Os Ritmos da Vida

Nossos ritmos mudam, não são constantes. Nós também temos estações.

Foto de Anthony Tran

As estações marcam os diferentes ritmos de quem está vivo. Sim, somente alguém vivo pode ter a liberdade necessária para responder de forma diferente aos diferentes momentos da vida.

Uma planta passa um bom tempo lançando suas raízes sob o solo até romper a terra e crescer. Ela experimenta cada estação, recebendo dela o que precisa, a chuva, a seca, o sol, os pássaros… Ela oferece em cada estação o que é capaz de produzir em cada momento, em ritmos diferentes, as folhas, os frutos, as flores, a sombra, os galhos… E vê, na estação seguinte, a renovação e a continuação da vida, as folhas caem, os frutos amadurecem, as flores murcham, novos galhos nascem…

É o longo e lento ciclo da vida. Ao longo de uma vida inteira, nossos ritmos variam de acordo com a nossa energia e disposição, maturidade e experiência, necessidade e prioridade. Nossos ritmos mudam, não são constantes. Nós também temos estações.

Estações da Alma

As estações não são apenas as realidades que ocorrem fora de nós e ao nosso redor, nos céus e nas árvores. As estações também são internas e pessoais, estão entrelaçadas no tecido da vida humana. Nós somos projetados para transição, para mudar e para variar. Nossas almas têm estações. (1)

Mas quando vivemos em um mundo que não muda exteriormente (aqui é sempre verão), não precisamos esperar para plantar e colher (basta ir ao supermercado, inclusive aos feriados) e onde o ritmo é marcado pelo trabalho constante (pressa e ansiedade), é automático aprender a ignorar as estações internas e a (se forçar a) viver uma vida imutável, com o mesmo ritmo.

Vivemos um ritmo de trabalho cada vez mais intenso durante a semana. Não dormimos o suficiente e não temos tempo para fazer outras coisas, além do trabalho. Coisas como aprender a amar, aprender a cuidar de alguém mais vulnerável, conhecer melhor a si mesmo e descobrir como viver melhor. Lembrar de alguém e ligar para conversar um pouco, ler a Bíblia para alguém, experimentar abrir mão de algo muito importante por causa de outra pessoa. Orar, aprender a ser vulnerável e a confiar, viajar, visitar alguém, descansar o coração, esperar por algo importante com paciência, perdoar. Fazer um bolo para alguém, se divertir muito, fazer companhia para alguém que está em um momento difícil. Fazer um bolo para você, se perdoar, ler um livro com uma boa xícara de chá ou café, sem pressa…

Nos tornamos máquinas de produção ao invés de pessoas vivas, cujas estações nos moldam, nos formam. Somos zumbis. Pessoas que já não estão mais vivas e, por isso, são incapazes de viver o presente e de responder ao que cada estação nos traz para ser vivido em liberdade.

Ignoramos o processo lento (e doloroso) de transformação pessoal, de crescimento, de santificação. Desrespeitamos os ritmos necessários para esse processo acontecer. E estamos colhendo os resultados… imaturidade, esterilidade, falta de sentido, exaustão.

Não fomos feitos para nos movermos sempre no mesmo ritmo, fazer as mesmas atividades e sentir os mesmos sentimentos durante todo o ano. Os seres humanos, assim como o mundo natural, devem passar por períodos de dormência e nova vida, atividade e contemplação, celebração e tristeza, flores e colheitas, abertura e fechamento, austeridade e abundância. (1)

As estações servem como um livro de aula para a alma, instruindo-nos quando devemos andar mais rápido e quando diminuir a velocidade, quando agir e quando descansar, quando se concentrar no mundo lá fora e quando hibernar e descer fundo. Se ignorarmos as lições das estações, podemos ceder à pressão para correr o tempo todo. Podemos nos encontrar inquietos e exaustos sem ter ideia do porquê. (1)

Portanto, precisamos com urgência ter olhos para ver as estações da vida. Parar de enxergar o que acontece com monotonia e simplesmente se deixar levar pela pressão de continuar correndo. E ao enxergar, é necessário escolher, intencionalmente, viver os diferentes ritmos de cada estação. Viver com sentido. Viver como alguém vivo que têm consciência do que está acontecendo e liberdade para responder de maneira adequada.

