A liturgia do ordinário

Encontrando o Sagrado na rotina comum da vida diária e entendendo o tempo.

Foto de Wil Stewart

A nossa rotina, as coisas que fazemos e como as fazemos, a forma como gastamos o nosso tempo, as demandas que nos ocupam, o jeito que vivemos cada dia ordinário de 24 horas… importam grandemente e são o substrato onde Deus nos encontra, nos transforma, nos ensina a amá-lo e a amar os outros.

A divisão entre secular e sagrado é tão natural em nossa mente que normalmente separamos Deus das coisas ordinárias da vida, associando-o com situações mais ‘santas’ como um momento de oração, uma reunião da igreja, o culto, etc.

Afinal, o que há de sagrado em acordar e escovar os dentes, arrumar a casa, responder uma lista infinita de emails e mensagens de WhatsApp, ficar parada no trânsito, comer, lavar a louça, tomar banho, lavar roupa, trabalhar, encontrar com as pessoas, participar de reuniões, conversar ao telefone, consertar coisas que estragam, perder e (às vezes) encontrar coisas perdidas, dormir? (E mais um monte de outras coisas muito ordinárias que acontecem entre essas atividades em um dia comum).

Talvez, inconscientemente, nós acreditamos que a santificação acontece naqueles momentos especiais de adoração e revelação, geralmente durante um momento de louvor. Como se o processo de transformação que Deus está operando em nós fosse desconectado das atividades ordinárias da vida comum.

O curioso é que são essas atividades ordinárias que ocupam a maior parte do nosso tempo. Tempo. Nosso tempo. Corremos para lá e para cá, executando um monte de atividades, de acordo com nossas agendas. Agimos como se controlássemos o ‘nosso’ tempo e o que acontece dentro dele. E deixamos apenas algumas horas para Deus nesse ‘nosso’ tempo cada vez mais escasso, onde lemos a Bíblia, meditamos, oramos ou fazemos algum estudo bíblico.

Esse ‘nosso’ tempo é guiado por diferentes calendários, de acordo com o que é prioridade no momento: o calendário escolar, depois o calendário acadêmico, depois o calendário do trabalho… eles é que nos dizem quando é hora de trabalhar e de descansar, quando é hora de celebrar e de fazer uma prova. E todas as demais atividades são espremidas no tempo que sobra.

Mas, e se o tempo não fosse apenas algo que nos limita? E se o tempo (e cada coisa ordinária que fazemos dentro dele) fosse sagrado? E se houvesse um tempo marcado por um calendário que desse forma à nossa vida? Um tempo não arbitrário, não definido pelo mercado de trabalho. Um calendário que contasse uma história, que tivesse uma liturgia própria que trouxesse sentido a cada atividade ordinária, que nos moldasse e nos ensinasse a viver cada dia debaixo do sol?

Descobrir o calendário litúrgico foi como descobrir o tempo real. — Tish Harrison Warren

Sim, existe um outro tipo de calendário conhecido como Calendário Litúrgico ou Calendário Cristão, também chamado de Ano Litúrgico ou Cristão. Um calendário elaborado em tempos antigos e utilizado ao longo da história da igreja. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa.

A cada semana nós participamos do trabalho criativo de Deus e descansamos. A cada ano nós recontamos a história de Jesus. Advento, Natal, Epifania: a história do povo de Deus esperando pelo Messias, o nascimento de Jesus, sua revelação como Rei. Quaresma, Páscoa, Pentecostes: a história da tentação de Jesus, a vida em um mundo caído, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão, a vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja. Nós vivemos esta história a cada ano, semana a semana, vivendo o que confessamos nos credos no modo como nomeamos os nossos dias. — Tish Harrison Warren

O Calendário Cristão é organizado diante da narrativa da revelação de Deus através de Jesus, de sua ação no mundo e em nossas vidas. O ritmo ensinado nesse calendário nos ajuda a abraçar as tensões de nossa realidade e a enxergá-las sob a perspectiva desta grande narrativa. A trabalhar já por um novo reino e a esperar porque ele ainda não está completo. Nós aprendemos a celebrar e a chorar. A nos apropriar da vida de Jesus que nos é oferecida a cada dia. A trabalhar e a multiplicar os talentos que nos foram dados. A amar cada um que encontramos da forma mais prática que esse amor pode assumir. E a descansar, porque Ele já completou o seu trabalho e tem cuidado de nós.

