O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

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GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Desistir ou persistir? O dilema que enfrentamos desde a infância

Duy Huynh
Ilustração de Duy Huynh

 

Eu tinha sete anos quando fiz a primeira grande desistência da minha vida: larguei o curso de piano. Ter de estudar solfejo e praticar as melodias representavam uma tortura chinesa para mim. Assim, pulei de alegria quando minha mãe – saturada do meu corpo-mole e das minhas reclamações – finalmente cancelou minhas aulas. Depois vieram outras tentativas… violino, bateria, canto, coral. Todos abandonados sem dó nem piedade. Quando decidi estudar inglês, meus pais ficaram na expectativa: e aí, quando será que ela vai desistir? Surpreendentemente, essa foi a primeira grande não-desistência da minha vida. Completei todo o curso e fui além. Viajei, me aprimorei, tirei certificados, fiz uma faculdade que incluía literatura e língua inglesas e me tornei professora.

Mas o inglês se tornou uma exceção numa existência – a minha – marcada muito mais pelas desistências do que pelas persistências. O francês ficou difícil? Desisto. O curso de escrita criativa é muito longe? Não vou mais. As aulas na academia acontecem muito cedo? Perco a hora. A prova prática da auto-escola é comprada? Deixa ela pra lá. Estou enfrentando problemas pessoais? Tranco minha matrícula na faculdade de teologia. Desistir se tornou para mim uma solução muito atrativa, porque era rápida e certeira, como um band-aid que sai do machucado de uma arrancada só.

Se pensarmos bem, desistir é, de fato, uma saída pronta para as questões da vida. Se algo não está bom, se não sai a contento, se não agrada, se enjoou, o descartamos. Nos habituamos tanto a desistir de tudo, que passamos a desistir em escalas cada vez maiores… desistimos de empregos, de sonhos, de pessoas e de relacionamentos. Alguém muito próximo a mim, aliás, tem tentado desistir até mesmo da própria vida. E assim, vamos abandonando pelo caminho possibilidades de uma “vida inteira que podia ter sido e não foi”, como escreveu Manuel Bandeira.

Esta semana eu estava prestes a desistir de novo. Estou cursando Pedagogia e neste semestre, que é o último, me vi no meio de um mundo de responsabilidades, horários, prazos, trabalho de conclusão, estágios, maternidade, trabalho normal – tudo junto, embolado. Perguntei a mim mesma se eu daria conta de equilibrar todos esses pratinhos sem deixar nenhum cair da vareta e a resposta foi não, eu não daria conta. Na hora, curti minha honestidade em admitir minha limitação – resultado de uma certa prática de autoconhecimento, não? – logo, só o que eu precisaria fazer era mandar um e-mail à faculdade, cancelando o curso. Ainda assim, no meio desse alívio de me liberar da responsabilidade com os estudos, algo me dizia que minha habilidade de me autoconhecer e me auto-sondar estava com algum defeitinho… lá no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que estava de novo recorrendo ao meu mais antigo vício na vida: a desistência. Então, me lembrei das vezes que desisti, das vezes que me arrependi (que não foram todas), das vezes que pude voltar atrás e das que não pude. Eu precisava romper com esse padrão, investigar em mim se existia alguma espécie de preguiça em algum ponto da minha personalidade que precisava despertar, crescer, amadurecer, se transformar! Sempre tem. Foi doloroso para mim decidir pelo caminho da persistência, como um parto em que nascemos de nós mesmos, parafraseando a minha Clarice. Entretanto, no momento em que reassumi os estudos do meu curso de Pedagogia, senti uma alegria indescritível. A desistência não deu a palavra final. Eu dei.

Essa experiência simples me proporcionou um mar de reflexões (cuja síntese é este post), principalmente no que diz respeito às pessoas. Algumas configurações de relacionamento se mostram tão complexas, que nos convidam à desistência. Buscamos fugir dos desafios que apresentam e de sua unicidade (ou seja, não há receita pronta que as resolva), mas talvez, ao optarmos por abrir mão desses vínculos, estejamos também a optar por um empobrecimento de vida. Afinal, as relações complexas, inexplicáveis, podem carregar em si o potencial de nos levar à superação de velhas preguiças e de nos tirar da órbita do nosso próprio umbigo para uma conexão verdadeira, profunda e insubstituível com o outro.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.