O resgate da mulher que somos e da criança que fomos

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Ilustração incrível da artista Andrea Hrnjak

Não é novidade, aqui, que sou encantada pelo livro Mulheres que Correm com os Lobos. Aliás, acredito que falei dele em quase todos os meus textos do Santa Paciência! Bom, aqui vai mais uma recomendação sobre ele! É repetitivo, mas, coisa boa a gente não pode deixar passar ;)

Uma querida amiga psicóloga, a Vanessa Maichin, que escreve no blog Sou Existencialista, realiza um trabalho primoroso com mulheres. São vivências terapêuticas, baseadas nesse que é um dos meus livros favoritos. A Van, inclusive, foi quem me introduziu ao cativante mundo da busca pelo resgate da natureza selvagem e pela liberdade da mulher que foi por tanto tempo domesticada.

Participei do último encontro, realizado em Abril, e serei eternamente grata pelo presente da Vanessa, porque a vivência é, na verdade, um despertar. Mulheres que Correm com Lobos… Integrando o Espírito da Criança: O resgate da mulher que somos e da criança que fomos, é uma vivência que nos coloca em conexão com nossa criança. 

“A criança é inocência, é o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação”.

(Nietzsche)

Tudo começa alguns dias antes da vivência. A Van nos dá algumas orientações pra entrarmos no clima do processo todo, com alguns exercícios que já nos incentivam a olhar pra dentro de nós com mais carinho e menos exigências. Chegando ao local do encontro, somos acolhidas e respeitadas dentro de um ambiente harmonioso. Tudo é caprichosamente preparado pra que nos sintamos queridas e bem cuidadas.

Brincamos ao som de cantigas que lembram nossa infância, recordamos momentos marcantes e compartilhamos histórias. Mas não é tão simples assim. Olhar pra nossa criança pode doer. Mas ali está a essência. No cuidado da nossa criança interior, ou do espírito da nossa criança, está o resgate da mulher selvagem que somos.

“No momento que a mulher selvagem se posiciona, ela dá espaço para a mulher que sabe o que quer! Acolhe a criança carente e ensina-lhe a dar os primeiros passos rumo a sua autenticidade! A mulher que sabe o que quer integra em seu ser a mulher forte e guerreira com sua criança leve e espontânea”.

(Vanessa Maichin)

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Brincando de Adoleta!

Ao longo da vivência, somos convidadas a explorar nossa experiência de infância, provocadas pela leitura de alguns contos do livro, e a Vanessa nos conduz nesse processo indicando nosso olhar a perceber novas possibilidades de ser e existir. Podemos acolher nossa criança, ouvi-la, pegá-la no colo e cuidar daqueles machucados que remédio nenhum cura, só um beijo afetuoso pode fazer isso, sabe? E quem dá esse beijo somos nós mesmas. A gente tem a oportunidade de abrir espaço pra começar a compreender a nossa história de vida. A sensação que fica é que um peso foi tirado, uma porta foi aberta e agora é preciso seguir um caminho de re-significações e novos aprendizados.

Minha experiência foi de ser apresentada à minha criança. Eu cresci escutando que nunca fui criança, que sempre fui precoce e já nasci adulta. Parar pra olhar a Talita criança me fez, de fato, enxergá-la. Ela existiu sim, o tempo todo, mas foi muito cobrada a ser tão perfeita que mais parecia uma adulta, séria, rígida, tensa, inflexível e exausta…

Olhei pra “Talitinha” e vi espontaneidade, graciosidade e alegria. Percebi que foram tiradas dela a criatividade, a vitalidade e a energia. E que já não importa mais quem fez isso, nem como ou por qual motivo, importa que agora eu olhe pra ela e resgate sua essência autêntica e livre.

“Resgatar a criança que fomos um dia é acolher sua história de vida. É compreender os significados dessa infância, é deixar doer o que precisa ser doído, é abrir espaço para nossos medos, carências, fragilidades, frustrações, angústias… É costurar, remendar, bordar e tecer nossa própria história. É abrir espaço para novas possibilidades de ser e existir… É abrir espaço para a mulher selvagem que corre com os lobos”. 

(Vanessa Maichin)

Claro que muito mais do encontro mexeu comigo e com as mulheres fortes e corajosas do grupo, mas, quero deixar aqui só um gostinho pra aguçar sua curiosidade e incitar seu desejo de se reconectar com si mesmo e participar da vivência! Foi delicioso despertar pra minha criança e descobrir como integrá-la à mulher que sou. Indico e espero que muito mais mulheres possam viver essa experiência.