Aprendemos que o tempo não pertence a nós. Que nosso valor não está na quantidade de tarefas realizadas, na eficiência no controle do tempo.

Eu preciso da igreja para me lembrar da realidade: o tempo não é uma mercadoria que eu controlo, administro ou consumo. A prática do tempo litúrgico me ensina, dia a dia, que o tempo não é meu. Ele não gira ao redor de mim. O tempo gira ao redor de Deus — o que ele fez, o que está fazendo e o que vai fazer. — Tish Harrison Warren

É como se estivéssemos em treinamento. Aprendendo a viver em uma outra realidade, a seguir um outro ritmo, a responder a um outro tempo. E cada dia de 24 horas nos oferece um tempo sagrado, no qual surgem as oportunidades para esse aprendizado, para essa transformação, através das atividades mais ordinárias.

Quando eu acordo, por exemplo, me lembro de quem sou: amada, escolhida, aceita. E antes de mergulhar nas redes sociais com os olhos semiabertos, ou afundar na lista de atividades como um zumbi, eu faço uma oração, converso com meu Senhor que me concede mais um dia de vida.

Somos marcados desde o primeiro momento em que acordamos por uma identidade que nos é dada pela graça: uma identidade mais profunda e mais real do que qualquer outra identidade que podemos usar ao longo do nosso dia.— Tish Harrison Warren

Então escovamos os dentes, cuidamos do corpo, nos alimentamos. Um ritmo que demonstra nossa finitude, a necessidade de alimento diário, de cuidado diário. Reflete o próprio ritmo da fé: de dependência, de cuidado, de obediência diários, momento a momento. Nossos corações e nossos amores são moldados pelo que fazemos diariamente.

Arrumamos a cama, lavamos a louça, cuidamos da casa, da roupa. Trabalhamos, respondemos emails, encontramos pessoas, participamos de reuniões. Através das tarefas mais cotidianas a transformação de Deus espalha suas raízes e cresce. Exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, organizamos, criamos, cuidamos, somos cuidados.

Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.

Foto de Poppy Barach

Preparamos refeições, comemos sozinhos, comemos com os amigos e com a família, rimos e conversamos, abraçamos, dormimos e descansamos. Experimentamos prazeres ordinários, de alegria, encanto, satisfação e divertimento. Ação de graças, reconhecimento da bondade, adoração, entrega.

Esses são apenas alguns exemplos de situações ordinárias que vivemos todos os dias. Deus nos chama para vivermos uma vida de alegria e contentamento no meio de circunstâncias bem concretas como essas, situações que experimentamos diariamente. Situações que são cheias de encanto, de aprendizado, de revelação, de confronto, de crescimento, de beleza, de vida.

Em um mundo sempre ocupado e com pressa, desenvolvemos hábitos de falta de atenção e perdemos a manifestação de sentido nas pequenas coisas. Caminhamos como mortos vivos e não como pessoas cheias de vida. A vida que nos é oferecida na história contada pelo tempo é tão exuberante que nos transforma, nos cura, nos faz inteiros e completamente vivos.

Eu preciso aprender a encontrar a alegria e a rejeitar o desespero no momento em que eu estou vivendo agora. Em meio às pequenas pressões e ansiedades, preciso aprender a confiar em Deus, a olhar para a cruz e a me apropriar do que Ele já fez por mim. A depender dele, a esperar com fé e a agir não baseada em minha própria força ou entendimento.

