O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.