As Armadilhas do Coração – Parte 2: A inveja e a ingratidão

A comparação que torna-se cobiça

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

in·ve·ja

1. Sentimento de ódio, desgosto ou pesar que é provocado pelo bem-estar ou pela prosperidade ou felicidade de outrem.

2. Desejo muito forte de possuir ou desfrutar de algum bem possuído ou desfrutado por outra pessoa; avidez, cobiça, cupidez.

Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis

É um exercício grande não perder tempo me comparando com a vida alheia. Mais difícil ainda é não nutrir em meu coração essa comparação, que geralmente começa de forma sutil, e ao ser alimentada toma corpo e vira um monstro.

Mesmo com essa consciência, por vezes, caio nas armadilhas da inveja disfarçada. Camuflo meus reais desejos e finjo, para mim mesma, que são ambições honestas, genuínas. Doce engano… Doce não, amargo engano! Porque sorrateiramente vou vivendo de fragmentos, me contentando com migalhas de mim. Vou deixando de viver minha própria vida, de ser minha própria protagonista. Aos poucos vou deixando de ser quem eu sou e abandonando quem eu deveria estar me tornando.

O clímax dos Dez Mandamentos é o décimo mandamento em Êxodo 20.17: “Não cobiçaras a casa do teu próximo. Não cobiçaras a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”. O mandamento para não cobiçar é uma coisa totalmente interior. Cobiçar nunca é coisa exterior, pela própria natureza do caso. É fator intrigante observar ser esse o último mandamento que Deus nos dá nos Dez Mandamentos, e, portanto, o eixo do assunto todo. O resultado de tudo isso é que chegamos a uma situação interior e não a uma mera situação exterior. Na verdade, quebramos esse último mandamento, de não cobiçar, antes de quebrarmos qualquer um dos outros. Toda vez que quebramos um dos mandamentos de Deus, significa que já violamos esse mandamento de Deus, cobiçando.

Verdadeira Espiritualidade – Uma vida cheia de beleza, que edifica e inspira, Francis Schaeffer
Capítulo A Lei e a Lei do Amor (página 20)

Esse desejo, que de tão intenso, me leva a acreditar que só serei feliz se eu for diferente do que sou ou só serei feliz se eu tiver aquilo que não tenho, na realidade demonstra minha total ingratidão para com meu Criador.

E essa ingratidão, aos poucos, vai aprisionando minha alma, secando minhas entranhas e me deixando oca, ressequida. Como ferrugem ela corrói tudo o que é sadio e me aprisiona num ideal completamente irreal.

Em essência, a ingratidão, não me deixa desfrutar de minhas qualidades para que eu consiga transbordá-las abençoando aqueles que me cercam. Afinal de contas, nós não somos chamados para frutificar? E como frutas, que nascem num pomar, nos darmos como alimento aos nossos semelhantes?

Abençoados são vocês, que se contentam com o que são — nem mais, nem menos. Assim, vocês se verão como os orgulhosos donos de tudo que não pode ser comprado.

Mateus 5.5 – A Mensagem

Então eu oro, e peço a Deus tal contentamento. E como o maná, que ele me seja dado diariamente, em doses suficientes para meu bem viver. E que esse contentamento venha de Ti, que é a Fonte da Vida, para que assim, eu me recorde de Tua bondade e sequer ouse duvidar do Teu Santo, Puro e Misericordioso Amor.
Amém!

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidão: http://bit.ly/2uxdQ4H

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As Armadilhas do Coração – Parte 1: O tédio e a murmuração

Sobre o tédio nosso de cada dia

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

O tic-tac do relógio é ensurdecedor. O tempo parece não passar. Tudo está absolutamente igual, imóvel. Nenhuma previsão de mudança. Nenhum indício, por menor que seja, de qualquer alteração em minha vida. Nenhuma esperança.

É o tédio; de novo. Me atormentando e dizendo que a vida é sem graça, que não passa. Que não vale a pena e me levando a murmurar; de novo. E a duvidar; de novo.

Vazio, tudo é um grande vazio!
Nada vale a pena! Nada faz sentido!

O que resta de uma vida inteira de trabalho sofrido?

Uma geração passa e outra geração chega,
mas nada muda – é sempre a mesma coisa.

O sol nasce e se põe,
um dia após o outro – é sempre igual.

O vento sopra para o sul e depois para o norte.
Gira e dá muitas voltas
sopra aqui e acolá – e vai seguindo o mesmo rumo.

Todos os rios vão para o vasto oceano,
mas o oceano nunca transborda.

Os rios correm para o mar
e logo depois voltam a fazer o mesmo percurso.

É um tédio só! É uma mesmice sem tamanho!
Nada tem sentido!

Será que os olhos não cansam de ver
nem os ouvidos de ouvir?

O que foi será novamente,
o que aconteceu acontecerá de novo.

Não há nada novo neste mundo.
Ano após ano, é sempre a mesma coisa.

Se alguém grita: “Ei, isso é novo!”,
Não se anime – é a mesma velha história!

Ninguém se lembra do que aconteceu ontem.
E as coisas que vão acontecer amanhã?

Ninguém se lembrará delas também.
Você acha que será lembrado? Pode esquecer!

Eclesiastes 1.2–11 – A Mensagem

Salomão1 também enfrentou esse enorme e profundo tédio. Depois de uma vida inteira, de luxos, riquezas e vontades satisfeitas, olhou para trás e se questionou: – O que nessa vida vale a pena? O que de fato faz, e traz, sentido?

