O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Desistir ou persistir? O dilema que enfrentamos desde a infância

Duy Huynh
Ilustração de Duy Huynh

 

Eu tinha sete anos quando fiz a primeira grande desistência da minha vida: larguei o curso de piano. Ter de estudar solfejo e praticar as melodias representavam uma tortura chinesa para mim. Assim, pulei de alegria quando minha mãe – saturada do meu corpo-mole e das minhas reclamações – finalmente cancelou minhas aulas. Depois vieram outras tentativas… violino, bateria, canto, coral. Todos abandonados sem dó nem piedade. Quando decidi estudar inglês, meus pais ficaram na expectativa: e aí, quando será que ela vai desistir? Surpreendentemente, essa foi a primeira grande não-desistência da minha vida. Completei todo o curso e fui além. Viajei, me aprimorei, tirei certificados, fiz uma faculdade que incluía literatura e língua inglesas e me tornei professora.

Mas o inglês se tornou uma exceção numa existência – a minha – marcada muito mais pelas desistências do que pelas persistências. O francês ficou difícil? Desisto. O curso de escrita criativa é muito longe? Não vou mais. As aulas na academia acontecem muito cedo? Perco a hora. A prova prática da auto-escola é comprada? Deixa ela pra lá. Estou enfrentando problemas pessoais? Tranco minha matrícula na faculdade de teologia. Desistir se tornou para mim uma solução muito atrativa, porque era rápida e certeira, como um band-aid que sai do machucado de uma arrancada só.

Se pensarmos bem, desistir é, de fato, uma saída pronta para as questões da vida. Se algo não está bom, se não sai a contento, se não agrada, se enjoou, o descartamos. Nos habituamos tanto a desistir de tudo, que passamos a desistir em escalas cada vez maiores… desistimos de empregos, de sonhos, de pessoas e de relacionamentos. Alguém muito próximo a mim, aliás, tem tentado desistir até mesmo da própria vida. E assim, vamos abandonando pelo caminho possibilidades de uma “vida inteira que podia ter sido e não foi”, como escreveu Manuel Bandeira.

Esta semana eu estava prestes a desistir de novo. Estou cursando Pedagogia e neste semestre, que é o último, me vi no meio de um mundo de responsabilidades, horários, prazos, trabalho de conclusão, estágios, maternidade, trabalho normal – tudo junto, embolado. Perguntei a mim mesma se eu daria conta de equilibrar todos esses pratinhos sem deixar nenhum cair da vareta e a resposta foi não, eu não daria conta. Na hora, curti minha honestidade em admitir minha limitação – resultado de uma certa prática de autoconhecimento, não? – logo, só o que eu precisaria fazer era mandar um e-mail à faculdade, cancelando o curso. Ainda assim, no meio desse alívio de me liberar da responsabilidade com os estudos, algo me dizia que minha habilidade de me autoconhecer e me auto-sondar estava com algum defeitinho… lá no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que estava de novo recorrendo ao meu mais antigo vício na vida: a desistência. Então, me lembrei das vezes que desisti, das vezes que me arrependi (que não foram todas), das vezes que pude voltar atrás e das que não pude. Eu precisava romper com esse padrão, investigar em mim se existia alguma espécie de preguiça em algum ponto da minha personalidade que precisava despertar, crescer, amadurecer, se transformar! Sempre tem. Foi doloroso para mim decidir pelo caminho da persistência, como um parto em que nascemos de nós mesmos, parafraseando a minha Clarice. Entretanto, no momento em que reassumi os estudos do meu curso de Pedagogia, senti uma alegria indescritível. A desistência não deu a palavra final. Eu dei.

Essa experiência simples me proporcionou um mar de reflexões (cuja síntese é este post), principalmente no que diz respeito às pessoas. Algumas configurações de relacionamento se mostram tão complexas, que nos convidam à desistência. Buscamos fugir dos desafios que apresentam e de sua unicidade (ou seja, não há receita pronta que as resolva), mas talvez, ao optarmos por abrir mão desses vínculos, estejamos também a optar por um empobrecimento de vida. Afinal, as relações complexas, inexplicáveis, podem carregar em si o potencial de nos levar à superação de velhas preguiças e de nos tirar da órbita do nosso próprio umbigo para uma conexão verdadeira, profunda e insubstituível com o outro.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A dor de quem gosta sozinho

 

dordequemgostasozinho
Ilustração de Crisalys

 

Quando eu tinha 16 anos, uma menina que eu conhecia havia muito tempo, mas que não era uma grande amiga minha, me abordou para dizer que gostava muito de mim e que queria se aproximar, mas que eu não dava muita abertura. Isso me chocou. Primeiro, porque eu também gostava muito dela e, segundo, porque eu nunca tinha percebido que ela havia tentado se aproximar. Fiquei um pouco sem graça e me desculpei, sem saber como justificar a minha falta de sensibilidade.

