E eu, que me considerava curada de todo aquele romantismo…

Numa noite dessas, tive um tempo a sós comigo mesma. Não tive dúvidas: tasquei uma taça de vinho e coloquei música alta. Como eu não devia nada a ninguém, fui selecionando no YouTube todas as músicas que eu estava a fim de ouvir, sem filtros. O resultado foi uma playlist melecada de hits românticos dos anos 80. Claro que isso não foi coincidência. Essa lista é o espelho da minha alma: sou romântica do começo ao fim de mim.

Quem acompanha o blog há algum tempo talvez se lembre dos posts, em que declaro haver encontrado cura para esse mal. Pois é, confesso que fui um pouco precipitada nessa declaração. Numa conversa bem franca com a Carol Selles, coautora do blog e amigona minha, cheguei a uma constatação difícil de encarar: pois é, Carol, certas questões da nossa vida não têm cura, só controle. Falei isso num tom bem, mas bem pessimista, depois de ter acabado de vivenciar uma crise sufocante de romantismo, dessas que nenhuma mulher dos tempos de hoje – forte, independente e segura – teria admitido em sua vida. Pois eu tenho dessas crises. De tempos em tempos. Com mais frequência do que eu gostaria.

A parte mais difícil de se lidar com uma questão indesejada na nossa vida é saber onde ela se encaixa: será que devemos insistir em curá-la? Ou talvez a solução seria trazê-la à tona em todo seu potencial? Essas duas saídas sempre foram as únicas possibilidades que enxerguei durante anos a fio. Assim, ou eu me consumia em repressão e culpa ou me entregava aos devaneios como se não houvesse amanhã. Nunca havia passado pela minha cabeça um caminho do meio, um equilíbrio… até essa noite em que fiquei sozinha e toquei as tais músicas dos anos 80. Parei e pensei: e se de repente eu puder obter algum benefício desse meu romantismo todo?

Parênteses: (para quem não vê nada de preocupante em alguém ser romântico ao extremo, dou um resumo contra o que eu luto: descontentamento, por não encontrar a paixão acesa no meu casamento o tempo todo; ilusão, ao fantasiar que existe uma realidade perfeita, em que o amor é um estado de êxtase constante; sofrimento, por nunca acreditar que sou suficientemente amada. Pois é, o romantismo exacerbado não tem nada de romântico. Ele é exigente e insaciável).

Mas voltando à ideia que cruzou minha mente: e se eu acolhesse o romantismo e tirasse vantagem dele?  Bom, essa não foi uma pergunta que eu respondi assim, num estalar de dedos. Na verdade, nem consigo concebê-la direito ainda, por soar ousada ou até mesmo imoral, num primeiro momento. Porém, tenho orado tanto, pedido tanto a Deus que me mude, que de repente me peguei pensando: “e se Deus nunca me mudar?”. Acredito muito que não escolhemos ter todas as características boas e ruins que temos em nós – muitas vieram incluídas no “pacote” ao nascermos – entretanto, acredito sim, que escolhemos o espaço que vamos dar a essas características em nossas atitudes. A escolha que fazemos a partir do material de que somos feitos é uma responsabilidade toda nossa. Sendo assim, eis algumas possibilidades para a minha questão:

1. Deixar o meu romantismo transparecer nos relacionamentos adequados

Abraçar as crianças da escola onde trabalho, beijar os meus pais, fazer cafuné no meu filho, assistir comédias românticas com o meu marido, enviar mensagens carinhosas à minha irmã… estão aí algumas das possibilidades para deixar meu romantismo fluir de um jeito saudável. Achar que romantismo se limita a conexões amorosas é reduzir seu alcance e seu potencial de construção de vínculos e de cura.