O calendário cristão traz luz para minha rotina diária ao me lembrar que eu faço parte de um povo que vive em uma história diferente. Que junto com esse povo, com a igreja, eu estou inserida nessa história e ela também se torna a minha, a nossa, história. Deus está redimindo todas as coisas, incluindo cada um de nós. Nossas vidas — e nossos dias — são parte dessa redenção. Nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido.

Então, o meu dia de hoje se torna transparente e eu vejo vislumbres de algo maior por trás dos inúmeros pequenos cuidados diários. E eu posso ter uma atitude diferente de simplesmente me entregar a uma rotina sem vida, ao cumprimento automático de atividades sem sentido, ao tédio, à pressa.

O que Ele fez e está fazendo têm reflexos na forma como eu vivo o meu dia. Nada do que vivo ou faço, minhas escolhas e sonhos, foge do Senhorio dele em minha vida. Além disso, o que experimento no culto aos domingos — a adoração, a leitura da Palavra, a oração, a confissão de pecados, o perdão, o pão e o vinho, a oferta, a comunhão, o abraço do meu irmão, a bênção… — molda a minha experiência diária em cada um dos outros seis dias.

Deus está nos formando em um novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos do hoje. — Tish Harrison Warren

Ele está nos formando quando vivemos o tempo sagrado que nos é dado, por graça, e fazemos o que precisa ser feito nas rotinas mais ordinárias do nosso dia. Cada dia, por mais comum, é carregado de sentido e parte da vida abundante que Deus tem para nós. Como vivemos cada dia ordinário é como estamos vivendo nossa vida inteira.

Precisamos ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia. Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura. Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

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Essa reflexão foi baseada no livro de Tish Harrison Warren: Liturgy of the ordinary, sacred practices in everyday life, de onde tirei as citações apresentadas ao longo do texto (em tradução livre). Aprendi tanto que estou pensando em escrever uma reflexão para alguns capítulos dele.

Também estão alinhadas com as discussões que fazemos no L’Abri, em especial, o sacramento do momento presente.

Além disso, tenho usado o Calendário Cristão há alguns anos e o Lecionário mais recentemente. Minha sensação também é a de que descobri o tempo real e meus dias têm sido mais ricos com a ajuda desses recursos, com o entendimento dessa narrativa.

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Texto publicado originalmente em Lecionáriohttps://lecionario.com/a-liturgia-do-ordinário

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

As Armadilhas do Coração – Parte 1: O tédio e a murmuração

Sobre o tédio nosso de cada dia

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

O tic-tac do relógio é ensurdecedor. O tempo parece não passar. Tudo está absolutamente igual, imóvel. Nenhuma previsão de mudança. Nenhum indício, por menor que seja, de qualquer alteração em minha vida. Nenhuma esperança.

É o tédio; de novo. Me atormentando e dizendo que a vida é sem graça, que não passa. Que não vale a pena e me levando a murmurar; de novo. E a duvidar; de novo.

Vazio, tudo é um grande vazio!
Nada vale a pena! Nada faz sentido!

O que resta de uma vida inteira de trabalho sofrido?

Uma geração passa e outra geração chega,
mas nada muda – é sempre a mesma coisa.

O sol nasce e se põe,
um dia após o outro – é sempre igual.

O vento sopra para o sul e depois para o norte.
Gira e dá muitas voltas
sopra aqui e acolá – e vai seguindo o mesmo rumo.

Todos os rios vão para o vasto oceano,
mas o oceano nunca transborda.

Os rios correm para o mar
e logo depois voltam a fazer o mesmo percurso.

É um tédio só! É uma mesmice sem tamanho!
Nada tem sentido!

Será que os olhos não cansam de ver
nem os ouvidos de ouvir?

O que foi será novamente,
o que aconteceu acontecerá de novo.

Não há nada novo neste mundo.
Ano após ano, é sempre a mesma coisa.

Se alguém grita: “Ei, isso é novo!”,
Não se anime – é a mesma velha história!

