e ponto. O problema que se estabelece, então, é como tornar essa realidade atuante em mim. Porque o que eu mais vivencio na minha lida espiritual é justamente a carne querendo comandar. Pior e mais embaraçoso que isso ainda!: sinto-me triste quando não é ela que dá a palavra final nas minhas decisões e atitudes (e a carne só não dá as cartas por pura e linda misericórdia de Deus, que sabe quão trágico seria se assim fosse).  Repito: sei que a ação do Espírito não depende do que sinto e sim, que ela é um fato, por si mesmo existente e atuante, porém, me sinto frustrada por não a desejar com a mesma intensidade com que desejo as outras coisas que desejo. Por que, então, meu Deus, sinto falta do erro, do pecado, da ação da carne?? Por que não me satisfaço integralmente com a misericórdia divina, que me poupa diariamente de cair? Por que quero a morte do pecado no lugar da vida no Espírito? “Livra-me, Deus, de mim mesma, ainda que eu não queira que me livres” – suplico em minha oração. E, assim, com mais perguntas do que respostas, encerro a minha devocional.

Ainda longe de resolver meus conflitos e meu nó na garganta, encontro certo alívio na letra de uma música do Mumford & Sons: I was still/ I was under your spell/ When I was told by Jesus all was well/ So all must be well (eu estava imóvel/ eu estava sob o seu feitiço/ quando me foi dito por Jesus que tudo estava bem/ então tudo deve estar bem).


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Amor 80% cacau

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Mas Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores. (Romanos 5.8)

Clarice Lispector, no conto Os desastres de Sofia (meu preferido, aliás), compreendeu exatamente (mesmo sem querer) o que Paulo quer dizer nesse versículo quando escreveu: Seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. Pois é. Fácil é sermos amadas quando estamos cheirosas, charmosas, bem-sucedidas, bem resolvidas, talentosas, bonitas, intelectuais, espirituais ou espirituosas. Mas e quando cansamos de sustentar esses rótulos todos e queremos ser só a gente? De repente chorar ou rir de alguma piada do Chaves ou ainda curtir as músicas românticas dos anos 80 (quem não se emocionava com Slave to Love?), sem receber uma risadinha mal-intencionada de alguém sentado na outra ponta do sofá?

Bom, exemplos pouco criativos à parte, só Deus teria coragem de amar o que é feio. E ele amou. E aquilo que era feio era o nosso interior, cheio de soberba e inveja. É nisto que consiste a perfeição do amor de Deus: chegou antes de termos tido a chance de maquiarmos nossa identidade e aparecido com um sorriso falso na selfie da nossa alma. E o que é o melhor de tudo é que Ele tem por mim e por você um amor sem medida, sem letras miúdas, sem condicionais. É puro, absoluto e incompreensível, por isso duvidamos tanto dele.

Estamos acostumadas a sofrer, a mendigar amor e, o que é ainda mais triste, a mendigar um amor de péssima qualidade: condicional, oscilante, falho, com data para terminar… ou seja, um amor humano. É como gostar de chocolate 80% cacau e se contentar com chocolate hidrogenado. Um horror! Com isso, entretanto, não sugiro que deixemos de amar ou esperar amor de outras pessoas, óbvio, mas sim que não nos limitemos a esse amor, apostando que ele trará sentido à nossa existência, nos preencherá e nos oferecerá esperança para aqui e além. Não dá para atribuirmos ao homem um tipo de amor que é divino somente. Fatalmente, sentiremos sede de novo.

