Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo V.

Sabe, não é fácil dizer por aí que não se quer ter um filho. Já recebi muito olhar torto e julgador. E quando eu dizia que não queria ter filhos pra uma mulher que ansiava ser mãe e não podia ter filhos, o olhar passava de julgador pra condenador e assassino. No começo me incomodava, depois fui deixando pra lá. Não importa pra ninguém se terei ou não um filho e isso é algo que muitos não entendem. Mas, por um tempo ainda dava explicações (como se devesse alguma, mas ok) do tipo: é muito caro, não tenho jeito com crianças, não poderia pagar escola, tenho medo de cesariana e no Brasil o parto normal é difícil e blá blá blá. Quando na verdade, a resposta era simples: eu não tinha a menor vontade de ser mãe e não queria arcar com a responsabilidade de colocar uma alma na Terra que será eterna (sim, de novo, isso é sério).

E aí, assistindo ao filme, encaro a cena lindíssima do casamento do Finn e da Annie (a que eu citei no capítulo IV, que me incomodou de forma diferente). Eles estavam no meio de uma guerra. O Finn ia pra batalha. Eles estavam (sobre)vivendo numa comunidade subterrânea. Tudo era cinza, tudo era sem vida, tudo era impessoal e frio. Mas eles estavam se casando, dançando, sorrindo. E uma palavra saltitava na minha mente: Esperança. Por que alguém que está nessas condições para tudo e celebra a construção de uma nova família, se casando? Porque tem Esperança.

“Não faltam voluntários para ajudar na decoração. Na sala de jantar, as pessoas conversam animadamente a respeito do evento. Talvez seja mais do que a festividade. Talvez seja porque estamos tão famintos para que alguma coisa boa aconteça que queremos fazer parte de tudo”. (Katniss narrando a cena do casamento, no livro).

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Distrito 13, subterrâneo. 
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Annie e Finnick.
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Existe Esperança no meio da guerra. 

Uma das consequências do esgotamento mental é a falta de esperança. Tudo que se sente é cansaço, uma vontade eterna de fazer nada, porque só o nada faz sentido. A gente continua com a maioria das atividades diárias por pura obrigação ou pela tentativa de sentir algum acalento (no meu caso, uma das formas de acalento é ir ao cinema!). E ainda assim, vez ou outra pifa e para, na marra. Não existe esperança. Só existe cansaço, físico, emocional e espiritual. Ou, simplesmente, cansaço, já que somos tudo isso de uma vez só.

A mistura esgotamento mental + falta de esperança na humanidade + problemas vários + falta de respostas + cansaço + a plena consciência da seriedade de colocar uma alma na Terra, tem um resultado simples: nunca ter filhos. Parece óbvio. E lógico.

Acontece que uma das minhas principais características é a resiliência. Eu tenho em mim esse instinto de sobrevivência dos lobos, como descrito por uma autora incrível, Clarissa Pinkola Estès, num livro igualmente incrível, Mulheres que Correm com os Lobos, que já indicamos aqui, inclusive:

“mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa”.

Eu não admito que o esgotamento mental, o cansaço e os problemas matem minha esperança no mundo. E eu não permito que a falta de esperança no mundo mingue minha vida. O tempo todo minhas lutas infelizes tentam reduzir minha fé ao pó, mas eu acredito no Criador e há muito converso com Ele sobre tudo isso, pedindo uma direção, um trilho seguro por onde caminhar.

E existe uma coisa interessante sobre orações: Deus responde. Mais que isso, Deus interage, se envolve, se relaciona. E Deus está em todos os lugares, Deus não está apenas num prédio, um espaço físico que a gente conhece pelo nome de igreja. No meu caso, quando Deus resolveu me dar uma resposta, Ele fez isso dentro da sala de cinema, enquanto eu assistia, aos prantos, um dos meus filmes favoritos.

Se você acha que a cena do casamento do Finn com a Annie foi tudo, eu te entendo, porque pensei que seria tudo, também. Foi uma cena linda e ali mesmo meu coração voltou a se aquecer. Mas aí, (alerta de spoiler!) o Finn morre na batalha. E morre com honra, com dignidade, cumprindo seu propósito, seu chamado. E quando começa a cena final do filme (sim, vai ter spoiler da cena final!), Deus me ajuda a resgatar o restinho de energia que tinha no corpo e me mostra que não importa o quão sujo o mundo seja, o quão sério seja criar um ser humano, o quão dura a caminhada pode ser, existe Esperança. A Esperança.