Ninguém se lembra do que aconteceu ontem.
E as coisas que vão acontecer amanhã?

Ninguém se lembrará delas também.
Você acha que será lembrado? Pode esquecer!

Eclesiastes 1.2–11 – A Mensagem

Salomão1 também enfrentou esse enorme e profundo tédio. Depois de uma vida inteira, de luxos, riquezas e vontades satisfeitas, olhou para trás e se questionou: – O que nessa vida vale a pena? O que de fato faz, e traz, sentido?

O tédio, então, me toma por completa. E inevitavelmente, a seguir, começo a reclamar, e muito. Murmuro constantemente. Em pensamentos audíveis me pergunto: Por que não tenho aquilo? Por que só acontece, ou não acontece, comigo? Por que não eu? Por que só eu? Por quês e mais por quês invadem meu ser. Roubam a minha alegria e me enchem de dúvidas. Posteriormente, e instintivamente, me encho de certezas: Ah, com toda a certeza, se eu tivesse aquilo eu estaria melhor! Se isso não estivesse acontecendo comigo eu estaria, e seria, diferente! Se eu pudesse fazer tal coisa, aí sim, eu estaria mais feliz!

“Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!”

O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina. O povo saía recolhendo o maná nas redondezas e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva. Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná.

Números 11.4–9 – A Mensagem

Acho que deixei de apreciar e agradecer o maná me ofertado diariamente. E o resultado foi uma fome insaciável. A gula me consumiu e a constante reclamação me cegou.

O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor dará carne a vocês, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que saia carne pelo nariz de vocês e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?’ ”

Números 11.18–20 – A Mensagem

 

Diferentemente dos animais, que parecem bem satisfeitos em ser apenas eles mesmos, nós, humanos, estamos sempre procurando meios de ser mais do que somos ou mesmo ser outra pessoa. Exploramos o país por instigação, examinamos nossa alma em busca de sentido, compramos o mundo pensando no prazer. Tentamos de tudo. As áreas comuns de esforço são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento.

Nossas incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nada parece nos satisfazer. Por isso, intensificamos nossos esforços, e quanto mais nos dedicamos a algo, menos extraímos dele. Algumas pessoas acordam cedo e empreendem em uma jornada tediosa e repetitiva. Outros parecem nunca aprender e se debatem por aí a vida inteira, tornando-se cada vez menos humanos com o passar dos anos, até que, ao morrer, não resta humanidade o bastante para compor um cadáver.

Eclesiastes, na verdade, não diz muito a cerca de Deus. (…) Sua tarefa é expor a total incapacidade humana de encontrar o sentido e a completude da vida por nós mesmos.

É nossa propensão desistir de nós mesmos, tentando ser humanos por meio de projetos e desejos próprios.

Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes na Bíblia A Mensagem

Eu não quero mais levar uma vida inteira sem sentido, rotineira e sem graça. Não quero chegar ao final da vida e perceber que eu poderia fazer, e ser, diferente.

Eu quero me livrar de todas minhas pseudo-garantias, e agora! Quero me alimentar do suficiente – que é dado por Deus, e em uma dose especial, que só Ele sabe medir para mim.

Quero me lavar de toda e qualquer rebeldia e ideia idólatra. Quero, e desejo, me purificar com a água que é a Fonte da Vida. Que sacia o coração, renova a alma, limpa o entendimento e regenera minha força [Marcos 12.30].