Na faculdade, outro caso parecido: uma querida da minha sala descobriu que morávamos no mesmo bairro e, por algum motivo que eu desconhecia, ela fazia questão de me esperar para irmos embora juntas. Ela também sempre achava um jeito de se aproximar durante as aulas e a determinação dela fez com que uma amizade muito preciosa nascesse entre nós. Somos grandes amigas até hoje.

Coleciono no currículo pessoas que admirei de longe e de quem quis me aproximar ou de quem me aproximei por um tempo, mas que partiram da minha vida em seguida. Lembro-me especialmente de uma pessoa que frequentava a igreja onde frequento, uma jornalista toda estilosa, cheia de personalidade e que cantava lindamente. Por muito tempo, eu a observei, pensando no quanto eu seria acrescida se me tornasse amiga dela. Um dia, criei coragem e me aproximei. Resultado: trabalhamos juntas por um tempo e eu pude aprender muito com ela.

A vida nos proporciona a oportunidade de colecionarmos casos assim. Pessoas de quem gostamos muito e com quem adoraríamos conviver, mas que são difíceis de acessar, ou porque estão longe geograficamente ou porque romperam conosco ou porque nem fazem ideia de que existimos. É a dor de quem gosta sozinho.

Hoje falei com Deus sobre essa dor. Num mundo ideal, onde a maldade não existisse, poderíamos todos nos aproximar uns dos outros sem medo, sem malícia, sem risco de rejeição e sem reservas. Exerceríamos a liberdade pura. Deus, então, me contou de novo que é uma realidade exatamente assim que Ele está preparando para nós; porém, por enquanto, neste nosso mundo quebrado, a dor de gostar sozinho pode acontecer a qualquer instante, não tem jeito. A diferença está na esperança de que um dia vamos dar um abraço gostoso em todos esses nossos queridos. E melhor do que isso ainda: eles irão nos abraçar de volta.

 

Mas era amar o nosso amor querer que alguém fosse feliz
somente
porque o amávamos.

Clarice Lispector

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

E a romantização continua…

Um dos meus temas preferidos na escrita e na vida é o amor. Assim, estou sempre ligada no que é postado sobre o tema. Há duas semanas, voltou a rodar por aí um artigo do filósofo Alain de Botton, ranqueado como o texto mais lido do NY Times em 2016.  Para quem não o leu, um resumo: o filósofo acredita que essa história de encontrarmos alguém que nos faça total, substancial e paradisiacamente feliz em um casamento é lenda (assunto do nosso último post aqui do blog, aliás). Para ele, a felicidade completa em uma união seria irrealizável pelas seguintes razões:

  1. Devido à profunda intimidade que um casamento pressupõe, com o tempo, acabamos descobrindo as esquisitices mais bombásticas do nosso parceiro (e ele, descobrindo as nossas);
  2. O que nos move na escolha de um parceiro é um padrão de desajuste que vivenciamos em episódios da nossa infância, logo, tendemos para uma escolha “errada”, mesmo que puramente guiados pelos sentimentos (isso eu entendi mais ou menos, rs);
  3. Temos horror à solidão e por isso fugimos dela;
  4. Queremos engarrafar um sentimento gostoso e eternizá-lo por meio do casamento.

Segundo Botton, tudo isso nos direciona para um casamento frustrante. Mas ele não encerra o texto nesse tom pessimista:

A boa notícia é que não importa se nós achamos que nos casamos com a pessoa errada. Não precisamos abandoná-la, mas sim abandonar a ideia romântica, sobre a qual o Ocidente tem sustentado a compreensão do que é o casamento pelos últimos 250 anos: que um ser perfeito existe e pode suprir todas as nossas necessidades e satisfazer cada carência nossa.