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Vanessa (de cachecol laranja) e o grupo de mulheres que acolheu suas crianças!

E o próximo encontro já tem data marcada! Será no dia 25 de junho (sábado), das 10h00 às 14h00.

A Vanessa Maichin é Mestre em Práticas Clínicas pela PUCSP, tem formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial e Daseinsanalyse e atuação como Professora de Pós-Graduação na UNIPAR e UNIP.

Mais informações:
Cel./WhatsApp (11) 995685159
E-mail: vanessamaichin@gmail.com

As inscrições estão abertas e as vagas são limitadas.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

httpblogcademeulivro.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Distrito 13, subterrâneo. 
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Annie e Finnick.
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Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
httpnicinefilo.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A morte e a Poesia Infinita

 

Depois que cruzei a linha dos 30 anos, a morte passou a ser um tema mais recorrente em minhas reflexões. E eis que já escuto gente aí pensando: “Nossa, mas que exagero! Tanto pra viver ainda e fica pensando nisso!”. Bom, se pensarmos no curso natural da vida, sim, é verdade, ainda me faltam anos, senão décadas, para viver. Mas uma realidade com menos maquiagem nos leva a uma constatação levemente diferente: não temos a menor ideia de quando será a nossa hora. E é dessa morte que falo: a real, que nos pega sempre desprevenidos e que deixa nos que ficam a sensação amarga e perdida de que ela lhes puxou o tapete mais uma vez. Essa é a morte, cuja existência (não é esse o termo exato) tenho procurado não ignorar. Claro que não acho fácil pensar sobre isso. Assim como você e todo o mundo (pelo menos, o mundo ocidental), a ideia de morrer começa como um pequeno desespero, como a chama de um fósforo, que já o consumiu por inteiro e que então começa a queimar o nosso dedo. Não raras vezes, interrompo os pensamentos para não me deixar desesperar demais.

Eu poderia dizer aqui que o que me inspirou a escrever sobre este assunto foi a morte do David Bowie, ocorrida hoje de manhã. De fato, me entristeci por ele ter ido, me emocionei com as lindas homenagens que o Lenny Kravitz, o Bono e outros artistas fizeram para ele, mas foi numa experiência mais particular que senti o que vou explicar.

Há algumas horas, em um momento de busca pelo silêncio, fui a um morrinho que existe atrás da minha casa, onde não há nada, só mato, bancos para sentar e a vista escancarada do horizonte.  Para mim, apenas esses elementos são mais do que suficientes. O lento anoitecer estava cinzento, nublado e um vento mais frio insistia para que eu vestisse o capuz do meu casaco, mas recusei. Eu queria sentir a fria vida me atingindo até os ossos. Olhando para o céu, comecei a falar com Deus (pois é, o silêncio é às vezes uma desculpa que uso para ficar papeando com Deus em pensamento) e fui percebendo o movimento daquelas nuvens enormes, carregadas, se desenrolando todas ligeiras para a mesma direção, como se estivessem indo atrás de alguém com quem estivessem bravas. Senti-me pequena. Ou melhor, minúscula. Agachei-me e orei: “Não entendo como Você pode ter tanta paciência com a gente, sendo assim tão imenso, maduro e assistindo à mesma história – a humana – se repetindo e se repetindo”. Foi aí que me bateu uma vontade maior do que o meu coração de ir para Deus. Não de me matar, mas de vencer o que me limita, passar para o outro lado daquelas nuvens grandiosas e estar com Deus em sua maneira eterna de ver as coisas. Foi bonito e intenso.

 

Morrinho
Vista que o morro atrás de casa me dá

Quando cheguei de volta em casa, recebi de minha irmã a sugestão de uma música (logo abaixo) sensível e que – coincidentemente ou não – trata a morte de forma melancólica e bela. Ao ouvir essa música e relembrar a experiência que vivi no morrinho, concluo que a morte não precisa ser sinônimo de desespero. Ela é um tunel apenas. Um tunel que liga esta terra à Poesia Infinita.