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidãohttp://bit.ly/2uxdQ4H

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NOTAS:
1Sem dizer abertamente, o narrador dá a entender que é o rei Salomão. Fabulosamente rico, internacionalmente famoso, com centenas de mulheres em seu harém, ele agora é um senhor de idade que percebe como foi pequeno seu “sucesso”, quando vê a morte se aproximar. Após o imenso trabalho que teve para construir seu império, teria de deixá-lo para seu filho Roboão, um homem moralmente fraco. As dez tribos do norte de Israel não escondiam o fato de que não confiavam em Roboão. Não precisavam da inteligência de Salomão para ver que seu país logo entraria em colapso (e isso de fato ocorreu). [Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes]

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Suspensa e incompleta – Pierre Teilhard de Chardin

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“Acima de tudo confie no lento trabalho de Deus. Nós somos naturalmente impacientes em tudo, para chegar no final, sem atraso. Gostamos de pular etapas intermediárias. Ficamos impacientes quando estamos indo em direção a algo desconhecido, algo novo. Ainda assim, é dessa maneira que todo o avanço é feito, passando através de alguns estágios de instabilidade – e eles podem durar muito tempo.

Creio que assim aconteça com você, suas ideias amadurecem gradualmente – deixe-as crescer, deixe-as tomar forma, sem pressa. Não tente forçá-las, procurando fazer com que você seja hoje o que o tempo (ou seja, a Graça e as circunstâncias agindo a seu favor) lhe tornarão amanhã.

Somente Deus pode dizer o que será este novo espírito que está se formando gradualmente. Dê ao nosso Deus o benefício da crença de que a mão Dele o está guiando. E aceite a ansiedade de sentir-se em suspenso e incompleto.”
— Pierre Teilhard de Chardin


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A Dança da Vida

The Essence of Ballet - La Bayadére - Edition 7 @ 2014 - ingridbugge.com
The Essence of Ballet – La Bayadére – Edition 7 @ 2014 – ingridbugge.com

– Vamos dançar? – a Vida me convidou.
E, assim, começou minha grande aventura,
marcada para esse tempo e espaço.

O tempo, passando foi.
E deixei o ritmo acelerado desse tal tempo ditar o rumo.
– Acho que algo está fora de compasso, fora do prumo – senti.

– É… Acho que entendi.
   É que, durante a dança, esqueci que tenho par e
   sozinha continuei a dançar.

– Vida, onde te deixei? – cansei de sozinha dançar.
– Você cansou porque esqueceu que Eu sou o seu par!
    Me permite te (re)conduzir? – sussurrou a Vida para mim.

E eu, cansada de sozinha dançar,
me entreguei novamente à dança,
mas, agora com a Vida feito par.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre contar o tempo, enquanto não vamos para casa

imagem de Natalia Zaratiegui http://www.behance.net/nataliazaratiegui

Às vezes, talvez a maioria delas, eu me esqueço que estou aqui de passagem. Me esqueço que por mais esforço, amor e dedicação que eu coloque em tudo o que eu faço, e também no que eu sou, aqui é transitório. É de passagem. Parte de um todo que eu sequer consigo imaginar.

O tempo, assim como o homem, é paradoxal, pois, o tempo aqui, nesse mundo, é o e o Ainda Não. Como numa espécie de sobreposição, vivemos esse tempo: ora cheio de alegrias e satisfações, ora repleto de perguntas e tristezas.

Mas, como podemos aprender a contar o tempo verdadeiramente? Porque a Vida, vez ou outra, nos lembra que ela passa depressa, e nós voamos! (Sl 90:10). Que somos neblina e que existimos por um pouco de tempo e depois nos dissipamos (Tg 4:14).

Como aprender a nos despedir, daqueles a quem amamos, sem dar aquele adeus definitivo, mas, saudar com um: até breve, nos vemos logo mais?!* Porque a Vida, também nos lembra da Esperança. Aliás, é ela quem nos dá a verdadeira Esperança, nos prometendo a tão sonhada Nova Jerusalém.

Na música Felicidade, de Marcelo Jeneci (obrigada Nathan Queija, por me lembrar dessa música para tal contexto), também encontro algumas dicas sobre esse paradoxo que é viver entre alegrias e tristezas. Entre o sol e a chuva. Entre encontros e desencontros. Pois, é melhor viver, meu bem, pois, há um lugar em que o sol brilha pra você. Chorar, sorrir também e depois dançar na chuva quando a chuva vem.