Depois de ler a carta que Annie escreveu pra ela, Katniss olha a foto de Annie com o bebê gracioso que ela teve com Finn, no meio da guerra, enquanto segura seu próprio bebê no colo. Em seguida, olha Peeta brincando com o filho mais velho, no campo, onde antes houvera dor e destruição.

bb finn e annie
Esperança
httpnicinefilo.blogspot.com.br201511jogos-vorazes-esperanca-o-final.html
Esperança

Eu não decidi que quero ter um filho porque bebês são fofinhos, nem porque a maternidade grita em mim, ou porque mulheres devem ser mães. Não decidi que quero ter um filho porque quero deixar um legado pro mundo, porque acho que o David será um pai encantador ou porque a sociedade diz que um casal não é família. Não decidi que quero ter um filho por mim, não decidi que quero ter um filho pelos outros, não decidi que quero ter um filho por causa da ilusão floreada da maternidade.

Eu decidi que quero ter um filho porque no dia 18 de Novembro de 2015, Deus me falou que eu ainda podia ter Esperança. A Esperança. E que Ela pode ser manifestada através de um filho.

Se vou gerar um bebê ou adotar? Não sei. Se uma dessas coisas vai acontecer em breve? Não sei. Se, afinal, serei mãe algum dia? Não sei. Mas, eu decidi que quero ter um filho. Porque eu tenho Esperança.

* As imagens usadas neste post foram tiradas aleatoriamente do Google e não me atentei em salvar os links, confesso. 


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo IV.

Nesses três anos pra cá, muitas coisas aconteceram. Como eu disse, passamos por um vale escuro e frio. O David foi demitido, eu montei um consultório lindo e caro que só durou um ano, trabalhamos muito e duro (somos autônomos, os dois…) Deus nos orientou a sair da igreja que crescemos e seguir um novo e desconhecido caminho, perdemos alguns ‘amigos’ nessa estrada, entramos num deserto e nem mesmo sei se já saímos dele. Eu tive um esgotamento mental e dá-lhe sessões de acupuntura, aromaterapia, psicoterapia, café com amigos, noites em claro em longas conversas com o David, yoga, meditação e muita, muita oração pra voltar pro eixo, pro meu equilíbrio. Mal saí dessa situção e o David também entrou. O esgotamento mental é um porre, porque por mais que a gente tivesse alegria no coração, desejo de fazer muitas coisas e fé, a gente se sentia tão cansado que às vezes simplesmente não tinha forças pra levantar. O cérebro falava “vai”, o corpo não reagia. E é um processo longo, ainda estamos saindo disso.

E aconteceu que em Novembro passado fui assistir ao último filme de uma das minhas sagas favoritas da vida, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, e uma das cenas (que eu já conhecia do livro, mas não foi tão tocante na época) me incomodou de uma forma diferente (no próximo capítulo falo melhor sobre ela). Se você ainda não assistiu os quatro filmes da saga, assista. E se ainda não leu os três livros que inspiraram os quatro filmes, leia. A história é uma distopia que, basicamente, narra o nosso futuro, descreve o horror que tem se transformado nosso mundo.

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Os três livros da saga, de trás pra frente na ordem de publicação. Leiam. Apenas leiam. É sério. 
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Sim, eu tenho o pôster do filme emoldurado, em casa.

Além de todas as minhas questões com a maternidade, uma coisa que pesava muito era o fato de o mundo ser um horror. As pessoas são mal educadas, mentirosas e falsas.

Outra coisa (e muito mais séria) é que ter um filho significa colocar uma nova alma na Terra. Vocês têm ideia da seriedade disso? Gente, não dá pra focar a atenção em xuxinha nova pro cabelo da bebê enquanto se sabe que uma alma nova foi colocada na Terra por você e que isso tem consequências eternas. Não dá. E eu sou uma pessoa séria e chata e sóbria demais pra não encanar com isso. São consequências eternas, entendeu? Não tem devolução, não dá pra voltar atrás na decisão.

Por que raios eu vou colocar um ser humano na Terra, um lugar hostil, perigoso, cheio de dor e maldade? As pessoas são cada vez mais egoístas e mesquinhas. A política é cada vez mais suja. A saúde é cada vez mais precária. A educação é cada vez mais negligenciada. Pessoas matam por cinco reais. Pessoas usam as outras como objetos. Homens estupram mulheres. Mulheres largam seus filhos no lixo. Tudo é dinheiro. E eu poderia ficar mais treze capítulos só descrevendo a escuridão e frieza que é o planeta em que vivemos.

Ouvi de algumas pessoas que era justamente por o mundo ser assim que eu deveria ter um filho, pra ele fazer diferença e ser Luz. Poético, acho. Mas gente, criança não se cria sozinha, entendeu? Tá na moda, mas não funciona. Criança precisa de limite e orientação. Precisa ser conduzida, construída. E isso quem faz é pai e mãe (ou cuidador adulto).

Essa moda da criação com apego só vai fazer com que daqui a 20 anos tenhamos milhares de bananas dependentes, mimados e mal educados pra lidar e conviver. E encontrar um meio termo entre a ditadura e permissividade é um árduo caminho.