As mudanças estão lá fora e aqui dentro de nós, mas precisamos prestar atenção às sutilezas. As estações são exercícios de atenção. Um vento que sopra mais frio, a luz mais alaranjada ao final do dia. Uma estação de espera e reflexão, outra de criatividade e produtividade. É preciso ter olhos para ver a mudança dentro de nós e respeitá-la. Admirá-la. Mudar o ritmo sugerido por ela. Deixar que ela nos molde e ensine o que precisamos aprender neste momento. Ver qual é o ritmo necessário para o momento presente.

É preciso, então, fazer a escolha de aceitar as mudanças e viver as estações. No nível micro, nos ritmos do dia e da semana. É sábado e tenho um milhão de coisas para fazer, mas posso escolher diminuir o ritmo e descansar (dormir um pouco mais, ler, assistir um filme, estar com quem eu amo). É uma semana com excesso de trabalho, então posso escolher cuidar dos detalhes que trarão equilíbrio (dormir e comer melhor, não sair atropelando as pessoas, levar a ansiedade em oração, ter momentos de solitude e silêncio).

Diante de um ritmo sempre intenso de trabalho, é necessário escolher parar ao final do dia. E se a casa também tem um ritmo intenso, é necessário encontrar alternativas para diminuir a correria em família. Ter boas conversas ao redor da mesa, colocar os filhos para dormir cedo, ter um momento de oração.

E, também, aprender a viver as estações no nível macro, nos ritmos das estações da vida, nos períodos maiores, nos meses e anos. Os ritmos nos moldam e se tornam hábitos invisíveis que forjam quem estamos nos tornando. É necessário ter olhos para enxergar as estações que estamos vivendo e exercer nossa liberdade na forma como escolhemos experimentá-las, respeitando os diferentes ritmos que elas nos trazem. Sendo moldados pelas diferentes estações, crescemos e nos fortalecemos de maneira saudável e natural.

Calendário da Alma

Já conversamos aqui sobre a importância de seguirmos um calendário diferente do que nos é imposto pelo mercado de trabalho e de consumo. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa maior e onde aprendemos que o tempo não pertence a nós.

As estações do Calendário Cristão também têm ritmos diferentes. Ritmos que nos ensinam a esperar em expectativa, a ficar só e a estar junto, a renunciar e a receber, a se arrepender e a celebrar. Os ritmos das estações do Calendário Cristão nutrem as estações da nossa alma, como o solo, o sol e a chuva e trazem o suficiente necessário para nos fazer crescer e fortalecer.

No próximo domingo (03/12/2017), entraremos na estação do Advento, onde começa o Ano Novo do Calendário Cristão. A estação do Advento é formada pelas quatro semanas que antecedem o Natal. É uma época de espera e antecipação, cujos ritmos nos levam a viver a expectativa das promessas descritas nas profecias sobre a vinda de Jesus e os acontecimentos marcantes de seu nascimento. Tempo de aprender sobre as implicações para a nossa vida atual do fato de que temos um Deus que assume o nosso lugar e providencia os meios para nossa salvação. Também nos prepara para viver enquanto esperamos a segunda vinda de Jesus.

Então, é uma estação para diminuir o ritmo e receber as dádivas do descanso, contentamento, quietude e espera. A vida cristã é uma vida de espera, baseada em promessas graciosamente dadas pelo nosso Deus. Uma espera que exercita e fortalece a nossa fé, diante do que ainda não vemos, diante de nossa realidade.