Que possamos seguir pedindo por sabedoria para contar nossos dias (Sl 90:12), enquanto, não vamos para casa, para a nossa verdadeira casa. E, com isso, não desanimemos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (2Co 4:16-18).

* Mi(chele), que privilégio ter te conhecido, ainda aqui: nesse tempo e espaço. E ter compartilhado um pouco das descobertas da vida contigo. Obrigada por me ensinar a ver a vida com mais pureza e simplicidade. Sim, é possível! Uma pena eu não ter te dito isso, mas, quem sabe aí, nesse outro mundo, eu não tenha essa oportunidade?! Um até logo, nos vemos em breve.

Felicidade
Marcelo Jeneci

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz
Sentirá o ar sem se mexer
Sem desejar como antes sempre quis
Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Lembrará os dias
que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão
porque os dias vão pra nunca mais

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Dançar na chuva quando a chuva vem
Dançar na chuva quando a chuva
Dançar na chuva quando a chuva vem

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Para onde você vai quando já chegou lá?

africa088

Essa pergunta me fisgou há dois anos quando percebi que eu havia chegado nesse tal , mas estava vazia, perdida e sem saber o que fazer depois.

Sempre fui muito inquieta, dedicada e com um grande desejo de mudar o mundo. Mas conforme a vida foi se desenrolando, acabei canalizando toda a minha energia no profissional. Sem muito planejamento e questionamento fui aproveitando todas as oportunidades que me eram concedidas. Não entendendo muito bem onde tudo isso ia dar, segui o fluxo, deixei que a vida e outras pessoas decidissem por mim. – Afinal, eu não poderia perder todas essas oportunidades, não é mesmo?! E lógico que tudo isso deu certo! Certo, segundo os padrões que persegui e aquilo que a sociedade entende por dar certo.

Também devo reconhecer que no meio dessa jornada amadureci como profissional, viajei para lugares que não havia imaginado e aprendi muito durante esse percurso. Mas tudo isso me custou caro, muito caro. Claramente percebo que o meu único, porém, maior e fatal erro foi ter entregue todo o meu coração ao trabalho – ao deus trabalho.

Achei que ele seria a razão da minha felicidade, que supriria todas as outras áreas capengas da minha vida, e que sim: ele poderia me dar aquela sensação de plenitude e reconhecimento que eu tanto buscava.

#sóquenão

Com o meu tempo desperdiçado e através da dor, entendi que eu não tinha outra saída senão entregar tudo o que sou e construí ao verdadeiro e único Deus.

Temos grande tendência à presunção, costumamos achar que sabemos mais do que nosso próprio Deus e simplesmente esquecemos que foi Ele quem nos criou e é Ele que continua nos dando o fôlego da vida. Assim, vamos elegendo outros deuses: “melhores” e “maiores”, colocando-os no lugar do verdadeiro Senhor de nossas vidas. Dia a dia vamos construindo nossa própria Babel com nosso próprio suor, sangue e lágrimas.

Ao eleger um falso deus iniciamos um ciclo frenético e vicioso, pois esse deus hoje chamará outro deus amanhã, e em seguida outro, e mais outro, e mais outro. E ao nos darmos conta, já não saberemos mais a quem estaremos servindo, pois todos esses deuses exigirão muito de você.

“Uma das razões de o trabalho ser infrutífero e inútil é a poderosa inclinação do coração humano de tornar o trabalho e seus consequentes benefícios o fundamento primordial da importância e identidade da pessoa. Quando isso acontece, o trabalho deixa de ser um instrumento de criação e revelação das maravilhas da ordem estabelecida, como diria Calvino, ou de ser um instrumento da providência de Deus, como diria Lutero. O trabalho torna-se um jeito de eu me distinguir do meu semelhante, de mostrar ao mundo e provar a mim mesmo que sou especial. É um modo de acumular poder e segurança e de exercer controle sobre o próprio destino. A observação de Qõhelet mostra-se verdadeira muitas vezes: ‘Também vi que todo trabalho e todo êxito procedem da inveja entre as pessoas. Isso também é ilusão e perseguir o vento’ (Ec 4:4)
Mais do que qualquer outro texto bíblico, os primeiros 11 capítulos de Gênesis revelam como o trabalho deixou de ser uma grata administração de nossos talentos para se transformar em uma edificação neurótica de nossa autoestima.”