Sim, a criança terá seu próprio caminho e deverá segui-lo, independente se for ou não o mesmo caminho dos pais, mas, ela não vai encontrar esse caminho sozinha. Papai e mamãe precisam orientar, conduzir. Levar até o primeiro passo dele e dar espaço pra criança ir, embora olhe de longe proporcionando apoio e suporte. É, né? Achou que era fácil? Não é. Fazer chá de bebê é fácil. Lista de convidados de aniversário de um ano é fácil. Passar a noite em claro controlando febre é fácil. Fazer aquele pequeno alien existir de forma autêntica e decente não é.

* As fotos deste post foram tiradas por mim, dos meus três queridos livros que guardarei pra sempre e do meu pôster exclusivo (mentira, todo mundo que comprou o ingresso pro filme ganhou um) que fica exposto aqui em casa.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Porque eu decidi que quero ter um filho (e não foi porque bebês são fofinhos) – Capítulo I.

Eu tenho quase vinte e nove anos de idade. Eu sou casada há quase oito anos. Eu não quero ser mãe. Não queria, até algumas semanas atrás.

Decidi que quero ter um filho e, como a escrita é uma das minhas formas mais queridas de expressão, compartilho aqui essa história, que dividi em cinco capítulos. De hoje até sexta feira, você pode me acompanhar e viajar comigo nos desdobramentos dessa decisão.

Quando casei, aos 21 anos, ainda vivia no padrão mental: nascer, casar, se reproduzir, morrer. Mas, dentro de mim já vivia o ser selvagem que dizia muito baixinho: querida, acho que isso não é pra você, ok? Então, eu decidi que esperaria cinco anos de casamento pra ter filhos (tempo longo, pensando no modelo que me cercava).

Mas tem um detalhe importante, que é o fato de eu acreditar em Deus e acreditar numa vida de propósitos. Portanto, desde que entreguei minha vida a Ele, uma possível maternidade estava debaixo da vontade dEle, também, e de um propósito muito maior que minha (talvez) alegria em ver um “remelentinho” correndo pelo apartamento.

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Não, gente, definitivamente não foi por isso que decidi ter um filho ;-).

Pois bem, chegou o ano 2013, em 3 de Julho eu completaria cinco anos de casamento e estava preparada pra fazer o teste de gravidez em 4 de Julho e ver um gritante “positivo” a minha espera.

Eis que ainda em Janeiro eu visitei alguns endocrinologistas pra ter segundas, terceiras e quartas opiniões sobre meu cansativo tratamento pra hipertireoidismo (já durava 4 anos), e todos me falaram a mesma coisa: precisamos mata-la. A tireoide, claro! Eu tinha duas opções: realizar uma tireoidectomia (retirada total da tireoide) ou tomar uma alta dose de iodo radioativo (que faria a tireoide, basicamente, se desfazer em mim).

A cirurgia era relativamente simples, teoricamente rápida, certeira em resultado, vida absolutamente “normal” 30 dias depois, mas, com todos os riscos de qualquer cirurgia e com o que todos os médicos disseram: você é muito nova, você tem ótimas chances com o iodo, você não precisa se arriscar numa cirurgia; O iodo radioativo era uma “inofensiva” cápsula que depois de ingerir, era só passar cinco horas ao ar livre longe de pessoas (pra não contaminar), esperar seis meses pra tireoide “derreter” e problema resolvido. Até a página 2. O iodo radioativo só tinha uma restrição: proibido engravidar nos próximos dois anos pós ingestão. Não me atrevo a entrar em explicações médicas, mas, resumidamente, os óvulos podem ser afetados pela radiação e aí sugere-se esse “tempo controle” pra que nenhum óvulo afetado seja “usado”.

Conversei em consulta com o médico que escolhi acreditar e com o David, orei, tudo levava a crer que a melhor possibilidade era o iodo radioativo. Eu me lembro que saímos do consultório, entrei no carro e comecei a chorar. Fomos até o Park Shopping São Caetano almoçar e ficamos dentro do carro, no estacionamento, comigo chorando copiosamente por quase uma hora. O David, me ouvindo pacientemente. Quando parei, ele disse: por que você está assim? Eu respondi: acho que não tinha ideia de que queria tanto ser mãe. E voltei a chorar. O David disse que eu continuava podendo ser mãe, só que dois anos mais tarde. Mas a questão não era essa, eu não queria apenas ser mãe, eu queria ser mãe com cinco anos de casada. Eu queria engravidar dia 4 de Julho de 2013.

* Foto deste post retirada daqui, devidamente manipulada pra (tentar) não constranger ninguém :).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Filmes & a temática feminina

Aproveitando que o final de semana está aí, que tal escolher um desses filmes (ou todos eles! por que não?!) para assistir?

Tenho certeza que será mais do que um entretenimento; será uma ótima reflexão.

Girl Rising

Richard Robbins, 2013 

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=81x6mYNxqzU

Não tem como assistir esse filme e não ser impactada… Em alguns momentos você se indignará, ficará pensativa, em estupefação, porém em outros (talvez na maior parte do filme), sentirá um enorme constrangimento, e daqueles que só é sentido quando comparamos nossas condições, estruturas e oportunidades com essas e tantas outras meninas ao redor do mundo que não possuem sequer 1/3 do que chamamos aqui no Ocidente, ou como nossa classe média abastada define, por direitos básicos.