A partir desse ponto, Alain de Botton propõe que a gente substitua essas expectativas tão sonhadoras do romantismo por algo mais pé no chão, que leve em conta que nenhum ser humano pode nos salvar de nós mesmos. Para ele, a pessoa que mais combina com a gente é aquela que lida com as diferenças do casal com gentileza e sabe negociá-las. E conclui: compatibilidade é uma conquista do amor, não seu pré-requisito.

Assim que terminei de ler esse texto, pensei: ainda bem que esse texto existe!

De fato, alguém tão influente como ele ter escrito um texto tão sincero provocou em mim uma esperança pelas pessoas que estão nesse dilema e por aquelas que ainda virão a se relacionar. Se eu tivesse lido um texto assim e realmente acreditado nele 15 ou 20 anos atrás, talvez eu tivesse sido poupada e poupado outras pessoas de muita dor. Conforme contei no post da semana passada, eu fui, pela maior parte da minha vida, uma viciada em romantizações. E meu caso parecia perdido.

Mas se engana quem pensa que a romantização não serve para nada. Ela tem uma função bastante importante, que é a de atrair duas pessoas uma à outra. Porque se fosse verdade apenas o que Alain de Botton defende, então poderíamos nos relacionar com a primeira pessoa parada no ponto de ônibus, que tudo bem, iria dar certo de qualquer jeito, concordam? E por que não é assim?

A história de Jacó, encontrada na Bíblia, é um ótimo exemplo da influência da paixão muito antes do movimento romântico que deu o tom nos séculos 18 e 19 (e 20, 21…). Naqueles tempos remotos, as pessoas que viriam a formar o povo judeu se casavam com outros da mesma família, para que a linhagem não se misturasse e se perdesse. O pai de Jacó, observando esse procedimento, o mandou viajar até a casa do tio para lá encontrar uma noiva e Jacó foi. Ao chegar lá, ele viu a sua prima mais nova, Raquel, e se apaixonou por ela (Gênesis 29.18). Quando ele encontrou o tio, o tio lhe ofereceu trabalho e perguntou o que Jacó queria como pagamento. Jacó respondeu: Eu te servirei sete anos por Raquel, tua filha mais nova (29.18) – e o tio aceitou a proposta. Jacó serviu, então, por Raquel, durante sete anos, que lhe pareceram alguns dias, de tal modo ele a amava (29.20).

Jacó trabalhou por sete anos, sonhando em se casar com Raquel. A questão é que Raquel tinha uma irmã mais velha, Lia, que também era solteira. E, segundo o costume deles, era a mais velha que deveria se casar primeiro, depois a mais nova. Então, quando os sete anos de trabalho de Jacó terminaram, o tio dele trapaceou e fez com que ele passasse a noite com Lia no lugar de Raquel. E, assim, seu casamento com Lia foi consumado. Jacó ficou muito bravo e pediu explicações ao tio, que mencionou o costume de que era a filha mais velha que devia se casar primeiro. Como a poligamia era aceita naqueles tempos, o tio de Jacó prometeu que daria também Raquel a ele em casamento, o que ele de fato fez na semana seguinte, mas Jacó teve que trabalhar mais sete anos para “pagar” por sua amada. Jacó uniu-se também a Raquel e amou Raquel mais do que a Lia (29.30).

Essa história nos mostra claramente que existe, sim, uma diferença clara entre uma pessoa com quem nos relacionamos movidos por paixão e uma pessoa com quem só nos relacionamos. A paixão nos impulsiona a nos unir a alguém, a querer nos aprofundar no conhecimento e na intimidade com esse alguém, a construir alguma coisa ao lado desse alguém. É o imã, o tempo gostoso de construção de um vínculo, uma fase que define se vamos ou não continuar a caminhada juntos. É o frio na barriga, a espera ansiosa, os sorrisos gratuitos, a cabeça nas nuvens.

Mas e quando essas sensações todas passam, seria a hora de encerrar e partir para outra?

É exatamente nesse ponto que considero a reflexão de Alain de Botton de grande utilidade pública. Porque é justamente nessa metamorfose da pura paixão para algo que não é mais pura paixão que muitos desistem, por acharem que o amor acabou. E é nesse momento que cabe a nós nos perguntar: o que será que existe do outro lado da margem da paixão? O que nos espera depois da crise, da dúvida e da decisão de permanecermos juntos?