O que nos resta, então? Proponho: nadar no amor profundo de Deus e senti-lo todo em torno e dentro de nós, inundando-nos e envolvendo-nos em um invólucro, desde a ponta dos dedos dos pés e das mãos até o âmago da alma. Não existirá nesta terra nada mais revigorante, eu garanto.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Espelho, espelho meu

“… o ego quase sempre dói. Isso acontece porque há algo muito errado com ele. Algo inacreditavelmente errado. O ego vive chamando a atenção pra si mesmo – e isso todos os dias. O tempo inteiro, o ego exige que avaliemos nossa aparência e a maneira em que somos tratados.” 1

No livro Ego Transformado, Tim Keller discorre sabiamente sobre a deplorável condição do nosso ego. A meu ver, uma das sacadas geniais foi ele ter trazido o significado da palavra utilizada por Paulo, em 1Coríntios 4.6, que no português foi traduzida por orgulho, mas que no grego physioo tem o sentido literal de superinflado, inchado, distendido além do tamanho normal 2. Ou seja, ele faz a metáfora do ego como um órgão humano distendido após receber uma enorme quantidade de ar 3 e que foi-lhe bombeado tanto ar, que o órgão está superinflado e prestes a explodir. Está inchado, inflamado e expandido além de seu tamanho normal 4.

Foi exatamente aí que essa comparação me surpreendeu e me ajudou a enxergar melhor como lutamos diariamente para que esse “órgão” não inflame e que pare de receber tanto ar que não possa mais suportar, nos causando então grande dor posteriormente.

Claro que Keller vai muito além… Aprofunda, traz outras referências, conceitos e reflexões. Mas se eu pudesse reduzir a um parágrafo o “segredo” para uma visão menos embaçada, mais clara e honesta sobre o assunto, eu me arriscaria a dizer que o ideal é ter um conceito correto e equilibrado sobre nós mesmos.

Com isso, gostaria de esclarecer que não quero em hipótese alguma dizer que sua obra não deva ser lida, muito pelo contrário! Pois, além de ser um livro de linguagem simples e rápido de ler, ao meu ver deveria ser leitura obrigatória para todo e qualquer cristão.

Ok, mas o que é ter um conceito correto e equilibrado sobre nós mesmos?

Primeiramente, é reconhecer que somos t-o-t-a-l-m-e-n-t-e dependentes de Cristo, em tudo. Sem Ele somos miseráveis, dignos de compaixão, pobres, cegos e estamos nus (Apocalipse 3:17). É simples: sem Sua maravilhosa graça, seríamos e estaríamos inflando nossos egos a todo vapor. Aliás, faço um adendo aqui: não é porque sou cristã, que eu não tenha que lidar com meu ego superinflado ou que não tenha que lutar com a síndrome das aprovações alheias. É o Narciso nosso de cada dia! Mas a diferença é que, como cristã, eu devo buscar essa saciedade em Cristo.

Depois, é reconhecer que a humildade verdadeira que brota do evangelho significa ter o ego satisfeito, não inflado. Trata-se de algo absolutamente singular. Estamos falando de autoestima elevada? Não. De baixa autoestima? De jeito nenhum 5. Ou seja, esse equilíbrio sobre quem eu sou, eu só posso e só consigo encontrar nEle.

“(…) Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu” (Romanos 12.3).

Então, estamos falando que não temos que ligar para o que os outros pensam sobre nós? De certa forma, sim. Mas a diferença é que eu também não devo ligar para o que eu mesma penso sobre mim. Esse é o ponto. E é aí que Keller mais uma vez me surpreende e traz algo que eu não tinha elaborado muito bem. Pois, o único que pode me julgar é Cristo (1Coríntios 4:3-4), é Ele quem me sonda e me diz quem sou. É Ele o único capaz de mostrar minhas virtudes e vaidades. E mais: Ele é o único que pode me justificar.

“Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da Lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3.21-24).

 

Notas – informações retiradas do livro Ego Transformado – A humildade que brota do evangelho e traz a verdadeira alegria:
1 citação retirada da página 18
2 citação retirada da página 16
3 citação retirada da página 16
4 citação retirada da página 16
5 citação retirada da página 35
Imagem retirada do facebook, link aqui

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quer saber a verdade?

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Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça.

Esse versículo, de Romanos 1.18, traz uma palavra-chave, polêmica para a nossa cultura ocidental: a verdade. O texto afirma também que os homens eliminaram a verdade para favorecer a injustiça. Mas qual é a relação direta existente entre verdade e injustiça? Proponho uma reflexão sobre essa pergunta, considerando a ótica líquida da nossa cultura, para quem a verdade é customizada (eu a construo como eu quiser) e intransferível (cada um tem a sua).