O filme conta a história de 9 meninas de países diversos. Tais histórias foram recontadas por escritores, mas para trazer a essência de suas experiências, de forma bela, porém real. E entre uma história e outra o documentário traz dados interessantíssimos como, por exemplo:

“Aqui está um fato perturbador. A causa número um de morte para garotas entre 15 e 19? Não é Aids. Não é fome. Não é guerra. É parto. Quando as meninas se casam jovens, a educação termina. E os ciclos anteriores continuam. Ciclos de pobreza, ciclos de violência, ciclos de ignorância (Colocar todas as crianças na escola evitaria 700 mil casos de HIV por ano). Mas uma garota que vai estudar inicia outro ciclo (Meninas que estudam 8 anos são 4 vezes menos propensas a se casar jovem). Porque ela se manterá mais saudável. Ela vai se casar mais tarde. Ela terá filhos mais saudáveis (Um filho nascido de uma mãe alfabetizada tem 50% mais chance de passar dos 5 anos). E acima de tudo, ela terá filhos estudados (Mães estudadas são duas vezes mais propensas a mandar seus filhos para à escola). E não são só as mães. Os pais também devem investir. Assim, suas filhas podem sonhar.”

E eu se fosse você, começaria por ele ;-)


Miss Representation

Jennifer Siebel Newsom, 2011

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://vimeo.com/72015293

Esse documentário aborda a falta de representatividade das mulheres na grande mídia. Seja a representatividade atrás das telas, como ‘cabeças pensantes’, criadoras e geradoras de conteúdo, seja reproduzindo e representando o papel da mulher sob uma ótica distorcida, comercializada e machista.

“Mulheres detêm apenas 3% de cargos de poder em telecomunicações, entretenimento, publicações e propaganda. Isso significa que 97% de tudo o que você ‘sabe’ sobre si mesma, sobre seu país e o mundo vêm de uma perspectiva masculina. E não significa que isto esteja errado. Significa simplesmente que em uma democracia, que nós dizemos ser igualitária e com a participação de todos mais da metade da população não está participando” – Carol Jenkins (Presidente Women’s Media Center)


Pray The Devil Back To Hell

Gini Reticker, 2008

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=bi3nvH_Po5E

O cenário deste documentário é a Libéria, país que viveu uma sangrenta guerra civil durante o regime de Charles Taylor, que em 2003 foi forçado a exilar-se na Nigéria.

E como parte dessa revolução e fim da guerra, várias mulheres se unem, deixando de lado diferenças religiosas, para protestarem pacificamente pela paz. A Libéria é abençoada por ter essas mulheres que ajudaram a definir o destino de seu país sem derramar uma gota de sangue, mas que com lágrimas, orações e súplicas trouxeram um futuro melhor à sua nação.


Persépolis

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2008

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jUXo4zw0vXA

Persépolis é uma animação francesa, baseada na história em quadrinhos homônimo e autobiográfico da Marjane Satrapi.

A animação começa antes da Revolução Iraniana, quando Marjane tinha 8 anos, mostrando como ela era igual a qualquer outra menina de sua idade, mas conforme o tempo vai passando, a nova República Islâmica toma o poder do Irã, seu país de origem, e começa a controlar como as pessoas (as mulheres em especial) deveriam se vestir e se portar, obrigando-a a expatriar-se.

O filme é bem rico também, porque ao narrar toda a história da personagem, traz as angústias, os medos, as frustrações e traumas que todo o conflito e a ruptura acabaram causando em sua vida.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Ler opiniões diferentes do senso comum é também PENSAR!

Bruce

A questão de gênero e a decisão da Suprema Corte americana em favor da união civil gay têm suscitado reações das mais indiferentes às mais apaixonadas e contundentes. Raro, porém, tem sido ouvir uma voz ecoando contra toda a maré do senso comum, que leve à uma reflexão que possa contrabalancear – e por que não discordar? – tudo o que vem sendo dito e repetido à exaustão em todo veículo midiático de grande alcance.

Este artigo, competentemente traduzido pelo amigo Cristian Faber, trata da polêmica capa da revista americana Vanity Fair de junho (foto que ilustra este post, em que o ex-atleta olímpico Bruce Jenner aparece com sua nova identidade sexual) e o conteúdo do artigo traz à tona pontos nevrálgicos de uma questão que está longe de ser resolvida… de forma respeitosa, eu diria. Como era de se esperar, Matt Walsh, o autor do post original, recebeu críticas agressivas e muito, mas muito intolerantes da galera do bem, mas não cedeu às ameaças. Se você não concorda com o que ele escreve, precisa reconhecer, no mínimo, que o cara pensa por si próprio e tem uma coragem que é para poucos.