Demorei quase dois anos para responder essa pergunta e transpor esse rio. Lembro-me das longas sessões de terapia, em que eu repetia insistentemente à psicóloga que eu não via a hora de passar para o “nível 2” da minha relação com o meu marido. E lembro-me das palavras dela, me dizendo como eu experimentaria uma conexão profunda com ele ao chegar lá. Não seria um sentimento desesperado e ansioso como a paixão. Seria algo diferente. Seria um amor doce e consistente, como uma fruta madura.

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

(Soneto 29. Luís de Camões, poeta português, 1524-1580)

 

rafael-jacob-rachel
Encontro de Jacó com Raquel (1518-1519), do pintor renascentista italiano Rafael.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As marés da vida

Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick
Imagem do filme ‘To the Wonder’ (Amor Pleno) do Malick

No devocional desta semana, li um texto lindo escrito por Anne Morrow Lindbergh* no qual ela compara os ciclos da vida às marés de uma praia. Ela escreveu este texto quando ficou sozinha em uma ilha, durante um mês inteiro, para descansar de sua rotina (escritora, piloto de avião, casada e com 5 filhos) e buscar a solitude.

Usando metáforas relacionadas à ilha na qual ela estava (o mar, as conchas, as marés, os pássaros…), Anne reflete sobre as diversas etapas da vida e dos relacionamentos; sobre a necessidade de estar sozinho (viver a solitude regularmente) para poder estar junto com os outros, de se fortalecer para só depois se doar, de ser inteiro quando o mundo nos torna fragmentados.

Sua reflexão me fez pensar nos ciclos normais de nossas vidas e de nossos relacionamentos. Os momentos em que estamos totalmente dedicados aos amigos e os momentos em que nos afastamos para estudar para uma prova difícil; os momentos em que nos apaixonamos e os momentos em que estamos sozinhos; os momentos em que vivemos para os filhos e os momentos de dedicação a um trabalho; os momentos em que adoecemos e diminuímos o ritmo e os momentos em que esbanjamos energia e saúde…

Também nos afastamos e aproximamos daqueles que amamos e que caminham mais perto de nós (nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, namorados, maridos e esposas). Os relacionamentos não são estáticos, há encontros e desencontros enquanto caminhamos juntos e nunca estamos sempre próximos ou sempre distantes. Há ciclos, há fases… como as marés.

Há tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar.
(Eclesiastes 3:5)

Às vezes caminhamos muito próximos de alguns amigos, depois nos afastamos, apesar de continuarmos amigos. É interessante também perceber as marés de nosso relacionamento com Deus. Às vezes, temos experiências de sua presença marcante, outras vezes, sentimos seu silêncio.

A vida é dinâmica. Mas tendemos a nos apegar com força para tentar fazer o momento durar para sempre. Schaeffer já dizia que precisamos aprender a estar presentes para o outro e a viver o momento presente. Respeitar estes ciclos de nossos relacionamentos pode resultar em mais gratidão (e alegria) e em menos ansiedade (e medo).

Se você se render completamente aos momentos que passam, viverá de maneira mais rica esses momentos.
(Anne M. Lindbergh)

A seguir, compartilho um trecho desse devocional com vocês.

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O fluxo e o refluxo da vida

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

Como podemos aprender a viver através das marés de nossa vida? Como se pode aprender a viver as marés baixas da vida? Como aprender a aceitar o vácuo entre duas ondas? É fácil entender isso aqui, na praia; onde a maré baixa, em seu silêncio, revela uma outra vida sobre a superfície, o reino secreto do fundo do mar… moluscos, estrelas-do-mar, mariscos coloridos, conchas… É tão linda a hora silenciosa do refluxo do mar, tão linda quanto a hora do retorno, quando as ondas agitadas se quebram na praia.

Talvez seja esta a coisa mais importante que levo de volta da minha estada à beira mar: simplesmente a lembrança de que cada ciclo da maré é válido; cada ciclo da onda é válido; cada ciclo de um relacionamento é válido.

Quando se aceita o fato de que, mesmo entre os seres humanos mais próximos, continuam a existir distâncias infinitas, pode-se desenvolver uma vida maravilhosa lado a lado. Para isso, os parceiros precisam aprender a amar a distância que os separa, e que possibilita a cada um ver o outro inteiro, como um todo, tendo como fundo a amplidão do céu!
(Rainer Maria Rilke)

Fonte: Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 143–144.