Trecho retirado do livro: Como Integrar Fé & Trabalho – Nossa Profissão a Serviço do Reino de Deus de Timothy Keller & Katherine Leary Alsdorf (Parte II – Capítulo 7: O Trabalho se torna egoísta; página 109,110)

E depois de muitas cabeçadas, percebi então que meu real valor não está no cargo que ocupo ou no lugar que trabalho. Entendi que preciso estar no centro da vontade de Deus e fazer aquilo que Ele deseja pra mim.

Posso continuar exercendo um trabalho criativo em minha área ou quem sabe largar tudo para trabalhar em uma lanchonete como garçonete em outro país, a grande diferença é que fazendo aquilo que me foi designado terei a real sensação de dever cumprido ao fim do dia e de propósito que eu tanto almejava. Compreendi, que não sou eu a responsável pelos meus próximos passos e que não preciso me preocupar com coisas que não posso e não devo controlar. Hoje, graças a Sua misericórdia, posso dizer que sou verdadeiramente livre.

“Acima de tudo, guarde o seu coração,
pois dele depende toda a sua vida”
Provérbios 4:23


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mais paciência, por favor

46m

Constantemente, preciso cuidar para que a ansiedade não se instale em meu coração.
Não é fácil: às vezes o processo é um pouco cansativo, e às vezes um pouco dolorido também, mas tal cuidado é necessário.

Vivemos em uma sociedade do tempo real, da conectividade, da facilidade, da praticidade, da globalização. E é claro que essa facilidade toda pode ser boa e, de fato, ela é, na maioria das vezes. Afinal, quem não gosta de se comunicar sem precisar pagar por uma ligação? Ou conseguir comprar um livro sem precisar sair de casa? Mas, em excesso, essa conectividade pode nos levar a comparações desnecessárias e anseios que não devem ser cultivados ou sequer experimentados.

Diariamente, somos bombardeadas pela mídia com instruções como: 10 coisas que você precisa fazer, 7 itens que você precisa ter ou 9 dicas de como você deve ser. E como se não bastasse, a sua timeline também está recheada de pessoas “reais” felizes, realizadas e sem problemas. E então, o que geralmente fazemos? Nós juntamos todos esses ingredientes e acrescentamos a nossa capacidade feminina de fantasiar, acumular emoções e criar enredos ilusórios, e aí sim toda a mistura fica pronta: e tomamos para nós todas essas instruções como “verdades” e esses padrões como referências para as nossas vidas.

Refletindo sobre isso, percebo que o mundo como um todo também clama por mais calma, mais paciência, e também por mais alma. A linda e sempre pedida canção Paciência do Lenine, traduz um pouco desse sentimento que por vezes experimentamos: (…) E o mundo vai girando cada vez mais veloz/ A gente espera do mundo e o mundo espera de nós/ Um pouco mais de paciência/ Será que é tempo que lhe falta pra perceber?/ Será que temos esse tempo pra perder?/ E quem quer saber?/ A vida é tão rara/ Tão rara/ Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/ Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/ Eu sei, a vida não para (…).

Escutando esse clamor e também me questionando e aprendendo a silenciar as várias vozes que teimam em me alienar, percebo que sim: eu tenho a solução para ser preenchida com mais alma. Para ter essa paciência que não provém de mim, mas que pode estar em mim. Então, eu compreendo que preciso fazer algumas coisas para ter essa quietude emocional, para ser preenchida e direcionada.