O homem hipermoderno suprimiu a ideia de uma verdade única, total, para, em lugar dela, adotar incontáveis verdades – uma para cada pessoa da terra (ou seja, são 7 bilhões de verdades no globo). Mas se tudo é verdade, o que não é verdade? Nada. Não existe a não-verdade, ou melhor, a mentira. E se cada um constrói a verdade como quer, por que a chamamos verdade e não de … jenga*, por exemplo? Podíamos riscar a palavra e todo o significado de verdade – logo, a autenticidade, o fato, a exatidão, a precisão – do nosso repertório de conhecimento das dinâmicas do mundo e das linguagens que as representam.

Quando o homem suprime a verdade única e a multiplica (ou a divide?) pelo número de habitantes da terra, ele a reduz ao tamanho e à abrangência da minha limitada percepção do mundo. Assim, cometer injustiças fica muito fácil: percebo e me conecto com o outro a partir do que eu acredito ser o certo, e o que é certo para mim é definido pelas minhas experiências, que, por sua vez, acontecem dentro de uma moldura social, econômica, etária, familiar, geográfica, educacional, cultural, relacional muito, mas muito específica e particular. Ou melhor, única. O outro, por sua vez, se conecta comigo a partir dos mesmos critérios, específicos do contexto dele. Impossível alguma injustiça não escapar da interação entre essas complexidades todas. Se formos ampliar essa percepção pelo número de conexões entre as pessoas, quantos atos de preconceito, intolerância, guerras, torturas, mortes, doenças e outros sofrimentos não são cometidos a cada momento?? Gosto de imaginar como seria a existência se a verdade fosse tomada como única – como ela é, de fato: a humanidade convergindo, inteira, para um único Ponto, de onde emana a justiça extrema, sem medidas, nem limites.

 

*jenga – jogo de blocos de madeira, com os quais se constrói uma torre. O objetivo desse jogo é ir removendo, aos poucos, os blocos da base da torre e colocá-los no topo sem que a torre caia.

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Paz nas decisões

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Tomar decisões é sempre um parto. Passamos dias pesando prós e contras e, mesmo assim, o medo do desconhecido que acompanha a decisão não deixa a gente dormir ou comer direito. Ou o contrário: dormimos e comemos demais, por pura ansiedade sobre o que será. Então, finalmente, nos decidimos. Mas ainda assim, seguimos adiante com um pé atrás, sem ter muita certeza, procurando com rabo de olho algum flash lá trás que sinalize para nós que ainda podemos mudar de decisão, caso nos arrependamos.

E todo esse processo penoso não é privilégio de pessoas inseguras. Quando a decisão é séria, todo mundo pasta para tomá-la. Principalmente, se ela envolve alguma questão moral suculenta, daquelas que atingem em cheio o nosso ponto mais fraco.

Por muito tempo, tive dificuldade para entender o que Paulo queria dizer exatamente com o termo ‘árbitro’, quando escreveu: Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração (Colossenses 3.15, primeira parte). Porém um dia, enquanto assistia ao filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, captei finalmente o sentido desse versículo, numa cena sensacional. Quando Joel (Jim Carrey) chama Clementine (Kate Winslet) para sair, sendo ele quase casado com outra pessoa, ela recusa e responde: eu sou só uma garota cheia de problemas, procurando minha paz de espírito. Não me torne responsável por sua paz de espírito também.  Pronto! O elemento-chave estava aí: paz. Devo sempre buscar por ela, em todas as minhas decisões. Na verdade, em termos simples, nem preciso me dar ao trabalho de escolher, porque é a paz que fará a escolha por mim. Ela aponta o caminho e eu sigo por ele. Claro que outros elementos vão tentar trabalhar contra esse fluxo, mas aí é ligar o modo automático em Deus e seguir em frente, sem muitas conjecturas – ouso propor. Afinal de contas, desde quando os fantasmas não fazem parte do pacote da existência pós-queda? A graça de tudo isso, porém, está justamente em dependermos da Graça.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A imagem veio daqui