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Anne e Charles Lindbergh
Anne e Charles Lindbergh

*Anne Morrow Lindbergh (1906–2001) e seu marido Charles Lindbergh ficaram conhecidos por realizar viagens de avião transoceânicas (ele era piloto e ela era navegadora e operadora de rádio, mais tarde ela se tornou a primeira mulher americana a obter brevê de piloto de planador). Ela escreveu várias histórias das viagens. Sua fé aparece em seus escritos, principalmente no livro Presente do Mar (que apresenta estes trechos citados acima).

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E ainda pensando nisso. Pensando nas marés da vida e dos relacionamentos, podemos nos sentir inseguros com essa intermitência e ciclos contínuos, com medo de fazer algo errado e perder a relação imediata com a realidade e com aqueles que amamos.

Mas, então, eu me lembrei do que Bonhoeffer (no livro Discipulado) fala sobre a relação imediata ser uma ilusão (por causa da queda, eu não tenho mais uma relação direta com o outro) e Cristo ser o mediador. Não apenas entre mim e Deus, mas entre mim e a realidade, e também entre mim e os outros, Cristo é o único mediador.

Por isso, então, podemos nos sentir seguros em nossos relacionamentos e nas marés da vida. Podemos reconhecer nossas falhas e limitações, assim como as dos outros. Aceitar as ondas de alegria e as ondas de tristeza. Podemos exercer o perdão e a paciência, podemos experimentar a beleza e a esperança ao vivermos o presente.

Porém, não ao olhar para nós ou para os outros, mas apenas ao confiar nAquele que sustenta nossos relacionamentos (que nos aproxima e afasta) e que conduz cada ciclo de nossas vidas em amor.

Entre pai e filho, marido e mulher, entre o indivíduo e o povo, ergue-se Cristo, o Mediador, quer consigam reconhecê-lo, quer não. Não há para nós qualquer caminho ao semelhante que não seja o caminho através de Cristo, da sua Palavra e de nosso discipulado.
(Dietrich Bonhoeffer)


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Sede

 

xuanlocxuan
Ilustração de Xuan loc Xuan.

 

– Estou indo até o poço pegar água.

– Uhm… – Ele murmurou, sem nem se mexer da cama.

Eram onze e dez e eu, como de costume, cobri minha cabeça, peguei a moringa que guardo embaixo da pia, ajeitei-a no ombro e lá fui pela estrada poeirenta. Aquela caminhada me fazia bem, porque eu me distraía da angústia que me dava por vê-lo dormir até tão tarde. Gostava de pensar sobre nós dois e sobre o rumo que as coisas estavam tomando. Queria que conversássemos mais, que fizéssemos planos de viajar pela Palestina e ele me contasse como era o Reino do Sul, que lugares visitou em Jerusalém, quem ele conheceu… esses detalhes que eu só sabia por ouvir algumas conversas dele, quando alguém o visitava e eu me escondia atrás da porta. Ele sempre tão interessante. Conhecia gente importante, tinha amigos, tinha uma caligrafia linda e falava certinho, sem erros de aramaico. Tudo bem que o fato dele ser notívago (aprendi essa palavra com ele) sempre me incomodou, mas é que ele gostava de estudar até tarde. Era assim que ele era e era assim que eu o queria.

E foi enquanto eu pensava nessas coisas todas, que percebi que eu estava chegando ao poço e, à beira dele, vi um homem sentado. Que estranho… um homem que não era mestiço como nós. Um homem judeu. Estremeci por dentro. Fingi que não havia reparado na presença dele e me apressei para tirar água e começar a viagem de volta para casa. Lancei o balde poço abaixo e ele desceu despencando, batendo contra as paredes do poço até atingir a água. Trêmula, fui puxando o balde de volta e quando finalmente ia despejar a água na moringa, eu ouvi:

– Você poderia me dar um pouco dessa água, por favor?

Senti minhas bochechas vermelhas de vergonha. Respondi:

– Desculpe, mas como o senhor está falando comigo e me pedindo água? Vocês, judeus, não gostam dos samaritanos… não entendo.

–  Se você conhecesse a generosidade de Deus e quem eu sou, você me pediria água e eu daria a você uma água diferente, viva.

– Mas com o que o senhor pegaria essa água? O senhor não trouxe balde, nem moringa.