A espera que experimentamos em nossas circunstâncias mais adversas pode ser acolhida pela espera do Advento. Vivida em esperança. Enxergada por outra perspectiva. Iluminada pelas promessas de Deus.

Ao vivermos o ritmo da estação do Advento, permitimos que novos hábitos sejam formados em nós, emoções reorientadas, compreensão fortalecida. Em especial, quando estamos imersos em um ritmo desesperado de atividades de final de ano (fim de semestre, cobranças, pressões, dead lines, etc…). Pressa, correria, além de hábitos de consumo e ideias distorcidas sobre o significado do Natal.

Sem dúvida, os varejistas desempenham um papel em nossa angústia. Eles nos condicionaram, de forma brilhante, a associar datas no calendário com produtos e atividades particulares. (1)

Pensando nisso, que tal organizar o seu final de ano de modo diferente? Você consegue identificar os ritmos que estão te pressionando neste final de ano? Como você está vivendo as suas semanas e os seus dias à medida que enxerga que o ano está acabando? Que sentimentos aparecem? Que hábitos invisíveis estão sendo repetidos todo final de ano em sua vida e estão te formando? Como isso influencia a estação que você está vivendo agora?

A estação do Advento nos prepara para o Natal e marca o início de um novo ano em nossa vida. É a estação que nos capacita a reduzir o ritmo e a esperar. Marca a contagem do tempo. Nos prepara para vivermos o novo ano que já aparece gigante diante de nós em um relacionamento com Deus. Nos capacita a desenvolver hábitos de obediência e santidade.

Deus nos criou para desenvolvermos hábitos lentos de obediência e santidade. E, através deles, aprendermos a viver pela fé, ao invés de nossas percepções e emoções. A espera nos ensina a confiar mais na verdade do que Deus diz do que nos impulsos do que vemos ou de como nos sentimos. (2)

O efeito da transformação lenta e incremental através do exercício do hábito, ao invés do impulso, desenvolve ao longo do tempo afeições mais profundas, mais ricas, mais complexas. Integra nossas crenças em nosso ser inteiro. (2)

Assim, eu te convido a deixar o conformismo e o comodismo, e a enxergar as estações que o próprio Deus tem preparado para você viver. Aceitar que você está vivo, e isto significa que está crescendo, sempre aprendendo algo, sempre sendo transformado, sempre sendo confrontado com suas ilusões e desafiado a ter fé. Para que dê frutos sim, e flores, e sombra, e alimento… e para que atinja a maturidade e a manifeste em todas as áreas da sua vida, em seus relacionamentos e trabalho.

Precisamos aceitar que estamos vivos à medida que permanecemos na Videira verdadeira e respondemos com ela às estações apropriadas (João 15). Viver a estação presente em um relacionamento com Deus, usando os recursos que Ele nos deixou para enxergarmos o nosso tempo a partir da narrativa dele, didaticamente organizada no Calendário Cristão.

As várias estações da sua alma são sua garantia de que não só sua jornada com Deus é real, mas sua história ainda não acabou. Deus mesmo acompanha você através das estações em mudança, garante que você não fique preso, e obtém a última palavra sobre tudo o que lhe diz respeito, porque Ele se preocupa com você. As estações são uma expressão de sua intencionalidade para nos manter avançando, progredindo e crescendo. (3)

Portanto, aproveite as riquezas da estação do Advento para escolher intencionalmente viver a estação e se deixar moldar por um ritmo diferente. Pelo ritmo da narrativa de Deus para sua vida. E a receber dele tudo o que precisa para se fortalecer, neste momento em que está.

No início, pode ser incômodo e você pode até sentir falta de estar com pressa e correndo, sentir falta do ruído e do barulho. Afinal, estamos sendo moldados a viver assim, correndo. Como toda mudança de hábitos, exige persistência e continuidade. Então, faça esse esforço de se submeter a um ritmo mais saudável de vida, onde o tempo é vivido com consciência e sentido. Onde sua fé não está separada do restante da sua vida, mas sustenta o relacionamento com um Deus que é Senhor de toda a sua vida.

