Era uma vez uma culpa…

Há algum tempo já que Deus tem se deixado conhecer por mim. Explico: venho configurando em minha vida uma rotina, que inclui duas disciplinas espirituais bem básicas: a oração e a leitura bíblica. Diariamente, antes de ir para a escola onde trabalho, me sento em frente à janela do meu quarto, que me oferta a vista das montanhas da Mantiqueira, e tenho o meu momento com Deus. Antes eu escolhia um livro aleatório da Bíblia para ler (o último que li foi Apocalipse, que me deu uma perspectiva incrível da enormidade de Deus), mas há quase 2 semanas adotei o lecionário – leituras bíblicas diárias associadas ao calendário cristão. Leio os três textos que eles indicam e, da associação entre eles, aprendo mais sobre quem é Deus. Daí leio um trecho de um outro livro cristão (desde o começo do ano tenho lido livros cristãos que falam só sobre a oração) e encerro o momento com uma oração. Em troca, Deus tem se voltado a mim de forma desproporcional ao que tenho oferecido. São respostas, carinho, cuidado, amigos e confirmações de dúvidas que apontam para muito além da existência de Deus: apontam para o Deus que se inclina para mim a ponto de me ouvir e se importar com os meus problemas. Desde que me firmei nessas práticas de forma regular, tenho desenvolvido um outro olhar sobre o mundo e sobre quem sou nele – mundo – e Nele – Deus.

Era sábado e nós estávamos na estrada, a caminho de São Paulo. David e eu começamos uma conversa sobre o nosso aniversário de casamento, que se aproxima, até que o rumo  do papo nos levou para o passado. Falamos de lugares, pessoas e situações que não nos fizeram bem e como, naquela época, nossa visão do quanto esses contextos nos afastavam de Deus era míope. Lembro-me que, no mesmo instante, desviei o meu olhar para fora da janela do carro e pensei: quem era a Luciana daquela época? Acho que era outra pessoa, não eu. Porém esta Luciana aqui mal sabia que, naquele mesmo sábado, voltaria a se encontrar com aquela do passado.

E foi chegando na casa dos meus pais e mexendo no Facebook, que me deparei com determinadas fotos, que atiraram a “verdade” na minha cara: Luciana, você se lembra do mal que fez contra essas pessoas? Faz muito tempo, é verdade, mas elas não se esqueceram ainda. Tudo me veio à lembrança e eu me senti derrotada. Era isso: aquela Luciana e eu estávamos cara a cara. E mais: éramos a mesma e uma só, o que significava que tudo poderia acontecer de novo. Tudo.

Não consegui retomar de pronto a vida cheia de sentido que eu vinha experimentando. No dia seguinte, domingo, fui à minha igreja e ouvi o sermão de um pastor de outro lugar. Ele falou coisas lindas e incríveis, que só me deixaram com saudades de Deus, mas eu não me sentia digna mais. Só que a mensagem que esse pastor trouxe me levou ao centro de uma das principais questões da fé cristã: se Jesus escolheu morrer para tirar a minha culpa, por que eu ainda me sinto culpada?? Se ainda carrego esse peso, é porque talvez o fato de Jesus ter sido torturado, massacrado, pisado e pendurado numa cruz como um pedaço de carne no açougue não deve valer muita coisa.   

De repente, caí em mim. O que eu estava fazendo, ao me sentir derrotada por erros já reconhecidos do passado, era desvalorizar a entrega de Cristo. Ele morreu não para eu me sentir derrotada, mas perdoada. Não devo nada, porque minha dívida foi paga não com cartão de crédito, mas com sangue, por amor a mim. Tudo o que eu precisava fazer era voltar ao aconchego das minhas orações e da minha leitura bíblica, como vinha sendo. A leveza de Deus me encontraria de novo.