– Você não entendeu. Qualquer pessoa que beber da água desse poço aí vai sentir sede de novo. Porém, a água que eu ofereço não deixa ninguém com sede de novo, nunca mais. A minha água vai brotar de uma fonte dentro de você e vai jorrar para sempre.

– Eu quero dessa água! Já pensou? Nunca mais vou precisar vir aqui no poço! Que incrível!

– Vai lá chamar o seu marido, então, e volte.

Na mesma hora, fiquei sem graça e baixei a cabeça.

– Eu não tenho marido não, senhor.

– É verdade, eu sei. Você já foi casada cinco vezes e agora tem um caso com um cara. Sei de tudo isso.

– Então o senhor é profeta…  – tratei logo de mudar de assunto – Sabe, tenho algumas dúvidas sobre onde devemos ir para adorar a Deus… não sei se aqui ou se em Jerusalém, fico confusa.

– Não se preocupe com isso. Está chegando o momento em que todos os que acreditarem adorarão a Deus dentro de si mesmos, de forma sincera.

– Hum… acho que entendo, mas não muito. Mas quando vier o Escolhido de Deus, Ele vai nos explicar tudo isso direitinho, não vai?

– Sou eu mesmo o Escolhido de Deus.

Ao ouvi-lo dizer isso, senti o aceleramento do meu coração. Em uma fração de tempo, a paisagem desértica ao redor foi ganhando aos meus olhos colorações e matizes, como se até aquele momento, uma membrana houvesse turvado minha visão. E, naquele instante, a membrana era rompida. Por ela escorreram rios… rios que lavavam as marcas dos abusos, da exploração, das frustrações pelos relacionamentos idealizados, do preconceito, da violência, das humilhações públicas, dos julgamentos, dos xingamentos, da condenação. Minha alma, já dada como estiada, sorvia o orvalho das palavras do Escolhido, e dela brotavam raízes e cresciam ramos cobertos de novos brotos e, dos brotos, flores, e das flores, alegria. Ondas quebravam em meus pés e se retraíam, tornando, em seguida, a quebrarem-se, levando em seu movimento o pó dos quilômetros que percorri sem rumo, das estradas ermas, dos corredores escuros e sem ar. Nas minhas costas, o impacto de torrentes despencando do alto, como uma cachoeira, purgando anos de culpa e vício. Nas minhas mãos, uma taça de água fresca e pura, que bebi com desespero, como alguém que já não negocia mais os segundos.

Quando um grupo de judeus se aproximou do Escolhido, fui me afastando aos poucos, sempre voltando o meu olhar para Ele com olhos de deslumbre, como uma criança que, de tanto desejar um brinquedo, não sabe como reagir quando finalmente o ganha. Sem conseguir disfarçar a minha alegria, comecei a abordar as pessoas na rua, chamando-as para ir até o poço e ver a pessoa que me conhecia por dentro e por fora. Ele era o Escolhido – Aquele por quem todos nós esperávamos – e Ele estava ali para qualquer um que tivesse sede.


*Texto ficcional criado a partir da narrativa bíblica de João 4.1-29.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O amor (diluído) em 5 dicas

 

dariapetrilli
Ilustração da italiana Daria Petrilli

No canal do Youtube de um museu dinamarquês tem um programa que se chama Advice to the Young. Toda vez, eles convidam um artista diferente, renomado já, para deixar um conselho para os que estão começando. Acho muito bom, porque além de eles falarem sobre o que passaram – e, assim, baseados na experiência que adquiriram, indicarem caminhos para os novatos –, eles também dão dicas muito diferentes uns dos outros, o que só nos enriquece.

Esses dias, tenho pensado que conselho eu daria às mulheres mais jovens do que eu… talvez eu poderia falar de carreira (já fui de tudo: secretária, repórter de viagem, vendedora, dona de loja e, agora, educadora por paixão)… talvez eu poderia falar de espiritualidade (a base do que sou)… mas acho que quero mesmo é falar sobre amor. Delícia de tema, não? Tenrinho, chuchu, mas tão difícil de acompanhá-lo na dança! Mesmo nos meus 35 anos e muitos quilômetros de vida rodados, ainda levo uma surra dele. Sempre com amor, claro, rs.