Foto de Warren Wong

Como já dissemos antes, é preciso ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia.

Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura.

Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

Me conte a sua experiência nos comentários ou por e-mail (vabelmonte@gmail.com). 😊

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Referências citadas ao longo do texto:

(1) Adam McHugh, em Seasons of the Soul.
(2) Jon Bloom, em Be Patient with Your Slow Growth.
(3) Elizabeth Enlow, em God in Every Season.

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Texto publicado originalmente em LecionárioOs Ritmos da Vida

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Fin.itude

“Somos constantemente lembrados da nossa finitude. A nossa miopia ou a dor de cabeça que às vezes nos assola são pequenos sinais disso“. Foi a frase que escutei de um grande amigo após o enterro da minha avó Martha, no dia 02 de novembro de 2017, em pleno feriado, Dia de Finados.

Pois é… Acho que eu acrescentaria também, outras dores e sintomas triviais como a cólica, a rinite incurável ou a sinusite crônica a esse comentário para trazê-lo ainda mais para o chão da vida.

Alguns dias atrás eu me assustei com a quantidade de cabelo branco que brotou em minha cabeça. Instantaneamente me bateu uma tristeza, infelizmente, não pude conte-la. Sim, estou ficando velha, pensei.

Mas por que a gente, geralmente, varre para debaixo do tapete assuntos inerentes a nossa existência, como a velhice ou a morte, por exemplo? Se falássemos mais sobre eles, talvez viveríamos uma vida mais consciente, mais intencional.

Vó Martha, foto por Jak Selles

Com a despedida da minha avó e dias depois um até breve à mãe de uma grande amiga, constatei que eu negligencio e muitas vezes levo uma vida inerte a tais assuntos. É tanta demanda que eu mesma crio para mim que vou esquecendo do futuro que me reserva.

Diariamente, cada célula do meu corpo está morrendo e se regenerando de forma mais lenta. Percebo que a minha imunidade baixa mais rapidamente trazendo a gripe se eu não durmo o mínimo necessário ou me alimento bem. Ou o meu joelho esquerdo teima em doer no frio, e mais intensamente por subir diversas vezes a escada, me lembrando que eu preciso ficar mais atenta a minha saúde e aos sinais do meu corpo.

Confesso que, às vezes, mesmo não querendo, isso tudo me entristece. A velhice me lembra que estou partindo, morrendo, que sou finita. Mas, durante o velório e enterro da minha avó, pude refletir como a velhice e a morte também podem nos ensinar a viver melhor. Contraditório? Hum, talvez não. Como disse um outro amigo ao saber um pouco da história da minha avó: “Sua avó, com 96 anos e 13 filhos viveu uma vida plena”.

É isso… Vida plena. A velhice e a morte também podem ser belas mesmo que momentaneamente dolorosas. E a vida, velhice e morte dela (minha avó) me ensinou isso. Eu quero então viver uma vida plena, cheia de rugas e com a cabeça repleta de cabelo branco sim, mas uma vida completamente vivida até o meu último suspiro de vida.

“Almond Blossom” de Vincent van Gogh (1890)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As Armadilhas do Coração – Parte 1: O tédio e a murmuração

Sobre o tédio nosso de cada dia

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

O tic-tac do relógio é ensurdecedor. O tempo parece não passar. Tudo está absolutamente igual, imóvel. Nenhuma previsão de mudança. Nenhum indício, por menor que seja, de qualquer alteração em minha vida. Nenhuma esperança.

É o tédio; de novo. Me atormentando e dizendo que a vida é sem graça, que não passa. Que não vale a pena e me levando a murmurar; de novo. E a duvidar; de novo.

Vazio, tudo é um grande vazio!
Nada vale a pena! Nada faz sentido!