Pronto para encarar uma dose cavalar de argumentos que dão a cara pra bater em toda a ondinha pós-gênero que quer engolir o mundo inteiro?? Aí vai!

Chamar Bruce Jenner de mulher é um insulto às mulheres

Pais, atenção: em breve a gôndola de revistas no caixa do supermercado incluirá esta imagem profundamente perturbadora de Bruce Jenner. A foto está estampada na capa da próxima edição da revista Vanity Fair, e mostra Bruce produzido como uma boneca, com extensões de cabelo, vestindo um corset, partes do seu rosto, testa e pescoço depilados por motivos cosméticos, e seu peito modificado por pílulas de hormônio, Photoshop e silicone. A ideia é fazer um vovô de 65 anos parecer uma colegial, mas o resultado é uma versão distorcida de nenhum dos dois.

O que ele mais parece é um homem mentalmente perturbado que tem sido manipulado por gayzistas prepotentes e progressistas dissimulados. Longe de ter a aparência de uma mulher de verdade, ele me parece uma pessoa abandonada às suas próprias ilusões por uma cultura de imbecis narcisísticos. Tenho grande compaixão quando me deparo com essa tragédia – especialmente porque “transgêneros” recém operados frequentemente se arrependem da suas decisões, e em muitos casos tentam suicídio – mas poucos compartilham meu amor e preocupação com ele.

De fato, Bruce admitiu que depois da sua cirurgia de “feminização facial” teve um ataque de pânico, olhando no espelho e perguntando a si mesmo “o que foi que eu fiz comigo?” Esperamos que esse arrependimento não o leve a mais auto-mutilação, como levou muitos homens nessa situação. Eu temo o pior, porque Bruce está apressando os procedimentos para que a “transformação” coincida com a estreia de um reality show que está prestes a ser filmado. Eventualmente as cameras sumirão, e Bruce estará preso com o que ele fez consigo mesmo. Eu oro por ele quando esse momento sombrio chegar.

Em contraste, as chamadas animadas da mídia nos informam que Bruce posou para Vanity Fair para “estrear sua nova identidade”. Na entrevista acompanhando essas fotos terríveis, Bruce esquizofrenicamente refere a si mesmo na terceira pessoa, falando como se ele fosse duas pessoas diferentes.

Ele diz que ainda não decidiu se a segunda pessoa vai começar a dormir com homens, mas que não está focado nisso neste momento. Ele está apenas feliz que, por meio de extensa cirurgia plástica, altas doses de química sintética, kilos de maquiagem, e uso indiscriminado de Photoshop, ele pode finalmente ser ele mesmo. Desmantelando, mutilando, e editando a si mesmo, ele diz que é ele mesmo.

Em um segmento particularmente deprimente do artigo, Cassandra, filha de Bruce, diz que eles finalmente tem um relacionamento. Eles podem “ser meninas juntas”. Cassandra aparentemente desistiu de ter um pai, e se conformou em ter uma amiga com quem pode fofocar.

Isso é errado. Francamente, é nojento. Ao mesmo tempo em que sinto compaixão pelos problemas psicológicos de Bruce, é egoísmo fazer isso com seus filhos. Primeiro tira-se o pai deles, depois os força a lidar com esse processo devastador pro mundo todo ver.

É claro, enquanto a família carrega esse peso, a turba se estapeia para parabenizar o “heróico Bruce”. A ESPN até anunciou planos de dar-lhe o “Troféu da Coragem”. Houve um tempo em que esse tipo de coisa era dada a caras como Pat Tillman, que desistiu de fortuna e fama para sacrificar sua vida no campo de batalha, mas o significado de honra mudou muito desde então. Eu achei que tinha chegado ao fundo do poço ano passado quando deram esse troféu ao ex-jogador da NFL Michael Sam por ter alcançando o incrível feito de ser gay enquanto ainda era jogador.

Surpreendentemente, parece que a ESPN na verdade não é o árbitro mais confiável em termos de coragem.

(Falando de ESPN, noite passada, eu liguei a TV para ver o que costumava ser um dos meus programas preferidos, “Around the Horn” (programa esportivo em formato de mesa redonda da ESPN Americana), para ouvir suas análises das finais da NBA desta semana. Em vez disso, eu fui presenteado com um sermão de um escritor esportivo sobre como me certificar de estar usando os pronomes corretos quando me refiro a travestis. Eu realmente preferia saber como Lebron James e o Cavaliers estão, mas, sim, vamos ter uma lição de vocabulário transgênero. Legal! Obrigado! Sabe, se eu quisesse receber um sermão sem graça de bufões esquerdistas, eu não precisaria assistir ao maior canal de esportes do mundo. Existe Comedy Central pra isso)

A ESPN não está sozinha. Uma busca pelo Twitter e Facebook revela uma glorificação unânime, com “corajoso”, “linda” e “histórico” sendo indiscriminadamente jogados como confete.

É tudo muito triste.

