Minha falta de personalidade

mini-q
Ilustração de Mini.Q

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

 

Lindo o poema de Leminski e lindos esses textos todos que louvam a autenticidade, que enaltecem esses que assumem a sua identidade, os que não deixam que outros lhes digam o que fazer ou como ser. Mas me angustio: não tenho a esperteza dessas pessoas. Confesso: eu não sei ser quem sou, porque eu não sei quem sou.

Penso que sou uma amálgama de expectativa alheia com experiências passadas, amores não materializados com amores de sangue. Sou a maquiagem com que me mascaro todos os dias. Se lavo o rosto, me reconheço pouco. Sou virtude e sou pecado. Uma parte de mim é feita de traumas de família e a outra parte, de esperança. Às vezes sei colocar a minha opinião, às vezes, não. Choro sem razão. Danço e pago mico. Sou o vinho sagrado de Joni Mitchell: doce e amargo.  Sou os dois extremos e todos os seus intervalos. Acordo bem, durmo mal.  Sou carente e introspectiva. Sou concha, desconfiada.

Tudo isso pra dizer que não sei ser eu mesma – aliás, o que é ser si mesmo? Porque escolher um traço meu é esconder todos os outros – “toda eu é que não podia”, já dizia a minha Clarice. Se me mostro inteira, não caibo, sobro. Há de se fazer ajustes. Só existe espaço para paradoxos, nunca para oxímoros. Mas sou uma oxímora, fazer o quê? E, se alguém diagnosticar minhas inconclusões como falta de personalidade, já não irei discutir – pedirei à pessoa que leia este texto.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência

 

A Dança da Vida

The Essence of Ballet - La Bayadére - Edition 7 @ 2014 - ingridbugge.com
The Essence of Ballet – La Bayadére – Edition 7 @ 2014 – ingridbugge.com

– Vamos dançar? – a Vida me convidou.
E, assim, começou minha grande aventura,
marcada para esse tempo e espaço.

O tempo, passando foi.
E deixei o ritmo acelerado desse tal tempo ditar o rumo.
– Acho que algo está fora de compasso, fora do prumo – senti.

– É… Acho que entendi.
   É que, durante a dança, esqueci que tenho par e
   sozinha continuei a dançar.

– Vida, onde te deixei? – cansei de sozinha dançar.
– Você cansou porque esqueceu que Eu sou o seu par!
    Me permite te (re)conduzir? – sussurrou a Vida para mim.

E eu, cansada de sozinha dançar,
me entreguei novamente à dança,
mas, agora com a Vida feito par.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

(e)Fême(r)a.

httpo4s.tumblr.compost51525159809ser-mulher

(e)Fême(r)a

anda além alinhando austera

brisa bailarina britadeira bucólica

cantando colhendo calando corajosa

doutrinas disparos dores diamantes

esgueira esguicha escorre encara

fortalecidas flores fabricadas fugazes

gritos grunhidos gatunos gemidos

humana hosana holística Havana

inunda iguala inspira insulta

Joana Julieta Joquebede Janis

Kuwait Kosovo Kyoto Kabul

lunática linguagens lúcidas lugares

mares mirongas mergulhando milhares

noturna nobre navega navalha

orgulha ouve ofusca os olhares

paixão poder perece promete

quarenta quebranta quente quântica

reluz rasga revela resguarda

sangue suor sorriso selvagem

tateia tolera traduz toca

uiva ultraja urbana une

voz vidente viagem vertigem

Wendy Winona Whitney Winnie

Xavantes xinga xereta Xaxim

Yara Yumi Yonara Yoki

zen

(palavras soltas desenhadas numa mente inquieta que deseja com profundidade que a feminilidade seja autenticamente livre em meio à realidade efêmera).