O que resta de uma vida inteira de trabalho sofrido?

Uma geração passa e outra geração chega,
mas nada muda – é sempre a mesma coisa.

O sol nasce e se põe,
um dia após o outro – é sempre igual.

O vento sopra para o sul e depois para o norte.
Gira e dá muitas voltas
sopra aqui e acolá – e vai seguindo o mesmo rumo.

Todos os rios vão para o vasto oceano,
mas o oceano nunca transborda.

Os rios correm para o mar
e logo depois voltam a fazer o mesmo percurso.

É um tédio só! É uma mesmice sem tamanho!
Nada tem sentido!

Será que os olhos não cansam de ver
nem os ouvidos de ouvir?

O que foi será novamente,
o que aconteceu acontecerá de novo.

Não há nada novo neste mundo.
Ano após ano, é sempre a mesma coisa.

Se alguém grita: “Ei, isso é novo!”,
Não se anime – é a mesma velha história!

Ninguém se lembra do que aconteceu ontem.
E as coisas que vão acontecer amanhã?

Ninguém se lembrará delas também.
Você acha que será lembrado? Pode esquecer!

Eclesiastes 1.2–11 – A Mensagem

Salomão1 também enfrentou esse enorme e profundo tédio. Depois de uma vida inteira, de luxos, riquezas e vontades satisfeitas, olhou para trás e se questionou: – O que nessa vida vale a pena? O que de fato faz, e traz, sentido?

O tédio, então, me toma por completa. E inevitavelmente, a seguir, começo a reclamar, e muito. Murmuro constantemente. Em pensamentos audíveis me pergunto: Por que não tenho aquilo? Por que só acontece, ou não acontece, comigo? Por que não eu? Por que só eu? Por quês e mais por quês invadem meu ser. Roubam a minha alegria e me enchem de dúvidas. Posteriormente, e instintivamente, me encho de certezas: Ah, com toda a certeza, se eu tivesse aquilo eu estaria melhor! Se isso não estivesse acontecendo comigo eu estaria, e seria, diferente! Se eu pudesse fazer tal coisa, aí sim, eu estaria mais feliz!

“Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!”

O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina. O povo saía recolhendo o maná nas redondezas e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva. Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná.

Números 11.4–9 – A Mensagem

Acho que deixei de apreciar e agradecer o maná me ofertado diariamente. E o resultado foi uma fome insaciável. A gula me consumiu e a constante reclamação me cegou.

O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor dará carne a vocês, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que saia carne pelo nariz de vocês e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?’ ”

Números 11.18–20 – A Mensagem

 

Diferentemente dos animais, que parecem bem satisfeitos em ser apenas eles mesmos, nós, humanos, estamos sempre procurando meios de ser mais do que somos ou mesmo ser outra pessoa. Exploramos o país por instigação, examinamos nossa alma em busca de sentido, compramos o mundo pensando no prazer. Tentamos de tudo. As áreas comuns de esforço são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento.

Nossas incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nada parece nos satisfazer. Por isso, intensificamos nossos esforços, e quanto mais nos dedicamos a algo, menos extraímos dele. Algumas pessoas acordam cedo e empreendem em uma jornada tediosa e repetitiva. Outros parecem nunca aprender e se debatem por aí a vida inteira, tornando-se cada vez menos humanos com o passar dos anos, até que, ao morrer, não resta humanidade o bastante para compor um cadáver.

Eclesiastes, na verdade, não diz muito a cerca de Deus. (…) Sua tarefa é expor a total incapacidade humana de encontrar o sentido e a completude da vida por nós mesmos.

É nossa propensão desistir de nós mesmos, tentando ser humanos por meio de projetos e desejos próprios.

Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes na Bíblia A Mensagem

Eu não quero mais levar uma vida inteira sem sentido, rotineira e sem graça. Não quero chegar ao final da vida e perceber que eu poderia fazer, e ser, diferente.