Dito isso, eu não gostaria que alguém me acusasse de estar sendo crítico, então eu gostaria de oferecer, nesta ocasião gloriosa e sem precedentes do lançamento de uma revista “photoshopada”, umas poucas observações. Eu não estou interessando em destilar insultos sem embasamento – o que ainda sim seria muito menos danoso do que os elogios sem embasamento sendo lançados na direção de Bruce – então eu vou me limitar simplesmente a observar a realidade.

Neste momento, existem 5 realidades que saltam aos meus olhos:

Ideologia de gênero acaba com o feminismo

Como conservadores e cristãos fugiram apavorados da possibilidade de terem palavras sem sentido como “transfóbico” lançadas em sua direção, pode ser que em última instância, numa estranha virada do destino, as feministas é que tenham que combater a narrativa do “transgênero”. Se elas em algum momento entenderem que “ideologia de gênero” é um ataque direto à sua visão de mundo, talvez isso até cause uma guerra dentro das trincheiras progressistas.

Porque afinal, de acordo com a sabedoria feminista, não existe essa coisa de “cérebro feminino” ou “alma feminina” ou “se sentir feminina”. Pelas palavras de qualquer esquerdista que algum dia disse qualquer coisa sobre direito da mulher nas últimas 4 décadas, o modo como você se veste, pensa e sente não tem nada a ver com a sua feminilidade. Normalmente seria ofensivo e sexista acusar uma mulher de agir como, pensar como ou se sentir como uma mulher.

Mesmo assim, de repente, emoções e aparências definem uma mulher de maneira tão definitiva que até um homem pode se tornar uma, se ele alegar ter sentimentos que ele pensa serem femininos?

A coisa toda é uma grande contradição.

Feminismo e ideologia de gênero dizem duas coisas contrárias uma a outra sobre o que significa ser uma mulher. De fato, feministas criaram o termo “neurosexismo” para condenar a ideia misógina e pseudo-científica de que os cérebros do homen e da mulher são diferentes. Mas Bruce Jenner alega ter “o cérebro de uma mulher”. Então como isso funciona? Você vai me dizer que as únicas pessoas que podem ter cérebro feminino são… os homens?

Enquanto isso, feministas insistem regularmente que a ausência de útero e vagina tira dos homens o direito de terem uma opinião sobre aborto e coisas do tipo. Então um homem não pode ter opinião sobre problemas de mulher porque lhe falta a anatomia correta, mas ele pode na verdade se tornar uma, mesmo não tendo a anatomia correta?

Como é que isso pode fazer qualquer sentido?

Ideologia de gênero e feminismo não podem coexistir. Progressistas não podem ter os dois. Eles terão que escolher.

Da mina parte, eu concordo que nenhum homem pode jamais requerer feminilidade. Eu também concordo que existe sim cérebro feminino e alma feminina – e consequentemente emoções femininas, personalidade feminina e características femininas – mas o problema é que cérebro e alma femininos estão sempre contidos em corpos femininos. Um homem nunca vai nascer com o coração de um bicho preguiça, ou o fígado de um rinoceronte, ou o sistema de raízes de uma árvore, do mesmo jeito que nunca vai nascer com o cérebro de uma mulher.

Me disseram que brancos se apropriam da cultura negra quando ouvem Nikki Minaj ou usam aqueles bonés de aba reta. Não tenho certeza se essas ofensas constituem apropriação cultural indevida tanto quanto indicam um possível dano cerebral, mas esse não é o ponto. Se estamos mesmo preocupados com grupos se apropriando de outros grupos, eu acho que precisamos investigar essa coisa que chamar um homem de mulher só porque ele raspou o osso da testa, usa maquiagem e prende a genitália pra trás. Se você olhar bem, talvez encontre uma razão para achar que isso é uma apropriação indevida de feminilidade, ou pior, a degradação dela.

Há mais numa mulher do que apenas linhas faciais “feminizadas” e lingerie de babados. Bruce Jenner travestido não é bonito! Mulheres são lindas porque são mulheres. Feminilidade é bonito. Mulheres representam algo distinto e especial no mundo. Elas preenchem um vazio e desempenham um papel que nenhum homem pode.

Uma mulher não é uma mulher simplesmente por causa dos traços cosméticos que um homem possa simular. Uma mulher é uma mulher por conta da biologia, que Bruce não tem e nunca terá. Uma mulher é uma mulher por causa da sua capacidade de criar vida e abrigá-la em seu corpo até o nascimento, coisa que Bruce não pode fazer. Uma mulher é uma mulher por sua alma, mente, perspectiva, experiências e seu jeito único de pensar, de amar e de ser – todas essas coisas que Bruce pode apenas tentar simular.

