Eu já fui Marta

"Outgrowing the Comfort Zone" [Kathrin Honesta]
“Outgrowing the Comfort Zone” [Kathrin Honesta]
Sim, eu já fui Marta.
Ao nascer, recebi outro nome, o meu verdadeiro nome, mas já adulta fui me transformando.
Sem perceber, fui perdendo minha identidade, me descaracterizando, deixando de ser eu mesma. Buscava reconhecimento na realização de tarefas. Achava que minha identidade seria definida pelo fazer e não em ser. Ser autêntica. Ser eu mesma. Apenas Ser.

Me alienei no trabalho, no tal: ambiente “controlado” e “seguro”. Nada escapava do meu controle. Quando algo, começava a escorrer pelas minhas mãos, eu agarrava bem forte e fazia o impossível para mantê-lo sob a minha atenta e vigilante inspeção.

Eu trabalhava bastante. 44 horas semanais, muitas vezes, eram insuficientes. Afinal, o e-mail do fornecedor na China não podia esperar. Por isso, muitas vezes, depois de uma jornada de quase 10 horas em um escritório, eu chegava em casa e a primeira coisa a fazer era abrir meu e-mail corporativo e garantir que tudo fosse respondido e nada ficasse por fazer. Muitas vezes, era via celular mesmo, no trajeto trabalho-casa. Ficar offline, o que era isso?!

Reconheço que todo esse meu “profissionalismo” foi muito mais fuga, somado ao desejo de aceitação, do que qualquer outra coisa. Eu fugia da minha realidade, que não era nada controlável e sequer algum dia seria, para não encarar de frente meus anseios, faltas e expectativas. Eu me enganava e já não sabia ao certo quem eu era e porque fazia o que fazia. Até que compreendi o verdadeiro engano em que me meti.

Hoje, eu já não sou mais Marta.
Apesar de me inspirar em Maria1, sua irmã, já não quero ser ninguém além de mim mesma. Mas, como ela, também quero escolher a “melhor parte”, me deleitar aos pés de Cristo e escutar o que Ele tem a me dizer.

Como é libertador ser eu mesma e tudo bem não saber, tampouco achar que é minha responsabilidade saber, o que é melhor para mim. Na real, é bom viver na própria pele que habita em mim.2

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Referências:
1Lucas 10:38-42
2Referência ao filme de Pedro AlmodóvarA Pele que Habito

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Para onde você vai quando já chegou lá?

africa088

Essa pergunta me fisgou há dois anos quando percebi que eu havia chegado nesse tal , mas estava vazia, perdida e sem saber o que fazer depois.

Sempre fui muito inquieta, dedicada e com um grande desejo de mudar o mundo. Mas conforme a vida foi se desenrolando, acabei canalizando toda a minha energia no profissional. Sem muito planejamento e questionamento fui aproveitando todas as oportunidades que me eram concedidas. Não entendendo muito bem onde tudo isso ia dar, segui o fluxo, deixei que a vida e outras pessoas decidissem por mim. – Afinal, eu não poderia perder todas essas oportunidades, não é mesmo?! E lógico que tudo isso deu certo! Certo, segundo os padrões que persegui e aquilo que a sociedade entende por dar certo.

Também devo reconhecer que no meio dessa jornada amadureci como profissional, viajei para lugares que não havia imaginado e aprendi muito durante esse percurso. Mas tudo isso me custou caro, muito caro. Claramente percebo que o meu único, porém, maior e fatal erro foi ter entregue todo o meu coração ao trabalho – ao deus trabalho.

Achei que ele seria a razão da minha felicidade, que supriria todas as outras áreas capengas da minha vida, e que sim: ele poderia me dar aquela sensação de plenitude e reconhecimento que eu tanto buscava.

#sóquenão

Com o meu tempo desperdiçado e através da dor, entendi que eu não tinha outra saída senão entregar tudo o que sou e construí ao verdadeiro e único Deus.

Temos grande tendência à presunção, costumamos achar que sabemos mais do que nosso próprio Deus e simplesmente esquecemos que foi Ele quem nos criou e é Ele que continua nos dando o fôlego da vida. Assim, vamos elegendo outros deuses: “melhores” e “maiores”, colocando-os no lugar do verdadeiro Senhor de nossas vidas. Dia a dia vamos construindo nossa própria Babel com nosso próprio suor, sangue e lágrimas.

Ao eleger um falso deus iniciamos um ciclo frenético e vicioso, pois esse deus hoje chamará outro deus amanhã, e em seguida outro, e mais outro, e mais outro. E ao nos darmos conta, já não saberemos mais a quem estaremos servindo, pois todos esses deuses exigirão muito de você.

“Uma das razões de o trabalho ser infrutífero e inútil é a poderosa inclinação do coração humano de tornar o trabalho e seus consequentes benefícios o fundamento primordial da importância e identidade da pessoa. Quando isso acontece, o trabalho deixa de ser um instrumento de criação e revelação das maravilhas da ordem estabelecida, como diria Calvino, ou de ser um instrumento da providência de Deus, como diria Lutero. O trabalho torna-se um jeito de eu me distinguir do meu semelhante, de mostrar ao mundo e provar a mim mesmo que sou especial. É um modo de acumular poder e segurança e de exercer controle sobre o próprio destino. A observação de Qõhelet mostra-se verdadeira muitas vezes: ‘Também vi que todo trabalho e todo êxito procedem da inveja entre as pessoas. Isso também é ilusão e perseguir o vento’ (Ec 4:4)
Mais do que qualquer outro texto bíblico, os primeiros 11 capítulos de Gênesis revelam como o trabalho deixou de ser uma grata administração de nossos talentos para se transformar em uma edificação neurótica de nossa autoestima.”

Trecho retirado do livro: Como Integrar Fé & Trabalho – Nossa Profissão a Serviço do Reino de Deus de Timothy Keller & Katherine Leary Alsdorf (Parte II – Capítulo 7: O Trabalho se torna egoísta; página 109,110)

E depois de muitas cabeçadas, percebi então que meu real valor não está no cargo que ocupo ou no lugar que trabalho. Entendi que preciso estar no centro da vontade de Deus e fazer aquilo que Ele deseja pra mim.

Posso continuar exercendo um trabalho criativo em minha área ou quem sabe largar tudo para trabalhar em uma lanchonete como garçonete em outro país, a grande diferença é que fazendo aquilo que me foi designado terei a real sensação de dever cumprido ao fim do dia e de propósito que eu tanto almejava. Compreendi, que não sou eu a responsável pelos meus próximos passos e que não preciso me preocupar com coisas que não posso e não devo controlar. Hoje, graças a Sua misericórdia, posso dizer que sou verdadeiramente livre.

“Acima de tudo, guarde o seu coração,
pois dele depende toda a sua vida”
Provérbios 4:23


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.