De fato, a Luciana dos erros passados e aquela da estrada para São Paulo são a mesma. Não me tornei melhor, nem mais santa, nem superior àquela. Sou apenas uma transparência e, à medida que vou me aproximando do Justo pela leitura bíblica e oração, os reflexos Dele vão atravessando a minha existência e reverberando para além. Tenho mais Dele hoje do que eu tinha naquela época e essa é a única diferença, que faz toda a diferença.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Nó na garganta

DK_Dez_15
Perdão (grafite e digital), por David Kim

 

As devocionais que faço em casa funcionam assim: escolho um livro da Bíblia e começo a leitura, um trecho por dia. Leio aquele trecho quantas vezes forem necessárias para eu entender bem o contexto. Dentro do trecho escolhido, seleciono um versículo ou mais, uma expressão ou até mesmo uma palavra-chave e, a partir disso, construo – por escrito – uma pequena reflexão, que mais tem a ver com o que entendo do texto e com a maneira que posso aplicar aquela ideia à minha vida, do que com conhecimento teológico (isso explica a quantidade de especulações que recheiam as minhas devocionais). Por fim, escrevo uma oração, que expressa como me sinto e o que desejo a partir do que aprendi sobre a vontade de Deus. Na verdade, essa dinâmica devocional não fui eu que inventei, mas adaptei de um livro – que recomendo, aliás – chamado Mentores segundo o coração de Deus, do Wayne Cordeiro.  E, quando percebo que uma devocional se desenvolve de maneira mais interessante, venho aqui postá-la.

De forma geral, esses momentos a sós com Deus me dão forças e me oferecem esperança (mesmo quando a mensagem é mais confrontadora do que consoladora). Desta vez, porém, aconteceu algo raro, com o qual não estou sabendo exatamente como lidar: a devocional estabeleceu um conflito em mim, me perturbou e me colocou em uma posição esquisita, bem longe do ideal. Respiro fundo e tomo coragem para compartilhá-la com vocês:

Se, porém, Cristo está em vós, o corpo está morto, pelo pecado, mas o Espírito é vida, pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós. (Romanos 8.10 e 11)

Interessante o movimento que acontece a partir do momento em que estamos em Cristo: a princípio, nos encontramos mortos pelo pecado e pelos desejos da carne, mas não permanecemos assim. Por meio de Cristo, somos levados de volta à vida e podemos usufruir dela aqui mesmo, neste corpo mortal em que habitamos.

Incrível ler sobre o que o Espírito de Deus faz e, mais ainda, saber que essa realidade não depende do que sinto ou do que acredito para que exista. É verdade e ponto. O problema que se estabelece, então, é como tornar essa realidade atuante em mim. Porque o que eu mais vivencio na minha lida espiritual é justamente a carne querendo comandar. Pior e mais embaraçoso que isso ainda!: sinto-me triste quando não é ela que dá a palavra final nas minhas decisões e atitudes (e a carne só não dá as cartas por pura e linda misericórdia de Deus, que sabe quão trágico seria se assim fosse).  Repito: sei que a ação do Espírito não depende do que sinto e sim, que ela é um fato, por si mesmo existente e atuante, porém, me sinto frustrada por não a desejar com a mesma intensidade com que desejo as outras coisas que desejo. Por que, então, meu Deus, sinto falta do erro, do pecado, da ação da carne?? Por que não me satisfaço integralmente com a misericórdia divina, que me poupa diariamente de cair? Por que quero a morte do pecado no lugar da vida no Espírito? “Livra-me, Deus, de mim mesma, ainda que eu não queira que me livres” – suplico em minha oração. E, assim, com mais perguntas do que respostas, encerro a minha devocional.

Ainda longe de resolver meus conflitos e meu nó na garganta, encontro certo alívio na letra de uma música do Mumford & Sons: I was still/ I was under your spell/ When I was told by Jesus all was well/ So all must be well (eu estava imóvel/ eu estava sob o seu feitiço/ quando me foi dito por Jesus que tudo estava bem/ então tudo deve estar bem).


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.