Time (Alan Parsons Project)

Time, flowing like a river
O tempo, fluindo como um rio
Time, beckoning me
O tempo, me chamando
Who knows when we shall meet again
Quem é que sabe quando nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river
Continua fluindo como um rio
To the sea
Para o mar

Goodbye my love,
Adeus meu amor
Maybe for forever
Talvez para sempre
Goodbye my love,
Adeus meu amor
The tide waits for me
A maré espera por mim
Who knows when we shall meet again
Quem é que sabe quando nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river (on and on)
Continua fluindo como um rio (continuamente)
To the sea, to the sea
Para o mar, para o mar

Till it’s gone forever
Até que tenha ido para sempre
Gone forever
Ido para sempre
Gone forevermore
Ido para sempre e sempre

Goodbye my friends,
Adeus meus amigos
Maybe for forever
Talvez para sempre
Goodbye my friends,
Adeus meus amigos
The stars wait for me
As estrelas esperam por mim
Who knows where we shall meet again
Quem é que sabe onde nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river (on and on)
Continua fluindo como um rio (continuamente)
To the sea, to the sea
Para o mar, para o mar

Till it’s gone forever
Até que tenha ido para sempre
Gone forever
Ido para sempre
Gone forevermore
Ido para sempre e sempre

 

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Filmes & a temática feminina

Aproveitando que o final de semana está aí, que tal escolher um desses filmes (ou todos eles! por que não?!) para assistir?

Tenho certeza que será mais do que um entretenimento; será uma ótima reflexão.

Girl Rising

Richard Robbins, 2013 

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=81x6mYNxqzU

Não tem como assistir esse filme e não ser impactada… Em alguns momentos você se indignará, ficará pensativa, em estupefação, porém em outros (talvez na maior parte do filme), sentirá um enorme constrangimento, e daqueles que só é sentido quando comparamos nossas condições, estruturas e oportunidades com essas e tantas outras meninas ao redor do mundo que não possuem sequer 1/3 do que chamamos aqui no Ocidente, ou como nossa classe média abastada define, por direitos básicos.

O filme conta a história de 9 meninas de países diversos. Tais histórias foram recontadas por escritores, mas para trazer a essência de suas experiências, de forma bela, porém real. E entre uma história e outra o documentário traz dados interessantíssimos como, por exemplo:

“Aqui está um fato perturbador. A causa número um de morte para garotas entre 15 e 19? Não é Aids. Não é fome. Não é guerra. É parto. Quando as meninas se casam jovens, a educação termina. E os ciclos anteriores continuam. Ciclos de pobreza, ciclos de violência, ciclos de ignorância (Colocar todas as crianças na escola evitaria 700 mil casos de HIV por ano). Mas uma garota que vai estudar inicia outro ciclo (Meninas que estudam 8 anos são 4 vezes menos propensas a se casar jovem). Porque ela se manterá mais saudável. Ela vai se casar mais tarde. Ela terá filhos mais saudáveis (Um filho nascido de uma mãe alfabetizada tem 50% mais chance de passar dos 5 anos). E acima de tudo, ela terá filhos estudados (Mães estudadas são duas vezes mais propensas a mandar seus filhos para à escola). E não são só as mães. Os pais também devem investir. Assim, suas filhas podem sonhar.”

E eu se fosse você, começaria por ele ;-)


Miss Representation

Jennifer Siebel Newsom, 2011

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://vimeo.com/72015293

Esse documentário aborda a falta de representatividade das mulheres na grande mídia. Seja a representatividade atrás das telas, como ‘cabeças pensantes’, criadoras e geradoras de conteúdo, seja reproduzindo e representando o papel da mulher sob uma ótica distorcida, comercializada e machista.

“Mulheres detêm apenas 3% de cargos de poder em telecomunicações, entretenimento, publicações e propaganda. Isso significa que 97% de tudo o que você ‘sabe’ sobre si mesma, sobre seu país e o mundo vêm de uma perspectiva masculina. E não significa que isto esteja errado. Significa simplesmente que em uma democracia, que nós dizemos ser igualitária e com a participação de todos mais da metade da população não está participando” – Carol Jenkins (Presidente Women’s Media Center)


Pray The Devil Back To Hell

Gini Reticker, 2008

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=bi3nvH_Po5E

O cenário deste documentário é a Libéria, país que viveu uma sangrenta guerra civil durante o regime de Charles Taylor, que em 2003 foi forçado a exilar-se na Nigéria.

E como parte dessa revolução e fim da guerra, várias mulheres se unem, deixando de lado diferenças religiosas, para protestarem pacificamente pela paz. A Libéria é abençoada por ter essas mulheres que ajudaram a definir o destino de seu país sem derramar uma gota de sangue, mas que com lágrimas, orações e súplicas trouxeram um futuro melhor à sua nação.