2. Ver o meu romantismo como uma das características da imagem de Deus em mim

No livro Em busca da alma feminina, o casal Stasi e John Eldredge trabalha com a ideia de que foi Deus quem colocou no coração feminino a busca por amor e relacionamento íntimo, ou seja, por romance, porque Ele próprio é amor. Por meio de vários versículos e imagens bíblicas (a noiva e o noivo do livro de Cantares, as mensagens que Ele envia pelos profetas no Antigo Testamento, a oração de Jesus em João 17, entre outras), os autores mostram como é intensa a busca de Deus por intimidade com o seu povo. O romantismo nessa perspectiva, portanto, não é algo a ser evitado, mas buscado.

O Cristianismo muda drasticamente quando descobrimos que ele também é um grande romance. Que Deus deseja compartilhar uma vida de beleza, intimidade e aventura conosco. “Eu a amei com amor eterno” (Jeremias 31.3). Todo este mundo foi criado para o romance – os rios e os vales, os prados e as praias. Flores, música, um beijo. Mas temos uma forma de nos esquecer de tudo isso, perdendo-nos no trabalho e nas preocupações. Eva – a mensagem de Deus para o mundo de uma forma feminina – convida-nos para o romance. Por meio dela, Deus faz do romance uma prioridade do universo (Stasi & John Elderedge, no livro Em busca da alma feminina). 

3. Deixar que meu romantismo me aproxime de Deus

Sempre penso no Apóstolo Paulo e seu “espinho na carne” (2 Coríntios 12.7, Bíblia). Claro que o espinho dele não era fútil como o meu, imagino. Certamente era algo mais profundo e espiritual, mas o objetivo da existência do meu romantismo é semelhante à do espinho dele: não me orgulhar. Meu romantismo me faz lembrar de que eu, sozinha, não sou capaz de salvar a mim mesma, mas quem me dá energia para vencer é Jesus. Lutar sozinha é extenuante.

4. Usar meu romantismo para aprender sobre o amor real

Claro que antes de quase todo amor concreto existe a fase da paixão. Mas achar que o amor se resume à paixão é um desperdício. Com esse meu romantismo todo, eu consigo analisar bem a paixão e, baseando-me nela, perceber o que o amor não é: imediatista, carente, ansioso, que se consome em si mesmo. O amor relaxa, confia, espera, compreende, perdoa e não tem fim (1 Coríntios 13, Bíblia).

……

Quando falei para a Carol que certas questões da vida talvez nunca tenham cura, não imaginei que esse diagnóstico pudesse abrir tantas possibilidades de crescimento.  Amo perceber o modo discreto, mas incrível, como o nosso caminho espiritual vai sendo formado: o passo seguinte sempre mais firme e mais maduro do que o anterior. Por isso me encanto e descanso ao ler as palavras do Apóstolo Paulo:

E disse-me [o Senhor]: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte (2 Coríntios 12. 9-10).

Não sei como vai ser encarar meu romantismo por esse novo ângulo. Serão necessárias densas doses de sabedoria e oração, para que eu não confunda esse acolhimento com sinal verde para pecar contra Deus. Ao mesmo tempo, vejo Deus me ensinando mais essa lição, me dando essa chance de exercer a liberdade com maturidade.

Ele, Deus, é quem deseja ser o principal alvo de todo o meu incurável romantismo.

Catrin Welz-Stein
Ilustração de Catrin Welz-Stein

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

Breve relato de uma romântica curável

Sou uma romântica nata. Dos meus 13 anos em diante, eu assistia a todas aquelas comédias românticas hollywoodianas, em que adultos agiam como adolescentes, e às séries de TV em que adolescentes agiam como adultos (alguém aí se lembra de Dawson’s Creek?). Em todos eles, o casal mais carismático da trama sempre acabava junto. Nos meus devaneios também, e o casal era sempre formado por mim, obviamente, e algum garoto inatingível, por quem eu nutria uma paixão platônica. Naqueles minutos eternos que se seguiam antes do sono, eu conseguia montar um enredo com começo, meio e fim, envolvendo algum encontro fortuito com o crush impossível e ele, de alguma forma “inesperada”, abria o coração para mim e confessava como seus dias eram miseráveis sem a minha presença neles.