Bom, para as interessadas, aqui vão vislumbres de uma sabedoria do amor que estou longe de dominar, mas que venho recolhendo como conchas na praia:

 1. Não entre e nem saia da vida de alguém com a mesma facilidade com que você entra e sai de um supermercado

Quem já não fez ou sofreu disso? A vida fica num tédio tal, que qualquer pessoa serve para você se envolver. A questão é que qualquer pessoa não existe. Qualquer pessoa é um ser humano com sentimentos, é profundo (mesmo que a pessoa não usufrua de sua própria profundidade), tem histórico emocional, relacional e, muito provavelmente, expectativas diferentes das suas. Por isso, acredite: um pouco mais de respeito pelo outro na hora de se relacionar pode fazer maravilhas. Qualquer pessoa agradece.

2. Não canse quem te quer bem

Essa frase eu li uma vez num artigo bem interessante. Sabe aquelas pessoas que te amam aconteça o que acontecer? Pois é, o amor delas pode ser ilimitado, mas a paciência talvez não. Cultive o carinho que essas pessoas sentem por você com um pouco mais de bom humor, menos cobranças, mais leveza, mais alegria. Já perdi quem me quisesse bem e, na parte que me coube do fim da amizade, posso dizer que esses segredinhos teriam feito toda a diferença.

3. Não, as pessoas não são substituíveis

Penso muito nesse blábláblá, de que a gente pode substituir as pessoas. “Ah, para de chorar! Supera! Ninguém é insubstituível!” – já ouviu? Eu não caio nessa, não. Sim, a gente precisa superar as perdas (mesmo porque muitas delas acontecem contra a nossa vontade), concordo, mas achar que uma pessoa que nos marca vai ser deletada da nossa existência sem deixar rasuras é uma inocência. Coleciono algumas perdas e nunca consegui encaixar a amiga nova no mesmo molde da antiga, por exemplo. Não existe. Não dá. Era outra pessoa, outra época, outra intensidade, outras afinidades, outros mergulhos. Era único. E, ao mesmo tempo em que isso pode soar bonito e poético, é também um pouco triste. Ao escrever este parágrafo agora, por exemplo, consigo pensar em, pelo menos, três amigos, com os quais eu amaria conviver outra vez. São três queridos pra mim, aos quais o acesso eu perdi totalmente. Assim, meu conselho seria: prepare-se, sua folha em branco será, inevitavelmente, rasurada. Mas não se desespere: ainda assim e, justamente pelas rasuras, haverá beleza genuína na sua história.

4. Doe-se

Não tenha medo de ser brega. Beije, abrace, fale que gosta, do que gosta, sem medo de ser feliz. Algumas pessoas acham isso pegajoso, mas tem gente que se sente amada com gestos assim e eu, por exemplo, não me importo nem um pouco de ser esse meio de amor para as pessoas. Se gosto, demonstro. E se recebo de volta, melhor ainda. Porém, não é só de pegação que vive o amor. Amor também é doar os ouvidos e a atenção para o marido contar o sonho comprido que teve na noite anterior; é doar o seu tempo – e com boa vontade – para ir à festa junina da escola do filho; é ouvir a amiga desabafando pela 37ª vez na mesma semana sobre o crush que ela não supera; é não comer a última trufa que a sua colega de trabalho vendeu pra você e deixá-la para o seu namorado;  é assistir ao terceiro filme de uma saga que você não acompanha só para estar com seus amigos preferidos. Enfim… doar-se é escolher o outro quando você poderia muito bem pensar apenas em si mesma.

5. Ame-se

Não estou falando aqui de um amor narcisista, ofendidinho, arrogante. Estou falando de dignidade mesmo.  De conhecer os próprios limites e respeitá-los; de não ter vergonha de não querer ou de não saber; de gostar da barriguinha saliente, das sobrinhas nas laterais da cintura; de reconhecer os defeitos e também valorizar as qualidades; de pedir ajuda quando não der conta sozinha de uma situação; de não se maquiar todos os dias e gostar do que vê (ou de se maquiar e detestar o que vê); de não ter vergonha de chorar e, menos ainda, não ter vergonha de amar.

Obviamente, não tenho a menor pretensão de achar que essas cinco pílulas sobre o amor esgotam o assunto. É uma descoberta constante, infinda, misteriosa e incrível… e, por mais que cada um siga sua própria via nos meandros definidos pelo amor, é sempre possível (e justamente por acreditar nisso é que escrevo este post) encontrar maneiras mais práticas de vivê-lo.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.