Persépolis

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2008

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jUXo4zw0vXA

Persépolis é uma animação francesa, baseada na história em quadrinhos homônimo e autobiográfico da Marjane Satrapi.

A animação começa antes da Revolução Iraniana, quando Marjane tinha 8 anos, mostrando como ela era igual a qualquer outra menina de sua idade, mas conforme o tempo vai passando, a nova República Islâmica toma o poder do Irã, seu país de origem, e começa a controlar como as pessoas (as mulheres em especial) deveriam se vestir e se portar, obrigando-a a expatriar-se.

O filme é bem rico também, porque ao narrar toda a história da personagem, traz as angústias, os medos, as frustrações e traumas que todo o conflito e a ruptura acabaram causando em sua vida.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mais paciência, por favor

46m

Constantemente, preciso cuidar para que a ansiedade não se instale em meu coração.
Não é fácil: às vezes o processo é um pouco cansativo, e às vezes um pouco dolorido também, mas tal cuidado é necessário.

Vivemos em uma sociedade do tempo real, da conectividade, da facilidade, da praticidade, da globalização. E é claro que essa facilidade toda pode ser boa e, de fato, ela é, na maioria das vezes. Afinal, quem não gosta de se comunicar sem precisar pagar por uma ligação? Ou conseguir comprar um livro sem precisar sair de casa? Mas, em excesso, essa conectividade pode nos levar a comparações desnecessárias e anseios que não devem ser cultivados ou sequer experimentados.

Diariamente, somos bombardeadas pela mídia com instruções como: 10 coisas que você precisa fazer, 7 itens que você precisa ter ou 9 dicas de como você deve ser. E como se não bastasse, a sua timeline também está recheada de pessoas “reais” felizes, realizadas e sem problemas. E então, o que geralmente fazemos? Nós juntamos todos esses ingredientes e acrescentamos a nossa capacidade feminina de fantasiar, acumular emoções e criar enredos ilusórios, e aí sim toda a mistura fica pronta: e tomamos para nós todas essas instruções como “verdades” e esses padrões como referências para as nossas vidas.

Refletindo sobre isso, percebo que o mundo como um todo também clama por mais calma, mais paciência, e também por mais alma. A linda e sempre pedida canção Paciência do Lenine, traduz um pouco desse sentimento que por vezes experimentamos: (…) E o mundo vai girando cada vez mais veloz/ A gente espera do mundo e o mundo espera de nós/ Um pouco mais de paciência/ Será que é tempo que lhe falta pra perceber?/ Será que temos esse tempo pra perder?/ E quem quer saber?/ A vida é tão rara/ Tão rara/ Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/ Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/ Eu sei, a vida não para (…).

Escutando esse clamor e também me questionando e aprendendo a silenciar as várias vozes que teimam em me alienar, percebo que sim: eu tenho a solução para ser preenchida com mais alma. Para ter essa paciência que não provém de mim, mas que pode estar em mim. Então, eu compreendo que preciso fazer algumas coisas para ter essa quietude emocional, para ser preenchida e direcionada.

Buscar a Deus em primeiro lugar

Buscar a Deus em primeiro lugar é dispor de tempo para me relacionar com Ele.

Não conseguimos criar vínculos sem gastar tempo em relacionamentos, e com Deus não é  diferente. Como poderei criar intimidade com meu Criador, se não dedico parte do meu tempo para conhecê-lo, para entender o que Ele tem a me dizer e ouvir a Sua voz? Então, devo priorizar em minha agenda esse tempo de qualidade com Deus.

Buscar a Deus em primeiro lugar também é amá-lo, e amá-lo de verdade! Com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu entendimento e força1.  Pois, amando-o, eu estarei aberta a entender Suas vontades e desejos.

Assim, buscar a Deus em primeiro lugar também é desejar que Sua vontade se sobreponha à minha vontade, mesmo que isso doa e aparente ser impossível. Mas conforme eu vou criando intimidade com Deus e o amando profundamente, consigo compreender que Seus caminhos são melhores do que o meus, porque são perfeitos. Simples assim! Se Ele me criou e sabe realmente quem sou, é Ele quem tem os melhores planos para mim.

Deus me conhece melhor do que eu mesma

Sim! Essa é a mais pura verdade. Antes de ter sido formada e gerada, Deus sabia da minha existência. Aliás, de forma maravilhosa e misteriosa, Ele acompanhou toda a minha formação, me viu crescer e me acompanha até hoje2.