Mas o que talvez viesse a ser algo natural da adolescência – e até saudável, se deixado lá – me acompanhou para a vida adulta, a ponto de eu chegar a fazer terapia para me livrar dessa segunda vida. Sem sucesso. A idealização era a minha sombra e, por conhecer a fundo as minhas fragilidades, acabou se tornando a minha maior inimiga. Não havia relacionamento em que eu entrasse, que a romantização não entrasse comigo para colocar tudo a perder. Eu exigia que o real fosse igual ao imaginário e aí então tudo se desfazia. Eu queria estar feliz o tempo todo, apaixonada o tempo todo, sem conflitos o tempo todo. O que eu obtinha disso? Insatisfação o tempo todo, ingratidão o tempo todo, frustração o tempo todo.

Demorou muitos anos, mas muitos anos mesmo, para eu entender o funcionamento da minha mente e onde, nela, teria espaço para o universo paralelo e perfeito, sem que ele prejudicasse as minhas escolhas de carne e osso. Mesmo compreendendo e admitindo a existência desse mundo imaginário, ainda assim minha tendência de ir até lá buscar nomes, rostos e situações perfeitas nos momentos de dor era quase irresistível. Assim, por não abraçar por completo as minhas escolhas reais, com todos os bônus – e ônus – que elas traziam consigo, deixei muitas vezes de falar nelas, escrever sobre elas, postar fotos delas… curti-las mesmo, sabe?, por receio de soar hipócrita para os que me conheciam. Quantas vezes invejei os retratos de casais juntinhos postados nas redes sociais! Não porque eu mesma não fosse feliz, mas porque eu não era perfeitamente feliz.

Este ano completo 5 anos de casada e ainda tendo a me entregar a idealizações distantes. Mas cheguei a um ponto de exaustão por essa vida dupla habitando dentro de uma Luciana só. É desgastante, ingrato. Por tempo demais, fiquei guardando o meu melhor amor, o meu melhor sorriso, o meu bom humor, o meu respeito. E tudo para quem? Para alguém que nunca esteve realmente aqui, um ser etéreo, uma imagem, um habitante de um planeta romântico paralelo, para onde eu viajava todas as vezes que as minhas escolhas ficavam reais demais. Cansei e entreguei os pontos… fiz uma oração definitiva, falei tudo para Deus e terminei a oração assim: Pronto, tá aqui. Tudo o que construí na minha mente está neste pacote, que deixo aos seus pés agora. Faça o que quiser com ele, mas por favor, nunca mais me deixe pegá-lo de volta (essa foi uma das orações mais difíceis que já fiz na vida).

E é aqui deste lado do mundo, mais precisamente ao meu lado, que está o homem que comprou a minha briga, que apostou em mim, mesmo depois de conhecer a minha história: meu marido David. Faz 5 anos que ele me escolhe diariamente. Ele é real e me traz junto para viver a realidade com ele. E o mais incrível de tudo é que ele é capaz de reproduzir uma beleza e uma leveza muito parecidas com as que criei nos meus devaneios românticos de menina, sem ele nem ter estado lá! E é no alto dessa beleza e dessa leveza que ele me coloca e me coroa como a rainha do mundo que estamos criando juntos. Eu escrevendo e ele ilustrando.

Semana passada postei uma foto de nós três juntos: ele, nosso filho de 2 anos e eu. E ao contrário do que uma foto linda numa rede social sugere (“olha como sou feliz demais!!”), postei nossa foto juntos porque sonhei com esse dia. Sonhei com o dia em que eu estaria inteira no meu casamento, inteira ao lado do meu marido, nutrindo e lutando pelas minhas escolhas e pelas escolhas que fizemos juntos. Minha foto com eles é minha oferta de gratidão e alegria por estar, finalmente, pisando em terra firme de novo e, mais inédito do que isso ainda, amando a realidade em que me encontro.

 

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Nós.

Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.