O peso do silêncio

Lembro-me exatamente do dia em que conheci o Duccio. Ele havia convidado o David para comemorar o aniversário dele num boteco na Rua Augusta, em São Paulo. Como o David e eu estávamos em lugares diferentes, resolvemos ir separados para o aniversário. Eu cheguei bem antes do David e, como nova namorada dele, ainda não havia sido apresentada a ninguém, nem ao próprio Duccio, o aniversariante. Assim, resolvi encostar num canto e ficar ali quieta e parada que nem uma planta, só observando as pessoas. Fiquei ouvindo as risadas altas, alguns nomes aleatórios, até que percebi que o mais empolgado ali, que falava mais alto e sem interrupção, era o Duccio. Achei até engraçado, porque em um determinado momento, eu o ouvi comentando sobre o David para outra pessoa. Fiquei me perguntando se ele desconfiava que eu seria a nova namorada dele. De qualquer forma, achei o Duccio tão animado e tão cheio de histórias que não terminavam, que admirei sua alegria expansiva por estar comemorando anos (o que para mim representaria um certo esforço).

Como fui saber depois pelo David, que foi sócio e amigo do Duccio por bastante tempo, e pelas vezes que nos encontramos em festas, Duccio, como todo italiano típico, era sempre assim: tinha assunto para tudo no mundo. E era amigo de todo mundo. E todo mundo gostava dele.

Até que, no dia 19 de novembro deste ano, Duccio se silenciou. Ao visitar uma cachoeira em São Sebastião, ele escorregou numa pedra, caiu de uma altura de cinco metros e seu corpo só foi encontrado no dia seguinte, no fundo da água.

A morte do italiano querido e falante foi, obviamente, um choque para mim e para o David. Foi inevitável, porém, pensar naqueles que mais estariam sofrendo naquele momento: seus pais. Eles chegaram da Itália no dia seguinte ao que os bombeiros haviam encontrado o corpo e foram recebidos pela multidão de amigos do filho – herança preciosa deixada por ele. Foram cuidados e tratados com todo carinho possível. Até as despesas com a viagem deles e com o funeral foram cobertas por esses amigos. Passaram todos aqueles dias tratando dos trâmites para levar o corpo do Duccio de volta para a Itália.

Mas e depois?  – pensei. E depois que esses dias corridos passarem e esses pais retomarem a rotina da vida, como será para eles encararem o silêncio do Duccio? 

Ao pensar nisso, eu mesma me silenciei por alguns instantes. O silêncio do Duccio era mais atordoante do que suas falações ininterruptas.

Essa vivência breve do silêncio fez com que eu refletisse sobre os meus silêncios; aqueles que eu faço e aqueles que recebo de outras pessoas, ainda vivas, mas ausentes. Pensei sobre como precisamos de pouco para não sermos enlouquecidos pelo silêncio da ausência: ouvir a voz numa gravação, receber uma mensagem, mesmo que curta, ou qualquer ato consciente da parte ausente em um mínimo de contato. Porque pior do que a ausência é o silêncio absoluto – ele aponta para o esquecimento.

Meu avô, se ler este post, talvez não concordará totalmente comigo. Quando minha avó vivia seus últimos meses, deitada inconsciente numa cama, meu avô costumava me dizer que só de mirar a imagem dela ali, silenciosa, mas viva, já era suficiente para ele recuperar as forças e continuar. Ainda assim, acredito que minha avó falava sim, não com palavras, mas por meio dos leves apertos nos dedos que ela nos dava de vez em quando e por sua respiração ofegante… com esses pequenos sinais, ela nos contava sobre sua luta para continuar vivendo.

Sempre prezei os momentos de silêncio. Mas o que deveriam ser eles, senão apenas pausas na interação? Sim, eles são necessários de tempos em tempos, como um pit stop no meio da correria, mas são postos de recarga apenas e não de parada definitiva. O silêncio, quando longo, pesa e entristece.

(De repente, me alegro ao pensar no Natal: o silêncio de Deus rompido em choro de criança recém-nascida. Quanta esperança em um ruído, aparentemente, tão banal! É Deus nos comunicando que chegou para viver perto de nós, de um jeito pessoal e definitivo).

O silêncio do Duccio nos incomoda bastante, a mim e ao David. Mas é incrível como temos aprendido com ele! É incrível ver como seu silêncio nos convida a reagir, a refletir, a reconsiderar atitudes e a tomar decisões. Ao Duccio fica a nossa gratidão por tamanha eloquência, que reverbera dentro de nós até mesmo no silêncio de sua partida.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Grata pelo silêncio

ensee
Ilustração de Mi-Kyung Choi, que assina como Ensee.

 

Gosto do silêncio. Não ter uma opinião sobre tudo, não precisar discutir sobre tudo, não polemizar pelo prazer de polemizar é mesmo um presente. Um presente suave, pacificador. E é uma arte também, eu diria. Como é desafiador dominar a língua!  Ou os dedos, no caso de um post ou comentário de rede social. Parece que esses membros do corpo nos têm sob controle, que são eles quem mandam em nós. É a tirania do “se penso e tenho algo a dizer, tenho que dizer, senão essas palavras vão acabar me sufocando”. Mas será que realmente temos algo a dizer? Será que o que temos a oferecer para os outros não são apenas palavras que se organizam em uma ordem linear, de modo a fazer sentido de alguma forma? Porque isso é fácil e… totalmente dispensável.  Será que as pessoas realmente precisam da minha opinião sobre tudo? Porque se o que tenho para oferecer não for algo novo, que acrescente, que construa, que una, que desafie, que seja um convite para transpormos o mesmo de sempre, por que opinar? Proponho um teste: fiquemos offline por alguns dias e depois nós entramos e vemos se alguém sentiu falta dos nossos posts e comentários. Poucos sentiriam. E tudo bem. Porque não saber, não conhecer a fundo certos assuntos, não estar presente em tudo e não ser apto para opinar é saudável, humano e realista. Somos limitados mesmo – não somos Deus para conhecer tudo – e que bom por isso. Já pensou se a nós fosse dada a grande responsabilidade de carregar o mundo nas costas? Ainda bem que podemos nos dar ao luxo de nos silenciar. E esperar. E refletir. E não entender. É um alívio.

Nesses dias, tenho permanecido em grande silêncio. Olho para dentro e pouco encontro o que dizer. Confesso que esse estado não tem sido fruto apenas da reflexão que fiz acima. É um silêncio de falta também, o que pode ser um pouco mais triste. Para mim, que vejo na escrita o meu combustível de vida, ficar em silêncio por puro vazio é bastante estranho. Mas até em horas como essas, aprendo. Aprendo sobre humildade, sobre não ser indispensável, sobre outras formas de significar o mundo (agora mesmo observo um tucano pousado na araucária ao lado de casa), sobre o estar e ser apenas. Suspensa. Dependente e pendente no fio de prata da vida.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.