Eu quero me livrar de todas minhas pseudo-garantias, e agora! Quero me alimentar do suficiente – que é dado por Deus, e em uma dose especial, que só Ele sabe medir para mim.

Quero me lavar de toda e qualquer rebeldia e ideia idólatra. Quero, e desejo, me purificar com a água que é a Fonte da Vida. Que sacia o coração, renova a alma, limpa o entendimento e regenera minha força [Marcos 12.30].

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidãohttp://bit.ly/2uxdQ4H

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NOTAS:
1Sem dizer abertamente, o narrador dá a entender que é o rei Salomão. Fabulosamente rico, internacionalmente famoso, com centenas de mulheres em seu harém, ele agora é um senhor de idade que percebe como foi pequeno seu “sucesso”, quando vê a morte se aproximar. Após o imenso trabalho que teve para construir seu império, teria de deixá-lo para seu filho Roboão, um homem moralmente fraco. As dez tribos do norte de Israel não escondiam o fato de que não confiavam em Roboão. Não precisavam da inteligência de Salomão para ver que seu país logo entraria em colapso (e isso de fato ocorreu). [Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes]

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre contar o tempo, enquanto não vamos para casa

imagem de Natalia Zaratiegui http://www.behance.net/nataliazaratiegui

Às vezes, talvez a maioria delas, eu me esqueço que estou aqui de passagem. Me esqueço que por mais esforço, amor e dedicação que eu coloque em tudo o que eu faço, e também no que eu sou, aqui é transitório. É de passagem. Parte de um todo que eu sequer consigo imaginar.

O tempo, assim como o homem, é paradoxal, pois, o tempo aqui, nesse mundo, é o e o Ainda Não. Como numa espécie de sobreposição, vivemos esse tempo: ora cheio de alegrias e satisfações, ora repleto de perguntas e tristezas.

Mas, como podemos aprender a contar o tempo verdadeiramente? Porque a Vida, vez ou outra, nos lembra que ela passa depressa, e nós voamos! (Sl 90:10). Que somos neblina e que existimos por um pouco de tempo e depois nos dissipamos (Tg 4:14).

Como aprender a nos despedir, daqueles a quem amamos, sem dar aquele adeus definitivo, mas, saudar com um: até breve, nos vemos logo mais?!* Porque a Vida, também nos lembra da Esperança. Aliás, é ela quem nos dá a verdadeira Esperança, nos prometendo a tão sonhada Nova Jerusalém.

Na música Felicidade, de Marcelo Jeneci (obrigada Nathan Queija, por me lembrar dessa música para tal contexto), também encontro algumas dicas sobre esse paradoxo que é viver entre alegrias e tristezas. Entre o sol e a chuva. Entre encontros e desencontros. Pois, é melhor viver, meu bem, pois, há um lugar em que o sol brilha pra você. Chorar, sorrir também e depois dançar na chuva quando a chuva vem.

Que possamos seguir pedindo por sabedoria para contar nossos dias (Sl 90:12), enquanto, não vamos para casa, para a nossa verdadeira casa. E, com isso, não desanimemos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (2Co 4:16-18).

* Mi(chele), que privilégio ter te conhecido, ainda aqui: nesse tempo e espaço. E ter compartilhado um pouco das descobertas da vida contigo. Obrigada por me ensinar a ver a vida com mais pureza e simplicidade. Sim, é possível! Uma pena eu não ter te dito isso, mas, quem sabe aí, nesse outro mundo, eu não tenha essa oportunidade?! Um até logo, nos vemos em breve.

Felicidade
Marcelo Jeneci

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz
Sentirá o ar sem se mexer
Sem desejar como antes sempre quis
Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Lembrará os dias
que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão
porque os dias vão pra nunca mais

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Dançar na chuva quando a chuva vem
Dançar na chuva quando a chuva
Dançar na chuva quando a chuva vem

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.