O tédio, então, me toma por completa. E inevitavelmente, a seguir, começo a reclamar, e muito. Murmuro constantemente. Em pensamentos audíveis me pergunto: Por que não tenho aquilo? Por que só acontece, ou não acontece, comigo? Por que não eu? Por que só eu? Por quês e mais por quês invadem meu ser. Roubam a minha alegria e me enchem de dúvidas. Posteriormente, e instintivamente, me encho de certezas: Ah, com toda a certeza, se eu tivesse aquilo eu estaria melhor! Se isso não estivesse acontecendo comigo eu estaria, e seria, diferente! Se eu pudesse fazer tal coisa, aí sim, eu estaria mais feliz!

“Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!”

O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina. O povo saía recolhendo o maná nas redondezas e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva. Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná.

Números 11.4–9 – A Mensagem

Acho que deixei de apreciar e agradecer o maná me ofertado diariamente. E o resultado foi uma fome insaciável. A gula me consumiu e a constante reclamação me cegou.

O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor dará carne a vocês, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que saia carne pelo nariz de vocês e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?’ ”

Números 11.18–20 – A Mensagem

 

Diferentemente dos animais, que parecem bem satisfeitos em ser apenas eles mesmos, nós, humanos, estamos sempre procurando meios de ser mais do que somos ou mesmo ser outra pessoa. Exploramos o país por instigação, examinamos nossa alma em busca de sentido, compramos o mundo pensando no prazer. Tentamos de tudo. As áreas comuns de esforço são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento.

Nossas incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nada parece nos satisfazer. Por isso, intensificamos nossos esforços, e quanto mais nos dedicamos a algo, menos extraímos dele. Algumas pessoas acordam cedo e empreendem em uma jornada tediosa e repetitiva. Outros parecem nunca aprender e se debatem por aí a vida inteira, tornando-se cada vez menos humanos com o passar dos anos, até que, ao morrer, não resta humanidade o bastante para compor um cadáver.

Eclesiastes, na verdade, não diz muito a cerca de Deus. (…) Sua tarefa é expor a total incapacidade humana de encontrar o sentido e a completude da vida por nós mesmos.

É nossa propensão desistir de nós mesmos, tentando ser humanos por meio de projetos e desejos próprios.

Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes na Bíblia A Mensagem

Eu não quero mais levar uma vida inteira sem sentido, rotineira e sem graça. Não quero chegar ao final da vida e perceber que eu poderia fazer, e ser, diferente.

Eu quero me livrar de todas minhas pseudo-garantias, e agora! Quero me alimentar do suficiente – que é dado por Deus, e em uma dose especial, que só Ele sabe medir para mim.

Quero me lavar de toda e qualquer rebeldia e ideia idólatra. Quero, e desejo, me purificar com a água que é a Fonte da Vida. Que sacia o coração, renova a alma, limpa o entendimento e regenera minha força [Marcos 12.30].

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Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidãohttp://bit.ly/2uxdQ4H

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NOTAS:
1Sem dizer abertamente, o narrador dá a entender que é o rei Salomão. Fabulosamente rico, internacionalmente famoso, com centenas de mulheres em seu harém, ele agora é um senhor de idade que percebe como foi pequeno seu “sucesso”, quando vê a morte se aproximar. Após o imenso trabalho que teve para construir seu império, teria de deixá-lo para seu filho Roboão, um homem moralmente fraco. As dez tribos do norte de Israel não escondiam o fato de que não confiavam em Roboão. Não precisavam da inteligência de Salomão para ver que seu país logo entraria em colapso (e isso de fato ocorreu). [Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes]

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Grata pelo silêncio

ensee
Ilustração de Mi-Kyung Choi, que assina como Ensee.

 

Gosto do silêncio. Não ter uma opinião sobre tudo, não precisar discutir sobre tudo, não polemizar pelo prazer de polemizar é mesmo um presente. Um presente suave, pacificador. E é uma arte também, eu diria. Como é desafiador dominar a língua!  Ou os dedos, no caso de um post ou comentário de rede social. Parece que esses membros do corpo nos têm sob controle, que são eles quem mandam em nós. É a tirania do “se penso e tenho algo a dizer, tenho que dizer, senão essas palavras vão acabar me sufocando”. Mas será que realmente temos algo a dizer? Será que o que temos a oferecer para os outros não são apenas palavras que se organizam em uma ordem linear, de modo a fazer sentido de alguma forma? Porque isso é fácil e… totalmente dispensável.  Será que as pessoas realmente precisam da minha opinião sobre tudo? Porque se o que tenho para oferecer não for algo novo, que acrescente, que construa, que una, que desafie, que seja um convite para transpormos o mesmo de sempre, por que opinar? Proponho um teste: fiquemos offline por alguns dias e depois nós entramos e vemos se alguém sentiu falta dos nossos posts e comentários. Poucos sentiriam. E tudo bem. Porque não saber, não conhecer a fundo certos assuntos, não estar presente em tudo e não ser apto para opinar é saudável, humano e realista. Somos limitados mesmo – não somos Deus para conhecer tudo – e que bom por isso. Já pensou se a nós fosse dada a grande responsabilidade de carregar o mundo nas costas? Ainda bem que podemos nos dar ao luxo de nos silenciar. E esperar. E refletir. E não entender. É um alívio.

Nesses dias, tenho permanecido em grande silêncio. Olho para dentro e pouco encontro o que dizer. Confesso que esse estado não tem sido fruto apenas da reflexão que fiz acima. É um silêncio de falta também, o que pode ser um pouco mais triste. Para mim, que vejo na escrita o meu combustível de vida, ficar em silêncio por puro vazio é bastante estranho. Mas até em horas como essas, aprendo. Aprendo sobre humildade, sobre não ser indispensável, sobre outras formas de significar o mundo (agora mesmo observo um tucano pousado na araucária ao lado de casa), sobre o estar e ser apenas. Suspensa. Dependente e pendente no fio de prata da vida.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.