Uma mulher é uma mulher. Ela mereceu esse título. Ela pagou por esse título. Ela sofre com esse título, dá vida com esse título, vive da concepção à morte e além com esse título. Ela é esse título. Ninguém deveria dizer a essa mulher que isso é uma coisa qualquer que um homem com dinheiro suficiente possa comprar. É degradante e reducionista, em como pai, marido, filho e irmão, eu não posso concordar com isso. Só posso imaginar como uma mulher se sentiria se sequer pensasse numa coisa dessas.

E note que eu digo “eu só posso imaginar” porque é o máximo que eu posso fazer. Eu não posso vivenciar os pensamentos ou sentimentos de uma mulher pelo fato de que eu não sou uma.

E Bruce também não é.

Identidade não está nos olhos de quem vê

Sendo honesto, eu não gosto do título que o site TheBlaze usou para esse artigo, e também não gosto dos títulos usados por outras publicações.

“Bruce Jenner Revela Novo Eu Feminino”

O quê?

Não tem essa de “novo eu”, ou “outro eu”, ou um “eu diferente”, ou um “eu 2.0”. O seu “eu” é você. É a sua existência. A sua pessoa; seu caráter único e irrepetível. Seu “eu” é seu corpo, mente, alma. É fisicamente, metafisicamente, espiritualmente, filosoficamente, cientificamente, racionalmente e logicamente impossível para um “eu” se transformar num “novo eu”. Um “eu” só pode ser o que já é.

“Bruce Jenner Revela Novo Eu”

“Bruce Jenner Estreia Nova Identidade”

“Bruce Jenner Faz Premier Mundial de Nova Alma”

Estamos falando de mudança de sexo como se fosse um produto da Apple! Com essa linguagem nós não apenas fizemos o “eu” mutável, como também o mercantilizamos e o transformamos num espetáculo que pode ser usado para fins lucrativos. Isso é a bastardização da nossa humanidade em escala e nível que não teriam passado nem pelas mentes mais perturbadas dos mais proféticos críticos sociais do último século!

É tudo tão vil, bizarro e ridiculamente impensável que nenhum escritor distópico de ficção científica poderia ter pensado que o colapso da sociedade ocidental se pareceria com isso. Neste momento Orwell e Huxley estão rolando na tumba com profundo arrependimento: “Cara! Um futuro apocalíptico onde pessoas são tão mimadas, vaidosas e entediadas que fingem poder estalar os dedos e reformatar suas almas do zero – por que eu não pensei nisso?”

Não há nada de autêntico nessa versão de Bruce

Depois de muitos anos e pelo menos uma dúzia de campanhas da Dove, parece que, pelo bem da agenda gay, nós abandonamos completamente a ideia de que “mulheres não devem ser photoshopadas ou rebocadas com maquiagem e silicone de modo a reforçar o padrão subjetivo de feminilidade”. Talvez a única coisa na qual os esquerdistas estiveram realmente certos, agora foi jogada no lixo porque não corrobora com a narrativa gay/transgênero.

Ou seja, você não pode mais voltar a falar por aí coisas como “beleza natural” da mulher, depois de ter chamado Bruce de “corajoso” por ter usado melhorias cosméticas e digitais pra tentar alcançar uma aproximação superficial disso. Você não pode mais amaldiçoar a indústria da moda por aparar, emagrecer, cortar, pintar e operar mulheres pelo bem do encanto físico depois de ter acabado de falar sobre como Bruce alcançou sua “verdadeira identidade” através dos mesmos métodos.

GLAAD (ONG Americana que defende homossexuais e transgêneros contra violência física e verbal) aplaudiu Bruce por ser agora seu “eu autêntico”. Tragicamente eles não estavam tentando ser irônicos. Uma imagem digitalmente modificada, alterada cosmeticamente, de pose manipulada, adulterada quimicamente, basicamente um cartoon numa capa de revista, agora é “autêntico”, de acordo com os desonestos incuráveis da militância gay.

Autêntico, pelo amor de Deus. Eu tenho mesmo que explicar o porque dessas palavras serem completamente impróprias nesse contexto?

Essa foto é a definição literal de falso. Se isso não é falso, então nada é. Você não pode chamar de “falsa” uma mulher, legitimamente atraente, por causa de algumas fotos retocadas para aumentar o que já estava lá, se Bruce não recebe esse rótulo tendo passado por cirurgias no rosto, usado uma quantidade absurda de maquiagem, e ter escondido suas mãos e enfiado seu pênis entre as pernas, para disfarçar o que nunca esteve lá. Se isso é “autêntico” então eu posso despejar um pouco de Mac and Cheese da Kraft numa tigela e chamar de “autêntica cozinha italiana”, e Taylor Swift pode fazer umas musiquinhas dance sobre brigas de namorados e chamar isso de “autêntica música country”.

A batalha pela realidade

Vão me dizer, principalmente os conservadores, para deixar esse assunto pra lá e achar algo mais importante pra comentar. Mas milhões e milhões e milhões de pessoas – na mídia e fora dela – já falaram mais sobre esse assunto e já demonstraram mais interesse por ele do que eu jamais fiz, e mesmo assim nunca ninguém os mandou calar a boca e esquecer. Enquanto conservadores justificam sua covardia miserável insistindo que isso é apenas um showzinho secundário irrelevante e que eles estão ocupados em assuntos mais sérios, você vai perceber que esquerdistas tratam “ideologia de gênero” como uma das mais importantes fronteiras culturais.