Buscar a Deus em primeiro lugar

Buscar a Deus em primeiro lugar é dispor de tempo para me relacionar com Ele.

Não conseguimos criar vínculos sem gastar tempo em relacionamentos, e com Deus não é  diferente. Como poderei criar intimidade com meu Criador, se não dedico parte do meu tempo para conhecê-lo, para entender o que Ele tem a me dizer e ouvir a Sua voz? Então, devo priorizar em minha agenda esse tempo de qualidade com Deus.

Buscar a Deus em primeiro lugar também é amá-lo, e amá-lo de verdade! Com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu entendimento e força1.  Pois, amando-o, eu estarei aberta a entender Suas vontades e desejos.

Assim, buscar a Deus em primeiro lugar também é desejar que Sua vontade se sobreponha à minha vontade, mesmo que isso doa e aparente ser impossível. Mas conforme eu vou criando intimidade com Deus e o amando profundamente, consigo compreender que Seus caminhos são melhores do que o meus, porque são perfeitos. Simples assim! Se Ele me criou e sabe realmente quem sou, é Ele quem tem os melhores planos para mim.

Deus me conhece melhor do que eu mesma

Sim! Essa é a mais pura verdade. Antes de ter sido formada e gerada, Deus sabia da minha existência. Aliás, de forma maravilhosa e misteriosa, Ele acompanhou toda a minha formação, me viu crescer e me acompanha até hoje2.

E por me conhecer tão bem, tão melhor do que eu mesma, é Ele quem sabe o que é melhor para mim. Ele tem planos para mim, planos que sequer posso imaginar, tamanha a minha pequenez e limitação. Porém, se eu pedir orientação e buscar a Sua voz, Ele me apresentará e me deixará conhecer aquilo que Ele deseja que eu faça3.

Ser grata por tudo o que eu tenho (às vezes ser grata por aquilo que eu não tenho também)

Ser grata não é ser feliz o tempo todo. Aliás, essa felicidade de comercial de margarina não existe – isso foi inventado para vender margarinas, e é tudo culpa do marketing! rs

Mas ser agradecida é entender que o que você tem é precioso. E isso não quer dizer que, por vezes, você não se sentirá triste, desiludida ou querendo algo que não tenha. Mas se eu amo a Deus, sei que Ele me conhece melhor do que eu mesma, sei que Ele me ouve4, então, não consigo não ser agradecida pelas coisas que tenho e por Sua presença em minha vida.

Descansar e esperar em Deus

Se eu costumo perder noites de sono pensando em minhas angústias e problemas, o que provavelmente irá acontecer comigo, além de ficar com muito sono no dia seguinte?

Me atrevo a “adivinhar” que o que vai acontecer comigo é que eu ficarei mais ansiosa ainda. Porque com o corpo e mente cansados, eu não resolverei meus anseios e muito menos conseguirei escutar o que Deus tem para me dizer e me ensinar.

Acredito que o fato de descansar nEle é um ato tão amoroso da parte de Deus, algo como: “- Você pode aumentar alguma hora de sua vida se preocupando? Não! Então por que você está se preocupando assim? Por que está perdendo sua noite de sono? Por que está deixando seu corpo padecer com todas essas neuras?5 Deixa, porque sou Eu quem devo me preocupar com isso, sou Eu quem sabe o que é melhor para você! E quanto a você, contente-se em me amar, me buscar e esperar em mim, porque no momento certo Eu a irei  instruir e a ajudarei a fazer aquilo que você tem que fazer6.”

Ok, concordo, não é tão fácil assim. Mas a cada passo dado e caminho trilhado, vamos percebendo que descansar em Deus é a coisa mais sábia a se fazer, é o verdadeiro antídoto anti-stress.

 

Notas – passagens bíblicas:

1Marcos 12:29
2Salmos 139:13–16
3Jeremias 29:11–14
4Filipenses 4:4–8
5Lucas 12:25–29
6Salmos 32:8


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.