Imagem furtada daqui.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A morte e a Poesia Infinita

 

Depois que cruzei a linha dos 30 anos, a morte passou a ser um tema mais recorrente em minhas reflexões. E eis que já escuto gente aí pensando: “Nossa, mas que exagero! Tanto pra viver ainda e fica pensando nisso!”. Bom, se pensarmos no curso natural da vida, sim, é verdade, ainda me faltam anos, senão décadas, para viver. Mas uma realidade com menos maquiagem nos leva a uma constatação levemente diferente: não temos a menor ideia de quando será a nossa hora. E é dessa morte que falo: a real, que nos pega sempre desprevenidos e que deixa nos que ficam a sensação amarga e perdida de que ela lhes puxou o tapete mais uma vez. Essa é a morte, cuja existência (não é esse o termo exato) tenho procurado não ignorar. Claro que não acho fácil pensar sobre isso. Assim como você e todo o mundo (pelo menos, o mundo ocidental), a ideia de morrer começa como um pequeno desespero, como a chama de um fósforo, que já o consumiu por inteiro e que então começa a queimar o nosso dedo. Não raras vezes, interrompo os pensamentos para não me deixar desesperar demais.

Eu poderia dizer aqui que o que me inspirou a escrever sobre este assunto foi a morte do David Bowie, ocorrida hoje de manhã. De fato, me entristeci por ele ter ido, me emocionei com as lindas homenagens que o Lenny Kravitz, o Bono e outros artistas fizeram para ele, mas foi numa experiência mais particular que senti o que vou explicar.

Há algumas horas, em um momento de busca pelo silêncio, fui a um morrinho que existe atrás da minha casa, onde não há nada, só mato, bancos para sentar e a vista escancarada do horizonte.  Para mim, apenas esses elementos são mais do que suficientes. O lento anoitecer estava cinzento, nublado e um vento mais frio insistia para que eu vestisse o capuz do meu casaco, mas recusei. Eu queria sentir a fria vida me atingindo até os ossos. Olhando para o céu, comecei a falar com Deus (pois é, o silêncio é às vezes uma desculpa que uso para ficar papeando com Deus em pensamento) e fui percebendo o movimento daquelas nuvens enormes, carregadas, se desenrolando todas ligeiras para a mesma direção, como se estivessem indo atrás de alguém com quem estivessem bravas. Senti-me pequena. Ou melhor, minúscula. Agachei-me e orei: “Não entendo como Você pode ter tanta paciência com a gente, sendo assim tão imenso, maduro e assistindo à mesma história – a humana – se repetindo e se repetindo”. Foi aí que me bateu uma vontade maior do que o meu coração de ir para Deus. Não de me matar, mas de vencer o que me limita, passar para o outro lado daquelas nuvens grandiosas e estar com Deus em sua maneira eterna de ver as coisas. Foi bonito e intenso.

 

Morrinho
Vista que o morro atrás de casa me dá

Quando cheguei de volta em casa, recebi de minha irmã a sugestão de uma música (logo abaixo) sensível e que – coincidentemente ou não – trata a morte de forma melancólica e bela. Ao ouvir essa música e relembrar a experiência que vivi no morrinho, concluo que a morte não precisa ser sinônimo de desespero. Ela é um tunel apenas. Um tunel que liga esta terra à Poesia Infinita.

Time (Alan Parsons Project)

Time, flowing like a river
O tempo, fluindo como um rio
Time, beckoning me
O tempo, me chamando
Who knows when we shall meet again
Quem é que sabe quando nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river
Continua fluindo como um rio
To the sea
Para o mar

Goodbye my love,
Adeus meu amor
Maybe for forever
Talvez para sempre
Goodbye my love,
Adeus meu amor
The tide waits for me
A maré espera por mim
Who knows when we shall meet again
Quem é que sabe quando nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river (on and on)
Continua fluindo como um rio (continuamente)
To the sea, to the sea
Para o mar, para o mar

Till it’s gone forever
Até que tenha ido para sempre
Gone forever
Ido para sempre
Gone forevermore
Ido para sempre e sempre

Goodbye my friends,
Adeus meus amigos
Maybe for forever
Talvez para sempre
Goodbye my friends,
Adeus meus amigos
The stars wait for me
As estrelas esperam por mim
Who knows where we shall meet again
Quem é que sabe onde nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river (on and on)
Continua fluindo como um rio (continuamente)
To the sea, to the sea
Para o mar, para o mar

Till it’s gone forever
Até que tenha ido para sempre
Gone forever
Ido para sempre
Gone forevermore
Ido para sempre e sempre

 

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.