Toda vez que um transgênero usa o banheiro hoje, esquerdistas fazem um carnaval, como se os Aliados tivessem acabado de derrotar a Alemanha Nazista.

Bruce Jenner posando com roupa íntima de mulher foi manchete no país todo. A Casa Branca chamou isso de “corajoso” e “poderoso”. O Presidente dos Estados Unidos da América, líder da nação mais poderosa da Terra, veio publicamente para saudar a “coragem” de Bruce em ter seios falsos e pernas depiladas. Foi o trending topic número 1 em todas as redes sociais. O alterego feminino de Bruce Jenner ganhou mais de 1 milhão de seguidores no Twitter em 4 horas.

Todos agem como se fosse uma grande coisa. Contanto que tenham a opinião “correta”, eles tem permissão.

E eles tem razão – é uma grande coisa.

Esta é uma batalha pela realidade, gente. Acordem pro jogo!

Se progressistas podem exercer o poder de demolir e reinventar a definição mesma de “homem” e “mulher” à sua imagem ideológica, então eles alcançaram uma total e irreversível vitória cultural. Eles engolfaram o universo e remodelaram a realidade. Eles se tornaram deuses, ou pelo menos é esse o poder que estamos dando a eles. Você pode tagarelar sem parar sobre economia e política externa, mas se vivemos num país onde confusão, perversão e auto-adoração reinam supremos, qual o objetivo? A América já estará morta.

Todos nós sabemos a verdade

Última pergunta para as pessoas – especialmente homens heteros – que alegam que não há diferença real entre um “transgênero” feminino e uma mulher de verdade: Você casaria com uma mulher que era homem? Você olharia para esse “ex” homem e pensaria “Eu quero que ele seja minha esposa”?

Resposta: Não. Você não faria isso. Você não fará isso. E você sabe disso. Instintivamente, quando o que está em jogo é sua vida e amor, você reconhece a diferença entre uma mulher biológica em toda a sua glória, e um homem castrado em toda a sua loucura. Estou gastando milhares de palavras convencendo você de algo que você já sabe. E eu sei que você sabe. E todo mundo sabe que todo mundo sabe.

Então porque ainda estamos tendo essa conversa?

Isso eu não sei. Mas enquanto ela continuar, eu vou continuar lembrando você de coisas que você já sabe, porque alguém tem que fazer isso.

Bruce Jenner não é uma mulher, em nenhum sentido ou medida.

E você já sabia disso”.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Parem o mundo que eu quero descompressurizar

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Criar, educar e amar um filho (não necessariamente nessa  ordem) têm sido uma tarefa tão desafiadora para mim, que me  deixa, por vezes, exausta. Não disponho mais das mesmas horas  de sono, nem do mesmo tempo livre – que, quando existe, é  dedicado a uma brincadeira ou um passeio mais longo com o bebê  –, nem do mesmo pique para frequentar festas ou eventos cheios  de gente. Minha vida nunca foi tão corrida e dependente da minha  atuação como agora.

Mas existe algo que tem o poder de me desgastar ainda mais do que os cuidados inerentes à maternidade: a realidade do mundo. Pessoas impondo sua visão sobre as outras, sob o argumento de que discordar é intolerar ou discriminar, polêmicas estéreis infindas sobre partidos políticos, teologias, o chef de cozinha que falou mal do brigadeiro, o cantor que pediu mais respeito em seus shows. Greves, guerrilhas, tragédias, desemprego, deseducação, carências, melindres, preconceitos sufocados pela ditadura do politicamente correto (e os politicamente corretos jurando que estão vencendo o preconceito, como se ele fosse um problema fácil assim, de superfície, quando o buraco é bem mais embaixo, onde poucos têm acesso).

Obviamente que, globalizados como estamos, esses e outros problemas não são exclusividade do Brasil, mas reverberam em maior ou menor grau por todos os continentes. A questão não é brasileira, mas humana. E é aí que me bate um cansaço, uma preocupação, uma tensão nos ombros: o que será de nós??

O convite de Jesus, então, aparece como um alívio, uma esguichada de água em dia quente, uma coca gelada com limão para acompanhar a feijoada: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28). Sério mesmo, Jesus? Sério que posso chegar até você e ter todo o peso do mundo retirado dos meus ombros: pressão, prazos, polêmicas, mimimis e todo o resto??

E, assim, numa oração, sou descompressurizada.

O convite de Jesus ao descanso é autenticamente democrático. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, pode aceitá-lo e usufruir de seus efeitos. É revigorante e, de quebra, nos torna bem preparados e ativos para retornar ao cenário do caos.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A imagem veio daqui