E por me conhecer tão bem, tão melhor do que eu mesma, é Ele quem sabe o que é melhor para mim. Ele tem planos para mim, planos que sequer posso imaginar, tamanha a minha pequenez e limitação. Porém, se eu pedir orientação e buscar a Sua voz, Ele me apresentará e me deixará conhecer aquilo que Ele deseja que eu faça3.

Ser grata por tudo o que eu tenho (às vezes ser grata por aquilo que eu não tenho também)

Ser grata não é ser feliz o tempo todo. Aliás, essa felicidade de comercial de margarina não existe – isso foi inventado para vender margarinas, e é tudo culpa do marketing! rs

Mas ser agradecida é entender que o que você tem é precioso. E isso não quer dizer que, por vezes, você não se sentirá triste, desiludida ou querendo algo que não tenha. Mas se eu amo a Deus, sei que Ele me conhece melhor do que eu mesma, sei que Ele me ouve4, então, não consigo não ser agradecida pelas coisas que tenho e por Sua presença em minha vida.

Descansar e esperar em Deus

Se eu costumo perder noites de sono pensando em minhas angústias e problemas, o que provavelmente irá acontecer comigo, além de ficar com muito sono no dia seguinte?

Me atrevo a “adivinhar” que o que vai acontecer comigo é que eu ficarei mais ansiosa ainda. Porque com o corpo e mente cansados, eu não resolverei meus anseios e muito menos conseguirei escutar o que Deus tem para me dizer e me ensinar.

Acredito que o fato de descansar nEle é um ato tão amoroso da parte de Deus, algo como: “- Você pode aumentar alguma hora de sua vida se preocupando? Não! Então por que você está se preocupando assim? Por que está perdendo sua noite de sono? Por que está deixando seu corpo padecer com todas essas neuras?5 Deixa, porque sou Eu quem devo me preocupar com isso, sou Eu quem sabe o que é melhor para você! E quanto a você, contente-se em me amar, me buscar e esperar em mim, porque no momento certo Eu a irei  instruir e a ajudarei a fazer aquilo que você tem que fazer6.”

Ok, concordo, não é tão fácil assim. Mas a cada passo dado e caminho trilhado, vamos percebendo que descansar em Deus é a coisa mais sábia a se fazer, é o verdadeiro antídoto anti-stress.

 

Notas – passagens bíblicas:

1Marcos 12:29
2Salmos 139:13–16
3Jeremias 29:11–14
4Filipenses 4:4–8
5Lucas 12:25–29
6Salmos 32:8


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Paz nas decisões

woman choosing

Tomar decisões é sempre um parto. Passamos dias pesando prós e contras e, mesmo assim, o medo do desconhecido que acompanha a decisão não deixa a gente dormir ou comer direito. Ou o contrário: dormimos e comemos demais, por pura ansiedade sobre o que será. Então, finalmente, nos decidimos. Mas ainda assim, seguimos adiante com um pé atrás, sem ter muita certeza, procurando com rabo de olho algum flash lá trás que sinalize para nós que ainda podemos mudar de decisão, caso nos arrependamos.

E todo esse processo penoso não é privilégio de pessoas inseguras. Quando a decisão é séria, todo mundo pasta para tomá-la. Principalmente, se ela envolve alguma questão moral suculenta, daquelas que atingem em cheio o nosso ponto mais fraco.

Por muito tempo, tive dificuldade para entender o que Paulo queria dizer exatamente com o termo ‘árbitro’, quando escreveu: Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração (Colossenses 3.15, primeira parte). Porém um dia, enquanto assistia ao filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, captei finalmente o sentido desse versículo, numa cena sensacional. Quando Joel (Jim Carrey) chama Clementine (Kate Winslet) para sair, sendo ele quase casado com outra pessoa, ela recusa e responde: eu sou só uma garota cheia de problemas, procurando minha paz de espírito. Não me torne responsável por sua paz de espírito também.  Pronto! O elemento-chave estava aí: paz. Devo sempre buscar por ela, em todas as minhas decisões. Na verdade, em termos simples, nem preciso me dar ao trabalho de escolher, porque é a paz que fará a escolha por mim. Ela aponta o caminho e eu sigo por ele. Claro que outros elementos vão tentar trabalhar contra esse fluxo, mas aí é ligar o modo automático em Deus e seguir em frente, sem muitas conjecturas – ouso propor. Afinal de contas, desde quando os fantasmas não fazem parte do pacote da existência pós-queda? A graça de tudo isso, porém, está justamente em dependermos da Graça.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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